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sábado, 16 de novembro de 2019

Amanhecer

Tava passando Antes do Amanhecer.
Passei o dia jiboiando, depois de sair ontem e chegar em casa super tarde. Era o que eu queria fazer, ouvir  música e talvez ali achar um sentido de estar aqui. Foi boa demais a música, mas acho que não gosto de ficar na rua até tão tarde, depois tem todo o rolo de voltar pra casa, aí dormir.
Foi uma vez, viajando com amigos, que encasquetei com essa história de ter de dormir ainda escuro, que depois que clareia é uma merda. Afinal fui dormir já amanhecendo, mas eu me engano fechando tudo e deixando uma luzinha acesa, aí não tenho bem como saber a hora e digo a mim mesma que ainda é madrugada.
Pois eis que esta noite a internet dá uma pifada e eu vejo que vai passar Antes do Amanhecer na televisão. Tenho uma coisa esquisita de às vezes demorar a ir num filme de que gosto ou que quero bem ver, às vezes nem vou. Não sei explicar, talvez seja a procrastinação de sempre, mas eu há muitos anos não assistia a este e também não vi o terceiro filme. Ouvi dizer mal e bem e não sei, ainda não fui até lá. Também não iria aqui, talvez não escolhesse para ver hoje, mas calhou de passar e começar em cinco minutos e eu disse "ah, vou ver só o começo e depois durmo" e claro que vi até o final e fiquei aqui sentindo.
Poxa, eu lembro tanto de ver esse filme naquela casa da avenida, a que ficava nos fundos do terreno e tinha um quartinho de tevê, ver também na televisão porque estava passando e depois ficar "meu deus, mas o que aconteceu?!?!". Deve ter sido bem ali por 96, pra ser nessa casa.
E depois na faculdade, anos depois, quantas vezes a gente viu esse filme?
Aí revendo hoje ainda gosto muito, mas fiquei pensando o quanto este filme, em particular, influenciou a minha vida, algumas conversas que eles tem, algumas (des)crenças, porque eu era bem nova quando vi e fiquei pensando se ele me moldou em alguma medida, ou foi só um ressoar. É só que acho que isso de ressoar não existe tanto, né, tudo vai moldando a gente.
Mas a Celine é de fato fascinante e o olhar do Jesse pra ela é adorável. Ela falando como se irrita com tudo e metendo o pau em fascista, e os dois numa onda meio atéia ou ao menos contra essas religiões chatas pra cacete. Tem duas pessoas ali; tinha antes e tem agora. Ela falando aquela viagem de deus estar na distância e na proximidade entre as pessoas.
Será que eu pensava isso, ou passei a pensar depois do filme? Será idiotia pensar que um filme desenha assim a gente? Ou se deixar desenhar por um filme?
Fiquei aqui pensando, pensando, e eu gosto ainda tanto deles.
Nossa, como eles são jovens! Meu deus, e que doida ela de sair com um maluco qualquer que jogou uma conversinha mole no trem!!
Lembrei aqui agora dos supremacistas brancos que conheci no ônibus e como até hoje eu morro de rir falando que pensei no meu rim. Totalmente não a mesma coisa, mas se pá um pouco? Mas supremacista branco, também, vamos combinar...
Como eu gostei desse filme quando assisti na salinha, e como gostava quando a gente via na faculdade e entrava em toda aquela pira. Que distante da vida agora, em que não temos escapatória nem podemos fingir que não somos adultos, e como ainda gostei tanto e ainda queria que não terminasse - não pra assistir aos outros, mas esse mesmo.
Foi uma viagem e os olhos encheram d´água e eu senti essa vontade de escrever nem sei bem o que, só mesmo pra dizer que acabei de ver Antes do Amanhecer.
Ia mandar e-mail, ia escrever no blog.
Mexeu aqui alguma coisa e vim contar, achei que você poderia entender e talvez me explicar.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Sertão

Quando a gente dorme, vira de tudo.

Lembrava, não. Que linda a Letícia Sabatella cantando e falando Guimarães Rosa.
Eu nunca vi nenhuma adaptação, digo com tranquilidade que nunca verei, porque não há o que ver, mas gostei de ouvir, gostei bem muito. E o Daniel Dantas ali, tão lindo.

Ontem fui assistir o filme do Cézanne e do Zola e olha que coisa, nunca li o Zola. Pra entrar pra lista de algum dia. Mas quando tava na escola, a gente fez um trabalho aí sobre história da arte e eu entrei numas piras com o Cézanne, gostava dele e dos impressionistas e do Van Gogh. Meu tio me deu um monte de gravuras e um livro "para entender a arte" que eu ficava doida, e meu pai desenterrou não sei de onde uns fascículos de pintores famosos, um calhamaço, e eu queria mesmo ver esses do fim do XIX. Não gosto de pintura de gente, nem tanto de natureza morta, santo então nem pensar, mas gostava ali daqueles caras, dentro de uma ignorância do tamanho do mundo.
Então eu me dignei a sair de casa para ver o Cézanne e tem duas cenas lindíssimas no filme, uma que é ele falando com a mãe do Zola numa escada, e o fim.Gostei do filme todo, apesar de perder muita referência, mas o fim é uma coisa maravilhosa que me levou às lágrimas pela beleza. Engraçado, e era isso que eu vinha dizer, que a vida toda senti essa ojeriza a chorar em público - chorava, mas não gostava e evitava sempre que possível. Mas fui ver uma peça, há muuuuito tempo, no Rio com uma amiga e lembro de chorar muito. Não lembro o nome. Depois fui ver Once com outra amiga e a gente abriu as torneiras, chega a ser engraçado o tanto que a gente chorou sem nem saber explicar, era só a cachoeira a cada vez que o cara abria a boca. Eis um momento a que eu voltaria, se pudesse.
Mas sim, engraçado que eu fui assistir esse ano ao filme do Van Gogh e do Cézanne e achei os dois finais impactantes, já as luzes acendendo no cinema e eu meio em choque, olhando praquilo e sentindo... alguma coisa. Vi ali o porquê de eu gostar tanto do Cézanne, eram aquelas imagens mesmo, acho, da floresta e a montanha e ele sempre lá e eu também. Sempre lá.

Cheguei em casa e vi um pedaço do Sertão e não sei. Córguim. É bem nosso o córguim e eu me aproprio mesmo sem ser do sertão. A gente pode ser tão bonito, né, e escolhe ser tão feio.
Mas o mais lindo continua a ser o Guimarães; assisti acho que ano passado um documentário sobre o trabalho dele num consulado na Alemanha nazista e o pessoal contando que ele ajudou muitos judeus a escapar, arrumando visto para eles virem ao Brasil. Já contei aqui?
Lindo Guimarães e o Sertão.
Ainda nada que eu vivi alcançou o Sertão, talvez haja uma ou outra obra que se acerque, mas não é fácil. E ainda, dois finais de filmes mexeram cá em alguma coisa e me disseram da beleza da vida, beleza doída, dura como há de ser.

Vi a foto do cara no Salar de Uyuni e percebi que nunca vi as estrelas, mas quero ver.
No Salar, na Chapada, no Sertão.
Isto é o vão.