Hoje aconteceu um negócio tão maluco que faz a gente pensar que essa vida... não sei, tem nela tanta coisa que não se explica.
Estava eu almoçando numa padaria - dessas que servem comida a quilo e que bombam em São Paulo - e enquanto me servia ouvi uma pessoa sentada numa mesa ao lado dizer "nossa, faz muito tempo!". Expressão das mais triviais, segui em frente até que, não sei precisar por que, me virei na direção da tal mesa e dei de cara com uma moça que me olhova e disse "oi!".
Eu sem a menor memória e com a falta de tato que me é característica respondi "oi..." com aquela cara de não-sei-quem-é-você, ou alguma correpondente do tipo você-deve-estar-me-confundindo-com-alguém-porque-nunca-te-vi-na-vida.
Obviamente que a louca era eu, já que ela me disse seu o nome, que me é mais familiar do que o rosto.
Afinal eu a conhecia, até muito, porque nós moramos no mesmo prédio quando éramos crianças e vivíamos brincando juntas. Só que eu não lembro muito mais do que isso. Acho que tenho fotos nossas num célebre aniversário que eu comemorei no apartamento. Devia ter uns oito anos e, como sempre, meu aniversário caía nas férias - naquele tempo bendito em que as aulas começavam lá para março ou ao menos depois do carnaval - então eu chamei uma ou duas amiguinhas da escola, além dessa que era vizinha e uma outra, filha de amigos dos meus pais, para passar o dia comigo. Deve ter sido a festa mais xoxa da história, com tipo quatro pessoas, mas a gente se divertiu taaaanto, disso ainda lembro. Também não sei exatamente o que fizemos, além de correr endoidecidas e descabeladas (sim, há registros imagéticos) pelo prédio e pelos corredores e depois descolar, não sei de onde, uns pacotes de confetes (sim, aqueles de carnaval, daquele rosa esquisito e verde em papel áspero) e jogá-los pela casa toda, não sei bem com que propósito. Lembro de anos depois ainda encontrar um confete ou outro, no meio de um vaso ou assim, e recordar da diversão daquele dia.
Ele gerou uma outra lembrança marcante na minha família: minha mãe fez uma sopa de legumes pra gente comer (isso não tem nada a ver com festa de criança, né? Pode ter acontecido outro dia, mas eu registrei que foi naquele e, sei lá, como a gente passou o dia juntas, podem ter rolado algumas refeições de respeito em meio aos brigadeiros e beijinhos), aí dias depois ela recebe um telefonema, da mãe de uma das meninas do colégio, dizendo que a filha a estava enchendo até a lua porque queria comer aquela sopa, a da minha mãe, e queria que a mãe dela fizesse igual e a mulher estava perdendo os cabelos pra descobrir que diabo de sopa era aquela.
Além disso, parece-me lembrar de estar um dia no apartamento dessa vizinha, no quarto da mãe dela mexendo em sabonetes, mas não consigo dar muito sentido à imagem.
Engraçado como essas coisas se perdem e a gente não consegue reter bem os registros da nossa própria vida, ou eu ao menos não consigo. De repente o fato de ter me mudado tão nova para outra cidade e perdido tão radicalmente o contato com as pessoas com quem partilhei a infância explique muita coisa, ou isso é simplesmente mais uma prova de que minha memória não presta. Porque ela de fato não presta e eu que sei disso há já muito tempo. Esses dias mesmo eu contava uma história de uma viagem que fiz a alguém que conhece bem os lugares onde estive e eu não conseguia deixar de pensar que a história devia parecer mentira, tal a ausência de detalhes e a insegurança com que eu a relatava. Simplesmente apaguei e já não vejo jeito de recuperar o que esqueci.
Eu nunca teria reconhecido minha amiga de infância, numa fila de padaria nem em nenhum outro lugar. Nem o rosto dela me pareceu familiar, mesmo quando ela se apresentou. E ela se lembrava melhor de mim, tanto que conseguiu me localizar e me chamou. Contou ainda que sempre falava de mim para a mãe dela e se lembrava de uma coisa que ela comia lá em casa, com manteiga. A coisa que se comia com manteiga e frequentemente (pelo menos era meu jantar todas as noites quando eu ainda tinha um paladar extremamente indócil) era pão-de-milho. Que de pão não tem nada, mas é como minha avó chama cuscuz com leite - e manteiga.
Difícil não pensar nas minhas obsessões últimas, acaso e sorte. Mas também nisso da volatilidades das pessoas e relações e sentimentos e da ignorância original que nos cerca, do impacto que não temos idéia de causar e das coisas que nos marcam sem que a gente perceba e das que nos deixam sem deixar vestígios.
Tudo tão mistério e a vida tão indecifrável e eu me pego pensando que algum dia, daqui muitos e muitos anos, quando o caminho se aproximar do fim, vou entender dele alguma coisa, achar-lhe um sentido que hoje é oculto, talvez mesmo inexistente, porque do meio não é lugar para se ver.
E, ainda assim, vez por outra ele se revela, incompreensível mas claramente.
Ou talvez não, não haja destino nem sorte nem sentido, mas somente acaso.
Mas não há duvidas de que há mistério.
Nenhum comentário:
Postar um comentário