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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Transylvania

Dizia, há pouquíssimo tempo, de uma cena de Transylvania, filme que vi há já algum tempo, num cinema que hoje está fechado. Vi, no cinema, porque era com um ator de outro filme de que tinha gostado muito. Vi e gostei e me lembro, de vez em quando.
Comentando, senti vontade de ver. Rever e aquilo tudo. Muitas e muitas peripécias para encontrar o filme, numa delas me caiu em mãos, como por acaso, a trilha sonora, de que ouvi falar muito bem.
Nesse começo de dia, então, já sentada, me ponho a ouvi-la.
O filme todo cigano e a trilha toda cigana.
De um som que me faria sair de mim, se eu soubesse fazê-lo.
Do tipo que te tira, se você se permitir ir.
Eu não me permito. Por mais que reclame, com constância excessiva, de não poder nunca sair de mim, de estar cansada e querer um tempo fora, a verdade que me assola agora, enquanto ouço uma música que só posso definir como livre, é que estou presa demais a mim mesma para arriscar sequer uma olhadela porta afora.
Venho pensando, há já alguns dias, que isso de liberdade não existe. Talvez eu estivesse errada e ela não existe apenas para mim, porque imagino que me libertar é estar em tal lugar, sob tal luz, ouvindo tais coisas e não é. Liberdade é ser livre agora, com luz estourada e saia jeans. Sem o refúgio de paredes escuras e luz suave, sem o refúgio de estrelas que brilham ou lua que se esconde. É na eletricidade e a portas abertas. Com quem quiser ver. E ser. É de cara limpa, sem subterfúgios nem escudos.
Pois sim, eu sou e estou presa em mim, nas coisas que acredito, nas escolhas que faço, na corda com que me enrolo e que é feita de tudo aquilo que acho que devo ser.
Não sei ainda se esse é um caminho a que poderei, um dia, chamar de correto. Ou se sou, como já fui acusada, pura e simplesmente covarde. Ainda essa dúvida me prende, como se eu precisasse de mais correntes.
Ouço, no entanto, portas se abrindo e paredes rachando e o vento levando consigo tudo o que encontra pela frente. O vento indo e ficando e não sei se estou nele, nem se agora me perco ou me acho.
O perder-se já veio por aqui, com a mesma desculpa. Em outra vida que é tanto a mesma.
Não li o desabafo que já uma vez saiu, para tentar entender quem sou agora, sem me espelhar na que fui.
Mais uma vez, visito-me e em mim estou.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Deus me livre de ser ladrão!

A sobrinha contando, totalmente do nada, de um dia em que estava na escola e todas as crianças brincavam no parquinho.
Eu imaginando os pimpolhos fazendo bolo de lama e pendurados no trepa-trepa.
A sobrinha continua, dizendo que fulano e fulano eram polícia e tinham que pegar os outros.
Entendo, afinal, que a brincadeira era o famoso polícia-e-ladrão, das brincadeiras favoritas da minha infância. Bate aí uma vontade louca de brincar e penso que não há mais oportunidades. Quase diria "tantas", mas o fato é que, há já muitos anos, não há nenhuma. Nem em reuniões de adultos bobos, querendo voltar no tempo, não surge uma alma santa dizendo "vamos brincar de polícia-e-ladrão?" Quem sabe, da próxima vez, se me lembrar, eu faço o papel de alma santa. Mas aí é aquela coisa toda, das roupas e sapatos inapropriados para correr, do almoço que tem de sair, da cerveja que vai esquentar, disso e daquilo que nos diferencia inexoravelmente do mundo da sobrinha.
Fica então a lembrança, principalmente do predinho, com sua piscina que não enchia e servia às vezes como cadeia, noutras como campo de futebol de gol-a-gol. Do quarteirão em que se brincava de fugir da autoridade, e ficar bolando estratégias e esconderijos para não ser capturado. Eu nunca fui uma criança veloz, apesar de não ser daquelas bobocas que ficam de fora da educação física. Gostava mesmo de esportes, era das melhores jogadoras de handebol, basquete e vôlei, só no futebol é que não fazia grande coisa. Mas ser das melhores jogadoras, afinal, nunca importou muito, visto as outras jogadoras serem normalmente metidas a dondocas que preferiam tricotar a marcar pontos. A prova mesmo era brincar com os meninos e eu normalmente não fazia tão feio, apesar de não figurar mais entre os melhores de nada.
Eu nunca fui rápida, mas tinha lá outras habilidades. No polícia-e-ladrão, era difícil me pegarem, porque eu ficava me movimentando, em vez de ficar escondida esperando ser encontrada. Se visse a polícia procurando num esconderijo manjado estava feita: esperava ela ir embora e me mocozava ali, porque ela não mais voltaria a um lugar em que já procurou. Lembro de uma vez em que uns meninos subiram numa pitangueira do predinho e pronto, acabou ali a brincadeira. Sei não como se descobriu que eles estavam lá, porque a tendência mesmo é a gente procurar a rés-do-chão, mas, mesmo expostos, era impossível pegá-los porque os do chão não sabiam subir aos ares.
Perguntei então à sobrinha se ela preferia ser polícia ou ladrão e a resposta, "deus me livre de ser ladrão", me pegou um pouco de surpresa.
Porque claro que todo mundo sabe que é muito mais legal ser ladrão, porque é mais divertido e mais fácil. A polícia vai lá, prende os caras, tem que deixar um guarda, mas mesmo assim os bandidos sempre conseguem se libertar, numas de "salva-o-mundo", e o trabalho não termina. E fugir é mais fácil que capturar.
Senti, talvez forçando a barra, um lance moral na fala da sobrinha. "Deus me livre de ser ladrão" . Não deve ter mesmo a ver com a brincadeira, alguém deve ter lhe ensinado - eu não fui, acho - que ser ladrão é mau.
Não duvido que seja um bom valor, mas que torna a brincadeira mais chata, isso lá torna.
Aí essa reflexão superficial entra na conta daquela outra, sobre as canções de ninar que sempre trazem imagens aterrorizantes. Das coisas que ensinamos às nossas crianças, né?
Problema gigante esse, porque também é um saco isso do politicamente correto. "Ah, então ser polícia na brincadeira é melhor, porque deus me livre de ser ladrão". Também é ser literal demais e levar as coisas a sério demais. Até porque isso da moral é amplamente relativo. Mas, sim, devemos ensiná-las a não roubar e tudo aquilo.
É só que, moral à parte, a diversão mesmo está em fugir e enganar. Na hora da brincadeira, o valor mais precioso devia ser o deus-me-livre-de-ser-chato.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Errar

Um dos aspectos mais interessantes de manter um registro como esse que me acompanha praí há dois anos é a possibilidade de perceber as mudanças que nos acontecem e que, de outra maneira, poderiam ficar melhor camufladas.
Mas também as mudanças não saltam aos olhos por vezes, ou não aos nossos olhos, viciados demais em nós mesmos para nos ver com alguma clareza. Inconstantes que somos, somos também sempre nós. E os clichês se reproduzem.
Eu percebo, nesse começo de noite invernal, algumas das transformações que se estamparam aqui. Acho que a principal aconteceu, talvez de maneira óbvia, sem eu me dar conta, no próprio modo de escrever. Penso que antes, nesse antes idealizado que pode ser, eu normalmente vinha com uma idéia e um fim e fazia, com os dois, o caminho para deixar as palavras. Mas eu ia a algum lugar, conhecia o fim da estrada.
E hoje eu não sei. Só que é engraçado e uma dessas peças que a vida nos prega o fato de, antes, com o objetivo claro, eu ser ainda mais perdida do que sou agora. Como se a certeza do destino fosse dessas coisas que só um coração jovem pode ter. Como se o destino, afinal, fosse um eterno perder-se a que nos acostumamos e o tempo apagasse as certezas e os caminhos e deixasse alguma outra coisa. Ou não deixasse nada, porque a verdade de hoje é que só existe nada, e esse nada é o mesmo sentido da vida.
Então a eu que sou hoje, velha, não sabe aonde vai. Nem por onde. Nem como. Sabe de vez em quando que quer alguma coisa, seja fazer ou escrever. Sabe que gosta de realizar esse desejo, então vem, vez por outra, dizer coisas que nem sabe o que são. Sabe que sente, mas não lhes conhece o nome. Ou acha melhor calar, porque... porque. Sabe que sente e vem e para de repente, porque não sabe nunca se chegou aonde deveria.
Não há começo, meio e fim na vida, porque haveria no texto?
Só idéias desconjuntadas, que fazem sentido na cabeça e, transpostas em palavras, formam uma imagem difícil de decifrar e sempre tão diferente da original. E aquém. Ou nem aquém de fato, só na aparência deturpada pela imagem elevada demais que tenho de mim.
Não sei, o fato é que chega ao fim uma segunda-feira que, pra mim, não teve cara de segunda-feira. Isso das férias que me concedi, sei nem por que faço já que, no fim do dia, além das horas de sono dormidas e das horas de tv mal assistidas, bate aquele vazio e aquela culpa, de tudo que devia ter sido feito e não foi. E a inércia, que dificulta tanto a movimentação de um corpo parado.
Pode ter muito a ver com o fato de, depois de bastante tempo, não haver por aqui perspectivas. Ou melhor, até há, mas mais distantes. Compromissos de julho cumpridos e restam agora só aqueles que dependem de mim, da minha disciplina e tudo aquilo que eu posso adiar para sempre.
Hoje senti aqui uma fome de estrada que, apesar de me acompanhar sempre e povoar meus pensamentos e sonhos, fazia tempo que não acordava. Aquilo de sair daqui agora, em vez de planejar para um mês ou dois. De hoje, tem que ser agora, e agora é impossível.
Fica a estrada e fico eu.
Ela se perde e também eu.
Eu que me perco, sem saber aonde quero chegar. Que chego ao fim que não há.
É o errar.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Bamba

Ah, essa vida...
Se a gente não fosse uns porras duns merdas, ?
E se a gente soubesse alguma coisa, ?
A pessoa vai lá e escreve um monte de porcaria de pêlo, de ovo, que quer, não quer e o diabo e tudo não passa de enrolação. Engambelação.
Eita que a verdade verdadeira, que vem assim a cavalo, é que eu quero ter tudo.
TUDO.
Não só tudo, mas tudo exatamente como eu quero, quando e onde quero.
Supondo que fosse possível, surgiria aí só um pequeno problema: que diabos eu quero!? Porque é assim agora, assado já já e, depois, sei lá, frito.
Ah, a inconstância!
Tanto nos atormenta, mas também... qual a graça, ? Da linha reta e estável? Nem pra desabar de barranco, mas que o balanço traz emoção aos dias, isso lá traz.

Do ovo

Eu me lembro de, há já muitos anos, quando eu era bem mais neurótica do que sou hoje, conversar com um amigo e ele dizer que eu procurava pêlo em ovo.
Os dias vão e vêm e eu não deixo de me surpreender com a aleatoriedade da memória. Nem era um grande amigo quem dizia isso, nem por um motivo tão especial assim. Dessas coisas totalmente banais que, se a gente fosse dividir entre as coisas importantes e as descartáveis da vida, cairia tranquilamente na segunda caixa.
De repente, gravei porque era uma observação sobre mim, então me interessa em excesso.
Mas o que a memória tem de aleatória tem também de traiçoeira. E sou do tipo de pessoas que sempre acha que a carapuça serve; alguém pode dizer o maior dos absurdos sobre mim e vai ser difícil que só eu não ficar me perguntando se é verdade ou não. E pior, não sendo, posso assumir que é, e assim se tornar.
Isso pra dizer que, talvez, eu tenha me tornado mais neurótica depois do comentário do pêlo.
Toda essa história de achar problema onde não há.
Não sei, é que sempre há problema, não é? Ainda tenho aquele ideal infantil idiota que me faz acreditar ser possível um dia acordar e minha vida estar linda e perfeita. A gente tenta se livrar dessas merdas, mas não é trabalho fácil.
Sinto aqui uma angústia que reconheço ser de uma imbecilidade gigante. É estranho e deve dar azar dizê-lo, mas acredito mesmo que, imperfeita, minha vida esteja bem. Sem grandes demônios, além daqueles dos quais é impossível a gente se livrar. Um buraquinho aqui e outro ali - quer dizer, não tenho emprego e nem dinheiro - mas sobrevive-se. Tenho planos, o que acho de importância fundamental na sanidade de uma pessoa. E bons planos, o que facilita demais as coisas. E perspectiva.
Mas o pêlo.
No ovo.
Me angustia.
Aquela coisica insignificante, que na verdade nem existe, que me tira o sono e aperta o peito.
E essa coisa, ridícula, é ter de decidir fazer ou não algo que não quero fazer. Eu sei que não quero, mas fico pensando nas consequências e nessa necessidade desprezível de aprovação. No preço de ir contra, desobedecer. Quem nasceu pra boa moça...
Como se alguém ligasse a mínima para o que eu faço ou deixo de fazer. Isso da gente se considerar o centro do universo cansa demais.
Então, pronto, é sim ou é não. E é hoje. De repente acaba e eu sempre posso torcer para não vir logo por aí alguma coisa séria com que me preocupar.

sábado, 17 de julho de 2010

Do sol

Conversando esses dias com um amigo, ele me disse duas coisas que me vêm agora à mente.
Uma que morre de vontade de conhecer a Holanda.
Outra que não gosta muito do Brasil.
Qualquer pessoa que me conheça minimamente, ou tenha contato com qualquer coisa que eu diga, sabe que eu ando numa onda de amor à terra que tá difícil de segurar. Mas, por outro lado, entendo essa coisa do não gostar. Porque, afinal, há por esses lados muita coisa que é um saco, mas se a gente parar pra pensar, onde é que não há? E se tem coisa que me irrita profundamente é esse ufanismo imbecil que vejo de vez em quando, uma coisa meio vazia ou superficial - claro que em contraposição ao meu, fundamentado e profundo.
Eu sei que gosto, mas às vezes desgosto e entendo algumas pessoas que gostam e outras que não gostam. Sempre mantendo em mente que meu universo social é extremamente limitado.
Aí ele quer conhecer a Holanda. Super ok; eu já estive por lá, não digo que conheci que não faz parte da minha natureza isso de afirmar as coisas tão peremptoriamente, mas queres ir?, vai! e tudo aquilo. O sonho de cada um, a ilusão de cada um é problema de cada um. E há, mesmo, coisas muito legais que até eu admito ter vivido ali.
É só que agora estou um pouco irritada.
Porque recebi o contato de uma brasileira que vai para a mesma cidade em que eu estive. Até aí, tudo certo. Ela procura desesperadamente um alojamento por lá, como eu procurei e como todo mundo que eu conheci - aí conhecer, mesmo, não só de estar, mas conhecer do tanto que se pode conhecer as pessoas - também procurou. "O inferno da moradia" ou assim. Novela velha de guerra e que não pode despertar em mim senão simpatia e compaixão.
Mas como a pessoa chegou até mim?, pergunta o leitor desavisado.
Pois chegou através da figura de quem mais me aproximei em Holanda. Figura holandesa, obviamente.
Agora, o que meu cérebro subdesenvolvido não alcança, é o seguinte: o que a dita figura acha que eu posso fazer, do Brasil, depois de um ano e meio, que ela, holandesa em Holanda, não poderia fazer e melhor?
Porque: ela mora lá, conhece as pessoas de lá e, mais importante, fala o diabo da língua!
Eu penei como uma condenada, paguei sei lá quanto (merreca, mas isso de desperdiçar dinheiro também é contra a minha natureza) para entrar num site que arranja moradia para pobres desabrigados e não consegui entender nada dos anúncios nem me encaixar em nenhum deles. Vai lá tentar entender um site em holandês e depois a gente conversa.
É a mentalidade que me pasma.
O princípio, o conceito, faz sentido?
Isso que nós, aqui do sul, fazemos tanto, talvez colonizados que fomos, eles não sabem fazer.
É tão letra corrente que chega a ser irritante o fato de nos esforçarmos para receber bem qualquer pessoa que venha de fora; às vezes o clichê pode ser falso, como sempre pode acontecer com tudo, mas a gente vê isso acontecer. Vê as pessoas chegando aqui e se apaixonando, porque se integram. As pessoas que chegam de fora entram nos nossos círculos e fazem parte da nossa vida. Conhecem nossos amigos, partilham da nossa mesa, ouvem a nossa música. É um tal de levar para conhecer isso e aquilo que não tem fim. Pode até ser chato pra pessoa, porque fica todo mundo "mas ele já comeu tapioca? mas ele já comeu acarajé? mas ele foi numa roda de samba? mas ele blablablabla".
É um escrever e-mail para grupos de e-mail perguntando se alguém recebe um fulano que vem não sei de onde, só por uns dias, até ele se arranjar. E às vezes o fulano nem vem de longe, e às vezes é ingrato e fresco, como em histórias que já ouvi. Mas nós, que somos tão apáticos em tanta coisa, nos mobilizamos.
Talvez por complexo de inferioridade, talvez por memória histórica ou o que seja. Mas talvez, também, por sentirmos algum prazer em ajudar, mesmo que o auxílio se volte para o mais distante e não para quem está ao lado.
Detesto esse tipo de generalização, porque tem de ser falso. É claro que muita gente aqui é maltratada e a falta de solidariedade com o vizinho às vezes é gritante demais.
Mas as generalizações, por vezes, têm sentido. Revelam, ainda que através de um véu, realidades que podem ser sentidas, às vezes, na pele.
É só que não vejo sentido nisso. Se uma pessoa me escreve, dizendo que o primo do amigo do vizinho me indicou para ajudá-la a encontrar um lugar para ficar na minha cidade, eu não vou dizer-lhe para escrever para o outro lado do mundo, em busca do mesmo auxílio. Vou é colocar em ação, ainda que talvez inutilmente, a minha pequena rede social em busca de uma solução direta. O outro lado do mundo pode servir para partilhar experiências e aplacar esses medos tão comuns do desconhecido. Quem melhor para ajudar a aliviá-los do que um outro que passou por algo parecido?
Mas o meu lugar conheço eu.
De repente porque eu, sendo daqui, entendo o que significa ir para outros lugares a que não pertenço e que não me pertencem.
A figura pode ser que não.
E então, no meio da onda de irritação pelo que considero irracionalidade alheia, lembro do meu amigo e me pergunto. Penso que há aqui, com as merdas todas, dessas características que podem ser facilmente malvistas, mas que me agradam pelo calor.
Eu gosto do calor. Gosto de ser inverno e, com vento e o diabo, haver sol.
À figura, podia pensar que falta simpatia, esperteza, solidariedade.
Acho é que falta sol.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dia branco

Pensei que só em dar uma mudada aqui no visual. Talvez como desculpa, admito. Mas também é verdade que pensei. Mas gosto assim, gosto das cores e, se a gente for pensar bem, não é algo estúpido mudar as coisas só pra mudar, mesmo sem necessidade nem grande desejo?
Também é estúpido não mudar só porque não.
Não há, portanto, meio de escapar da estupidez, então que fique assim, mesmo. Menos trabalho e aquilo tudo.
Fui me dar conta hoje, às 7:30 da matina, que estou sobrevivendo há meses numa base de 6 horas de sono por dia. O que pra mim, como diriam os que me conhecem, é muito pouco. Primeiro, era o trabalho que me tirava o sono. Virava as noites e dormia as manhãs. As tardes é que não me faziam bem, então procurava vivê-las, ainda que zonzamente.
Depois era resolver isso e aquilo e fazer ainda aquilo outro.
Depois os barulhos.
E sempre as tardes.
A questão é que, em algum lugar no meio do caminho, perdi o sono pesado que me acompanhou a vida toda. A capacidade de, se acordada, virar para o lado e voltar para o outro lado.
Consigo, ainda, e muito, quando tenho algo a fazer. Acho que é o melhor sonífero, né? A obrigação? Ou então no fundo do meu ser bem-comportado há uma rebelde que quer resistir. Mas aí, se há obrigação, vamos lá: ao médico, à faculdade, à escola, a não sei.
Mas se não há a fazer como hoje às 7:30 da matina... cadê?
Foi-se.
Também logo ele volta e o truque é enganá-lo. Fingir que não percebemos que foi, que não o vemos rondar e deixá-lo dar o bote.
Como não sou boa atriz, venho por cá, fazendo hora.
De resto, bons dias.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

11:40

São 11:40 da manhã de quinta-feira, primeiro de julho de 2010.
Venho jogar os dados, sabendo que, às 11:41 eles vão me trair, mas não resisto.
É que agora, às 11:40, sou feliz. Mas mesmo, sem sombras, feliz-meio-dia-tropical.
Ontem passei um dia assim meio ansioso, esperando respostas, e respostas, e respostas. Nem foi terrível, só não foi prazeiroso.
Dormi muitíssimo pouco, pouquíssimo, quase nada - para os meus padrões de dez, doze horas diárias, ao menos.
Acordei para um dia de sol, a árvore da frente de casa já totalmente desfolhada e sem flores - todas caídas perante minha janela.
Um requício de contato, desses que podem haver. Risadas e maledicências, na medida.
Resposta.
Rosa de Hiroshima.
Ainda em jejum.
Resposta querida.
Como pode a gente às vezes ser tão besta que qualquer manifestação de afeto, por mínima que seja, nos coloca um sorriso na cara? Ou é besta ou só reconhece que vale um sorriso.
E junto do sol, do sono, da fome, da rosa, do encontro, me fazem feliz.
Se me perguntarem um dia se eu já fui feliz, talvez possa me lembrar de responder: Fui, às 11:40.