Bernardo Soares.
BernardoSoares.
bernardosoares.
Ontem, antes de dormir, ia pegando nele, mas aí comecei a pensar.
Uma é que o cara curtia muito "r" antes de consoante, né não?
Pensei nisso e que eu acho que é o Seymour o cara do conto da Esmé.
Eu vez por outra me gabo de ser uma pessoa que aprecia a própria companhia. Apreciar talvez seja exagero, mas suporta com alguma tranquilidade. Tranquilidade talvez seja exagero, melhor dizer "sem um desespero gritante que faz a gente sair pela janela".
Mas ontem, na hora de dormir, me dei conta de que eu absolutamente não convivo comigo mesma. Consigo ficar sozinha, sem pessoas ao meu redor, porque normalmente encho o tempo, e preencho o vazio, com outras pessoas menos concretas, personagens criadas, mais raramente reais, que invoco para me distraírem e me livrarem de mim. Quando tudo é silêncio, não suporto a minha própria voz mais do que os outros, que tanto gosto de criticar.
A gente não vale mesmo nada nessa vida. Nem a vida não vale.
Escondo-me, mais uma vez, atrás de coletividades. Então, revelo-me:
Eu, mesma, não valho nada.
Ontem brinquei de silêncio. E pensei em Bernardo e Seymour - outros que não eu. E pensei, pensei pensei até me cansar.
Percebi, afinal, que a laje não é companheira ideal para esse tipo de encontro. O teto por demais baixo e branco tolda a visão e prende a alma.
Eu sou eu em paz comigo em silêncio e só quando meus olhos desfocados fitam um céu de estrelas. Sigo seus brilhos e imagino qual mensagem mandam elas para mim. Lendo-as sem decifrá-las, sou.
Mas hoje, o teto me prende e eu me deixo prender. É quase inverno.
Encontro, talvez, Bernardo Soares, se as palavras dele forem também minhas:
"Ópio tenho-o eu na alma"
"Minhas pálpebras dormem, mas não eu"
"Como se dormisse, acordo e não me pertenço"
"Tenho uma indigestão na alma"
"Se o Destino o der, que o dê. Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os fatos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma"
"Nada me satisfaz, nada me consola, tudo - quer haja sido, quer não - me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero"
"Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos"
"Prefiro a prosa ao verso, como modo de arte, por duas razões, das quais a primeira, que é minha, é que não tenho escolha, pois sou incapaz de escrever em verso"
"E através de tudo, como um silvo de angústia nua, sentirei a minha alma por detrás do devaneio - uivo fundo e puro, inútil no escuro do mundo"*
Comigo estou sempre, sempre querendo estar só.
* L. do D. : 251, 243, 235, 232, 228, 227, 203.
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