Aí eu fico pensando no tamanho da minha ignorância.
Tamanho gigantesco.
Cheguei eu ao teatro, perguntando se havia ainda ingressos, que não pude comprá-los antes - verdade que porque demoram a iniciar a venda.
O rapaz lá responde que sim, mas não onde eu quero comprar, porque o teatro está quase cheio.
Mas por que estaria cheio o teatro, quase sempre com muitos lugares vazios?
Porque a apresentação da noite é uma ópera e sim, inteira.
E que ópera é essa La Traviata cujo nome em algum momento eu ouvi, registrei que é uma coisa aí, sem fazer idéia do que é?
Pode a pessoa totalmente não saber?
Como pode a pessoa viver sem conhecer La Traviata?
Aí eu acho graça porque penso que tanta gente vive de esconder a própria ignorância, sente de fato vergonha, ou sei lá e eu, abismada, acho que a ignorância, impossível, com todas as maravilhas que desconheço e com tudo que eu sei e não vi e não ouvi e não vivi é o que me permite uma noite entrar no teatro pensando "ah, legal, a Dama das Camélias? Minha mãe gosta, é aquela história lá da cortesã e talz, né?"
Quanta inocência, né?
E se eu conhecesse, tivesse ouvido alguma vez num rádio, em um cd, numa televisão, não poderia sentar ali e ficar absolutamente encantada com aquilo tudo e aquela mulher e aquilo tudo.
E me lembro de quando, há tanto, tanto tempo atrás, eu decidi que não gostava de violino, mas de piano. Porque eu faço dessas coisas, decido assim uma coisa ou outra sem muito sentido e me atenho a essa crença por anos, talvez.
Depois, fez-se a luz e eu percebi como violinos são foda demais e eu "ok, gosto de violino, né".
Aí depois decidi que não gosto de coro e gente cantando, gosto mesmo só da orquestra lá. Porque, sei lá, estranho a gente cantando, me irrita demais.
Até que a vida me deu na cara um Mozart ou um Beethoven da vida e eu, de novo, na posição de ter que admitir a minha magistral burrice, porque minha nossa o que é ouvir uma Lacrimosa ali ao vivo, com o Neschling chamando o coro e chamando mais e mais; ou o que é a soprano enlouquecida no meio da Nona, ouvir a soprano no meio de todo o resto e como pode, meu deus?
Dessas horas em que a gente percebe mesmo como a humanidade, ou alguma humanidade, é essa coisa fantástica capaz de criar um negócio desses. Como pode?!
Mas aí ópera não, né?
Sei lá, acho que não cheguei a elaborar exatamente por que não, nem talvez tenha realmente dito que "não", mas também nunca fui lá.
Dentro da minha ignorância vivo assim, muitas vezes ao léu do puro acaso que pode - ou não - derrubar algo maravilhoso bem no meu colo.
E que ótimo se acontece e que indiferente se não acontece, porque eu não tenho como saber o que estou perdendo.
Isso da gente só poder saber o que sabe, que é das coisas mais ridículas a se aceitar na vida. Como pode a pessoa viver sem La Traviata? E como faz que a pessoa simplesmente não conhece?
Será que pior que desconhecer é conhecer mal?
É chegar ali já sabendo, mas sabendo mal?
É não se arrepiar num momento ou no outro, não sentir lágrimas enchendo os olhos, não experimentar essa plenitude, não ser preenchido por algo que mal compreendemos, que nos escapa, que está tão além da nossa medíocre capacidade de ver e ouvir e sentir e encher?
Eu daqui fico feliz de ter a sorte - e o destino - de estar ali naquele momento. De, naquele momento, ter a mais absoluta certeza de não querer estar em nenhum outro lugar do mundo.
Mas no meio do espetáculo, depois do intervalo, metade das pessoas foi embora.
Como que as pessoas podem simplesmente ir embora, no meio disso? Como podem não ficar ali encantadas e querer que dure para sempre e que comece de novo e de novo e ficar ali pra sempre? Eu já estou ali pra sempre, eu já nunca mais vou sair daquele teatro, das cadeiras vermelhas e do vestido cor-de-rosa e da Violeta e da Provenza e de todo o resto.
Eu já voltei para a segunda apresentação, inadvertidamente cumprindo um ciclo começado há muitos anos, em outra sala de concerto, em outra vida que eu nem tinha percebido que dá a volta agora.
Eu já saí cedo de casa e esperei na fila e fiquei mais três horas encantada.
Eu já voltei para casa e ouvi de novo e de novo e sabendo que não é a mesma coisa, como eu sabia ali nas cadeiras vermelhas, mas sabendo que o que há hoje é isso, o reflexo imperfeito e borrado, mas ainda em vermelho e cor-de-rosa, mas o reflexo que não é vazio porque eu estava lá, com esses ouvidos e esses olhos e esse corpo, meu único corpo, que foi tomado e se deixou tomar por uma beleza que esgota minha capacidade de dizer e vai além das palavras que eu conheço.
E foi uma pessoa que fez isso, né, ou várias pessoas, que fizeram lá atrás e fazem agora e a gente fica ali extasiado, apenas.
Eu já fixei em várias partes, como sou de fixar, e ouvir de novo e de novo e gostei do começo e do meio e do fim, do adeus e do libiamo e da giovinne e de Provenza e da traviata e de tudo, na verdade, mas agora, hoje esta noite, não consigo sair do coro cantando o horror.
Que maravilhoso o horror, com os violinos e o coro e a soprano e a ópera.