Páginas

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Da irmã

Acho que no vol. I da minha saga blogueira foi que eu comentei aquela música do Gil. Ou foi aqui mesmo, uma vida atrás. Mas ouvi e lembrei de um professor de ética que tive na escola, ele chamava Orestes e tinha um filho Dimitri, o que eu achava um barato. E Orestes é figurinha até conhecida na cidade, acho que dos últimos comunistas vivos e praticantes, andava com uma pochete cheia de papel - ou talvez eu esteja só confundindo as pochetes.
Acho que eu e meu Karma éramos as únicas pessoas a gostar mesmo do cara e das aulas dele, porque ele ensinava, ora bolas, ética, coisa que, convenhamos, não é conhecida por seduzir muitos adolescentes. Lembro até hoje dele dizer, tão simplesmente, a diferença entre ética e moral, dizer a história da justiça; que se você vê três pessoas num cabo-de-guerra, duas de um lado e uma do outro, aí você não pode dizer "não, eles que estão jogando, não vou me intrometer" e achar que isso é justiça, porque não é, se você quiser ser justo vai ter que entrar no jogo do lado da pessoa que tá sozinha, pra equilibrar o sistema todo. Sei lá, mas lembro.
E acho que me lembro também dele falar da música do Gil, e que a Bahia já deu régua e compasso. Que é a minha parte favorita da música, mas o resto todinho dela faz lembrar o Rio, o que é mais ou menos o objetivo dela. E quando eu ouvi, ali, que ele continua lindo, deu uma saudaaade, de um momento em que nem tudo estava bem, mas era possível ser feliz. Saudade do hotel mais ou menos na Glória, com o bar na esquina que tinha uma casquinha de bacalhau divina, saudade do pastel de camarão e passear em Santa Tereza e assistir uma peça de surpresa e me esbugalhar pra não chorar. De gostos e imagens e esperanças e não sei o quê que foi tão gostoso e dá vontade de voltar.
Nos últimos dois anos eu viajei mais do que em toda a minha vida. Viagens longas e curtas, boas e nem tanto, de ônibus, trem e avião, do qual chega quase perdi o medo. E apesar de eu sempre sentir como uma dor nesse ausentar-me, desconfio que gosto cada vez mais. E o problema - ou a graça - é que vício é vício e a gente acaba sempre querendo mais.
Porque eu já estou com vontade da estrada e quase que vivo sonhando com a próxima, ainda tão distante, mas já tão querida.
Eu sou assim, de ver despertar em mim amores repentinos e profundos e quase espontâneos, sem motivação aparente ou imediata, que me seguem por muito tempo, talvez até a desilusão, mas seguem fazendo estrago até lá.
Só o tempo, né, pra dizer? O que será? Onde e quando? O resto é esperar e escrever.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Veiêra

Assistindo a um filme ontem com a irmã, pensei e disse: "putz, nem lembro mais de quando eu fiz 21 anos..."; e ela respondeu: "e eu, então?!".
Depois vim ver - não por esse motivo, claramente - a lista de livros do vestibular desse ano, de uma universidade, e me deu um cansaaaaço. Olhei ali o montinho e fiquei pensando: putz, eu li isso tudo vezes 3 em um ano? Ou será que na minha época já era unificada? De qualquer jeito, acho que não li ela toda, não, e nem lembrava quais eu tinha lido até dar aquela olhadinha na prova, que tá na internet. Que eu não sei responder metade, e é de português, só.
Agora, quando que uma lista de dez livros se tornou assutadora, pra mim? Acho que é mais a coisa de ser obrigada a ler, ou com o passar do tempo eu fiquei mesmo mais e mais preguiçosa.
Vou nem ver a de história pra não chorar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Vento / Texto Procelária

Primeiro que começa com uma coisa que só pode ser Caymmi. Quer dizer, quem que ia fazer uma música toda "vamos chamar o vento, vamos chamar o vento" e fazer dar certo?
Porque dá, portanto: Caymmi.
Aí ela diz:

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz um ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos
Passa e vai em frente

Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo

Com Bethânia, eu recomendo.

De poesia

Engraçado isso da gente se descobrir.
Eu, por exemplo, nunca gostei de poesia. Gosto, ou desgosto, esse, que já gerou exclamações inconformadas ou trejeitos de desprezo por parte de amigos e conhecidos, isso quando eu chegava ao ponto de expressar meu sentimento. Já fiquei em silêncio constrangedor ouvindo alguém dizer "mas e fulano, que disse que não gosta de poesia!!! Pelo-amor-de-deus" e etc. Claro que a pessoa podia saber ali, na hora, que estava falando com um desses párias, mas por motivos outros, não sabia.
Aí hoje, eu no carro - realmente, tem gente que tem epifanias em igrejas, templos, florestas, praias, lugares assim, mais propícios, eu já sou mais chula e me conheço no carro - eu pensava que não é que eu não gosto de poesia, eu não gosto de ler poesia. Já me sinto um tanto redimida em relação às pessoas inteligentes. Mas é fato que quando eu ouço, costumo gostar. Já era assim com a tal de vermelho e branco, que eu não entendia lhufas, os sanglots longs des violons de l'automne e assim por diante. Ou das vezes em que eu ouvi o Lirinha contando os cordéis. Gosto e muito.
Ou talvez seja tudo mentira, e eu só gosto dessa que a Bethânia recita, que eu já tinha gostado antes e esqueci, e quis vir aqui escrever e precisava de uma desculpa.
Vai saber...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Notinhas

Ah, a memória.
Uma vez, num blog conhecido, já mais assiduamente seguido - acho que isso tudo aqui já meio que era, né - li uma pequena crítica sobre "Candy". Com o Heath Ledger, e tal, e marquei, porque é isso que eu faço.
Não vou correndo alugar, ou baixar, ou comprar, ou sei lá mais o que se pode fazer com um filme, eu simplesmente guardo. Tenho a impressão de que todos, mas pode ser que não. Afinal, eu só lembro dos que guardo e, portanto, os outros nunca existiram para mim.
Vi que estava passando, dia desses, mas perdi o começo, e hoje meio que vi inteiro.
Meio porque posso ter perdido um minuto ou dois, ou mesmo nenhum, já que o relógio da HBO é assim pouco confiável. Meio também porque eu às vezes tenho essa coisa de não aguentar e assisto não assistindo. O que não significa que eu não assisto, entendam bem.
Enfim, só pra dizer que gostei muito do filme. Mais do que o gêmeo "Réquiem para um sonho". Nem sei se é melhor, talvez eu seja só mesmo muito besta. Mas vi, gostei e quis dizer, mesmo que desse meu jeito que na verdade não diz nada. Ou talvez, além da idiotia, eu só faça com os outros o que gosto que façam comigo: me digam que gostaram sem contar metade - e em alguns caso toda - da história. É bonito, e ponto. Ou melhor: eu achei bonito, e ponto. Recomendo.
Aí mudando de assunto, mas não muito, vi outro dia "Austrália". Confesso que tava com medo, de verdade, de ser aquela bosta total, e eu ainda aluguei. Fiquei com uma sensação diferente, talvez nova. Normalmente eu gosto das coisas mas tenho sempre aquela sensação de que não sei se entendi. Pode ser que sim, pode ser que não, o que também não me impede de apreciar. Claro que talvez eu apreciasse mais se entendesse, mas eis uma realidade que eu não posso mudar. E é fato que eu gosto que, em algum nível, me expliquem as coisas. Mas esse, do Luhrman... Primeiro por ser dele, que tem meu coração desde "vem dançar comigo", aí logo no comecinho o cara me escreve o lance lá do viver com medo, viver pela metade. E, de maneira bastante inesperada, eu gostei desse filme exatamente porque o entendi. Claro que isso pode ser só a maior ilusão que eu criei, o que não a torna menos verdadeira. Entendi, enquanto via, ou criei pra mim uma explicação do que ele queria fazer. Aí, para além de o filme ser bom ou não, já gosto dele porque me faz sentir inteligente.
Quer dizer, aquela merda toda da gente viver uma vida pra se sentir apreciado.
E por falar em apreciar, vi também ontem um filme com o John - e a Joan! - Cusack, acho que o nome em português é "matador em conflito", que achei divertido pra caramba, mas também porque eu tô desenvolvendo minha veneração por ele.
Enfim, acho que de uns tempos pra cá venho desenvolvendo um gosto condenável por frases assim meio curtas; separar o verbo do objeto e tudo mais. Isso sempre me irrita, quando leio o estilo em alguém, porque tudo bem que às vezes a gente pensa a prestação, mas sempre se pode fazer algum esforço pra facilitar a vida de um eventual leitor. É chato demais ir lendo alguém que coloca um ponto final a cada três palavras. Tipo antes de um porque. Eu fiz isso. Mas também podia ter feito aquilo. Porque assim e assado, e etc.
Peço perdão e agradeço a paciência de você, amigo leitor. Mas sabe como é, todo mundo tem fases na vida em que faz coisas de que se envergonha.
Hoje eu vi o Lenine na TV e não entendi bem, mas ele pareceu meio obcecado por orquídeas. Aí vi de novo e gostei ainda mais dele, porque tenho essa mania de gostar de pessoas com manias meio malucas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

E esse adeus, que tem gosto de terra?

Se um dia eu morresse, e chegasse num céu, e tivesse um Deus, e ele me perguntasse se eu queria voltar praqui, e se eu pudesse escolher uma coisa pra não ter...
Mentira.
A verdade é que eu gosto do meu apego. Ele me ferra de vez em sempre, não me deixa ver um tantão de coisas, me faz sofrer, porque me impede de aceitar perder as coisas de que gosto. O que é ainda mais grave, porque eu conheço tão tão poucas coisas, porque só gosto daquilo que, pra mim, é, ou parece ser, velho.
Quem mesmo disse que o historiador é um conservador por natureza?
Toda vez que eu gosto de uma música, é porque eu já ouvi antes. Tenho essa aversão pelo novo que eu não sei dizer exatamente de onde vem. Aí isso me faz ler o mesmo livro milhões de vezes. Normalmente gosto da primeira roupa que experimentei, nem por ser mais bonita, mas eu quase sinto como se a estivesse traindo se escolhesse, digamos, a segunda. Por "roupa", por favor, entendam o que quiserem.
Hoje eu andei de ônibus. Tava mega cansada, então capotei na primeira viagem. Na segunda não podia, que era na cidade, tinha que ficar acordada pra fazer baldeação, não quebrar o pescoço com os balangos do carro (fato que eu estava super carregada, com duas bolsas, aí estava eu de pé, uma hora, que ia descer, e o motorista ficou doidão e começou a fazer um ziguezague e uma das minhas bolsas também balangou enlouquecida e meio que nocauteou uma moça que tava sentada... Pedi desculpas, e tal, mas nem fiquei com vergonha, porque sou assim meio sem, como expliquei há pouco) e vim ouvindo meu mp3 velhico [foi mal, mas peço licença pra usar os diminutivos com -ico, que tô achando mais poético - com o perdão da rima forçada], que tem uma partezinha rachada, mas aí eu penso: o diabo funciona direitinho, porque eu trocaria por um modelo novo? É tipos o cara do filme que não joga a toalha fora porque acha que ela tem sentimentos. Só que ecologicamente correto. Não que a toalha não seja, mas enfim.
Aí, além de ele, o mp3, ser velho, as músicas que tem lá lá estão há séculos. Toda vez que eu resolvo trocar a lista, vou lendo os nomezinhos e fico pensando: "ah, mas pode ser que qualquer hora eu queira ouvir essa... vai, são só 3 mb, deixa ae!". De vez em nunca faço uma mudança "radical"; agora estou numas de ter mais discos inteiros que músicas avulsas, mas tem tipo 3 artistas nos meus parcos 2 gb de memória. Vai, olhei direito e tá mais pra 5. Mas eu ouço e ouço a mesma música vezes sem conta, por isso meu last era uma vergonha, porque eu só ouço sempre a mesma música.
A última paixão - ou... antepenúltima? - eu descobri a história esses tempos. Ou inferi, mas enfim: quando a minha irmã estava... não, ao contrário: eu tava lá ouvindo a música, mostrei pra irmã, ela disse que já conhecia de anos, e eu lembrei: quando minha irmã estava grávida, ela tinha um carro com rádio de fita k7, e eu andando uma vez no carro dela coloquei uma fita pra ouvir, e tinha uma música que eu curti muito, que falava não sei o que da ilha, e eu lembro de ouvir várias vezes (voltando, mesmo, e esperando cinco minutos e a música estando ainda no meio e todo aquele drama que minha sobrinha, por exemplo, jamais vai conhecer), e tentar lembrar da letra pra depois procurar. Aí não procurei, o carro dela foi roubado - com fitas e rádio junto, obviamente - e nunca mais lembrei da música até que... deu pra sacar, né?
Então eu tenho de ouvir uma coisa muitas vezes sem prestar muita atenção, pra daí um dia ouvir, ser familiar, e eu apaixonar. E, claro, como não podia deixar de ser, apegar.
Aí, como também tenho apego aos mesmos temas e objetos (como boa egocêntrica, normalmente eles se relacionam, oras, a mim!), fiquei pensando nisso de talvez querer ser diferente, me perguntei "poxa, não ia ser legal ouvir o diabo da música uma vez, depois ouvir outra, e assim por diante? Se eu nascesse de novo, ia querer ser assim..."
Só que não. Eu gosto de ser assim; talvez por estar... apegada a... mim, uai.
Mas fora a história da serpente que come o próprio rabo (é isso, será?), eu de fato acho bacana isso de mergulhar profundamente num amor qualquer. Considerando minha megalomania, acho legal a idéia do não-descartável. Sem nem querer enganar ninguém, que eu tenho meu lado mega consumista, mas é só um lado, não sou eu toda. A parte que importa mais, ou que gasta (com o perdão do trocadilho) a maior parte do tempo é essa, que não deixa pra lá. Que ouve, ouve, ouve, aí para de fazer sentido, aí fala sobre isso, aí ouve e gosta de novo.
Hoje ouvi meu mp3 no ônibus, aleatoriamente, só repeti uma ou duas músicas - e a viagem é longa -, cheguei em casa e liguei o dito aparelhico no computador, pra continuar ouvindo, e praticamente a primeira música que tocou, que eu já conhecia, está até agora no repeat.
Hoje, talvez por ocupar um lugar não usual, vim pra casa olhando pra cidade, vi umas casinhas muito bonitinhas nas quais nunca tinha reparado e quase gostei dela.
Mas tenho, ainda, algum apego ao desgostar.
Hoje comecei a ver um filme nada a ver e fiquei com vontade de mudar o cabelo.
Porque essa é a casa da contradição e toda regra tem lá suas exceções.