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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Basta um dia

Sim, porque ontem choveu o mundo em São Paulo.
Acabou a luz por horas e horas e eu, sozinha, senti o escuro chegar e se estabelecer.
Antes disso, enquanto do céu caíam pedras, eu pensava que era um presente.
Que haverá em mim ou na chuva que me faz sentir tão alegra só pelo fato de ela cair?
Eu adoro, mesmo, de verdade. Estender a mão pela janela e sentir os pingos e tentar pegar o granizo, totalmente infantil, mas eu gosto muito da tormenta.
Afora as preocupações com quem está fora, se está bem, eu Maga me sinto bem em tempestades.
Vez por outra sinto um quê de medo, mas que é pequeno diante do prazer.
E o escuro?
O silêncio numa cidade como essa em que tudo é ruído?
Fiquei pensando nisso, que é aí que a gente se encontra. Sem subterfúgios, porque eu sempre digo que gosto de ficar sozinha, mas gosto quando posso ver um filme, ler um livro, falar com alguém pelo telefone. E quando não se pode? Não sei se alguém ainda sabe o que é solidão. Na metrópole.
Bem agora, final de tarde, ouço os gritos distantes e tão próximos da garotada no colégio que joga, acho futebol. Não distingo palavras, só o barulho e vez ou outra a bola que bate numa parede. ouço um cachorro que late e o bebê que chorava há pouco agora cala.
Sim, o silêncio não é fácil de se enfrentar.
Mas eu ontem olhei para ele como presente e me senti em paz. Senti até vontade de escrever; faltou bateria e eu gosto é de digitar, mas pensei romanticamente em escrever à mão e depois escanear e postar aqui, mas sobreveio o silêncio.
Acordei no meio do noite assustada com a luz que voltava e eu, no sonho, achava que era um fogo que caía sobre meus olhos. Foi-se também o tempo em que eu dormia como uma pedra e em que luzes e sons não penetravam nos meus sonhos.
Não posso discernir o que ocasionou a mudança, mas ela está aqui e seus efeitos se fazem sentir.
Queria dizer mais, só não sei o quê. Talvez amanhã.
Pois sim, uma tia me ligou hoje.
Só não era a mesma.

Só um dia

Não mais que um dia.
Um meio dia.
Vi esses dias uma entrevista com a Bibi Ferreira e confesso que foi a primeira. Totalmente adorável, aquela senhora dizendo estar convencida de que a gata que ganhou de presente é louca e que não faz academia porque exercício cansa demais o diafragma e quem canta não pode cansar demais o diafragma.
Quase deu vontade de começar a cantar, para poder usar Bibi Ferreira como desculpa.
Então que não a vi como Joana, mas vi a Georgette Fadel e nem tenho palavras.
Nem vou de novo ao "Gota d'água", talvez porque foi-se o tempo ou porque já fui muito, mas bem agora tava pensando: só um dia...
E que mais pensava eu?
"Em cada esquina uma ameaça"? 
"Sei que há  um céu sobre essa chuva e um grito parado no ar".
Não sei mesmo, devia nem estar então escrevendo, mas já que já foi, foi, e fica então ela:


Não sou ruim, embora viva de trapaça...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mária

O Mário não cai.
Não foi ele quem me contou, eu já há muito tempo não o vejo e, ainda quando via, nunca estabelecemos uma conversa em que fizesse sentido me contar. Na verdade, duvido que ele saiba quem eu sou, se alguém algum dia porventura mencionar meu nome. Eu sei quem ele é porque todo mundo sabe. E uma vez ou duas parei no arquivo que não era o meu para falar com ele. Quando minhas visitas se tornaram mais assíduas, ele já não estava.
Quem me contou que o Mário não cai foi um conhecido das antigas, antiquíssimas, tantas que mal me recordo. Eu mal lembrar, aliás, é fato corriqueiro como todos sabemos bem sabido. Ainda há pouco tomei outra chapuletada (sim, é com "p", diz o Aurélio aqui ao lado, mas eu sempre sempre disse com "b") ao conversar com uma amiga, essa sim de tempos longínquos, e ela me contou uma história que vivemos juntas, ainda adolescentes, quando em uma praia na Bahia sentimos não sei que comoção e choramos juntas e sozinhas por razões que não sabíamos explicar. Para ela, a lembrança clara como cristal, ou talvez como fotografia algo apagadinha mas em que tudo ainda é perfeitamente reconhecível. Para mim, silêncio. Não foi comigo que aconteceu, apesar de ser absolutamente plausível que aconteça, porque eu transbordo sempre pelos olhos. Com as coisas mais banais.
E ainda assim, aparentemente foi comigo que aconteceu. Eu me pergunto como pode alguém viver de memória perdê-las tão completamente e perder-se. Esse eu adolescente, na praia da Bahia chorando, se foi  sem deixar rastros, a não ser aquilo que somos, tão irrastreável quanto qualquer outro com quem já me deparei nessas andanças.
Então a amiga longínqua e o conhecido antiquíssimo me contam do que eu fui e do que nós fomos e eu só posso acreditar ou duvidar.
Então o conhecido me conta que o Mário não cai, porque o Mário não faz nada banal e cair é coisa de quem não presta atenção no que faz ou faz coisas sem importância como, quem sabe, perambular à toa por aí, com os pés aqui e a cabeça nas estrelas.
O Mário não faz nada banal e eu rio, primeiro porque só a idéia tem sua imensa graça, segundo porque eu faço muito pouco além do banal. Inclusive rir do Mário que não cai.
Além de graça, a idéia tem um quê de instigante, assim como essas coisas que podem despertar admiração, ou pelo menos assombro, mas pensar nisso, numa vida com propósito, as ações com propósito e as palavras com propósito e saber, imagine saber o que tem propósito e o que não tem. Não viver mergulhado em dúvidas constantes e incertezas paralisantes, no nada que te puxa para todos os lados e não leva a lugar algum. Ir apenas aonde é necessário, há aí uma atração, na falta de desperdício. Sim, em suma é isso: não desperdiçar. Tempo, energia, pessoas e o coração batendo enlouquecidamente, lágrimas e sorrisos, tudo a seu lugar e a seu tempo.
Se tudo que vemos do outro é o espelho invertido do que vemos de nós, fica evidente como o sol dos trópicos que o Mário não cai e eu me estabaco. Estabanada ando, em desequilíbrio constante, caio sem motivo e com, busco apoio e o levo comigo para o chão. Levanto-me apenas por um minuto, para acreditar  que vai durar, até perceber que não. Eu sei tudo por acaso, tudo por atraso, mera distração.
Ainda bem que Lenine também.

Djavan

Só porque de repente, não sei o que acontecia, veio à minha mente uma palavra: milagreiro.
Ei-lo.



Agora vamos ter os girassóis
do fim do ano
e o calor vem desumano.
Tudo irá se expandir
crescer com as águas
quiçá, amores nos corações.
E um santeiro,
milagreiro,
prevê a dor
de terceiros
e diz que a vida
é feita de ilusão.
Aquela que um dia o fez sonhar
se foi com outro
no dia em que os dois
se casariam por amor.
Ele aluou,
hoje o seu pesar
cintila nos varais,
usou as sete vidas
e não foi feliz jamais.
Toda a imensidão
passou pela vida
e foi cair na solidão.
Mais um santo pra esculpir é o que lhe vale
para evitar que o rancor suas ervas espalhe.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

There's still time to change the road you're on

O Pablo Villaça postou uns vídeos do Led Zeppelin, já faz um tempo, tocando Stairway to Heaven em 1973 e de uma homenagem feita a eles, ano passado.
Eu sempre gostei muito dessa música, acho que foi o primeiro cd da minha irmã, quando compramos nosso primeiro cd player, nos idos de  muito tempo atrás. Tão isso, né, lembro de quando compramos o primeiro cd. O meu foi um mix do que chamávamos de "dance music" e tinha uma música da chuva de que não consigo lembrar agora.
E aí que eu não manjo lhufas de música e minha péssima memória me impede de manjar qualquer coisa de bandas, mas vendo ali os caras assistindo à apresentação e visivelmente emocionados, a questão que me veio à mente é até que ponto eles têm noção de que se tornaram imortais. Será daí que vem a emoção?
Provavelmente não, mas o fato é esse: imortais.
Reconheço minha profunda ignorância sobre tudo, mas lia um texto da Márcia Tiburi sobre isso, há umas semanas, sobre o que é arte e o que não é. Ela falava sobre um fenômeno chamado de literário que tem tomado o mundo, ultimamente, e sobre a diferença entre livro e literatura; sobre como é claro que um livro é uma mercadoria, produzida, reproduzida, vendida e comprada, mas ao mesmo tempo o que ele contém é maior do que o preço de capa. Quando é literatura e não apenas mercadoria.
E afinal de contas é isso, que a arte tem, esse excesso de valor, esse valor incontável e que, ao fim e ao cabo, traz em si algo que transcende a mortalidade. Permanece depois do fim e de tal modo que acreditamos que permanecerá sempre.
Estou a milhões de quilômetros de entender o que significaria isso, o cara ser um Led Zeppelin na vida e cantar uma Stairway to Heaven perante dezenas de milhares de pessoas. Sei apenas da forma como me atinge a mim, na minha insignificância e finitude, saber que existem por aí pessoas que entendem. E são.
Talvez o grande barato dessa nossa humanidade seja isso, da gente conseguir se apropriar desse excesso alheio e torná-lo um pouquinho nosso, de conseguir se encher um tantinho disso que transborda do outro, sem ser apropriação indébita, porque o outro nessa história já dançou e o que ele deixou é arte.
Divago, sim, divago.
Tenho uma sobrinha, por isso fui/sou exposta/me expus a diversos tipos de músicas infantis, desde as fenomenais até as mais impróprias, mas que a direção da escola achou apropriadas para serem cantadas e dançadas na festa junina. Sendo perfeitamente claro a qualquer ser com uma cabeça em cima do pescoço que existem tantas músicas lindinhas de festa junina, que falam sobre a gente, de onde viemos, o que fazíamos, quem somos, mas não, a direção acha que festa junina é meteoro da paixão.
Mas divago.
Próxima, assim, de músicas infantis e ainda muito ignorante, caí há alguns anos no Palavra Cantada, esse grupo maravilhoso que faz música pra criança sem ser imbecil e sendo lindo e emocionante. No final do ano passado, ou no meio, já não sei, viajei com a sobrinha e colocamos num pendrive, para ouvir na longa estrada, todas as músicas que tínhamos do grupo, e uma me emocionou em particular. Nem sei bem por quê, se é que alguém sabe alguma vez, ou se é que alguém alguma vez ignora.
É Beleza, né? Assim com maiúscula, até porque tem aí algo de ridículo, mas só porque ela pura beira o insuportável.
Deixa aqui pra vocês e pra mim, quando eu voltar.