Páginas

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Embora

Parece às vezes que quanto mais a gente precisa ir, mais quer ir ficando.
Querer... Quem desvendará um dia o que é isso que a gente chama de vontades. Desejos e precisões, o dicionário dá conta, não.
Fui hoje procurar no Aurélio pra ver se umas expressões que eu curto muito usar existem ou são invenção da minha audição falha; umas tem, outras nem. Gosto de catucar, mais que cutucar. Trupicar cai tão melhor que cair. Engruvinhar ele não conhece, mas fala por si. Já não lembro de outras; restou só na memória o estranhamento que causa às vezes aos outros as palavras estranhas que me saem da boca.
Hoje ouvi minha mãe ao telefone numas de "tudo bão?" e "Tá bão, então", e dei comigo uma risada do ão, ão, porque parece tão melhor que o om, om.
Precisava, hoje, ir, mas fico, porque preciso também ficar.
Dizer alguma coisa nesse começo de madrugada quente, gostoso, sem saber qual lua lumia o céu noturno. É crescente, cheia? Minguante, eu chutaria. Mas o céu, está, agora, distante demais de mim.
Tava eu aqui, no meio das vontades, e elas me levaram por seus caminhos tortuosos de acordes conhecidos através de uma viagem no tempo.
Ouvia aqui a música amiga me lembrando de outra noite e uma varanda; de uma busca enlouquecida, motivada por vontade imensa. E o encontrar algo feliz, que estava em mim, ao meu redor e, mais que tudo, nas estrelas do céu litorâneo.
Me entristece pensar que o outro não saberá nunca o que significou pra mim, nem do grande carinho que fica, porque... não sei exatamente o porquê. Porque não, talvez, ou qualquer outro motivo. Ou talvez o conhecimento exista, mas se perca nos vazios de silêncios que enchem o mundo de abismos.
Feliz. Não me agrada, a palavra. Joyeux? Heurex? Happy? Não, nada disso. Parecem todas algo vazias do significado gigantesco que deveriam carregar.
Agradeço, no entanto, para o precipício cheio de ecos, a apresentação iluminada por uma estrela brilhante, da varanda. Pelas risadas e músicas e luzes malucas. Pela descoberta e descobrir-se.
Seguimos, então, eu, o mar, o luar.
Muito mais coisas seguem do que ficam e eu, agora, me deixo levar.

Nenhum comentário: