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terça-feira, 8 de maio de 2012

Manifesto

Exaustão define. Minha situação no momento. Coço-me com vontade de casa, apesar de saber que a jornada continua e pra frente é que se anda. Talvez isso de mudar de ares traga alguma quietude a essa alma que, ao fim e ao cabo, tem andado muito quieta.
Hoje, nos arranjos de partida, resolvi algumas pendências nem tão importante assim, mas coisas que eu queria fazer antes de cair na estrada e camelei que só.Exauri minhas pernas mas encontrei, talvez, consolo para o resto. Melhor coisa, andar, né? Normalmente não sou muito fã, mas tenho percebido os benefícios de só ir e colocar um pé diante do outro nos últimos tempos, em que tenho estado com a macaca.
Pois hoje achei graça, por um acaso - ou não - carregava minha máquina e tirei praí duas ou três fotos do absurdo que é essa cidade vazia. De gente, claro, porque veículos há em demasia. E nas ruas, ninguém se livrando, como eu, da macaca. Se eu fosse boa pessoa, deixava por isso mesmo, mas não me impeço de observar sardonicamente que, dentro de minutos, os motoristas abandonarão os carros para correr. Com shorts ligeiramente curtos demais, pronto, falei. Toda essa cultura de fitness e nenhuma relação com a vida cotidiana e as calçadas seguem vazias.
Afora isso, minha vontade de fotografar tem estado perto de zero. De repente porque eu estive mais preocupada em viver do que registrar, ou a inspiração é que foi pouca, ou a preguiça muita. Viver, não registrar. Como dizia mesmo o Cortázar, não "lembrar", mas esquecer um pouco menos? Eu tudo esqueço, talvez por enfadonho mecanismo psicológico, talvez por séria debilidade neurológica, mas tão mais bonito pensar na poesia. Viver e acabou.
Sim, sim, era sobre isso que queria escrever e me fugia. Já escrevi, será? Pensava esses dias, quando descia a rua chegando ao Outback. Lembro o cenário, da avenida à frente, da descida, dos poucos carros e menos pessoas, lembro-me do cenário, um dia claro de sol, mas não sei por que pensava que as pessoas, nós-pessoas, perdemos a capacidade de lidar com o efêmero. Tudo e todos a gente pode ir procurar no facebook ou na internet e achar. Achar tudo, sempre, e aqueles momentos que são únicos, que não se repetem nem se reproduzem, criamos essa ilusão de retê-los, achamos que vamos procurar no facebook e mantê-los e sei lá. Continuo, talvez estupidamente, a não acreditar nisso. Os momentos vão, com eles as pessoas, e ficamos só(s) nós.
Acredito piamente nisso, mas hoje fui a um museu e vi uma gravação de um menininho dançando ao lado do pai, uma dança esquisitona, registrada em preto e branco e senti vontade de chorar. Hormônios, ou casa, mas percebi ali como o passado tem essa vocação tão sentimental, provoca reações algo inesperadas à maior distância que existe: a do tempo. Aquelas pessoas morreram, provavelmente, sabe-se lá quem foram ou o que fizeram da vida, mas seus pálidos ecos são suficientes para levar uma garota desconhecida quase às lágrimas em meio a um museu.
Contradição e tudo aquilo. Ou de repente não e o fato é que são simplesmente coisas diferentes.
Ainda ontem, eu fui procurar um vídeo que uma amiga me mandou de uma brincadeira que fizeram com umas crianças no natal - os pais davam aos filhos um presente bem podreira e filmavam as reações dos pentelhos e eu achei muito engraçado não apenas aqueles que esperneiam, mas os que tentam argumentar. Não lembrava o nome do vídeo, sabia só isso, então fui caçar todo o histórico dessa amiga e encontrei não só o link - o assunto do e-mail é "troll noel", caso algum dia eu sinta a necessidade de encontrá-lo de novo - mas uma conversa que tivemos pela mesma época e como é engraçado. Eu reclamava do meu coração levemente partido - e quando estará inteiro?? - e desde então passou um segundo e nada daquilo faz mais sentido. Foi, passou, acabou.
Ficou, no entanto, gravado, mas não com o intuito de recuperar, mudar tudo, reescrever o fim da história, só mesmo de deixar essa linha que forma nossa vida, o caminho que chega ao que somos hoje e somos o conjunto de pegadas na poeira atrás de nós.
E enquanto isso, perdemos a capacidade de aceitar o efêmero, de deixar as coisas serem o que são, de deixar o rio correr e todas as metáfora em que se puder pensar. Claro que vivemos hoje num mundo assim, contra fatos não há argumentos, mas sei lá. Eu queria saber lidar com ele, deixar pra lá e ver o rio correr e, de vez em quando, correr com ele, nele, e seguir adiante e nunca voltar.
Ergo sozinha minha voz e, por enquanto, não me rendo.