Se tem uma coisa - ok, entre muitas, mas uma - que eu detesto, é gente que cita livros que não leu.
Acho de um absurdo sem tamanho, de uma impostura, de uma canalhice sem fim.
Andei contando pra uns amigos o lance do "você tem que ser mais leve, como a insustentável leveza do ser"; inclusive de como uma amiga roubou a história e passava adiante como se tivesse sido com ela.
Mas não foi, foi comigo, e eu juro que não estava sob efeito de substância alguma que me faça ter entendido errado, as palavras foram mesmo essas. Exatamente essas. Quer dizer, isso se não considerarmos insanidade temporária, dessas que nos atacam sazonalmente, uma substância.
O fato é que detesto gente que cita livros que não leu. Não me refiro aqui a ler a citação, propriamente, que acho bem possível de as pessoas fazerem - embora não seja condição sine qua non pra uma galera sair por aí falando merda. Se encaixa na categoria citar livros que não se terminou de ler. Porque né? Pode demais ser que dali a cinco páginas, ou na penúltima página, o livro resolva te dar uma lambada e afinal aquela frase ali que você achou tão bonitinha na página dois é oposto da mensagem que ele traz ao final. Então eu acho importante isso de final, acho que é nele - se for em algum lugar - que a gente pode dizer alguma coisa sobre o que passou.
Mas há momentos na vida de uma pessoa em que... bem, é impossível chegar ao final. E, por não estar ainda lá, também é impossível saber por que é impossível chegar, já que a gente só entende as coisas no fim. Ai, as bolas de neve.
Aí eu, no meio desse drama, há milênios não termino um livro de literatura - o que é super estranho, porque desde que me entendo por gente nunca passei por seca literária. Começou tudo lá com a Turma da Mônica, depois foi a Coleção Vagalume, depois romances água-com-açúcar até chegar finalmente ao filé. Não que os outros gêneros tenham ficado de lado, porque não ficaram, mas eu alcancei, e não foi ontem, algo que se poderia talvez chamar, com algum esnobismo, de uma certa maturidade leitoral. Não no sentido de eu ler bem, ser exímia leitora, mas eu já visitei os grandes - mesmo que não os tenha entendido bem. E já visitei também outros menores e mais prazerosos. A questão é que eu nunca deixei de visitar. Nunca deixei de ir e seguir esses caminhos, desenhados por letras, guiada por palavras, nunca deixei de ir.
E agora não vou, não importa o quanto me esforce. Seca literária, pois não. Sei lá há quanto tempo não termino um livro. Tenho vários, vááários, começados, mas parece que acaba o combustível. Ou eu que mudo de rumo, ou o tempo mesmo que tá curto e ocupado por outras leituras, empenhado num engajamento recém-descoberto. Ou recém-apaixonado.
É só que eu comecei, mais uma vez, o grande sertão: veredas. Entrei numa onda de amor à terra, e aos campos gerais, e à fala do Guimarães, e larguei as traduções que tinha em mãos, todas recém-começadas e pensei "não, eu vou é por aqui". E eu sinceramente não acho que seja grande a chance de terminar dessa vez. Porque estou atolada, algo estressada, tenho zilhões de coisas pra fazer e pra ler e pra escrever e imagino, da página dois, que essa jornada tenha de ser empreendida em outras condições. Achei graça de notar o tanto de vezes em que ele diz que "viver é perigoso"; eu não tinha chegado aí ou se cheguei esqueci, mas entendi porque a galera que cita cita tanto isso.
Mas ia eu lendo e pouquíssimo depois da página dois, sem saber se vou chegar ao final, achando que não vou, esse cara tem a ousadia de me dizer da neblina. E eu acho de uma beleza, de uma dor, de uma verdade que rasga e sangra, não sei do que ele está falando, mas eu acho isso tudo e posso muito estar errada e me tornar alvo do meu próprio rancor, mas a neblina.
Não, eu não cito. Apenas comento.
Acho aqui alguma coisa que não tenho palavras para dizer; sinto aqui alguma coisa cujo nome desconheço.
Neblina. Não qualquer, minha. Vez em quando parece mesmo que a gente precisa é tomar posse das coisas. E sendo elas nossas... não sei se muda alguma coisa, acho que afinal não muda nada, de concreto, mas há conforto aí em algum lugar.
Exceto que neblina é o desconforto.
Páginas
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Reunião
Fui me dar conta assim algo inesperadamente de que, se vivesse numa sociedade que valoriza essas coisas, eu poderia estar numa daquelas festas de dez anos de formatura do colegial.
Como boa viciada em seriados que sou, devo confessar que já pensei nisso algumas vezes, ao longo da minha vida, mas realmente não percebi o momento chegar. Os dez anos sempre pareciam estar muito mais adiante, daqui a cinco anos, ou sete, ou nove, ou só ano que vem, talvez. Não sei se cheguei a pensar nisso nos idos de zero-nove, mas poderia ter pensado. E contrariando o hábito de não lembrar de data nenhuma na minha vida, esta se junta às (poucas) outras que eu sei. Colegial: noventa-e-oito-dois-mil.
E dois-mil foi há dez anos, né? E o final de dois-mil, quando eu terminava as últimas matérias, fechava notas e não ficava de recuperação foi mesmo pelo fim de dezembro. Depois viriam as férias, como desde então não sei fazer. Mais que isso eu não alcanço; tenho às vezes vislumbres do que foi aquele período, principalmente enquanto estava lidando diretamente com adolescentes, de me perguntar como eu fui, como poderia ter sido. Se fiz isso e aquilo e como reagiria a essa ou aquela situação, mas a verdade é que está tudo distante demais. Mesmo me lembrando de como era já não toco com as mãos, aquela garota não existe mais, como tantas outras que já se perderam e ainda se perderão. Quanto tempo será que a gente leva para entender e compreender e incorporar que a vida vai numa mão só? Sempre indo, em frente, e nunca voltar e o que fica pelo caminho forma a lembrança de uma paisagem que vai perdendo a nitidez. O tempo todo as coisas vão e será que a gente um dia deixa de tentar segurá-las com as mãos? E, deixando de tentar por um momento, será que vai continuar deixando no próximo?
Pois o fato é que toda a brincadeira do colégio vai esmorecendo e o que veio depois parece ter maior importância. A grandes decisões foram tomadas depois da escola, se é que a gente decide alguma coisa nessa vida. Como diria o Bernardo, então eu já era o que sou agora, bem pode ser que até melhor acabada, apesar da lapidação que o tempo trouxe.
Cresci, embora ainda falte muito chão para a vida adulta. Talvez hoje menos chão do que ontem, mas ainda.
De repente, se eu fosse outra, iria querer fazer um balanço do que passou por essas paragens desde então, mas não é do meu feitio enumerar as coisas que me acontecem. Nem as boas nem as más. Nem mesmo as ótimas.
Foram-se, então, dez anos. Número redondo e tudo.
Aqui hoje o lago é mais tranquilo.
Como boa viciada em seriados que sou, devo confessar que já pensei nisso algumas vezes, ao longo da minha vida, mas realmente não percebi o momento chegar. Os dez anos sempre pareciam estar muito mais adiante, daqui a cinco anos, ou sete, ou nove, ou só ano que vem, talvez. Não sei se cheguei a pensar nisso nos idos de zero-nove, mas poderia ter pensado. E contrariando o hábito de não lembrar de data nenhuma na minha vida, esta se junta às (poucas) outras que eu sei. Colegial: noventa-e-oito-dois-mil.
E dois-mil foi há dez anos, né? E o final de dois-mil, quando eu terminava as últimas matérias, fechava notas e não ficava de recuperação foi mesmo pelo fim de dezembro. Depois viriam as férias, como desde então não sei fazer. Mais que isso eu não alcanço; tenho às vezes vislumbres do que foi aquele período, principalmente enquanto estava lidando diretamente com adolescentes, de me perguntar como eu fui, como poderia ter sido. Se fiz isso e aquilo e como reagiria a essa ou aquela situação, mas a verdade é que está tudo distante demais. Mesmo me lembrando de como era já não toco com as mãos, aquela garota não existe mais, como tantas outras que já se perderam e ainda se perderão. Quanto tempo será que a gente leva para entender e compreender e incorporar que a vida vai numa mão só? Sempre indo, em frente, e nunca voltar e o que fica pelo caminho forma a lembrança de uma paisagem que vai perdendo a nitidez. O tempo todo as coisas vão e será que a gente um dia deixa de tentar segurá-las com as mãos? E, deixando de tentar por um momento, será que vai continuar deixando no próximo?
Pois o fato é que toda a brincadeira do colégio vai esmorecendo e o que veio depois parece ter maior importância. A grandes decisões foram tomadas depois da escola, se é que a gente decide alguma coisa nessa vida. Como diria o Bernardo, então eu já era o que sou agora, bem pode ser que até melhor acabada, apesar da lapidação que o tempo trouxe.
Cresci, embora ainda falte muito chão para a vida adulta. Talvez hoje menos chão do que ontem, mas ainda.
De repente, se eu fosse outra, iria querer fazer um balanço do que passou por essas paragens desde então, mas não é do meu feitio enumerar as coisas que me acontecem. Nem as boas nem as más. Nem mesmo as ótimas.
Foram-se, então, dez anos. Número redondo e tudo.
Aqui hoje o lago é mais tranquilo.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A con ti nu a ção
Tenho a impressão de que a gente vai ficando mais velho e mais doido.
Claro que eu sempre fui razoavelmente doida, mas tem umas coisas muito esquisitas, umas mudanças que não fazem muito sentido na vida da pessoa, se você for pensar bem. Eu, por exemplo, de uns tempos pra cá, mudei meu padrão de sono. Ou ele mudou para mim, sei lá, porque de fato não assimilei bem o lance. É que eu sempre tive um sono pesado, de seguir adiante com algum barulho e luz (não muito, que também sou filha de deus), super não me importava de ser acordada antes do tempo, porque virava e continuava a dormir na maior. Hoje já não, tenho aquele sono mais leve, que se despertado parte, se incomoda com tudo e toda aquela chatice que é meio de gente velha, mas não exclusivamente.
Tenho uma tia que diz, hoje mais mas há anos, que não dorme à noite. A verdade, ou o que eu vejo dela, é que ela de fato dorme, mas desse jeito leve e intermitente e dá para imaginar a cabeça dela funcionando e dizendo "eita, que você ainda não dormiu?" e aí ela capota mas logo acorda e a questão ainda é a mesma. Como se ela não se desse conta e aí a vida tem que ser uma merda, né?
Por outro lado, eu venho desenvolvendo a habilidade primorosa de dormir sentada. Em ônibus, principalmente, mas quando eu era adolescente me gabava de jamais ter adormecido num sofá, enquanto via televisão. Também dizia que não dormia lendo, coisa que hoje sabemos é uma total inverdade - ler aliás se tornou meu instrumento mais precioso na conciliação do descanso.
Nem sei por que resolvi escrever essa bagaça, eu queria mesmo era ter comentado o lance do Rio e o Júnior, coisa que talvez ainda faça, porque acho importante e bonito e sei lá.
De repente eu não falo por isso mesmo, toda a coisa do indizível e da beleza.
Isso de admirar alguém, né? Que importância da porra tem na nossa vida, tem na minha ao menos, poder olhar pro mundo e admirar uma pessoa e eu confesso ter algum medo de o encantamento, mais do que a paciência, vir em porção limitada e poder acabar de uma hora para outra para nunca mais.
Ai, os limites. As coisas que têm ou terão ou faremos de tudo para impedir de ter fim. Como se fosse terrível e pode muito ser, mas terrível é tudo nesse mundo velho de guerra.
Eu estou um tanto sem paciência, mas espero que o ano novo traga um novo estoque. Ou é mesmo pelo fim do ano, que mais uma vez voou e aconteceu tanta, tanta coisa, diferente de outros momentos da minha meio-curta-meio-longa vida.
Entrei numas esses dias de, durante uma conversa, afirmar que estou num momento de tranquilidade e, enquanto o dizia, me dava conta tanto da importância de ser uma verdade quanto da volatilidade da mesma. Todo o lance de ter defendido e terminado um trabalho e aquela angústia - não tem como escapar dela e olha que eu tentei - sobre o que fazer depois, mesmo quando o caminho está todo demarcado. Eu fiz um esforço tremendo, no começo do ano, para me preparar, fiz até uma lista das coisas a fazer quando terminasse e posso dizer com orgulho que alguns itens já foram riscados. Só que é um fim e não foi terrível, mas o desconhecido tem essa capacidade de nos deixar temerosos. E todo o processo que é desgastante chega uma hora que dá nos nervos e a gente se pergunta - ou se pergunta o tempo todo, só que algumas vezes dá pra ouvir - se é isso mesmo, se escolhemos certo, se estamos indo bem e tudo o mais.
E a gente responde - ou eu respondo - que não tem muito como saber, que é confiar e seguir adiante, porque o que mais a gente pode fazer?
Mas aí tem momentos, como naquele café, em que você olha para si e ao redor e diz: certo, acho que é isso aí. Muitíssimo por causa do curso maravilhoso que acabei de fazer, estupendo, fenomenal e tudo mais de adjetivo que se queira colocar, me sinto empolgada com as minhas escolhas, com o x que assinalei há quase dez anos num formulário de inscrição e que me trouxe até aqui. Sei não se a história tem moral, mas tem um comprometimento que é lindo de ver e sentir e participar. Eu gosto dele e ele combina comigo e me deixa à vontade para eu poder dizer que me sinto, sim, tranquila, mesmo sabendo que o caminho é longo e árduo, que o meu ano ainda não acabou e só vai terminar depois de muitas páginas, mas é isso aí.
Fixei mais uma vez no Lenine e adoro quando ele diz "amor a morte a continuação".
Claro que eu sempre fui razoavelmente doida, mas tem umas coisas muito esquisitas, umas mudanças que não fazem muito sentido na vida da pessoa, se você for pensar bem. Eu, por exemplo, de uns tempos pra cá, mudei meu padrão de sono. Ou ele mudou para mim, sei lá, porque de fato não assimilei bem o lance. É que eu sempre tive um sono pesado, de seguir adiante com algum barulho e luz (não muito, que também sou filha de deus), super não me importava de ser acordada antes do tempo, porque virava e continuava a dormir na maior. Hoje já não, tenho aquele sono mais leve, que se despertado parte, se incomoda com tudo e toda aquela chatice que é meio de gente velha, mas não exclusivamente.
Tenho uma tia que diz, hoje mais mas há anos, que não dorme à noite. A verdade, ou o que eu vejo dela, é que ela de fato dorme, mas desse jeito leve e intermitente e dá para imaginar a cabeça dela funcionando e dizendo "eita, que você ainda não dormiu?" e aí ela capota mas logo acorda e a questão ainda é a mesma. Como se ela não se desse conta e aí a vida tem que ser uma merda, né?
Por outro lado, eu venho desenvolvendo a habilidade primorosa de dormir sentada. Em ônibus, principalmente, mas quando eu era adolescente me gabava de jamais ter adormecido num sofá, enquanto via televisão. Também dizia que não dormia lendo, coisa que hoje sabemos é uma total inverdade - ler aliás se tornou meu instrumento mais precioso na conciliação do descanso.
Nem sei por que resolvi escrever essa bagaça, eu queria mesmo era ter comentado o lance do Rio e o Júnior, coisa que talvez ainda faça, porque acho importante e bonito e sei lá.
De repente eu não falo por isso mesmo, toda a coisa do indizível e da beleza.
Isso de admirar alguém, né? Que importância da porra tem na nossa vida, tem na minha ao menos, poder olhar pro mundo e admirar uma pessoa e eu confesso ter algum medo de o encantamento, mais do que a paciência, vir em porção limitada e poder acabar de uma hora para outra para nunca mais.
Ai, os limites. As coisas que têm ou terão ou faremos de tudo para impedir de ter fim. Como se fosse terrível e pode muito ser, mas terrível é tudo nesse mundo velho de guerra.
Eu estou um tanto sem paciência, mas espero que o ano novo traga um novo estoque. Ou é mesmo pelo fim do ano, que mais uma vez voou e aconteceu tanta, tanta coisa, diferente de outros momentos da minha meio-curta-meio-longa vida.
Entrei numas esses dias de, durante uma conversa, afirmar que estou num momento de tranquilidade e, enquanto o dizia, me dava conta tanto da importância de ser uma verdade quanto da volatilidade da mesma. Todo o lance de ter defendido e terminado um trabalho e aquela angústia - não tem como escapar dela e olha que eu tentei - sobre o que fazer depois, mesmo quando o caminho está todo demarcado. Eu fiz um esforço tremendo, no começo do ano, para me preparar, fiz até uma lista das coisas a fazer quando terminasse e posso dizer com orgulho que alguns itens já foram riscados. Só que é um fim e não foi terrível, mas o desconhecido tem essa capacidade de nos deixar temerosos. E todo o processo que é desgastante chega uma hora que dá nos nervos e a gente se pergunta - ou se pergunta o tempo todo, só que algumas vezes dá pra ouvir - se é isso mesmo, se escolhemos certo, se estamos indo bem e tudo o mais.
E a gente responde - ou eu respondo - que não tem muito como saber, que é confiar e seguir adiante, porque o que mais a gente pode fazer?
Mas aí tem momentos, como naquele café, em que você olha para si e ao redor e diz: certo, acho que é isso aí. Muitíssimo por causa do curso maravilhoso que acabei de fazer, estupendo, fenomenal e tudo mais de adjetivo que se queira colocar, me sinto empolgada com as minhas escolhas, com o x que assinalei há quase dez anos num formulário de inscrição e que me trouxe até aqui. Sei não se a história tem moral, mas tem um comprometimento que é lindo de ver e sentir e participar. Eu gosto dele e ele combina comigo e me deixa à vontade para eu poder dizer que me sinto, sim, tranquila, mesmo sabendo que o caminho é longo e árduo, que o meu ano ainda não acabou e só vai terminar depois de muitas páginas, mas é isso aí.
Fixei mais uma vez no Lenine e adoro quando ele diz "amor a morte a continuação".
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Não
Às vezes, até na maioria das vezes, acontece simplesmente da gente perder o momento, de ilimitadas maneiras; ou ele passa desapercebido, ou vem envolto em más horas, ou vem embalado em sono, fome, cansaço, vontade de fazer outra coisa, tantas as situações que fazem com que o percamos e, depois de ido, é questão central na vida saber se há volta.
Eu gosto muito de pensar em mim como uma pessoa gentil, muitas vezes não em relação àqueles que convivem comigo direta e cotidianamente, mas por oferecer um sorriso numa fila ou num ônibus cheio, por sempre pedir licença e dizer "obrigado" ao passar por uma multidão - coisa que me garante, apesar do tamanho, atravessar ajuntamentos consideráveis, com seguidos e repetidos "licencinha, por favor". E não deixo de me surpreender com o fato de nesse mundo tão hostil, em que as pessoas teoricamente estão envolvidas demais nas próprias vidas e fazem o que puderem para ferrar o outro, as pessoas abrirem espaço.
Tenho cá meu preconceito - que já se tornou conceito, mas sejamos politicamente corretos - com costumes de outras regiões em que as pessoas não têm essa delicadeza. Lembro de uma vez em que quase arrumei uma briga na rua, ao ser atropelada por um sujeito que andava com um saco enorme sobre os ombros, com o qual me atingiu em cheio, me fazendo dar uma pirueta. Até aí tudo bem, normal, mas o cara me vai embora sem nem olhar pra trás, pra ver se eu sobrevivi. Exageros à parte, mas não chega dá um calor no coração você esbarrar numa pessoa ao passar por ela e, ao virar para trás e pedir desculpas, ver que ela fez o mesmo, ou levantou a mão no mais simples dos gestos, mas que vem carregado de significados, de que sim você também é uma pessoa, que existe materialmente no mundo, que seu espaço foi invadido, mas sem más intenções, sem grandes consequências, só isso da gentileza?
Então eu sorrio muito, acho. Vez ou outra, numa esquina qualquer dessa vida, imagino (confesso que com alguma megalomania) que posso estar fazendo assim a mais leve das diferenças na vida de alguém. Nem por nada, só isso de a gente perceber muito levianamente que não está sozinho no mundo, que há por aí sorrisos - talvez meio como aquele cara que distribiu abraços de graça, com a plaquetinha e a gravação e tudo o mais.
Pois é, mas aí dia desses, eu no meio de uma situação de desafio, sendo requisitada por zilhões de pessoas e coisas ao mesmo tempo, tendo de lidar com vontades alheias que não deveriam ter nada a ver comigo, mas que a sociedade me impõe, me aparece uma pessoa com um singelo pedido, talvez num dos piores - não, com certeza no pior momento de sua curta vida, e o pedido nem era que eu lidasse com isso, ou ajudasse, ou fizesse nada. Só permitir, com esse poder sobrenatural que de repente me é atribuído, para ir ali, bem ali do lado, sair por um instante, sei lá fazer o que, sei lá que ajuda pode haver mas havia, a pessoa, uma criança, precisava sair e eu, no meio de todas as outras crianças, respondi automaticamente, com a face da autoridade, que ela esperasse. Nem nada grave, cinco ou dez minutos, e pode muito ser que eu não tenha sido obedecida, que ela saísse mesmo, sem eu ver e eu nem impediria nem faria retaliação, com ou sem pior momento da vida.
Tão aleatório isso do poder, né? Eu tento ao máximo dar aquela rejeitada, de não incorporar, ao menos totalmente, essa intromissão tão absoluta em vidas e corpos outros. Não por esse caminho, pelo menos.
É só que eu fiquei pensando que eu, que me considero tão gentil, poderia ter feito uma não-diferença naquele momento, num momento que importava, e não vi. Portanto, não fiz. Porque a vida é, ela, também o cúmulo da aleatoriedade, das coisas que percebemos ou não, cuja compreensão está ou não ao nosso alcance, da vontade que vem ou falta, e a roda gira.
Numa volta somos favorecidos para na próxima sairmos injustiçados. Ainda acredito que há aí um certo equilíbrio, talvez meio essa coisa de química mesmo que se entranhou em mim e não saiu mais. Talvez tanta coisa, que me tornam eu e tão contrária de mim.
É só que eu queria nem sorrir, queria nem saber, na verdade, queria nada, a não ser ter dito, tão sem importância, tão sem significado, sem ciência, mesmo só por dizer, queria ter dito "vai".
Eu gosto muito de pensar em mim como uma pessoa gentil, muitas vezes não em relação àqueles que convivem comigo direta e cotidianamente, mas por oferecer um sorriso numa fila ou num ônibus cheio, por sempre pedir licença e dizer "obrigado" ao passar por uma multidão - coisa que me garante, apesar do tamanho, atravessar ajuntamentos consideráveis, com seguidos e repetidos "licencinha, por favor". E não deixo de me surpreender com o fato de nesse mundo tão hostil, em que as pessoas teoricamente estão envolvidas demais nas próprias vidas e fazem o que puderem para ferrar o outro, as pessoas abrirem espaço.
Tenho cá meu preconceito - que já se tornou conceito, mas sejamos politicamente corretos - com costumes de outras regiões em que as pessoas não têm essa delicadeza. Lembro de uma vez em que quase arrumei uma briga na rua, ao ser atropelada por um sujeito que andava com um saco enorme sobre os ombros, com o qual me atingiu em cheio, me fazendo dar uma pirueta. Até aí tudo bem, normal, mas o cara me vai embora sem nem olhar pra trás, pra ver se eu sobrevivi. Exageros à parte, mas não chega dá um calor no coração você esbarrar numa pessoa ao passar por ela e, ao virar para trás e pedir desculpas, ver que ela fez o mesmo, ou levantou a mão no mais simples dos gestos, mas que vem carregado de significados, de que sim você também é uma pessoa, que existe materialmente no mundo, que seu espaço foi invadido, mas sem más intenções, sem grandes consequências, só isso da gentileza?
Então eu sorrio muito, acho. Vez ou outra, numa esquina qualquer dessa vida, imagino (confesso que com alguma megalomania) que posso estar fazendo assim a mais leve das diferenças na vida de alguém. Nem por nada, só isso de a gente perceber muito levianamente que não está sozinho no mundo, que há por aí sorrisos - talvez meio como aquele cara que distribiu abraços de graça, com a plaquetinha e a gravação e tudo o mais.
Pois é, mas aí dia desses, eu no meio de uma situação de desafio, sendo requisitada por zilhões de pessoas e coisas ao mesmo tempo, tendo de lidar com vontades alheias que não deveriam ter nada a ver comigo, mas que a sociedade me impõe, me aparece uma pessoa com um singelo pedido, talvez num dos piores - não, com certeza no pior momento de sua curta vida, e o pedido nem era que eu lidasse com isso, ou ajudasse, ou fizesse nada. Só permitir, com esse poder sobrenatural que de repente me é atribuído, para ir ali, bem ali do lado, sair por um instante, sei lá fazer o que, sei lá que ajuda pode haver mas havia, a pessoa, uma criança, precisava sair e eu, no meio de todas as outras crianças, respondi automaticamente, com a face da autoridade, que ela esperasse. Nem nada grave, cinco ou dez minutos, e pode muito ser que eu não tenha sido obedecida, que ela saísse mesmo, sem eu ver e eu nem impediria nem faria retaliação, com ou sem pior momento da vida.
Tão aleatório isso do poder, né? Eu tento ao máximo dar aquela rejeitada, de não incorporar, ao menos totalmente, essa intromissão tão absoluta em vidas e corpos outros. Não por esse caminho, pelo menos.
É só que eu fiquei pensando que eu, que me considero tão gentil, poderia ter feito uma não-diferença naquele momento, num momento que importava, e não vi. Portanto, não fiz. Porque a vida é, ela, também o cúmulo da aleatoriedade, das coisas que percebemos ou não, cuja compreensão está ou não ao nosso alcance, da vontade que vem ou falta, e a roda gira.
Numa volta somos favorecidos para na próxima sairmos injustiçados. Ainda acredito que há aí um certo equilíbrio, talvez meio essa coisa de química mesmo que se entranhou em mim e não saiu mais. Talvez tanta coisa, que me tornam eu e tão contrária de mim.
É só que eu queria nem sorrir, queria nem saber, na verdade, queria nada, a não ser ter dito, tão sem importância, tão sem significado, sem ciência, mesmo só por dizer, queria ter dito "vai".
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A outra
Fui assistir à Vênus Negra.
Já conhecia a história e ainda assim levei uma pedrada.
Nem sei avaliar o valor do filme, enquanto cinema, mesmo, até porque essa não é a minha praia. Impressionismo e talz, mas eu gostei desse lance do filme, e principalmente a personagem-título, não se explicar demais. Não sei se tem nisso uma intenção de isenção ou imparcialidade no modo de contar a história, como se ela falasse por si, mas prefiro mesmo a não-explicação. A gente não sabe direito por que as pessoas fazem o que fazem, como exatamente chegaram até ali, e isso soa muito história. O silêncio, tudo que não é dito e é impossível saber.
E é uma pedrada.
Eu conhecia a história, mas não me lembro de alguns detalhes que não sei se são acurados, mas eu pensava, à partir de um determinado momento, algo como "ok, né, agora deu, por favor morre porque essa vida não dá" e a coisa ainda ia ladeira abaixo, e ladeira abaixo, e ladeira abaixo.
Fiquei pensando nisso da morte, muito porque até escrevi sobre isso ali atrás, sobre como acho pobre essa solução para uma trama, mas, sem mudar de idéia, cheguei à conclusão de que às vezes a história acaba e, então, tem mesmo que acabar. Não como recurso narrativo preguiçoso, mas porque o que havia para contar era aquilo e chegou-se, de fato, ao final. E é insuportável.
Bem que me falaram que o filme não poupa nada - e eu fique pensando que ele tem ali um milímetro de espaço, o menor espaço possível, para alguma coisa perto de boa, que eu não sei se existiu, não sei se é impossível não existir, se é possível viver sem ao menos um milímetro de espaço, de algo que pareça bondade, ou solidariedade, ou gentileza, ou respeito, assim, meio de graça. Não sei se é exagero imaginar que isso seja um milímetro ou, ao contrário, é ilusório acreditar que exista mesmo.
Depois, no ônibus, fiquei pensando que essa mulher não é como eu, e tenho noção de como isso soa racista ou preconceituoso e mesmo escroto, apesar de não ser essa minha intenção, minha crença, meu raciocínio. Mas ela é outra, porque nossas experiências e vivências são absolutamente diferentes. Elementar, diria um desavisado - exceto que eu ainda não sei o que penso sobre esse lance de natureza humana e de que todos temos alguma coisa em comum. Tendo a acreditar, apesar de resistir - ou tentar resistir. Só que aparece ali uma vida que vai além da minha imaginação, que dirá da minha realidade. É impossível para mim imaginar passar por aquilo, e imaginar como ela passou por aquilo, como, como?! Então eu sofro como e por ela e, afinal, parecemos iguais. Humanos. Mulheres. Mas a minha vida não é aquilo, e digo isso sem arrogância, mas com alívio e algum desespero, porque a de ninguém devia ser. Ela devia ser como eu. Num mundo ideal. E deve mesmo haver mulheres, e homens, e crianças, como ela e não devia haver.
Fui ver a Vênus Hotentote no cinema. Tivesse sido em casa, teria tido uma síncope daquelas, mas não gosto de chorar (quanto mais me descabelar) em público, então respirei fundo, tomei uma água e, no esforço da contenção, somado às reações mesmo à história, tive alguma taquicardia.
Não faz diferença e é coisa de criança, mas não devia haver.
Já conhecia a história e ainda assim levei uma pedrada.
Nem sei avaliar o valor do filme, enquanto cinema, mesmo, até porque essa não é a minha praia. Impressionismo e talz, mas eu gostei desse lance do filme, e principalmente a personagem-título, não se explicar demais. Não sei se tem nisso uma intenção de isenção ou imparcialidade no modo de contar a história, como se ela falasse por si, mas prefiro mesmo a não-explicação. A gente não sabe direito por que as pessoas fazem o que fazem, como exatamente chegaram até ali, e isso soa muito história. O silêncio, tudo que não é dito e é impossível saber.
E é uma pedrada.
Eu conhecia a história, mas não me lembro de alguns detalhes que não sei se são acurados, mas eu pensava, à partir de um determinado momento, algo como "ok, né, agora deu, por favor morre porque essa vida não dá" e a coisa ainda ia ladeira abaixo, e ladeira abaixo, e ladeira abaixo.
Fiquei pensando nisso da morte, muito porque até escrevi sobre isso ali atrás, sobre como acho pobre essa solução para uma trama, mas, sem mudar de idéia, cheguei à conclusão de que às vezes a história acaba e, então, tem mesmo que acabar. Não como recurso narrativo preguiçoso, mas porque o que havia para contar era aquilo e chegou-se, de fato, ao final. E é insuportável.
Bem que me falaram que o filme não poupa nada - e eu fique pensando que ele tem ali um milímetro de espaço, o menor espaço possível, para alguma coisa perto de boa, que eu não sei se existiu, não sei se é impossível não existir, se é possível viver sem ao menos um milímetro de espaço, de algo que pareça bondade, ou solidariedade, ou gentileza, ou respeito, assim, meio de graça. Não sei se é exagero imaginar que isso seja um milímetro ou, ao contrário, é ilusório acreditar que exista mesmo.
Depois, no ônibus, fiquei pensando que essa mulher não é como eu, e tenho noção de como isso soa racista ou preconceituoso e mesmo escroto, apesar de não ser essa minha intenção, minha crença, meu raciocínio. Mas ela é outra, porque nossas experiências e vivências são absolutamente diferentes. Elementar, diria um desavisado - exceto que eu ainda não sei o que penso sobre esse lance de natureza humana e de que todos temos alguma coisa em comum. Tendo a acreditar, apesar de resistir - ou tentar resistir. Só que aparece ali uma vida que vai além da minha imaginação, que dirá da minha realidade. É impossível para mim imaginar passar por aquilo, e imaginar como ela passou por aquilo, como, como?! Então eu sofro como e por ela e, afinal, parecemos iguais. Humanos. Mulheres. Mas a minha vida não é aquilo, e digo isso sem arrogância, mas com alívio e algum desespero, porque a de ninguém devia ser. Ela devia ser como eu. Num mundo ideal. E deve mesmo haver mulheres, e homens, e crianças, como ela e não devia haver.
Fui ver a Vênus Hotentote no cinema. Tivesse sido em casa, teria tido uma síncope daquelas, mas não gosto de chorar (quanto mais me descabelar) em público, então respirei fundo, tomei uma água e, no esforço da contenção, somado às reações mesmo à história, tive alguma taquicardia.
Não faz diferença e é coisa de criança, mas não devia haver.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Mas eis que chega a roda viva...
Estava aqui lendo algumas notícias dos últimos dias, grande parte das quais não deu para acompanhar de perto devido à correria que me impus no feriado. Estou há dez dias praticamente só viajando, daqui prali, de lá pra cá, e acompanhando na internet a eleição, e os comentários da eleição, e comemorando a eleição e etc.
Fui ver agora o Roda Viva com o Zé Dirceu e achei que o povo foi muito escroto e ele muito bem comportado. Sei lá, isso de todos os lados se acharem com razão, mas acho que faz parte de uma lógica que me parece inquestionável - apesar de aparentemente não ser - isso de você ter um entrevistado que pode falar. Achei foi que ele se saiu bem demais e não visto a carapuça de radical ou fã.
Mas aí fui procurar outras entrevistas dele e tem as fotos de quando ele foi libertado sei lá em que ano, trocado pelo embaixador americano e etc. e eu fiquei pensando. Revi aqui agora a resposta da Dilma ao Agripino Maia e fiquei pensando.
Isso das fotos desse pessoal tão, tão jovem, mais novo do que eu!, e que morreu ao lutar contra a ditadura. E eles fazem um certo mea culpa, dizendo que talvez não tenham escolhido o caminho correto, apesar de defenderem ainda ter lutado do lado da justiça, liberdade e outros desses valores que nos são tão caros. Eu super concordo e não sei é por romantismo ou mania mas acho que eles escolheram lá o caminho que achavam melhor e o valor da decisão está aí. Depois da história contada é estranho dizer o que é certo e errado; no calor do momento e sem saber o que viria isso meio que não existe, né?
Eu pessoalmente não sei se teria coragem de fazer o que eles fizeram; não sei hoje, aos quase 28, imagina coitada de mim aos 19.
Mas aí a gente vai ver as fotos e ver as histórias, assim levianamente, mesmo, e bate uma tristeza por essas vidas perdidas. Aí alguém responde "ah, mas hoje em dia também tanto jovem morre de maneira tão violenta..." [nem vou entrar na discussão sobre o valor da idade, como se estivesse tudo bem a morte de adultos e velhos, porque obviamente eu não acho nem disse isso] e é claro que alguém tem razão, razão demais, mas... percebem a diferença? Uma coisa é um acidente de carro, ou envolvimento com drogas ou vítimas inocentes da violência urbana, ou tantas outras tragédias que podem acontecer a qualquer momento e trazer um pouco mais de desespero e feiúra ao mundo.
Mas essa juventude, essa beleza e força que acredita numa coisa e morre por ela... quer dizer, sei lá, de repente eu que sou tosca, mas o ter um ideal. Talvez o mais importante para me emocionar seja o fato de ser um ideal com que eu concordo, ao menos como ideal.
E a pessoa ir lá e acreditar naquilo e ser morta e não ter chegado à minha idade, ou ter passado muito pouco dela; e não esperar, como eu espero, por um futuro que ainda parece imenso, que parece maior, ainda, do que qualquer outra coisa, e não ansiar pelo tempo que passa, e pelas coisas que vêm e vão, não achar que um dia vão sentir uma tranquilidade que dizem vir com a idade, não achar que as coisas e a vida vão poder ser melhores aos trinta, ou aos quarenta, ou aos cinquenta. E tudo isso, ou nada disso, por acreditar. Não sei como não ser romântica a respeito.
Quase parece um desperdício. "A juventude" e tudo aquilo.
Mas não vejo como, inclusive acho de certa maneira um desrespeito, falar em desperdício quando se acredita.
Quantas pessoas será que têm a grandeza, ou a dignidade, de morrer pelo que acreditam?
Pode muito ser que para elas não faça a mínima diferença, porque depois que se foi, foda-se o caminho que te levou. Mas para quem fica... achar que vale a pena, sabe? O preço conhecido e pago.
E eu sou mesmo dessa geração que choraminga não ter por que lutar. Geração classe média mimada e, pior, preguiçosa. Porque tem coisa demais pra gente lutar por essas paragens, não fosse a acomodação, o conforto, a letargia. A água que não bate na bunda. É só que ela bate, a gente é que meio que se acostuma e finge que não tá sentindo nada, qual o pintinho da piada.
Eu sinceramente não sei do que vou poder sentir orgulho, daqui a trinta ou quarenta anos. De que vou poder encher a boca para dizer que não me arrependo.
Não sei o que, hoje, me faz sentir que vale a pena. Tenho pensado demais nessa coisa da gentileza e, apesar de achar importante, é só para mim e parece pouco demais.
Acho que talvez, sem querer fazer demagogia, a história possa, afinal, me salvar. Isso das vozes, fazê-las ouvir; tem aí um engajamento que nem sempre aparece em primeiro plano mas que movimenta. Fico feliz, nesse sentido, pelo lugar que tenho o privilégio de ocupar, junto das pessoas que tive a oportunidade de conhecer.
Ainda parece pouco, já há muito tempo parece pouco, e eu venho quebrando a cabeça para decidir por onde ir.
Considerando que, bem ou mal, nossa realidade é outra, chego a acreditar que a resposta virá, meio que só porque eu fiz a pergunta.
Enquanto isso eu penso.
Fui ver agora o Roda Viva com o Zé Dirceu e achei que o povo foi muito escroto e ele muito bem comportado. Sei lá, isso de todos os lados se acharem com razão, mas acho que faz parte de uma lógica que me parece inquestionável - apesar de aparentemente não ser - isso de você ter um entrevistado que pode falar. Achei foi que ele se saiu bem demais e não visto a carapuça de radical ou fã.
Mas aí fui procurar outras entrevistas dele e tem as fotos de quando ele foi libertado sei lá em que ano, trocado pelo embaixador americano e etc. e eu fiquei pensando. Revi aqui agora a resposta da Dilma ao Agripino Maia e fiquei pensando.
Isso das fotos desse pessoal tão, tão jovem, mais novo do que eu!, e que morreu ao lutar contra a ditadura. E eles fazem um certo mea culpa, dizendo que talvez não tenham escolhido o caminho correto, apesar de defenderem ainda ter lutado do lado da justiça, liberdade e outros desses valores que nos são tão caros. Eu super concordo e não sei é por romantismo ou mania mas acho que eles escolheram lá o caminho que achavam melhor e o valor da decisão está aí. Depois da história contada é estranho dizer o que é certo e errado; no calor do momento e sem saber o que viria isso meio que não existe, né?
Eu pessoalmente não sei se teria coragem de fazer o que eles fizeram; não sei hoje, aos quase 28, imagina coitada de mim aos 19.
Mas aí a gente vai ver as fotos e ver as histórias, assim levianamente, mesmo, e bate uma tristeza por essas vidas perdidas. Aí alguém responde "ah, mas hoje em dia também tanto jovem morre de maneira tão violenta..." [nem vou entrar na discussão sobre o valor da idade, como se estivesse tudo bem a morte de adultos e velhos, porque obviamente eu não acho nem disse isso] e é claro que alguém tem razão, razão demais, mas... percebem a diferença? Uma coisa é um acidente de carro, ou envolvimento com drogas ou vítimas inocentes da violência urbana, ou tantas outras tragédias que podem acontecer a qualquer momento e trazer um pouco mais de desespero e feiúra ao mundo.
Mas essa juventude, essa beleza e força que acredita numa coisa e morre por ela... quer dizer, sei lá, de repente eu que sou tosca, mas o ter um ideal. Talvez o mais importante para me emocionar seja o fato de ser um ideal com que eu concordo, ao menos como ideal.
E a pessoa ir lá e acreditar naquilo e ser morta e não ter chegado à minha idade, ou ter passado muito pouco dela; e não esperar, como eu espero, por um futuro que ainda parece imenso, que parece maior, ainda, do que qualquer outra coisa, e não ansiar pelo tempo que passa, e pelas coisas que vêm e vão, não achar que um dia vão sentir uma tranquilidade que dizem vir com a idade, não achar que as coisas e a vida vão poder ser melhores aos trinta, ou aos quarenta, ou aos cinquenta. E tudo isso, ou nada disso, por acreditar. Não sei como não ser romântica a respeito.
Quase parece um desperdício. "A juventude" e tudo aquilo.
Mas não vejo como, inclusive acho de certa maneira um desrespeito, falar em desperdício quando se acredita.
Quantas pessoas será que têm a grandeza, ou a dignidade, de morrer pelo que acreditam?
Pode muito ser que para elas não faça a mínima diferença, porque depois que se foi, foda-se o caminho que te levou. Mas para quem fica... achar que vale a pena, sabe? O preço conhecido e pago.
E eu sou mesmo dessa geração que choraminga não ter por que lutar. Geração classe média mimada e, pior, preguiçosa. Porque tem coisa demais pra gente lutar por essas paragens, não fosse a acomodação, o conforto, a letargia. A água que não bate na bunda. É só que ela bate, a gente é que meio que se acostuma e finge que não tá sentindo nada, qual o pintinho da piada.
Eu sinceramente não sei do que vou poder sentir orgulho, daqui a trinta ou quarenta anos. De que vou poder encher a boca para dizer que não me arrependo.
Não sei o que, hoje, me faz sentir que vale a pena. Tenho pensado demais nessa coisa da gentileza e, apesar de achar importante, é só para mim e parece pouco demais.
Acho que talvez, sem querer fazer demagogia, a história possa, afinal, me salvar. Isso das vozes, fazê-las ouvir; tem aí um engajamento que nem sempre aparece em primeiro plano mas que movimenta. Fico feliz, nesse sentido, pelo lugar que tenho o privilégio de ocupar, junto das pessoas que tive a oportunidade de conhecer.
Ainda parece pouco, já há muito tempo parece pouco, e eu venho quebrando a cabeça para decidir por onde ir.
Considerando que, bem ou mal, nossa realidade é outra, chego a acreditar que a resposta virá, meio que só porque eu fiz a pergunta.
Enquanto isso eu penso.
domingo, 24 de outubro de 2010
Cristiane Santos
Acho bonito e me emociona. Eu acredito nessa causa, para mim o que está em questão é exatamente isso, que chamam de esmola, assistencialismo e pode, afinal, significar simplesmente parar de doer. Ou diminuir a dor, cujo tamanho não posso imaginar.
De fato, não compreendo aqueles que discordam.
Eu não só compro, como acho bonito e me emociono.
De fato, não compreendo aqueles que discordam.
Eu não só compro, como acho bonito e me emociono.
sábado, 23 de outubro de 2010
5:32
Ok, ok, Maria Helena.
Ninguém vai concordar comigo, nem ver aí o que eu vejo.
Mas eu vejo, vejo e não consigo parar de ver.
A coisa é toda linda e a bata de cola é um lance assim quase assustador, na verdade, mas o que me gamou nesse vídeo são ali os dois segundos de jogo de corpo, que me impressionaram.
Toda a técnica é maravilhosa, mas para além do todo, esses dois segundos para mim se destacam como definição de arte.
Primeiro me apaixonei pela encurvadinha que ela dá, exatamente aos 5:32. A guitarra dá uma nota mais grave que parece cair exatamente nas costas da bailaora. É tão sutil, a mudança na postura, e tão perfeita. Acho que é isso que o comum das pessoas não consegue fazer: dar expressão ao movimento.
E a música é muito bonita.
Enfim, um desses detalhes em que fico como viciada; vejo inúmeras vezes e parece que falta em mim capacidade para absorver a beleza do corpo que se curva. Como se precisasse de mais eu para alcançar, como se aquele segundo, 5:32, não fosse suficiente, como se devesse ser maior, talvez eterno.
E tão pessoal, como essas coisas que só a nós faz sentido, que em outros olhos passarão em branco, que não despertarão paixões outras, mas ainda assim...
Em mim desperta.
E me desperta.
Concha Jareño, no silencio:
Ninguém vai concordar comigo, nem ver aí o que eu vejo.
Mas eu vejo, vejo e não consigo parar de ver.
A coisa é toda linda e a bata de cola é um lance assim quase assustador, na verdade, mas o que me gamou nesse vídeo são ali os dois segundos de jogo de corpo, que me impressionaram.
Toda a técnica é maravilhosa, mas para além do todo, esses dois segundos para mim se destacam como definição de arte.
Primeiro me apaixonei pela encurvadinha que ela dá, exatamente aos 5:32. A guitarra dá uma nota mais grave que parece cair exatamente nas costas da bailaora. É tão sutil, a mudança na postura, e tão perfeita. Acho que é isso que o comum das pessoas não consegue fazer: dar expressão ao movimento.
E a música é muito bonita.
Enfim, um desses detalhes em que fico como viciada; vejo inúmeras vezes e parece que falta em mim capacidade para absorver a beleza do corpo que se curva. Como se precisasse de mais eu para alcançar, como se aquele segundo, 5:32, não fosse suficiente, como se devesse ser maior, talvez eterno.
E tão pessoal, como essas coisas que só a nós faz sentido, que em outros olhos passarão em branco, que não despertarão paixões outras, mas ainda assim...
Em mim desperta.
E me desperta.
Concha Jareño, no silencio:
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Silencio
Uma das coisas de que não gosto em mim é o fato de eu não ser uma pessoa que sabe tudo sobre alguma coisa. Também é uma coisa de que gosto, isso lá é verdade mas agora não vem ao caso.
Sabem essas pessoas que sabem tudo sobre alguma coisa? Qualquer coisa? Ok, talvez não tudo, mas muito, muitão?
Eu tenho aqui a capacidade de gostar demais, mas dificilmente sou motivada por essa paixão desenfreada que te faz conhecer muitíssimo profundamente alguma coisa. Eu normalmente gosto de gostar assim, algo na superfície, gostar daquilo por aquilo que é, não pelo tanto de coisa que tem em volta.
Aí fico pensando que talvez seja uma mentira, isso de eu não ter paixão desenfreada, mas me refiro especificamente a esse tipo de paixão. O outro tipo, que eu sinto, me torna capaz, por exemplo, de ouvir a mesma música trocentas vezs, ou repetir o mesmo pedacinho da música, ou ler o mesmo livro, ou o mesmo trecho - muitas vezes sem saber muito sobre o cara que compôs, cantou ou escreveu. Gosto dessa.. impessoalidade artística, se se pode chamar assim. Gosto de gostar da arte e pronto.
Talvez seja uma paixão mais burra, mas não é menos paixão por isso.
E depois há coisas que eu prefiro não saber, que são menos importantes mas que, implicante que sou, me fazem gostar menos.
Então eu agora recebi da minha professora uma das duas músicas cujas coreografias estamos aprendando, nas aulas de flamenco. Uma, a que está mais avançada, já me fisgou há tempos. Tem uns sapateados completamente malucos, quase impossíveis de decorar porque fazem pouco sentido, mas que são deliciosos de fazer, depois de pegarmos o jeito. Ou de tentar fazer - acho que talvez seja um dos aspectos mais valiosos de se cultivar na vida, e não sei exatamente de onde ele vem, isso de você sentir um prazer enorme em tentar. Não ficar desmotivado por não conseguir, não se frustrar ao errar a mesma coisa pela décima vez, mas sentir só mais vontade de continuar tentando, e continuar tentando. Eu confesso que, apesar de muitas vezes me acabar, não sinto cansaço nas aulas. Sinto que minhas pernas já não respondem, não obedecem diligentemente os comandos que lhe são passados. Acontece então um fenômeno interessante, porque o corpo fica, obviamente, fatigado, mas não eu - e eu sou, para além do corpo e somado a ele. Eu sou tantas e elas se contradizem, e são todas eu e fazem sentido.
Mas recebi agora da minha professora a outra música, que eu comecei a aprender praí há dois ou três anos, mas fui viajar, mudei de turma, comecei de novo a aprender e nada de sair nada. Talvez porque eu estivesse tão enlevada pela outra que não me sobrou gosto para dar a essa.
Até que chegamos a uma parte chamada "silencio".
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, eu saberia tudo de flamenco. Saberia então explicar que respiro é esse, pausa enlevada numa melodia agitada, em que a guitarra parece perder a força e se transformar em carícia. Com uma leveza e uma delicadeza que embalam, dão vontade de ficar ali para sempre, como num novo dia, um novo ar, como num lugar diferente e melhor.
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, poderia pesquisar na internet e ficar horas vendo exemplos, lendo explicações, tentando assimilar informações. E depois saberia explicar, tintim por tintim, como é, de onde veio, por onde vai.
Se fosse poeta, saberia contar.
Como não sou, me contento, por essa noite, em ouvir,
E chama silencio, o que me parece ser próximo de perfeito.
Sabem essas pessoas que sabem tudo sobre alguma coisa? Qualquer coisa? Ok, talvez não tudo, mas muito, muitão?
Eu tenho aqui a capacidade de gostar demais, mas dificilmente sou motivada por essa paixão desenfreada que te faz conhecer muitíssimo profundamente alguma coisa. Eu normalmente gosto de gostar assim, algo na superfície, gostar daquilo por aquilo que é, não pelo tanto de coisa que tem em volta.
Aí fico pensando que talvez seja uma mentira, isso de eu não ter paixão desenfreada, mas me refiro especificamente a esse tipo de paixão. O outro tipo, que eu sinto, me torna capaz, por exemplo, de ouvir a mesma música trocentas vezs, ou repetir o mesmo pedacinho da música, ou ler o mesmo livro, ou o mesmo trecho - muitas vezes sem saber muito sobre o cara que compôs, cantou ou escreveu. Gosto dessa.. impessoalidade artística, se se pode chamar assim. Gosto de gostar da arte e pronto.
Talvez seja uma paixão mais burra, mas não é menos paixão por isso.
E depois há coisas que eu prefiro não saber, que são menos importantes mas que, implicante que sou, me fazem gostar menos.
Então eu agora recebi da minha professora uma das duas músicas cujas coreografias estamos aprendando, nas aulas de flamenco. Uma, a que está mais avançada, já me fisgou há tempos. Tem uns sapateados completamente malucos, quase impossíveis de decorar porque fazem pouco sentido, mas que são deliciosos de fazer, depois de pegarmos o jeito. Ou de tentar fazer - acho que talvez seja um dos aspectos mais valiosos de se cultivar na vida, e não sei exatamente de onde ele vem, isso de você sentir um prazer enorme em tentar. Não ficar desmotivado por não conseguir, não se frustrar ao errar a mesma coisa pela décima vez, mas sentir só mais vontade de continuar tentando, e continuar tentando. Eu confesso que, apesar de muitas vezes me acabar, não sinto cansaço nas aulas. Sinto que minhas pernas já não respondem, não obedecem diligentemente os comandos que lhe são passados. Acontece então um fenômeno interessante, porque o corpo fica, obviamente, fatigado, mas não eu - e eu sou, para além do corpo e somado a ele. Eu sou tantas e elas se contradizem, e são todas eu e fazem sentido.
Mas recebi agora da minha professora a outra música, que eu comecei a aprender praí há dois ou três anos, mas fui viajar, mudei de turma, comecei de novo a aprender e nada de sair nada. Talvez porque eu estivesse tão enlevada pela outra que não me sobrou gosto para dar a essa.
Até que chegamos a uma parte chamada "silencio".
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, eu saberia tudo de flamenco. Saberia então explicar que respiro é esse, pausa enlevada numa melodia agitada, em que a guitarra parece perder a força e se transformar em carícia. Com uma leveza e uma delicadeza que embalam, dão vontade de ficar ali para sempre, como num novo dia, um novo ar, como num lugar diferente e melhor.
Se eu fosse dessas pessoas que sabem tudo de alguma coisa, poderia pesquisar na internet e ficar horas vendo exemplos, lendo explicações, tentando assimilar informações. E depois saberia explicar, tintim por tintim, como é, de onde veio, por onde vai.
Se fosse poeta, saberia contar.
Como não sou, me contento, por essa noite, em ouvir,
E chama silencio, o que me parece ser próximo de perfeito.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Dilma
O lance é que a coisa tá estourada e a internet tá pegando fogo.
Eu que já afirmei tantas vezes ir contra a maré, não ter facebook nem twitter, quase me curvo às modernidades para conseguir acompanhar - e entender - a putaria que virou essa eleição.
Nem entendo muito de política, minha memória é falha demais para conseguir reter o mundo de informações necessários para tal compreensão. Ou eu que sou falha, mesmo, e disperso minha atenção num monte de bobeiras que não muda em nada a vida de ninguém.
É só que isso muda, né?
A de muita gente.
Tenho sentido falta, nos últimos tempos, de um tantão desse tipo de coisas, que mudam, que eu conheço e discuto superficialmente demais. Talvez seja a mudança de status pesando, talvez seja a idade chegando e exigindo de mim maior comprometimento, ou alinhamento, ou coerência, ou sei lá o que que adultos pretensamente têm e eu ainda tenho de alcançar.
De repente, comecei a me incomodar com esse meu descompromisso, a falta de tomada de posição - muitas vezes motivada pelo tédio. E a preguiça. Não tenho mesmo saco para um monte gigantesco de coisas que rodam por aí, mas há que se ter para algumas, né? Nem que seja entre amigos. E amigavelmente.
Tenho lido tanta coisa tão bacana, nos últimos dias. Tão melhor do que eu poderia dizer.
Mas aí resolvi fazer alguma coisa, do tamanho das minhas possibilidades, como responder às notícias estapafúrdias que ainda conseguem me chegar, apesar do isolamento.
Sem a menor pretensão de convencer ninguém, até porque moscas e aranhas não contam como voto válido. Podia reproduzier textos super articulados e esclarecedores, ou tentar eu explicar alguma coisa, mas esse não é o objetivo, aqui e agora.
É só dizer, mesmo, marcar, tal como fazemos na urna.
E vir dizer que eu voto.
Eu que já afirmei tantas vezes ir contra a maré, não ter facebook nem twitter, quase me curvo às modernidades para conseguir acompanhar - e entender - a putaria que virou essa eleição.
Nem entendo muito de política, minha memória é falha demais para conseguir reter o mundo de informações necessários para tal compreensão. Ou eu que sou falha, mesmo, e disperso minha atenção num monte de bobeiras que não muda em nada a vida de ninguém.
É só que isso muda, né?
A de muita gente.
Tenho sentido falta, nos últimos tempos, de um tantão desse tipo de coisas, que mudam, que eu conheço e discuto superficialmente demais. Talvez seja a mudança de status pesando, talvez seja a idade chegando e exigindo de mim maior comprometimento, ou alinhamento, ou coerência, ou sei lá o que que adultos pretensamente têm e eu ainda tenho de alcançar.
De repente, comecei a me incomodar com esse meu descompromisso, a falta de tomada de posição - muitas vezes motivada pelo tédio. E a preguiça. Não tenho mesmo saco para um monte gigantesco de coisas que rodam por aí, mas há que se ter para algumas, né? Nem que seja entre amigos. E amigavelmente.
Tenho lido tanta coisa tão bacana, nos últimos dias. Tão melhor do que eu poderia dizer.
Mas aí resolvi fazer alguma coisa, do tamanho das minhas possibilidades, como responder às notícias estapafúrdias que ainda conseguem me chegar, apesar do isolamento.
Sem a menor pretensão de convencer ninguém, até porque moscas e aranhas não contam como voto válido. Podia reproduzier textos super articulados e esclarecedores, ou tentar eu explicar alguma coisa, mas esse não é o objetivo, aqui e agora.
É só dizer, mesmo, marcar, tal como fazemos na urna.
E vir dizer que eu voto.
O problema é o meio
Isso porque o Zeca nem é meu amor maior do momento.
Ele, o que é, é de Casa Amarela.
É só que eu meio que decidi, porque tenho de trabalhar e não quero muito (ou porque meu processo é esse mesmo, de um passo para frente e uma quadrilha toda ao redor), mas decidi resolver aqui uns assuntos pendentes, respostas deixadas para momentos mais... não sei, propícios, calmos, claros, ou só posteriores.
Tem graça o fato de meus últimos meses terem sido recheados por esses reencontros que causam alguma estranheza e sei lá mais o quê. Às vezes saudades, noutras expectativas, ou só lembranças, ou só carinho, ou nada. Não sei direito e me sinto meio bêbada.
Mas lembrei do Zeca cantando ao Odair, em que ele fala da felicidade e das cruzes e crises, e eu gosto do jeito como ele fala aquilo de a felicidade vir quando a gente menos espera, e "ela vem. Vai, vem, vai, vem, vai-vem-vai-vem-vai, vem, vai, vem, vai. Vem. Vai." Sei lá, gosto do ritmo, gosto da voz, gosto do que ele diz, gosto dele.
E é tão isso a vida, né? Vai e vem e vai. E vem. E vai. E quando será que termina? Mas só termina quando acaba, quem é que diz isso?, e a gente não sabe nunca quando é.
Ai, o futuro, que gosta de brincar de esconder e fica deixando rastros, sem nunca ser alcançado.
O futuro que não existe, mas a gente gosta de inventar que sim, de repente numas de deixar para fazer nele o que deveríamos estar fazendo agora.
É só que isso da resposta... tem horas que parece um vazio a ser preenchido, mas depois... não sei, acho que a verdade é que não me conformo, ou melhor, não consigo sempre aceitar isso da vida ser essa desconhecida; das pessoas serem assim inalcançáveis e de a gente também não conseguir se chegar. Faz sentido, será?
Sinto agora uma coisa sem nome. Será que não tem ou eu apenas ignoro?
É algo assim: não é tristeza, também não é alegria, tem um quê de tédio e dor nas costas, uma parcela de sono, mas também de dormir em excesso, não é vazio, mas não é cheio, não dói, não coça, não faz cócegas, não aperta e não explode, mas ainda não é vazio, não desespera, não é solitário, é assim, isso tudo e não sei mais o quê.
Como será que chama?
Ok, volto então ao trabalho esperando com ele me livrar de outra coisa que sinto e cujo nome conheço bem demais. Começa com cul-, e termina com -pa.
Ele, o que é, é de Casa Amarela.
É só que eu meio que decidi, porque tenho de trabalhar e não quero muito (ou porque meu processo é esse mesmo, de um passo para frente e uma quadrilha toda ao redor), mas decidi resolver aqui uns assuntos pendentes, respostas deixadas para momentos mais... não sei, propícios, calmos, claros, ou só posteriores.
Tem graça o fato de meus últimos meses terem sido recheados por esses reencontros que causam alguma estranheza e sei lá mais o quê. Às vezes saudades, noutras expectativas, ou só lembranças, ou só carinho, ou nada. Não sei direito e me sinto meio bêbada.
Mas lembrei do Zeca cantando ao Odair, em que ele fala da felicidade e das cruzes e crises, e eu gosto do jeito como ele fala aquilo de a felicidade vir quando a gente menos espera, e "ela vem. Vai, vem, vai, vem, vai-vem-vai-vem-vai, vem, vai, vem, vai. Vem. Vai." Sei lá, gosto do ritmo, gosto da voz, gosto do que ele diz, gosto dele.
E é tão isso a vida, né? Vai e vem e vai. E vem. E vai. E quando será que termina? Mas só termina quando acaba, quem é que diz isso?, e a gente não sabe nunca quando é.
Ai, o futuro, que gosta de brincar de esconder e fica deixando rastros, sem nunca ser alcançado.
O futuro que não existe, mas a gente gosta de inventar que sim, de repente numas de deixar para fazer nele o que deveríamos estar fazendo agora.
É só que isso da resposta... tem horas que parece um vazio a ser preenchido, mas depois... não sei, acho que a verdade é que não me conformo, ou melhor, não consigo sempre aceitar isso da vida ser essa desconhecida; das pessoas serem assim inalcançáveis e de a gente também não conseguir se chegar. Faz sentido, será?
Sinto agora uma coisa sem nome. Será que não tem ou eu apenas ignoro?
É algo assim: não é tristeza, também não é alegria, tem um quê de tédio e dor nas costas, uma parcela de sono, mas também de dormir em excesso, não é vazio, mas não é cheio, não dói, não coça, não faz cócegas, não aperta e não explode, mas ainda não é vazio, não desespera, não é solitário, é assim, isso tudo e não sei mais o quê.
Como será que chama?
Ok, volto então ao trabalho esperando com ele me livrar de outra coisa que sinto e cujo nome conheço bem demais. Começa com cul-, e termina com -pa.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Ao vento
Fui recentemente advertida (no melhor sentido da palavra) por ter sumido dessas errâncias. A verdade é que entre chorinhos, cachaças e gripe tenho mesmo andado sem muita vontade de escrever. E há o medo do Serra, mas isso não vem ao caso.
O que importa é que fico ouvindo esse amoreco do Zeca dizendo que, se pudesse, dava embora o sotaque dele, e o penacho de brincante, e acho tão querido.
Vejo é muita importância nisso de ser querido. Na possibilidade de um ser humano demonstrar, por qualquer meio que seja, essa qualidade inestimável – sublime, né? – do bem-querer. Sempre me dizem que chamar uma pessoa de fofa implica dizer que ela é meio feiosa ou, em resumo, pouco atraente. De repente isso até lá é verdade para o comum das pessoas; eu como sou esquisita me apaixono fácil por isso do cuidado. Gosto muito de demonstrações de força, mas não acho nem de perto, nem de longe, que ela é incompatível com delicadeza.
Acho, portanto, querido, e me toca.
Afe, estou fazendo uma coisa mega estranha – tenho até preguiça de explicar, mas é o seguinte: com o computador desligado, a cama recém-arrumada, lençóis deliciosamente limpos e cobertores macios, senti alguma vontade de escrever, mas não quis ligar a parafernália toda e decidi escrever à mão. Também porque é uma coisa que vivo dizendo a mim mesma que vou fazer, numas de me preparar para um dia afinal fazer um diário de viagem. Mas o lance é que não curto escrever balançando o lápis, assim, desenhando letrinha por letrinha. Ou gosto mais da idéia que da realidade. Não pouco pelo fato de, má desenhista que sou, as letras saírem todas garranchosas e praticamente ininteligíveis. E ainda tenho essa mania de separar as palavras, aí ninguém entende nada mesmo – inclusive eu. Mas achei que valia o exercício, então há alguma chance de eu depois, amanhã ou depois de amanhã, transmitir esses pensamentos soltos para a ordem dos caracteres estilizados.
De todo jeito, eu não cacei papel e lápis para dizer só isso. É que eu me dei conta – paro e explico: me agrada demais essa expressão, “dar-se conta”, porque parece refletir o processo mesmo de tomada de consciência, de perceber de fato alguma coisa que já se sabia, mas que ainda não tinha entrado, como se o volume da coisa conhecida passasse de um murmuro de vento, ou um sussurro à distância, para um som estrondoso, acompanhado às vezes de uma bela sacudidela nos ombros, quiçá até tapa na cara, que nos revela aquela verdade já conhecida, mas da qual ainda não nos déramos conta.
E o que eu descobri é aquele clichezão, clichê-rei, de que... resumindo, nós não temos tempo. Penso sempre demais nisso, permito-me pensar na minha própria mortalidade e, talvez mais importante, na daqueles que me são queridos, imaginando que o medo despertado por essa consciência possa servir de estímulo à valorização constante da vida e das relações que desenvolvemos ao longo dela.
Ainda assim, caio na armadilha de perceber relações desgastadas, cheias de ressentimento e condenação e desrespeito, e pensar que vou ter tempo no futuro para resolvê-las. Como se o tempo fosse, em si, solução mágica para alguma coisa, como se ele mudasse sozinho qualquer situação, sem exigir dos envolvidos um baita comprometimento e esforço.
Mas de repente, vendo um filme idiota, sou tomada pelo desconforto despertado pelo pensamento: e se fulano morrer amanhã? Será que eu sobreviveria à culpa dos gritos e caras viradas, da falta de carinho e cuidado – esse valor que me é tão caro, mas que em determinadas situações tenho tanta facilidade em negligenciar?
E tem toda a coisa, e o peso, dos títulos que as pessoas incorporam, pelo lugar mesmo que ocupam, e que acabam se misturando inescapavelmente às próprias pessoas.
Talvez fosse possível sobreviver à pessoa, mas não ao título. E tudo pode acabar tão rápido e mal...
Tive recentemente a oportunidade de reagir infantilmente a uma circunstância banal, e meio que me justifiquei dizendo que de repente eu tinha feito alguém pensar sobre essas besteiras cotidianas, que cometemos tão levianamente. Dar-se conta. Quando voltei ao (quase, sempre quase!) pleno uso da minha razão, me dei eu conta de que isso meio que não existe. Da gente despertar as pessoas. Elas acordam e dormem conforme sua vontade, ou capacidade, ou necessidade – ou qualquer outro motivador que agora me escapa.
Então nem tenho intenção de abrir os olhos de ninguém – até porque sei que não há tanta gente assim cujos olhos eu poderia alcançar e de qualquer modo já meio desisti da idéia de mudar o mundo e tudo aquilo. De novo, venho só contar para o vento algumas reflexões baratas, talvez porque ao colocá-las sobre esse fundo ocre eu vou me construindo e me conhecendo e me mostrando. Isso do que a gente é, né? Isso e o contrário, verdade e mentira e talz.
Posso acrescentar ainda que resolvi, por hoje, aquele desconforto, muito simplesmente na verdade, através da gentileza – e do cultivo dos mesmos dilemas, numas de não sair do estado de alerta.
O vento... me lembra minha mãe cantando a música dele, eu tão criança, música que meio amava, meio odiava, não sei bem por quê. Ela diz algo como “vento que balança a folha do coqueiro, vento que (levanta) as ondas do mar, vento que passeia pela praia, me traz notícias de lá...”
Minha mãe inventou, ou melhor, adaptou, músicas para mim e para a irmã, que cantava quando éramos pequenas. A minha era mais famosinha (pero no mucho) e eu não revelo nem sob tortura – o que minha irmã costumava fazer comigo, tortura, sabendo que eu não gostava. Ensinava geral e puxava o coro, apreciando minha cara de ódio e síncope.
Essa do vento não era de ninguém, nem minha nem da irmã, a mãe só cantava sei lá por que, vinda sei lá de onde.
Não é engraçado que hoje eu durma mesmo sob o som do vento nos coqueiros? – ok, palmeiras, mas a idéia é praticamente a mesma.
Mas hoje minha mãe não canta.
O que importa é que fico ouvindo esse amoreco do Zeca dizendo que, se pudesse, dava embora o sotaque dele, e o penacho de brincante, e acho tão querido.
Vejo é muita importância nisso de ser querido. Na possibilidade de um ser humano demonstrar, por qualquer meio que seja, essa qualidade inestimável – sublime, né? – do bem-querer. Sempre me dizem que chamar uma pessoa de fofa implica dizer que ela é meio feiosa ou, em resumo, pouco atraente. De repente isso até lá é verdade para o comum das pessoas; eu como sou esquisita me apaixono fácil por isso do cuidado. Gosto muito de demonstrações de força, mas não acho nem de perto, nem de longe, que ela é incompatível com delicadeza.
Acho, portanto, querido, e me toca.
Afe, estou fazendo uma coisa mega estranha – tenho até preguiça de explicar, mas é o seguinte: com o computador desligado, a cama recém-arrumada, lençóis deliciosamente limpos e cobertores macios, senti alguma vontade de escrever, mas não quis ligar a parafernália toda e decidi escrever à mão. Também porque é uma coisa que vivo dizendo a mim mesma que vou fazer, numas de me preparar para um dia afinal fazer um diário de viagem. Mas o lance é que não curto escrever balançando o lápis, assim, desenhando letrinha por letrinha. Ou gosto mais da idéia que da realidade. Não pouco pelo fato de, má desenhista que sou, as letras saírem todas garranchosas e praticamente ininteligíveis. E ainda tenho essa mania de separar as palavras, aí ninguém entende nada mesmo – inclusive eu. Mas achei que valia o exercício, então há alguma chance de eu depois, amanhã ou depois de amanhã, transmitir esses pensamentos soltos para a ordem dos caracteres estilizados.
De todo jeito, eu não cacei papel e lápis para dizer só isso. É que eu me dei conta – paro e explico: me agrada demais essa expressão, “dar-se conta”, porque parece refletir o processo mesmo de tomada de consciência, de perceber de fato alguma coisa que já se sabia, mas que ainda não tinha entrado, como se o volume da coisa conhecida passasse de um murmuro de vento, ou um sussurro à distância, para um som estrondoso, acompanhado às vezes de uma bela sacudidela nos ombros, quiçá até tapa na cara, que nos revela aquela verdade já conhecida, mas da qual ainda não nos déramos conta.
E o que eu descobri é aquele clichezão, clichê-rei, de que... resumindo, nós não temos tempo. Penso sempre demais nisso, permito-me pensar na minha própria mortalidade e, talvez mais importante, na daqueles que me são queridos, imaginando que o medo despertado por essa consciência possa servir de estímulo à valorização constante da vida e das relações que desenvolvemos ao longo dela.
Ainda assim, caio na armadilha de perceber relações desgastadas, cheias de ressentimento e condenação e desrespeito, e pensar que vou ter tempo no futuro para resolvê-las. Como se o tempo fosse, em si, solução mágica para alguma coisa, como se ele mudasse sozinho qualquer situação, sem exigir dos envolvidos um baita comprometimento e esforço.
Mas de repente, vendo um filme idiota, sou tomada pelo desconforto despertado pelo pensamento: e se fulano morrer amanhã? Será que eu sobreviveria à culpa dos gritos e caras viradas, da falta de carinho e cuidado – esse valor que me é tão caro, mas que em determinadas situações tenho tanta facilidade em negligenciar?
E tem toda a coisa, e o peso, dos títulos que as pessoas incorporam, pelo lugar mesmo que ocupam, e que acabam se misturando inescapavelmente às próprias pessoas.
Talvez fosse possível sobreviver à pessoa, mas não ao título. E tudo pode acabar tão rápido e mal...
Tive recentemente a oportunidade de reagir infantilmente a uma circunstância banal, e meio que me justifiquei dizendo que de repente eu tinha feito alguém pensar sobre essas besteiras cotidianas, que cometemos tão levianamente. Dar-se conta. Quando voltei ao (quase, sempre quase!) pleno uso da minha razão, me dei eu conta de que isso meio que não existe. Da gente despertar as pessoas. Elas acordam e dormem conforme sua vontade, ou capacidade, ou necessidade – ou qualquer outro motivador que agora me escapa.
Então nem tenho intenção de abrir os olhos de ninguém – até porque sei que não há tanta gente assim cujos olhos eu poderia alcançar e de qualquer modo já meio desisti da idéia de mudar o mundo e tudo aquilo. De novo, venho só contar para o vento algumas reflexões baratas, talvez porque ao colocá-las sobre esse fundo ocre eu vou me construindo e me conhecendo e me mostrando. Isso do que a gente é, né? Isso e o contrário, verdade e mentira e talz.
Posso acrescentar ainda que resolvi, por hoje, aquele desconforto, muito simplesmente na verdade, através da gentileza – e do cultivo dos mesmos dilemas, numas de não sair do estado de alerta.
O vento... me lembra minha mãe cantando a música dele, eu tão criança, música que meio amava, meio odiava, não sei bem por quê. Ela diz algo como “vento que balança a folha do coqueiro, vento que (levanta) as ondas do mar, vento que passeia pela praia, me traz notícias de lá...”
Minha mãe inventou, ou melhor, adaptou, músicas para mim e para a irmã, que cantava quando éramos pequenas. A minha era mais famosinha (pero no mucho) e eu não revelo nem sob tortura – o que minha irmã costumava fazer comigo, tortura, sabendo que eu não gostava. Ensinava geral e puxava o coro, apreciando minha cara de ódio e síncope.
Essa do vento não era de ninguém, nem minha nem da irmã, a mãe só cantava sei lá por que, vinda sei lá de onde.
Não é engraçado que hoje eu durma mesmo sob o som do vento nos coqueiros? – ok, palmeiras, mas a idéia é praticamente a mesma.
Mas hoje minha mãe não canta.
sábado, 18 de setembro de 2010
Resposta
Não sei, sabe, Lô?
Acho tanta graça nessa forma que encontrei de falar como se eu soubesse alguma coisa, qualquer coisa, sobre a vida. Mais graça tem porque, enquanto falo como se soubesse, eu mesma me desmascaro, como se uma eu-flutuante olhasse para baixo e dissesse "você é uma idiota!", entende?
Talvez seja uma definição de burrice isso de, reconhecendo a própria ignorância, a pessoa insistir em opinar. Reconheço essa evidência com alguma humildade, suficiente apenas para admiti-la, não para me calar.
O x da questão, para mim, é que ainda não descobri que vida-de-verdade é essa que posso ter. Talvez eu seja apenas criança, talvez minhas cortinas não tenham ainda sido abertas e meu show esteja atrasado, mas talvez, ou provavelmente, a vida seja só isso mesmo que há por aí, que eu conheço hoje e sempre. Inventei de acreditar que, pra mim, de-verdade não é lá muito diferente, para além da aparência, de de-mentira.
Vivo nesse mundo de ficção que às vezes são outros que fazem, noutras sou eu mesma que crio.
Como se soubesse, afirmo que o mais importante nessa nossa brincadeira é fazer de-verdade o que quer que se esteja fazendo, percebe? Pode ser assistir a um filme bobo, pode ser ter uma conversa maravilhosa, pode ser um sabor, pode ser uma lágrima, com sorte alguma risada, com muita sorte um segundo em que tudo faz sentido, em que parecemos estar onde deveríamos estar, pode ser uma idiotice, mas se for de-verdade, pra mim, vale a pena.
Não me arrependo da emoção que me desperta ouvir uma história; mesmo quando ela não tem nada a ver comigo pode acontecer de eu também estar ali e naqueles minutos ou horas descobrir alguma coisa sobre mim, ou pensar em algo que nunca tinha me tocado, ou dar só uma gargalhada meio culpada por uma panaquice qualquer. Ou posso imaginar, enlevada, o que poderia ser se a gente não fosse tão humano e ferrado. Sabe, daquela beleza impossível? Ou daquela outra, inventada, que é a única maneira de nos fazer ver a que existe? É um céu velho onde as estrelas recomeçam - então sou completa e por nada de-verdade.
E a gente precisa, ou eu que sou criança e não conheço a verdade preciso de me apagar, talvez com excessiva constância. Preciso porque talvez não consiga ainda ser o tempo todo, talvez precise ainda me acostumar comigo e com meu espaço e aprender a ocupá-lo, para poder então desprezar uma fuga que me seja oferecida. O problema, o maior problema, quem sabe o único, é que fugindo ainda sou eu e vou sempre ser. Né? Portanto a fuga é irremediável ilusão.
Mas me inquieta mais isso, da vida-de-verdade. Você pode ter usado em outro sentido, mas o próprio conceito, mesmo, como se houvesse ali fora te esperando alguma grande aventura, como se fosse possível alcançá-la e vivê-la e depois relatá-la e depois ainda começar uma nova aventura e tudo de novo.
Eu acredito, talvez muito ingenuamente, que a aventura é só isso mesmo, está aqui e sou eu e é você, não importa o que estejamos fazendo.
A gente sempre vive-de-verdade, porque não há como viver-de-mentira se a verdade é que ninguém conhece a verdade e nos é impossível escapar de nós mesmos.
A dificuldade, eu intuo, é termos a coragem de responder "presente" ao invés de nos escondermos debaixo da mesa quando somos chamados.
Acho tanta graça nessa forma que encontrei de falar como se eu soubesse alguma coisa, qualquer coisa, sobre a vida. Mais graça tem porque, enquanto falo como se soubesse, eu mesma me desmascaro, como se uma eu-flutuante olhasse para baixo e dissesse "você é uma idiota!", entende?
Talvez seja uma definição de burrice isso de, reconhecendo a própria ignorância, a pessoa insistir em opinar. Reconheço essa evidência com alguma humildade, suficiente apenas para admiti-la, não para me calar.
O x da questão, para mim, é que ainda não descobri que vida-de-verdade é essa que posso ter. Talvez eu seja apenas criança, talvez minhas cortinas não tenham ainda sido abertas e meu show esteja atrasado, mas talvez, ou provavelmente, a vida seja só isso mesmo que há por aí, que eu conheço hoje e sempre. Inventei de acreditar que, pra mim, de-verdade não é lá muito diferente, para além da aparência, de de-mentira.
Vivo nesse mundo de ficção que às vezes são outros que fazem, noutras sou eu mesma que crio.
Como se soubesse, afirmo que o mais importante nessa nossa brincadeira é fazer de-verdade o que quer que se esteja fazendo, percebe? Pode ser assistir a um filme bobo, pode ser ter uma conversa maravilhosa, pode ser um sabor, pode ser uma lágrima, com sorte alguma risada, com muita sorte um segundo em que tudo faz sentido, em que parecemos estar onde deveríamos estar, pode ser uma idiotice, mas se for de-verdade, pra mim, vale a pena.
Não me arrependo da emoção que me desperta ouvir uma história; mesmo quando ela não tem nada a ver comigo pode acontecer de eu também estar ali e naqueles minutos ou horas descobrir alguma coisa sobre mim, ou pensar em algo que nunca tinha me tocado, ou dar só uma gargalhada meio culpada por uma panaquice qualquer. Ou posso imaginar, enlevada, o que poderia ser se a gente não fosse tão humano e ferrado. Sabe, daquela beleza impossível? Ou daquela outra, inventada, que é a única maneira de nos fazer ver a que existe? É um céu velho onde as estrelas recomeçam - então sou completa e por nada de-verdade.
E a gente precisa, ou eu que sou criança e não conheço a verdade preciso de me apagar, talvez com excessiva constância. Preciso porque talvez não consiga ainda ser o tempo todo, talvez precise ainda me acostumar comigo e com meu espaço e aprender a ocupá-lo, para poder então desprezar uma fuga que me seja oferecida. O problema, o maior problema, quem sabe o único, é que fugindo ainda sou eu e vou sempre ser. Né? Portanto a fuga é irremediável ilusão.
Mas me inquieta mais isso, da vida-de-verdade. Você pode ter usado em outro sentido, mas o próprio conceito, mesmo, como se houvesse ali fora te esperando alguma grande aventura, como se fosse possível alcançá-la e vivê-la e depois relatá-la e depois ainda começar uma nova aventura e tudo de novo.
Eu acredito, talvez muito ingenuamente, que a aventura é só isso mesmo, está aqui e sou eu e é você, não importa o que estejamos fazendo.
A gente sempre vive-de-verdade, porque não há como viver-de-mentira se a verdade é que ninguém conhece a verdade e nos é impossível escapar de nós mesmos.
A dificuldade, eu intuo, é termos a coragem de responder "presente" ao invés de nos escondermos debaixo da mesa quando somos chamados.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O bonde do dom
Tava aqui vendo uma filmagem adaptada do Dom Casmurro nessa beleza que é o Canal Brasil. Assim, quase sem querer, porque tenho tentado me manter num estado de só fazer o que tem um sentido muito claro na minha vida, numas de não perder tempo demais com coisas que não valem a pena. E me cansei de ver uma merda qualquer e depois ser assolada pela impressão desesperadora de que perdi duas horas da minha vida numa besteira sem tamanho, da qual não sobrou nem um meio sorriso pra eu poder fingir que compensou. Nem queria assistir, portanto, mas fiquei curiosa.
Aí toda a história do filme entra e se encaixa num tanto de coisas em que eu ando pensando e fico achando que posso contar.
Vale avisar que, indo totalmente contra meu estilo, há spoilers adiante.
Acho que a questão principal é que fiquei encanada com essa história de nego chegar e matar um personagem. Tão meio... não sei. Tenho um pouco a impressão - que pode ser totalmente absurda, admito, e ter honrosas exceções - de que as pessoas meio que não sabem o que fazer com ele e ponto, vão lá e matam. Quem que tava falando isso das novelas?, de que o bandido - e normalmente a bandida - tem sempre que morrer no último capítulo, como se não houvesse redenção possível, ou qualquer punição terrena não fosse suficiente. Quer dizer, ninguém vai preso para sempre em novela, né? Ou talvez seja aquele lance de que a história das pessoas/personagens tem de acabar quando acaba a história. Meio pleonástico, mas dá para entender o raciocínio? A última cena foi gravada, o último ponto colocado então meio que acabou tudo mesmo, sem mais nada a dizer tanto faz viver feliz para sempre ou terminar a sete palmos.
Ou então de que não há no mundo lugar para aquele fulano. Simplesmente não há e ele tem de morrer; só que eu sou daquelas que não aceita nada bem esse tipo de idéia e fica sempre achando que há que se dar um jeito, porque sou apegada às coisas e sempre acho que posso ter tudo e que pra tudo há um jeito. Muito simples e talz, só ir lá e "dar um jeito".
No final das contas, porém, a verdade é que qualquer história de qualquer pessoa termina em morte, né não? Isso das coisas óbvias, mas o lance todo é que a história das pessoas a gente nunca sabe quando terminou, até terminar. Não pode a gente chegar lá e decidir colocar um ponto final e resolver o assunto (ou até pode, mas aí o sentido é totalmente outro), porque a gente nunca sabe quanto tempo tem ainda antes de o filme acabar. A vida com suas reviravoltas - penso no Kundera falando da falta de ensaio.
Mas não sei, talvez eu esteja só sendo muito chata, mas me parece algo pobre isso de ir matando o povo no último minuto. Sei lá, mata no meio, como uma personagem importantíssima cujo nome não vou dizer porque esse spoiler é muita falta de sacanagem.
Ou, como bem salientou um amigo meu, faz que nem o doido do Salinger, que me inventa de criar e matar o Seymour de primeira e depois passa a vida tentando consertar a cagada. Ou sei lá se consertar, e sei lá se ele matou o Seymour antes de nascer o Seymour, mas me parece uma idéia atraente. Mata no começo e depois se mata para tentar explicar. O Seymour eu super não entendo, como ninguém mais da família maluca dele. Tentei ler o lance lá do acampamento, mas o Seymour de 5 (7?) anos é demais para mim. Ainda assim, curto o lance todo do peixe-banana e etc..
Olho para minha estante e todos os grandes que vejo não mataram ninguém na última página. Mais uma vez admito que posso estar no maior barco furado e morder a língua em menos de cinco segundos, mas a impressão que tenho agora é essa.
Nem o Dom Casmurro, se bem me lembro, não termina assim. E o imenso do Brás, que morre antes de começar? Não um escritor defunto, mas um defunto escritor, não é assim?
De todo jeito, isso de simplificar me parece... barato. E pobre. E pouco... caleidoscópico. E não aquele quebra-cabeça invocado e às vezes chato que a gente meio que sofre para montar e que é mais parecido com a vida do que a imagem estourada com a luz tropical. O mistério, e a sombra, o desconhecido, o inalcançável e a dúvida, a incerteza. Não sei, estou numa onda meio tsunâmica de querer complicar tudo cada vez mais e mais e quando parece que sobra um pedacinho de mundo no lugar a gente vai lá e sacode ele. Assim, agramaticalmente, mesmo. Sacode ele todo, todinho.
Quem vê pensa. Que eu sou qualquer coisa além de uma garota muito da certinha.
Fiquei foi com vontade, vendo o filme, de mergulhar no mar, numa dessas tardes tão quentes que tem feito. Mergulhar e esquentar no sol e, depois, me agasalhar e esperar a noite chegar, com tudo que é promessa que só a noite traz. Sinto algo que parece um ímpeto de aproveitar o fim-de-semana, de descer, aproveitar para dirigir, e mergulhar. Como se eu tivesse fim-de-semana, ou semana; como se minha vida, dessa garota tão ordeira, não fosse um mundo em que tudo é possível. Como se eu tivesse patrão e ponto - e salário - para me impedir de fazer o que dá na telha.
Só que nada é possível, não agora, e minha rebeldia e meus impulsos e meu caos são mais pra dentro que pra fora.
Quase sinto tristeza pela prisão que lhes imponho, mas só quase, o fato é que a gente gosta assim.
A gente acha que vale muito o turbilhão interno, num exterior de aparente calma, a gente acha que tem aí uma idéia de verdade e pureza e não sei mais o quê que agrada. A gente gosta de ter as coisas meio em silêncio e segredo, como se assim fossem mais fortes, como se assim fossem porque são, não porque a gente quer mostrar. A gente quer mostrar, tanto que vem alardear, mas uma que é para ninguém, duas que, alardeando, é ainda segredo.
O coração selvagem.
Aí toda a história do filme entra e se encaixa num tanto de coisas em que eu ando pensando e fico achando que posso contar.
Vale avisar que, indo totalmente contra meu estilo, há spoilers adiante.
Acho que a questão principal é que fiquei encanada com essa história de nego chegar e matar um personagem. Tão meio... não sei. Tenho um pouco a impressão - que pode ser totalmente absurda, admito, e ter honrosas exceções - de que as pessoas meio que não sabem o que fazer com ele e ponto, vão lá e matam. Quem que tava falando isso das novelas?, de que o bandido - e normalmente a bandida - tem sempre que morrer no último capítulo, como se não houvesse redenção possível, ou qualquer punição terrena não fosse suficiente. Quer dizer, ninguém vai preso para sempre em novela, né? Ou talvez seja aquele lance de que a história das pessoas/personagens tem de acabar quando acaba a história. Meio pleonástico, mas dá para entender o raciocínio? A última cena foi gravada, o último ponto colocado então meio que acabou tudo mesmo, sem mais nada a dizer tanto faz viver feliz para sempre ou terminar a sete palmos.
Ou então de que não há no mundo lugar para aquele fulano. Simplesmente não há e ele tem de morrer; só que eu sou daquelas que não aceita nada bem esse tipo de idéia e fica sempre achando que há que se dar um jeito, porque sou apegada às coisas e sempre acho que posso ter tudo e que pra tudo há um jeito. Muito simples e talz, só ir lá e "dar um jeito".
No final das contas, porém, a verdade é que qualquer história de qualquer pessoa termina em morte, né não? Isso das coisas óbvias, mas o lance todo é que a história das pessoas a gente nunca sabe quando terminou, até terminar. Não pode a gente chegar lá e decidir colocar um ponto final e resolver o assunto (ou até pode, mas aí o sentido é totalmente outro), porque a gente nunca sabe quanto tempo tem ainda antes de o filme acabar. A vida com suas reviravoltas - penso no Kundera falando da falta de ensaio.
Mas não sei, talvez eu esteja só sendo muito chata, mas me parece algo pobre isso de ir matando o povo no último minuto. Sei lá, mata no meio, como uma personagem importantíssima cujo nome não vou dizer porque esse spoiler é muita falta de sacanagem.
Ou, como bem salientou um amigo meu, faz que nem o doido do Salinger, que me inventa de criar e matar o Seymour de primeira e depois passa a vida tentando consertar a cagada. Ou sei lá se consertar, e sei lá se ele matou o Seymour antes de nascer o Seymour, mas me parece uma idéia atraente. Mata no começo e depois se mata para tentar explicar. O Seymour eu super não entendo, como ninguém mais da família maluca dele. Tentei ler o lance lá do acampamento, mas o Seymour de 5 (7?) anos é demais para mim. Ainda assim, curto o lance todo do peixe-banana e etc..
Olho para minha estante e todos os grandes que vejo não mataram ninguém na última página. Mais uma vez admito que posso estar no maior barco furado e morder a língua em menos de cinco segundos, mas a impressão que tenho agora é essa.
Nem o Dom Casmurro, se bem me lembro, não termina assim. E o imenso do Brás, que morre antes de começar? Não um escritor defunto, mas um defunto escritor, não é assim?
De todo jeito, isso de simplificar me parece... barato. E pobre. E pouco... caleidoscópico. E não aquele quebra-cabeça invocado e às vezes chato que a gente meio que sofre para montar e que é mais parecido com a vida do que a imagem estourada com a luz tropical. O mistério, e a sombra, o desconhecido, o inalcançável e a dúvida, a incerteza. Não sei, estou numa onda meio tsunâmica de querer complicar tudo cada vez mais e mais e quando parece que sobra um pedacinho de mundo no lugar a gente vai lá e sacode ele. Assim, agramaticalmente, mesmo. Sacode ele todo, todinho.
Quem vê pensa. Que eu sou qualquer coisa além de uma garota muito da certinha.
Fiquei foi com vontade, vendo o filme, de mergulhar no mar, numa dessas tardes tão quentes que tem feito. Mergulhar e esquentar no sol e, depois, me agasalhar e esperar a noite chegar, com tudo que é promessa que só a noite traz. Sinto algo que parece um ímpeto de aproveitar o fim-de-semana, de descer, aproveitar para dirigir, e mergulhar. Como se eu tivesse fim-de-semana, ou semana; como se minha vida, dessa garota tão ordeira, não fosse um mundo em que tudo é possível. Como se eu tivesse patrão e ponto - e salário - para me impedir de fazer o que dá na telha.
Só que nada é possível, não agora, e minha rebeldia e meus impulsos e meu caos são mais pra dentro que pra fora.
Quase sinto tristeza pela prisão que lhes imponho, mas só quase, o fato é que a gente gosta assim.
A gente acha que vale muito o turbilhão interno, num exterior de aparente calma, a gente acha que tem aí uma idéia de verdade e pureza e não sei mais o quê que agrada. A gente gosta de ter as coisas meio em silêncio e segredo, como se assim fossem mais fortes, como se assim fossem porque são, não porque a gente quer mostrar. A gente quer mostrar, tanto que vem alardear, mas uma que é para ninguém, duas que, alardeando, é ainda segredo.
O coração selvagem.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Escolinha
Tava lá a sobrinha brincando no cantinho dela - porque ela tem, de fato, um cantinho, com mesa e cadeira e estante cheia de livro e brinquedo e badulaques mil. Cabelo preso por ela mesma, aquela postura de dar inveja, ficava mudando as coisas de lugar, de uma mesa para a outra e eu olhando, tentando entender a brincadeira.
Uma que tudo pra ela é brincar; se acabou de chegar da escola tem que brincar antes de comer ou tomar banho ou fazer a lição; se ainda não foi para a escola, tem de brincar antes de ir, porque vai demorar a voltar; se acabou de acordar, tem de brincar porque talvez depois saia e assim por diante.
Pergunto então do que ela brinca e ela responde:
- De escolinha. Quer brincar?
E eu numas de obviedade digo que não.
Eu que gostava tanto de brincar de escolinha - como imagino que toda criança.
Todo o lance da imaginação infantil, né, de reproduzir o mundo que elas conhecem e ver ali, na sala da casa uma sala de aula, e nas bonecas alunos, e nela a professora e tudo o mais. A gente já dificilmente consegue ver as coisas assim; depois de um tempo por aqui cansamos de reproduzir o que conhecemos, acho, e começamos mais a imaginar o que gostaríamos de conhecer. Não sei se faz sentido, mas foi o que eu pensei.
Além do mais, carrego comigo - talvez impressionantes - vinte e sete anos de escolinha, portanto não vejo mais tanta graça no processo.
Mas a sobrinha lá vê e muita. É um estado de espírito também, isso de ver graça, porque ela vê em tudo, da comida ao banho ao passeio à hora de dormir. De ouvir uma música e sair dançando, de ver um papel e sair pintando, a vida é uma festa.
Diz mamãe que nem eu nem a irmã éramos assim, mas não sei. Éramos, com certeza, mais assim do que poderíamos ser hoje e é difícil a gente não lamentar, nem que seja um pouco, a seriedade que toma conta da vida e nos impede cotidianamente de festejar.
Mas em algum momento o adulto tem que interferir, de um jeito ou de outro, e eu, como não fiz minha lição-de-casa, sou obrigada a me pôr de castigo.
Sem jantar...
Uma que tudo pra ela é brincar; se acabou de chegar da escola tem que brincar antes de comer ou tomar banho ou fazer a lição; se ainda não foi para a escola, tem de brincar antes de ir, porque vai demorar a voltar; se acabou de acordar, tem de brincar porque talvez depois saia e assim por diante.
Pergunto então do que ela brinca e ela responde:
- De escolinha. Quer brincar?
E eu numas de obviedade digo que não.
Eu que gostava tanto de brincar de escolinha - como imagino que toda criança.
Todo o lance da imaginação infantil, né, de reproduzir o mundo que elas conhecem e ver ali, na sala da casa uma sala de aula, e nas bonecas alunos, e nela a professora e tudo o mais. A gente já dificilmente consegue ver as coisas assim; depois de um tempo por aqui cansamos de reproduzir o que conhecemos, acho, e começamos mais a imaginar o que gostaríamos de conhecer. Não sei se faz sentido, mas foi o que eu pensei.
Além do mais, carrego comigo - talvez impressionantes - vinte e sete anos de escolinha, portanto não vejo mais tanta graça no processo.
Mas a sobrinha lá vê e muita. É um estado de espírito também, isso de ver graça, porque ela vê em tudo, da comida ao banho ao passeio à hora de dormir. De ouvir uma música e sair dançando, de ver um papel e sair pintando, a vida é uma festa.
Diz mamãe que nem eu nem a irmã éramos assim, mas não sei. Éramos, com certeza, mais assim do que poderíamos ser hoje e é difícil a gente não lamentar, nem que seja um pouco, a seriedade que toma conta da vida e nos impede cotidianamente de festejar.
Mas em algum momento o adulto tem que interferir, de um jeito ou de outro, e eu, como não fiz minha lição-de-casa, sou obrigada a me pôr de castigo.
Sem jantar...
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Da reclusão
Tava uma galera conversando sobre umas figuras x que entraram, uma pra um monastério e outra prum convento. Numas de ser absurdo e talz, o que bem acho que é, mas depois fiquei matutando.
Sei lá se atingi de repente, nos últimos dias, um grau absurdo de bizarrice, mas o fato é que meio que não estranhei. Isso vindo de uma pessoa que, em determinado momento, sentiu uma surpresa enorme ao descobrir que uma colega frequentava semanalmente a missa.
Esse lance todo de missa nunca fez parte da minha vida, nem direta nem muito indiretamente, daí achar que era uma coisa totalmente ultrapassada que minha vó faz e que não é partilhada pela juventude. Aí ao descobrir isso, que galera da minha idade vai mesmo, toda semana e tudo, me causou um certo choque.
De uma certa maneira a idéia de frequentar a igreja me parece mais esquisita do que se enfiar num mosteiro. O romantismo da idéia é manchado pelos comentários de que monge fica fazendo produto de limpeza para vender em feirinha de fim-de-semana, mas ele não desaparece de todo, o romantismo.
A idéia de recolhimento, mesmo, e de uma renúncia verdadeira - porque o legal é o lance ser mesmo de verdade, não pra inglês ver - ao mundo profano parece bonita.
Numas mesmo de olhar ao redor e dizer não. Recusar, né? Não aceitar a merda toda e se fechar num prédio, ou sei lá onde - confesso que imagino aquelas construções de pedra com jardins e bosques e espaço e tempo para pensar e ver o céu. De repente eu acho que o cenário todo é mais de viagem no tempo do que qualquer outra coisa.
Sinto falta de sentir esse tipo de fé, porque imagino que haja nessa escolha muita fé. Ou desespero, ou até piração, mas não sei até que ponto todas essas coisas se separam. Sinto alguma inveja dessas pessoas que acreditam, mesmo tendo para mim que elas também duvidam. Duvidam, porém, talvez menos do que eu e não consigo deixar de pensar que há grande consolo nisso.
Consolo de que, cara-pálida?
Tão cruel isso que eu faço de achar sempre que o mundo é tão hostil e precisa de compensações pelas merdas todas que tem. Queria, em algum momento, achar meio natural isso dele ser todo errado e talvez então eu acreditasse que não é tão errado assim.
Eu não me enfiaria num monastério porque super não acredito em nada o suficiente para me submeter a esse tipo de ordem. Não acredito em nada e isso é tão tão doloroso.
Mas, se é pra ser romântica, prefiro esperar um dia ter aqui meu conjunto de crenças mais bem definido que é hoje, ser então uma pessoa muito melhor do que sou, ver por aí mais beleza do que vejo. Espero ser então eu mesma meu próprio retiro, recanto ensolarado onde descansar do barulho do mundo.
Sei lá se atingi de repente, nos últimos dias, um grau absurdo de bizarrice, mas o fato é que meio que não estranhei. Isso vindo de uma pessoa que, em determinado momento, sentiu uma surpresa enorme ao descobrir que uma colega frequentava semanalmente a missa.
Esse lance todo de missa nunca fez parte da minha vida, nem direta nem muito indiretamente, daí achar que era uma coisa totalmente ultrapassada que minha vó faz e que não é partilhada pela juventude. Aí ao descobrir isso, que galera da minha idade vai mesmo, toda semana e tudo, me causou um certo choque.
De uma certa maneira a idéia de frequentar a igreja me parece mais esquisita do que se enfiar num mosteiro. O romantismo da idéia é manchado pelos comentários de que monge fica fazendo produto de limpeza para vender em feirinha de fim-de-semana, mas ele não desaparece de todo, o romantismo.
A idéia de recolhimento, mesmo, e de uma renúncia verdadeira - porque o legal é o lance ser mesmo de verdade, não pra inglês ver - ao mundo profano parece bonita.
Numas mesmo de olhar ao redor e dizer não. Recusar, né? Não aceitar a merda toda e se fechar num prédio, ou sei lá onde - confesso que imagino aquelas construções de pedra com jardins e bosques e espaço e tempo para pensar e ver o céu. De repente eu acho que o cenário todo é mais de viagem no tempo do que qualquer outra coisa.
Sinto falta de sentir esse tipo de fé, porque imagino que haja nessa escolha muita fé. Ou desespero, ou até piração, mas não sei até que ponto todas essas coisas se separam. Sinto alguma inveja dessas pessoas que acreditam, mesmo tendo para mim que elas também duvidam. Duvidam, porém, talvez menos do que eu e não consigo deixar de pensar que há grande consolo nisso.
Consolo de que, cara-pálida?
Tão cruel isso que eu faço de achar sempre que o mundo é tão hostil e precisa de compensações pelas merdas todas que tem. Queria, em algum momento, achar meio natural isso dele ser todo errado e talvez então eu acreditasse que não é tão errado assim.
Eu não me enfiaria num monastério porque super não acredito em nada o suficiente para me submeter a esse tipo de ordem. Não acredito em nada e isso é tão tão doloroso.
Mas, se é pra ser romântica, prefiro esperar um dia ter aqui meu conjunto de crenças mais bem definido que é hoje, ser então uma pessoa muito melhor do que sou, ver por aí mais beleza do que vejo. Espero ser então eu mesma meu próprio retiro, recanto ensolarado onde descansar do barulho do mundo.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Corsário
Passava essa tarde no Canal Brasil um show do João Bosco e eu, de longe, ouvia a voz dele e do Djavan falando de garrafas lançadas ao mar.
Para mim, essa música cheira a Calabouço e noite, a algo que parece outono.
Cheira a lembrança, afinal, e da boa.
Tenho me sentido algo estranha nos últimos tempos, meio que como se eu não soubesse qual é o meu lugar. Não que eu ache que a gente em algum momento saiba exatamente a que lugar pertence, mas pode acontecer de às vezes saber melhor.
E talvez o que tenha me acontecido é que eu achei que sabia, depois sabia que mudaria e mudou, mas não da maneira esperada - como nunca é. Ainda se tivéssemos o consolo de ser como a gente espera.
E depois nos acostumamos tanto ao espaço que ocupamos que, vez em quando, quando o palco se transforma ao nosso redor e sobem panos com cenários pintados em cores diferentes e a música que toca é já outra, quando o de fora muda e nós permanecemos nós, como permanecemos indefinida e indiscutivelmente, parece tão fácil nos perdermos nas cores e sons outros. Como se tudo isso que houvesse do lado de lá do mundo, como se o que estivesse para além das fronteiras desenhadas pelos nossos olhos e ouvidos e bocas e peles, nos desconcentrasse e nos impedisse de conhecer, por alguns instantes, o que está do lado de cá. É que, para saber, não basta estar, é preciso, como diria aquele outro, estar atento.
E forte.
Pois eu, nessa noite de quarta que se transforma em quinta-feira, se possível, sei menos ainda da vida do que jamais soube.
"Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve mar. Bendita lâmina grave que fere a parede e traz as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais".
Li em algum lugar, e achei tão bonito, que "corpo é apenas uma maneira disfarçada de dizer alma".
Isso aqui que sou eu, isso que eu sou, sabendo sem saber, desconhecido enorme, anseia por água.
De onde veio a vida, não é o que dizem?
Que enche e transborda.
Que mata a sede dos olhos, e mata a sede da pele, e mata a sede da boca, e mata a sede da alma.
Para mim, essa música cheira a Calabouço e noite, a algo que parece outono.
Cheira a lembrança, afinal, e da boa.
Tenho me sentido algo estranha nos últimos tempos, meio que como se eu não soubesse qual é o meu lugar. Não que eu ache que a gente em algum momento saiba exatamente a que lugar pertence, mas pode acontecer de às vezes saber melhor.
E talvez o que tenha me acontecido é que eu achei que sabia, depois sabia que mudaria e mudou, mas não da maneira esperada - como nunca é. Ainda se tivéssemos o consolo de ser como a gente espera.
E depois nos acostumamos tanto ao espaço que ocupamos que, vez em quando, quando o palco se transforma ao nosso redor e sobem panos com cenários pintados em cores diferentes e a música que toca é já outra, quando o de fora muda e nós permanecemos nós, como permanecemos indefinida e indiscutivelmente, parece tão fácil nos perdermos nas cores e sons outros. Como se tudo isso que houvesse do lado de lá do mundo, como se o que estivesse para além das fronteiras desenhadas pelos nossos olhos e ouvidos e bocas e peles, nos desconcentrasse e nos impedisse de conhecer, por alguns instantes, o que está do lado de cá. É que, para saber, não basta estar, é preciso, como diria aquele outro, estar atento.
E forte.
Pois eu, nessa noite de quarta que se transforma em quinta-feira, se possível, sei menos ainda da vida do que jamais soube.
"Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve mar. Bendita lâmina grave que fere a parede e traz as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais".
Li em algum lugar, e achei tão bonito, que "corpo é apenas uma maneira disfarçada de dizer alma".
Isso aqui que sou eu, isso que eu sou, sabendo sem saber, desconhecido enorme, anseia por água.
De onde veio a vida, não é o que dizem?
Que enche e transborda.
Que mata a sede dos olhos, e mata a sede da pele, e mata a sede da boca, e mata a sede da alma.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Um coração...
Tava super comendo mosca por aqui, noitão de domingo. Tenho às vezes essa sensação que associo à velhice que é passar o dia esperando o dia passar. Sem esperar mais, porque não há. Há somente as horas e o sol a subir, depois a cair, depois a noite chegando e passando e de novo a vinda do sol. O tempo pelo tempo, o que significa a ausência do tempo. O tempo que nada traz nem leva, que passa vazio e anda sem direção.
Um dia depois do outro, sem nada de novo nem diferente, que associo não somente à velhice, mas à velhice esquecida.
E eu tenho vinte e sete anos.
Às vezes me assusto com a minha vida e tenho medo do que será de mim em algumas décadas, porque eu sou, com demasiada frequência, o oposto do que se espera que a juventude seja. Vivi coisas opostas a ela e ainda vivo e me pergunto se chegará o dia em que vou me arrepender, enquanto me debato tentando descobrir como fazer diferente e não sei. Que venha, então, o arrependimento.
Mas sim, eu estava no domingo à noite e assisti a um documentário chamado um coração palestino, que a gnt passou.
É sobre um menino árabe que foi assassinado na frente de casa, aos 12 anos, porque brincava na rua com uma arma de mentira. Chegou lá um tal de exército e acabou com a brincadeira e, de leva, com o menino. Aí o pai dele resolveu doar os órgãos do filho e o filme fica muito nisso.
Na verdade ele é muito simples e tudo que não é dito - o que é muito - acho que tenta não dramatizar demais a história. Como se fosse possível, né?
E o pai é uma figura incrível, sei lá por quê. Tem ali alguma coisa que parece bonita, não sei direito, mas o filme todo passa meio rápido. E eu sinto uma dor, ao vê-lo e imaginá-lo, dessas dores imaginadas, talvez chamada compaixão, talvez porque a dor dele é minha, apesar de não ser e não poder ser. Mas me dói a história dele e imaginá-lo sentindo as coisas que eu acho que ele sentiu. E tem um momento, bem ao final, em que ele olha para a câmera, olhos limpos, e diz "vocês aí que tão vendo esse documentário, sei lá, mas o que vocês querem que a gente faça?".
E nós, aqui, vendo esse documentário... sei lá. Acho que tem partes da gente que morre um pouco de ver. Porque somos nós, afinal, que fazemos essa merda toda e sei lá como faz para desfazer. Morrer um pouco não adianta nada; nem viver um pouco; nem pouco nem muito. Nem sei de que vale, também, o sofrer, se é que vale, ou se é só mais dor a se juntar à imensa bola que corre solta por aí. Dá pra pensar que a saída é ser feliz, mesmo, pura e simplesmente. Mas o caminho até ela...
O tempo e o coração, hoje, estão contra mim.
Não há transplante possível.
Um dia depois do outro, sem nada de novo nem diferente, que associo não somente à velhice, mas à velhice esquecida.
E eu tenho vinte e sete anos.
Às vezes me assusto com a minha vida e tenho medo do que será de mim em algumas décadas, porque eu sou, com demasiada frequência, o oposto do que se espera que a juventude seja. Vivi coisas opostas a ela e ainda vivo e me pergunto se chegará o dia em que vou me arrepender, enquanto me debato tentando descobrir como fazer diferente e não sei. Que venha, então, o arrependimento.
Mas sim, eu estava no domingo à noite e assisti a um documentário chamado um coração palestino, que a gnt passou.
É sobre um menino árabe que foi assassinado na frente de casa, aos 12 anos, porque brincava na rua com uma arma de mentira. Chegou lá um tal de exército e acabou com a brincadeira e, de leva, com o menino. Aí o pai dele resolveu doar os órgãos do filho e o filme fica muito nisso.
Na verdade ele é muito simples e tudo que não é dito - o que é muito - acho que tenta não dramatizar demais a história. Como se fosse possível, né?
E o pai é uma figura incrível, sei lá por quê. Tem ali alguma coisa que parece bonita, não sei direito, mas o filme todo passa meio rápido. E eu sinto uma dor, ao vê-lo e imaginá-lo, dessas dores imaginadas, talvez chamada compaixão, talvez porque a dor dele é minha, apesar de não ser e não poder ser. Mas me dói a história dele e imaginá-lo sentindo as coisas que eu acho que ele sentiu. E tem um momento, bem ao final, em que ele olha para a câmera, olhos limpos, e diz "vocês aí que tão vendo esse documentário, sei lá, mas o que vocês querem que a gente faça?".
E nós, aqui, vendo esse documentário... sei lá. Acho que tem partes da gente que morre um pouco de ver. Porque somos nós, afinal, que fazemos essa merda toda e sei lá como faz para desfazer. Morrer um pouco não adianta nada; nem viver um pouco; nem pouco nem muito. Nem sei de que vale, também, o sofrer, se é que vale, ou se é só mais dor a se juntar à imensa bola que corre solta por aí. Dá pra pensar que a saída é ser feliz, mesmo, pura e simplesmente. Mas o caminho até ela...
O tempo e o coração, hoje, estão contra mim.
Não há transplante possível.
domingo, 22 de agosto de 2010
Aleluia
Sim, dessa vez em Agosto.
Chegaram neste final de semana aqueles bichinhos que anunciam o fim do inverno.
Eu sei, eu sei, nós aqui não temos inverno, mas frente-fria ou não, mas ainda assim. Mesmo sem frente e mesmo com o forte calor que esquenta nossos dias, as noites são mesmo frias. Talvez não realmente frias, mas ainda exigem casacos e cachecóis e etc.
Mas quando chegam, os tais bichinhos - diz o Aurélio serem cupins, "que abandonam o ninho no vôo nupcial", olha que coisa incrível de se imaginar insetos fazendo: a cupim de vestidinho e branco e talz, andando virginalmente por uma igreja, onde a espera o cupim de fraque - vêm dizer que logo logo vai esquentar a sério. E as noites serão agradáveis, por um tempo, com brisa fresca, às vezes algo fria; e depois serão quentes, até difíceis, noites de verão.
Como é doce o tempo que não é.
Eu sinto agora falta do calor como sei, com essas certezas inabaláveis nascidas da experiência, que sentirei, então, falta do frio. O tempo que virá ganha sempre do que está, porque o ideal é perfeito, né?
Mas eu tenho tentado, daqui, aproveitar mesmo o que é. Aproveitar as noites frias pesadas de cobertas e as bebidas quentes ou encorpadas e as comidas pesadas e as roupas de lã e em camadas e o vento que faz barulho na minha janela.
Não consigo, porém, evitar de ansiar por noites mais leves, de menos roupas e uma maior disposição que, afinal, talvez não exista.
E eu sei que já escrevi talvez exatamente as mesmas coisas aqui. É só que tenho me dado conta, ultimamente, da minha relação absurda com o tempo; isso de ele ir e ficar e de passar e tantas e tantas coisas mudarem e tantas outras permanecerem iguais.
Acho que tenho mesmo essa relação algo autista com o mundo, como fui acusada de ter recentemente - e, pensando assim, acredito me diferenciar do normal das pessoas.
Sendo igual ou diferente, penso que as coisas ficam demais para mim e pareço então viver num mundo que já não é, enquanto eu ainda sou.
Eu sou ainda, o resto não mais.
A questão que fica é se é possível viver na incongruência ou se eu terei de avançar, ou o resto terá de regressar, ou nos encontraremos no meio do caminho.
Talvez também eu anuncie o fim do inverno e a chegada da primavera em mim. E, como as aleluias, possa afinal sair.
Chegaram neste final de semana aqueles bichinhos que anunciam o fim do inverno.
Eu sei, eu sei, nós aqui não temos inverno, mas frente-fria ou não, mas ainda assim. Mesmo sem frente e mesmo com o forte calor que esquenta nossos dias, as noites são mesmo frias. Talvez não realmente frias, mas ainda exigem casacos e cachecóis e etc.
Mas quando chegam, os tais bichinhos - diz o Aurélio serem cupins, "que abandonam o ninho no vôo nupcial", olha que coisa incrível de se imaginar insetos fazendo: a cupim de vestidinho e branco e talz, andando virginalmente por uma igreja, onde a espera o cupim de fraque - vêm dizer que logo logo vai esquentar a sério. E as noites serão agradáveis, por um tempo, com brisa fresca, às vezes algo fria; e depois serão quentes, até difíceis, noites de verão.
Como é doce o tempo que não é.
Eu sinto agora falta do calor como sei, com essas certezas inabaláveis nascidas da experiência, que sentirei, então, falta do frio. O tempo que virá ganha sempre do que está, porque o ideal é perfeito, né?
Mas eu tenho tentado, daqui, aproveitar mesmo o que é. Aproveitar as noites frias pesadas de cobertas e as bebidas quentes ou encorpadas e as comidas pesadas e as roupas de lã e em camadas e o vento que faz barulho na minha janela.
Não consigo, porém, evitar de ansiar por noites mais leves, de menos roupas e uma maior disposição que, afinal, talvez não exista.
E eu sei que já escrevi talvez exatamente as mesmas coisas aqui. É só que tenho me dado conta, ultimamente, da minha relação absurda com o tempo; isso de ele ir e ficar e de passar e tantas e tantas coisas mudarem e tantas outras permanecerem iguais.
Acho que tenho mesmo essa relação algo autista com o mundo, como fui acusada de ter recentemente - e, pensando assim, acredito me diferenciar do normal das pessoas.
Sendo igual ou diferente, penso que as coisas ficam demais para mim e pareço então viver num mundo que já não é, enquanto eu ainda sou.
Eu sou ainda, o resto não mais.
A questão que fica é se é possível viver na incongruência ou se eu terei de avançar, ou o resto terá de regressar, ou nos encontraremos no meio do caminho.
Talvez também eu anuncie o fim do inverno e a chegada da primavera em mim. E, como as aleluias, possa afinal sair.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Meio
Eba, hoje eu completo meio ano de vida!
Além dos 27 inteiros que o precedem, obviamente.
Nem acho isso importante, é que queria escrever um lance e deu errado, porque... enfim, porque as coisas às vezes dão errado na vida, né? E eu, como sou tagarela, quando não posso falar da coisa, falo sobre o porquê de eu não poder nela falar.
Tenho essa relação estranha com o tempo, em que passo grandes períodos sem saber direito o dia, do mês ou da semana; então nunca prestaria atenção a uma data como essa, não fosse pela coincidência de ter prestado.
Mas, por um lado, esses marcos podem ser importantes para a gente notar mesmo que ele passa, inexoravelmente. Passa todos dias e - pecado! - segundos e vai-se embora mesmo de verdade, sem blefe e sem volta.
Metade dos meus 27 já foram e foram bem idos. Foram também mal idos, que isso das coisas serem uma só não praticamos.
Eles vão e eu também e esperemos que eu - que volto - volte melhor.
Além dos 27 inteiros que o precedem, obviamente.
Nem acho isso importante, é que queria escrever um lance e deu errado, porque... enfim, porque as coisas às vezes dão errado na vida, né? E eu, como sou tagarela, quando não posso falar da coisa, falo sobre o porquê de eu não poder nela falar.
Tenho essa relação estranha com o tempo, em que passo grandes períodos sem saber direito o dia, do mês ou da semana; então nunca prestaria atenção a uma data como essa, não fosse pela coincidência de ter prestado.
Mas, por um lado, esses marcos podem ser importantes para a gente notar mesmo que ele passa, inexoravelmente. Passa todos dias e - pecado! - segundos e vai-se embora mesmo de verdade, sem blefe e sem volta.
Metade dos meus 27 já foram e foram bem idos. Foram também mal idos, que isso das coisas serem uma só não praticamos.
Eles vão e eu também e esperemos que eu - que volto - volte melhor.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Quebra, cabeça!
Tive um professor na faculdade, figura importantíssima na minha história profissional (se é que se pode assim chamá-la) que tem uma característica que invejo.
Talvez ele não tenha sido a primeira pessoa que conheci com essa característica, mas certamente é a que a tem mais acentuada.
E foi com ele que percebi que me falta inteiramente.
A capacidade de pensar antes de falar.
Nem sei, na verdade, de que me adiantaria, porque normalmente eu penso em tal turbilhão que talvez não fizesse diferença alguma. E não sei se sou, nisso, diferente do restante das pessoas, mas sou incapaz de pensar... não sei se linearmente é a palavra, mas pensar com começo, meio e fim. E talvez mesmo eu revele a dimensão da minha ignorância, mas é que li esses dias um cara, num livro, dizer que ia pensar num assunto, aí pensava nele, depois pensava em outro, depois em outro e depois terminava de pensar.
Reconheço que toda essa baboseira pode não passar de recurso narrativo do autor, mas ela me faz pensar irremediavelmente no meu turbilhão. E mesmo sem a tal fala, às vezes me disponho a pensar num assunto e nunca consigo. Quando tenho que tomar uma decisão ou assim. Sento-me num lugar qualquer, ou me deito, e declaro: vou pensar sobre isso. E nada. Lembro de coisas, projeto coisas, mudo de assunto, relembro pessoas, projeto pessoas, mudo de assunto, penso na fome, no frio ou calor (sempre algum dos dois), sinto sono, quero ler um livro, ver um filme, chorar, ligar pra alguém, lembro que esqueci do assunto sobre o qual ia pensar e tento pensar nele e mudo de assunto.
De vez em quando acontece de eu decidir, mas acredito que, no final das contas, mais por instinto que reflexão.
Ou, se há reflexão envolvida, ela é toda quebradiça, não gera uma imagem límpida e reconhecível, é um quebra cabeças desmontado, com algumas peças repetidas e outras ainda viradas para baixo.
Isso tudo só para falar em pensar. Pensar e então falar é exercício impossível para mim.
Aí o resultado são aquelas lambanças terríveis. Pega de surpresa, conto mentiras imbecis, absolutamente óbvias, quando seria bem mais fácil dizer a verdade, se eu apenas pensasse antes de falar. Invento desculpas esfarrapadas, digo besteiras gigantescas; às vezes cometo a bizarrice gigantesca de pensar, antes de falar - mas mesmo antes, tipos cinco minutos e tal - e quando chega a hora, esqueço o que pensei e falo merda.
Sei lá se é trágico ou cômico, muito provavelmente é os dois, mas o que tenho total certeza é que vivo me metendo em enrascadas. Se não pela coisa em si, pela culpa que depois me assola, a repreensão e a inconformidade com a minha inabilidade.
E as perguntas incessantes de por que eu faço isso assim, por que não fiz isso assado e tudo o mais. E as promessas?
Da próxima vez, vou pensar; vou ficar em silêncio cinco segundos e pensar e então responder/dizer/fazer de maneira a depois não me torturar.
E a próxima vez, ou essa próxima vez, nunca chega. E sempre o embaralhamento.
Ia dizer isso por algum motivo que já esqueci.
Perdeu-se no quebra-cabeças do avesso do meu espelho quebrado.
Talvez ele não tenha sido a primeira pessoa que conheci com essa característica, mas certamente é a que a tem mais acentuada.
E foi com ele que percebi que me falta inteiramente.
A capacidade de pensar antes de falar.
Nem sei, na verdade, de que me adiantaria, porque normalmente eu penso em tal turbilhão que talvez não fizesse diferença alguma. E não sei se sou, nisso, diferente do restante das pessoas, mas sou incapaz de pensar... não sei se linearmente é a palavra, mas pensar com começo, meio e fim. E talvez mesmo eu revele a dimensão da minha ignorância, mas é que li esses dias um cara, num livro, dizer que ia pensar num assunto, aí pensava nele, depois pensava em outro, depois em outro e depois terminava de pensar.
Reconheço que toda essa baboseira pode não passar de recurso narrativo do autor, mas ela me faz pensar irremediavelmente no meu turbilhão. E mesmo sem a tal fala, às vezes me disponho a pensar num assunto e nunca consigo. Quando tenho que tomar uma decisão ou assim. Sento-me num lugar qualquer, ou me deito, e declaro: vou pensar sobre isso. E nada. Lembro de coisas, projeto coisas, mudo de assunto, relembro pessoas, projeto pessoas, mudo de assunto, penso na fome, no frio ou calor (sempre algum dos dois), sinto sono, quero ler um livro, ver um filme, chorar, ligar pra alguém, lembro que esqueci do assunto sobre o qual ia pensar e tento pensar nele e mudo de assunto.
De vez em quando acontece de eu decidir, mas acredito que, no final das contas, mais por instinto que reflexão.
Ou, se há reflexão envolvida, ela é toda quebradiça, não gera uma imagem límpida e reconhecível, é um quebra cabeças desmontado, com algumas peças repetidas e outras ainda viradas para baixo.
Isso tudo só para falar em pensar. Pensar e então falar é exercício impossível para mim.
Aí o resultado são aquelas lambanças terríveis. Pega de surpresa, conto mentiras imbecis, absolutamente óbvias, quando seria bem mais fácil dizer a verdade, se eu apenas pensasse antes de falar. Invento desculpas esfarrapadas, digo besteiras gigantescas; às vezes cometo a bizarrice gigantesca de pensar, antes de falar - mas mesmo antes, tipos cinco minutos e tal - e quando chega a hora, esqueço o que pensei e falo merda.
Sei lá se é trágico ou cômico, muito provavelmente é os dois, mas o que tenho total certeza é que vivo me metendo em enrascadas. Se não pela coisa em si, pela culpa que depois me assola, a repreensão e a inconformidade com a minha inabilidade.
E as perguntas incessantes de por que eu faço isso assim, por que não fiz isso assado e tudo o mais. E as promessas?
Da próxima vez, vou pensar; vou ficar em silêncio cinco segundos e pensar e então responder/dizer/fazer de maneira a depois não me torturar.
E a próxima vez, ou essa próxima vez, nunca chega. E sempre o embaralhamento.
Ia dizer isso por algum motivo que já esqueci.
Perdeu-se no quebra-cabeças do avesso do meu espelho quebrado.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Medo
Acordei de sonhos intranquilos, mas não li o Kafka nem ouvi o Otto.
Sonhei que estava na minha casa, essa mesma em que vivo.
Sonhei que estava de camisola, essa mesma que visto.
Sonhei que era noite, como é, e que fazia um friozinho bão, como faz.
Sonhei que não conseguia dormir com medo de que entrasse alguém aqui. Não sei se por isso acordei, mas de fato acordei.
Sentia algum frio então busquei mais cobertas. Fui ao banheiro, pensei em comer, pensei em beber, pensei em dizer.
É interessante porque, vivendo numa cidade relativamente grande e perigosa, eu tenho sim algum medo mas não muito. Ou não tanto medo - não em comparação ao comum das pessoas, mas à histeria e neurose cujo potencial sinto em mim com demasiada frequência.
Numa noite dessas, chegando em casa à minha rua quase deserta, levei um susto. Ninguém passa pela minha rua, ela não leva a lugar nenhum, então normalmente entro nela sozinha. Por acaso, enquanto eu esperava o portão abrir, um carro virou a esquina e parou atrás de mim. Em milésimos de segundos imaginei assaltantes saindo dele e me abordando e resolvi ir embora. O lance todo de os caras não poderem entrar na casa e etc. Arranquei e desci a rua e, antes de seu curto fim, percebi que o carro que me seguia andou um pouco e parou. Pensei "putz, os caras vão me esperar, porque viram que eu tava entrando e saí com medo; sabem que vou dar uma volta no quarteirão e voltar". Neurose, né? Mas pelo menos eu não tava chorando nem ligando pra polícia. Fiquei pensando que a gente tem esse reflexo de sair, mas o meu ao menos para por aí. Sem plano. E depois, pra onde ir? Enquanto andava por ruas próximas, procurava pelo meu cérebro sem senso de localização alguma delegacia perto, cujo caminho me fosse possível desvendar.
Procurava em vão, como procuramos uma palavra que está na ponta da língua e não vem. Como se soubéssemos alguma coisa, mas ela estivesse encoberta por um véu que não podemos desfazer ou dissipar. Tanta coisa dá essa sensação. Senti há pouco com uma música; ouvi na rádio e soube antes de saber as palavras que era da Adriana Calcanhoto e que eu conhecia muito e precisei de vários segundos para reconhecer completamente, nome e voz, e é engraçado porque não é um descobrir ou lembrar, é mesmo como se soubesse instantaneamente mas nublado. Saber nublado, parece bem.
Mas ia lá eu, nublada sem saber o caminho, quando percebi que o mesmo carro que me assustara estava atrás de mim. Dei-lhe uma pequena fechada num farol e resolvi virar uma rua, em direção à casa ou qualquer outro lugar, pensando que se ele me seguisse, corria para a polícia.
Não seguiu. Nem acho que era um assaltante desencorajado, mesmo uma pessoa perdida que calhou de estar num lugar algo ermo e me assustar à toa.
Depois disso, num carro desconhecido, saí por horas, também na noite deserta, e deixei uma janela aberta. Não um pouco aberta, mesmo escancarada. Percebi sei lá como quando voltei, olhei assustada para o lado, bati a mão no vidro inexistente e pensei "poxa, não é que esse mundo não é o terror que a gente acredita ser?". Não se isso é ser otimista ou maluca, mas é que nem tudo que poderia dar errado na vida efetivamente dá e isso pra mim é motivo de consolo.
Tenho, porém, medo, mas também não tenho. Não me lembro de um passado recente em que perdi o sono por temor, pelo menos não de algo concreto.
De não terminar um trabalho, perder o prazo, ser escrachada, reduzida a migalhas, metaforicamente, lá isso acontece.
Mas a repressão funciona melhor com pequenezas mundanas como assalto e violência, ou porque não há mesmo como evitá-las ou porque elas são de fato menos aterrorizantes que o esmigalhamento. Já aconteceu, inclusive, de as enfrentando eu chamar o sono, como fuga bendita que ajuda a noite a passar.
Não acordei em pânico, nem sequer acredito que acordei por medo. Sonhei com medo e acordei, como se as duas coisas não se relacionassem. Será absurdo pensar isso? É que às vezes a gente tem mesmo uns pesadelos que nos despertam em desespero, toda aquela história de uma saída para algo terrível, mesmo insuportável, então nosso corpo sabiamente desperta.
Tenho medo e não tenho, mas acho que o que tenho mesmo é essa insônia torta, que me impede de dormir cedo e aproveitar o escuro, que gosta de aproveitar a noite e perder o começo do dia, que me acorda sempre e me faz sempre estar acordada às meia-noites.
De repente há algo em mim que ama a meia noite e me obriga a apreciá-la, mesmo quando não sei de mim nem das horas.
De repente há algo que sabe.
Sonhei que estava na minha casa, essa mesma em que vivo.
Sonhei que estava de camisola, essa mesma que visto.
Sonhei que era noite, como é, e que fazia um friozinho bão, como faz.
Sonhei que não conseguia dormir com medo de que entrasse alguém aqui. Não sei se por isso acordei, mas de fato acordei.
Sentia algum frio então busquei mais cobertas. Fui ao banheiro, pensei em comer, pensei em beber, pensei em dizer.
É interessante porque, vivendo numa cidade relativamente grande e perigosa, eu tenho sim algum medo mas não muito. Ou não tanto medo - não em comparação ao comum das pessoas, mas à histeria e neurose cujo potencial sinto em mim com demasiada frequência.
Numa noite dessas, chegando em casa à minha rua quase deserta, levei um susto. Ninguém passa pela minha rua, ela não leva a lugar nenhum, então normalmente entro nela sozinha. Por acaso, enquanto eu esperava o portão abrir, um carro virou a esquina e parou atrás de mim. Em milésimos de segundos imaginei assaltantes saindo dele e me abordando e resolvi ir embora. O lance todo de os caras não poderem entrar na casa e etc. Arranquei e desci a rua e, antes de seu curto fim, percebi que o carro que me seguia andou um pouco e parou. Pensei "putz, os caras vão me esperar, porque viram que eu tava entrando e saí com medo; sabem que vou dar uma volta no quarteirão e voltar". Neurose, né? Mas pelo menos eu não tava chorando nem ligando pra polícia. Fiquei pensando que a gente tem esse reflexo de sair, mas o meu ao menos para por aí. Sem plano. E depois, pra onde ir? Enquanto andava por ruas próximas, procurava pelo meu cérebro sem senso de localização alguma delegacia perto, cujo caminho me fosse possível desvendar.
Procurava em vão, como procuramos uma palavra que está na ponta da língua e não vem. Como se soubéssemos alguma coisa, mas ela estivesse encoberta por um véu que não podemos desfazer ou dissipar. Tanta coisa dá essa sensação. Senti há pouco com uma música; ouvi na rádio e soube antes de saber as palavras que era da Adriana Calcanhoto e que eu conhecia muito e precisei de vários segundos para reconhecer completamente, nome e voz, e é engraçado porque não é um descobrir ou lembrar, é mesmo como se soubesse instantaneamente mas nublado. Saber nublado, parece bem.
Mas ia lá eu, nublada sem saber o caminho, quando percebi que o mesmo carro que me assustara estava atrás de mim. Dei-lhe uma pequena fechada num farol e resolvi virar uma rua, em direção à casa ou qualquer outro lugar, pensando que se ele me seguisse, corria para a polícia.
Não seguiu. Nem acho que era um assaltante desencorajado, mesmo uma pessoa perdida que calhou de estar num lugar algo ermo e me assustar à toa.
Depois disso, num carro desconhecido, saí por horas, também na noite deserta, e deixei uma janela aberta. Não um pouco aberta, mesmo escancarada. Percebi sei lá como quando voltei, olhei assustada para o lado, bati a mão no vidro inexistente e pensei "poxa, não é que esse mundo não é o terror que a gente acredita ser?". Não se isso é ser otimista ou maluca, mas é que nem tudo que poderia dar errado na vida efetivamente dá e isso pra mim é motivo de consolo.
Tenho, porém, medo, mas também não tenho. Não me lembro de um passado recente em que perdi o sono por temor, pelo menos não de algo concreto.
De não terminar um trabalho, perder o prazo, ser escrachada, reduzida a migalhas, metaforicamente, lá isso acontece.
Mas a repressão funciona melhor com pequenezas mundanas como assalto e violência, ou porque não há mesmo como evitá-las ou porque elas são de fato menos aterrorizantes que o esmigalhamento. Já aconteceu, inclusive, de as enfrentando eu chamar o sono, como fuga bendita que ajuda a noite a passar.
Não acordei em pânico, nem sequer acredito que acordei por medo. Sonhei com medo e acordei, como se as duas coisas não se relacionassem. Será absurdo pensar isso? É que às vezes a gente tem mesmo uns pesadelos que nos despertam em desespero, toda aquela história de uma saída para algo terrível, mesmo insuportável, então nosso corpo sabiamente desperta.
Tenho medo e não tenho, mas acho que o que tenho mesmo é essa insônia torta, que me impede de dormir cedo e aproveitar o escuro, que gosta de aproveitar a noite e perder o começo do dia, que me acorda sempre e me faz sempre estar acordada às meia-noites.
De repente há algo em mim que ama a meia noite e me obriga a apreciá-la, mesmo quando não sei de mim nem das horas.
De repente há algo que sabe.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Sem jeito
Nem por nada, mas é só que eu sou tão tão besta.
Tenho sido a vida toda, desde que posso lembrar.
A gente acha, ou eu achei, que chega um momento em que isso para, mas eu me vejo aqui, do alto dos meus vinte e sete anos e meio de vida e pronto. Mesmíssima coisa.
A gente acha que vai saber melhor, com o passar do tempo, mas desconfio que acontece da gente saber menos.
Toda aquela coisa de só a mais pífia juventude poder se achar velha e sábia. Só mesmo o cúmulo da ignorância para achar que sabe alguma coisa e eu confesso que, muitas vezes, acho.
Acho que sei mais e melhor, quando consigo pensar na minha vida e na minha história, com plena consciência, em termos de dez ou quinze anos atrás. Pensar num livro que li e fazer as contas e achar que pode fazer quase vinte anos. Saber que há dez me formava no colegial. Há quase isso começava a dirigir. Isso do tempo passar e ir aumentando a distância entre a memória e o presente.
Então muitas vezes subo no pedestal e, ali de cima, normalmente sei que tudo ali, eu e meu olhar, não passa de uma farsa. Tenho até a humildade de me referir a ele com alguma ironia, dizendo as maiores verdades "do alto dos meus vinte e sete anos". E quando me acontece de dar lições de vida e bom comportamento por aí, tenho o bom senso de admitir que não sei do que estou falando, apesar de falar e infligir às palavras a maior propriedade.
Esse estado inerentemente contraditório da existência, que às vezes nos exaspera e tira o sentido das coisas e, noutras, parece ser a graça de tudo.
É só que eu me acho adulta e falo toda impostada quando na verdade sou é criança e criança besta.
Sou, agora, e pode ser que daqui a um nada não seja mais. Por outro lado, se sou ainda talvez seja sempre.
Talvez eu volte em mais vinte e sete anos e meio com um veredito e então saiba alguma coisa de verdade. Até lá, sei com certeza - juvenil ou não - que sou besta e sem jeito.
Tenho sido a vida toda, desde que posso lembrar.
A gente acha, ou eu achei, que chega um momento em que isso para, mas eu me vejo aqui, do alto dos meus vinte e sete anos e meio de vida e pronto. Mesmíssima coisa.
A gente acha que vai saber melhor, com o passar do tempo, mas desconfio que acontece da gente saber menos.
Toda aquela coisa de só a mais pífia juventude poder se achar velha e sábia. Só mesmo o cúmulo da ignorância para achar que sabe alguma coisa e eu confesso que, muitas vezes, acho.
Acho que sei mais e melhor, quando consigo pensar na minha vida e na minha história, com plena consciência, em termos de dez ou quinze anos atrás. Pensar num livro que li e fazer as contas e achar que pode fazer quase vinte anos. Saber que há dez me formava no colegial. Há quase isso começava a dirigir. Isso do tempo passar e ir aumentando a distância entre a memória e o presente.
Então muitas vezes subo no pedestal e, ali de cima, normalmente sei que tudo ali, eu e meu olhar, não passa de uma farsa. Tenho até a humildade de me referir a ele com alguma ironia, dizendo as maiores verdades "do alto dos meus vinte e sete anos". E quando me acontece de dar lições de vida e bom comportamento por aí, tenho o bom senso de admitir que não sei do que estou falando, apesar de falar e infligir às palavras a maior propriedade.
Esse estado inerentemente contraditório da existência, que às vezes nos exaspera e tira o sentido das coisas e, noutras, parece ser a graça de tudo.
É só que eu me acho adulta e falo toda impostada quando na verdade sou é criança e criança besta.
Sou, agora, e pode ser que daqui a um nada não seja mais. Por outro lado, se sou ainda talvez seja sempre.
Talvez eu volte em mais vinte e sete anos e meio com um veredito e então saiba alguma coisa de verdade. Até lá, sei com certeza - juvenil ou não - que sou besta e sem jeito.
sábado, 7 de agosto de 2010
Caipira
Diz o relógio, ou sei lá quem que na verdade guarda o tempo, que já é 8 de agosto.
8 de agosto já não significa que o ano acabou? Já passou da metade, aí pra chegar natal e todo o resto é um pulo e eu, que não guardo nada, perdi totalmente a noção dos dias.
Sempre me irrita essa história de "nossa, como esse ano passou rápido" porque todos os anos passam rápido e a gente não cansa de se surpreender com isso. E tem todo o resto, né? De que, durante, parecia que ia devagar mas de repente acabou.
E se você é um otimista, foi um ano fantástico.
Se é um pessimista, ou apenas ligeiramente dramático, foi o pior da sua vida.
Aí depois começa aquela baboseira toda dos planos, como se o próximo fosse ser diferente, mas ele também vai parecer devagar, terminar de repente e ser lindo ou terrível.
Mas ele vai, foi e sei lá.
Inventei hoje de sair de casa e foi um erro. Onda consumista e aquilo tudo, somado ao fato de a frente fria ter partido e a tarde ter sido mesmo quente.
E as pessoas, olhava para elas nas ruas e mesmo as odiava. Desse ódio que só pode ser impessoal, porque à distância a gente não tem que reconhecer motivos e passados e lados bons nem nada, não tem que reconhecer e se preocupar com o sentimentos das pessoas e podemos com mais facilidade ser pura e simplesmente levianos.
Mesmo assim, ele traz consigo alguma culpa que nos faz querer apagar a palavra e matizar o sentimento com um "detestar" ou "desgostar" ou "incomodar". Seja por reconhecer que talvez elas não fossem assim tão más, ou que nós não sejamos assim tão maus, ou que há aí algum exagero, ou um "o que vão pensar de mim se eu disser isso" qualquer. Mas hoje escolhemos ficar do lado negro e deixámo-la aí.
Acho muita graça nisso da gente sentir esse amor universal pela humanidade e detestá-la na mesma medida. Amar o povo à distância, já tanta gente não falou sobre isso?
Minha contribuição em não tornar esse mundo uma merda maior do que já é está em admitir que o problema sou eu. Sei lá se as pessoas são amáveis ou não, mas também não me interesso em saber porque sou, afinal, anti-social. Fico pensando, em momentos assim, que devia ir morar na roça, sem vizinhos nem ninguém por perto, para poder ficar sozinha e não detestar ninguém, ignorando algo conscientemente que então sempre poderei me odiar. O x da questão é sempre a gente, né não?
Mas eu também gosto muito das pessoas, quando estou no clima de apreciá-las e quando elas fazem coisas bonitas, quando torcem ou rezam ou cantam juntas.
Esses dias fui levar a sobrinha para a escola, uma nova escola, uma - algo - grande escola e não sei. Deixei-a sozinha ali na sala e ela ficou, porque ela é de ficar. Criança corajosa, a sobrinha. Nova escola sem manha, sem reclamar, sem querer colo, sem querer ir embora. Ela vai e encara, do jeito dela que é, de começo, silencioso. Arregala os olhos castanhos e fica em silêncio e só olha e depois não diz a ninguém o que viu, pensou ou sentiu. Encara em silêncio e eu acho admirável, porque eu velha sou de choramingar e fazer birra e não querer ir e pedir socorro.
Deixei-a sozinha na sala e ela ficou e foi, chamada por uma garotinha como eu também fui um dia, quando já era muito maior.
Quando saía, olhei pela janela e ela estava lá, com as outras crianças naquele barulho enorme, ainda em silêncio, ainda olhando e não parecendo estar bem nem mal, parecendo estar ali decidindo.
Também eu calei. Mas, por um instante, amei ali aquelas pessoas que não faziam nada de especial, só eram como podiam ser e faziam o que podiam fazer e, sendo ainda tão pequenas, faziam e eram mais do que estamos acostumados a ver.
Tão opostas as minhas reações às mesmas banalidades e ambas também tão sem importância, na ordem do dia.
É só que hoje eu fui atacada pela fobia social e não achei grande consolo em saber que há por aí outros que a partilham comigo. Talvez achasse, se pudesse amaldiçoar com eles.
Mas é já 8 de agosto e nosso tempo passou.
8 de agosto já não significa que o ano acabou? Já passou da metade, aí pra chegar natal e todo o resto é um pulo e eu, que não guardo nada, perdi totalmente a noção dos dias.
Sempre me irrita essa história de "nossa, como esse ano passou rápido" porque todos os anos passam rápido e a gente não cansa de se surpreender com isso. E tem todo o resto, né? De que, durante, parecia que ia devagar mas de repente acabou.
E se você é um otimista, foi um ano fantástico.
Se é um pessimista, ou apenas ligeiramente dramático, foi o pior da sua vida.
Aí depois começa aquela baboseira toda dos planos, como se o próximo fosse ser diferente, mas ele também vai parecer devagar, terminar de repente e ser lindo ou terrível.
Mas ele vai, foi e sei lá.
Inventei hoje de sair de casa e foi um erro. Onda consumista e aquilo tudo, somado ao fato de a frente fria ter partido e a tarde ter sido mesmo quente.
E as pessoas, olhava para elas nas ruas e mesmo as odiava. Desse ódio que só pode ser impessoal, porque à distância a gente não tem que reconhecer motivos e passados e lados bons nem nada, não tem que reconhecer e se preocupar com o sentimentos das pessoas e podemos com mais facilidade ser pura e simplesmente levianos.
Mesmo assim, ele traz consigo alguma culpa que nos faz querer apagar a palavra e matizar o sentimento com um "detestar" ou "desgostar" ou "incomodar". Seja por reconhecer que talvez elas não fossem assim tão más, ou que nós não sejamos assim tão maus, ou que há aí algum exagero, ou um "o que vão pensar de mim se eu disser isso" qualquer. Mas hoje escolhemos ficar do lado negro e deixámo-la aí.
Acho muita graça nisso da gente sentir esse amor universal pela humanidade e detestá-la na mesma medida. Amar o povo à distância, já tanta gente não falou sobre isso?
Minha contribuição em não tornar esse mundo uma merda maior do que já é está em admitir que o problema sou eu. Sei lá se as pessoas são amáveis ou não, mas também não me interesso em saber porque sou, afinal, anti-social. Fico pensando, em momentos assim, que devia ir morar na roça, sem vizinhos nem ninguém por perto, para poder ficar sozinha e não detestar ninguém, ignorando algo conscientemente que então sempre poderei me odiar. O x da questão é sempre a gente, né não?
Mas eu também gosto muito das pessoas, quando estou no clima de apreciá-las e quando elas fazem coisas bonitas, quando torcem ou rezam ou cantam juntas.
Esses dias fui levar a sobrinha para a escola, uma nova escola, uma - algo - grande escola e não sei. Deixei-a sozinha ali na sala e ela ficou, porque ela é de ficar. Criança corajosa, a sobrinha. Nova escola sem manha, sem reclamar, sem querer colo, sem querer ir embora. Ela vai e encara, do jeito dela que é, de começo, silencioso. Arregala os olhos castanhos e fica em silêncio e só olha e depois não diz a ninguém o que viu, pensou ou sentiu. Encara em silêncio e eu acho admirável, porque eu velha sou de choramingar e fazer birra e não querer ir e pedir socorro.
Deixei-a sozinha na sala e ela ficou e foi, chamada por uma garotinha como eu também fui um dia, quando já era muito maior.
Quando saía, olhei pela janela e ela estava lá, com as outras crianças naquele barulho enorme, ainda em silêncio, ainda olhando e não parecendo estar bem nem mal, parecendo estar ali decidindo.
Também eu calei. Mas, por um instante, amei ali aquelas pessoas que não faziam nada de especial, só eram como podiam ser e faziam o que podiam fazer e, sendo ainda tão pequenas, faziam e eram mais do que estamos acostumados a ver.
Tão opostas as minhas reações às mesmas banalidades e ambas também tão sem importância, na ordem do dia.
É só que hoje eu fui atacada pela fobia social e não achei grande consolo em saber que há por aí outros que a partilham comigo. Talvez achasse, se pudesse amaldiçoar com eles.
Mas é já 8 de agosto e nosso tempo passou.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Fim feliz
Inventei de assistir o bonecas russas.
Não, não é assim que começa.
Foi-me perguntado, quer dizer, não somente a mim, que filme eu vi ultimamente de que gostei.
Uma que a pergunta é estranha pra caramba. A pessoa que a fez era só um pouco estranha e tava naquelas de puxar desesperadamente assunto. E desespero é das coisas menos atraentes do mundo, exceto quando é a mais. A segunda opção é mais rara e de um tipo diferente; mais comum mesmo é a primeira, que leva a pessoa a fazer perguntas desse tipo.
Ou talvez o problema fosse o alvo. Se fosse dirigida a adolescentes bobinhas, elas talvez respondessem um "crepúsculo" da vida ou assim. E tirassem da carteira ou da bolsa as figurinhas do filme, ou o pôster do carinha, ou mostrassem a tatuagem que fizeram em homenagem àquela que é a melhor história de todos os tempos.
Ou eu é que sou mesmo irrevogavelmente arrogante, mas acho que a gente chega a um momento da vida em que não sabe bem responder a essas coisas. Acho que, na verdade, sempre estive mais ou menos nesse momento. Ou você me pega na onda de empolgação de alguma coisa que acabei de ver, ou a pergunta suscita uma explosão de imagens e nomes no meu cérebro que me paralisam e impedem uma resposta inteligível.
E às vezes a resposta não vem por algo de preguiça, quando antevejo que, número 2 do formulário, segue o temido "por quê?". Pergunta essa que, apesar de fazer incansavelmente, sou, via de regra, incapaz de responder.
Por que gostei de tal filme? Sei lá, gostei, achei bonito, me tocou, achei bonito, gostei. Porque sim. Não te interessa. Não enche o saco.
Mas eu, numa onda incomum de boa vontade, fui tentar responder amigavelmente. Dizendo, claro, que não sei e isso e aquilo.
Falou-se de Amélie Poulain e eu me dei conta, também influenciada por outro da Audrey Tatou, que filmes felizinhos demais me deprimem.
Gostei demais da Amélie, assisti várias vezes e minha reação variava: podia me deixar feliz e leve ou, em uma palavra, triste.
Fiquei pensando nisso, porque inventei de assistir às tais bonecas russas.
Isso de finais felizes meio que me deprimem, porque eu meio que me dou conta de que... bem, eles não exatamente existem, né? Aí quando são assim mais forçados, em filmes piores, tudo bem porque, beirando o ridículo, não despertam nenhum tipo de ânsia.
Mas, por exemplo, a Amélie, é tão bonitinho e dá tanta vontade de viver naquele mundo, com aqueles sons e aquelas cores e aquela luz, de viver naquele apartamento e trabalhar naquele bar e encontrar um álbum e tudo o mais. Li esses dias uma notícia dizendo que não sei quem não sei aonde encontrou uma mala de cartas numas montanhas quaisquer, de um avião de correio que caiu não sei quando. E eu não tenho uma vizinha esperando notícias do marido desaparecido. Ou tenho, mas não conheço porque não é da minha natureza conhecer. E, se tivesse e soubesse, será que forjava uma carta, banhando-a em chá para parecer antiga?
De repente, a verdade nua e crua é que eu, euzinha, não tenho aqui dessa leveza necessária para nada disso. Não tenho essas cores e esses sons e esses lugares. Sou dura e pesada e, só de vez em quando, gosto de ser assim. Noutras, acho triste.
Vi de novo o bonecas e, ao contrário da primeira vez, não me convenceu. Se visse o albergue, podia ter também a mesma sensação, de Jens, Murari e Katia, não Xavier.
E Maíra.
Daí é que não se escapa.
E todo o lance do filme terminar e a gente, de fora, continuar. E continuar. E continuar. Que é bom, claro. E, claro, mau.
É só que às vezes bate um cansaço, principalmente porque tenho pensado nisso da vida como eterna, até o fim. E como o fim ainda não é agora, não existe.
Então, eterna e cansada.
Busco, então, por aí, alguém que fale com a minha melancolia, que a partilhe comigo, que a sinta como sua, apesar de sabê-lo impossível. Ou impossível agora ou impossível pra sempre.
Começo, essa tarde, a sudoeste.
Não, não é assim que começa.
Foi-me perguntado, quer dizer, não somente a mim, que filme eu vi ultimamente de que gostei.
Uma que a pergunta é estranha pra caramba. A pessoa que a fez era só um pouco estranha e tava naquelas de puxar desesperadamente assunto. E desespero é das coisas menos atraentes do mundo, exceto quando é a mais. A segunda opção é mais rara e de um tipo diferente; mais comum mesmo é a primeira, que leva a pessoa a fazer perguntas desse tipo.
Ou talvez o problema fosse o alvo. Se fosse dirigida a adolescentes bobinhas, elas talvez respondessem um "crepúsculo" da vida ou assim. E tirassem da carteira ou da bolsa as figurinhas do filme, ou o pôster do carinha, ou mostrassem a tatuagem que fizeram em homenagem àquela que é a melhor história de todos os tempos.
Ou eu é que sou mesmo irrevogavelmente arrogante, mas acho que a gente chega a um momento da vida em que não sabe bem responder a essas coisas. Acho que, na verdade, sempre estive mais ou menos nesse momento. Ou você me pega na onda de empolgação de alguma coisa que acabei de ver, ou a pergunta suscita uma explosão de imagens e nomes no meu cérebro que me paralisam e impedem uma resposta inteligível.
E às vezes a resposta não vem por algo de preguiça, quando antevejo que, número 2 do formulário, segue o temido "por quê?". Pergunta essa que, apesar de fazer incansavelmente, sou, via de regra, incapaz de responder.
Por que gostei de tal filme? Sei lá, gostei, achei bonito, me tocou, achei bonito, gostei. Porque sim. Não te interessa. Não enche o saco.
Mas eu, numa onda incomum de boa vontade, fui tentar responder amigavelmente. Dizendo, claro, que não sei e isso e aquilo.
Falou-se de Amélie Poulain e eu me dei conta, também influenciada por outro da Audrey Tatou, que filmes felizinhos demais me deprimem.
Gostei demais da Amélie, assisti várias vezes e minha reação variava: podia me deixar feliz e leve ou, em uma palavra, triste.
Fiquei pensando nisso, porque inventei de assistir às tais bonecas russas.
Isso de finais felizes meio que me deprimem, porque eu meio que me dou conta de que... bem, eles não exatamente existem, né? Aí quando são assim mais forçados, em filmes piores, tudo bem porque, beirando o ridículo, não despertam nenhum tipo de ânsia.
Mas, por exemplo, a Amélie, é tão bonitinho e dá tanta vontade de viver naquele mundo, com aqueles sons e aquelas cores e aquela luz, de viver naquele apartamento e trabalhar naquele bar e encontrar um álbum e tudo o mais. Li esses dias uma notícia dizendo que não sei quem não sei aonde encontrou uma mala de cartas numas montanhas quaisquer, de um avião de correio que caiu não sei quando. E eu não tenho uma vizinha esperando notícias do marido desaparecido. Ou tenho, mas não conheço porque não é da minha natureza conhecer. E, se tivesse e soubesse, será que forjava uma carta, banhando-a em chá para parecer antiga?
De repente, a verdade nua e crua é que eu, euzinha, não tenho aqui dessa leveza necessária para nada disso. Não tenho essas cores e esses sons e esses lugares. Sou dura e pesada e, só de vez em quando, gosto de ser assim. Noutras, acho triste.
Vi de novo o bonecas e, ao contrário da primeira vez, não me convenceu. Se visse o albergue, podia ter também a mesma sensação, de Jens, Murari e Katia, não Xavier.
E Maíra.
Daí é que não se escapa.
E todo o lance do filme terminar e a gente, de fora, continuar. E continuar. E continuar. Que é bom, claro. E, claro, mau.
É só que às vezes bate um cansaço, principalmente porque tenho pensado nisso da vida como eterna, até o fim. E como o fim ainda não é agora, não existe.
Então, eterna e cansada.
Busco, então, por aí, alguém que fale com a minha melancolia, que a partilhe comigo, que a sinta como sua, apesar de sabê-lo impossível. Ou impossível agora ou impossível pra sempre.
Começo, essa tarde, a sudoeste.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Transylvania
Dizia, há pouquíssimo tempo, de uma cena de Transylvania, filme que vi há já algum tempo, num cinema que hoje está fechado. Vi, no cinema, porque era com um ator de outro filme de que tinha gostado muito. Vi e gostei e me lembro, de vez em quando.
Comentando, senti vontade de ver. Rever e aquilo tudo. Muitas e muitas peripécias para encontrar o filme, numa delas me caiu em mãos, como por acaso, a trilha sonora, de que ouvi falar muito bem.
Nesse começo de dia, então, já sentada, me ponho a ouvi-la.
O filme todo cigano e a trilha toda cigana.
De um som que me faria sair de mim, se eu soubesse fazê-lo.
Do tipo que te tira, se você se permitir ir.
Eu não me permito. Por mais que reclame, com constância excessiva, de não poder nunca sair de mim, de estar cansada e querer um tempo fora, a verdade que me assola agora, enquanto ouço uma música que só posso definir como livre, é que estou presa demais a mim mesma para arriscar sequer uma olhadela porta afora.
Venho pensando, há já alguns dias, que isso de liberdade não existe. Talvez eu estivesse errada e ela não existe apenas para mim, porque imagino que me libertar é estar em tal lugar, sob tal luz, ouvindo tais coisas e não é. Liberdade é ser livre agora, com luz estourada e saia jeans. Sem o refúgio de paredes escuras e luz suave, sem o refúgio de estrelas que brilham ou lua que se esconde. É na eletricidade e a portas abertas. Com quem quiser ver. E ser. É de cara limpa, sem subterfúgios nem escudos.
Pois sim, eu sou e estou presa em mim, nas coisas que acredito, nas escolhas que faço, na corda com que me enrolo e que é feita de tudo aquilo que acho que devo ser.
Não sei ainda se esse é um caminho a que poderei, um dia, chamar de correto. Ou se sou, como já fui acusada, pura e simplesmente covarde. Ainda essa dúvida me prende, como se eu precisasse de mais correntes.
Ouço, no entanto, portas se abrindo e paredes rachando e o vento levando consigo tudo o que encontra pela frente. O vento indo e ficando e não sei se estou nele, nem se agora me perco ou me acho.
O perder-se já veio por aqui, com a mesma desculpa. Em outra vida que é tanto a mesma.
Não li o desabafo que já uma vez saiu, para tentar entender quem sou agora, sem me espelhar na que fui.
Mais uma vez, visito-me e em mim estou.
Comentando, senti vontade de ver. Rever e aquilo tudo. Muitas e muitas peripécias para encontrar o filme, numa delas me caiu em mãos, como por acaso, a trilha sonora, de que ouvi falar muito bem.
Nesse começo de dia, então, já sentada, me ponho a ouvi-la.
O filme todo cigano e a trilha toda cigana.
De um som que me faria sair de mim, se eu soubesse fazê-lo.
Do tipo que te tira, se você se permitir ir.
Eu não me permito. Por mais que reclame, com constância excessiva, de não poder nunca sair de mim, de estar cansada e querer um tempo fora, a verdade que me assola agora, enquanto ouço uma música que só posso definir como livre, é que estou presa demais a mim mesma para arriscar sequer uma olhadela porta afora.
Venho pensando, há já alguns dias, que isso de liberdade não existe. Talvez eu estivesse errada e ela não existe apenas para mim, porque imagino que me libertar é estar em tal lugar, sob tal luz, ouvindo tais coisas e não é. Liberdade é ser livre agora, com luz estourada e saia jeans. Sem o refúgio de paredes escuras e luz suave, sem o refúgio de estrelas que brilham ou lua que se esconde. É na eletricidade e a portas abertas. Com quem quiser ver. E ser. É de cara limpa, sem subterfúgios nem escudos.
Pois sim, eu sou e estou presa em mim, nas coisas que acredito, nas escolhas que faço, na corda com que me enrolo e que é feita de tudo aquilo que acho que devo ser.
Não sei ainda se esse é um caminho a que poderei, um dia, chamar de correto. Ou se sou, como já fui acusada, pura e simplesmente covarde. Ainda essa dúvida me prende, como se eu precisasse de mais correntes.
Ouço, no entanto, portas se abrindo e paredes rachando e o vento levando consigo tudo o que encontra pela frente. O vento indo e ficando e não sei se estou nele, nem se agora me perco ou me acho.
O perder-se já veio por aqui, com a mesma desculpa. Em outra vida que é tanto a mesma.
Não li o desabafo que já uma vez saiu, para tentar entender quem sou agora, sem me espelhar na que fui.
Mais uma vez, visito-me e em mim estou.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Deus me livre de ser ladrão!
A sobrinha contando, totalmente do nada, de um dia em que estava na escola e todas as crianças brincavam no parquinho.
Eu imaginando os pimpolhos fazendo bolo de lama e pendurados no trepa-trepa.
A sobrinha continua, dizendo que fulano e fulano eram polícia e tinham que pegar os outros.
Entendo, afinal, que a brincadeira era o famoso polícia-e-ladrão, das brincadeiras favoritas da minha infância. Bate aí uma vontade louca de brincar e penso que não há mais oportunidades. Quase diria "tantas", mas o fato é que, há já muitos anos, não há nenhuma. Nem em reuniões de adultos bobos, querendo voltar no tempo, não surge uma alma santa dizendo "vamos brincar de polícia-e-ladrão?" Quem sabe, da próxima vez, se me lembrar, eu faço o papel de alma santa. Mas aí é aquela coisa toda, das roupas e sapatos inapropriados para correr, do almoço que tem de sair, da cerveja que vai esquentar, disso e daquilo que nos diferencia inexoravelmente do mundo da sobrinha.
Fica então a lembrança, principalmente do predinho, com sua piscina que não enchia e servia às vezes como cadeia, noutras como campo de futebol de gol-a-gol. Do quarteirão em que se brincava de fugir da autoridade, e ficar bolando estratégias e esconderijos para não ser capturado. Eu nunca fui uma criança veloz, apesar de não ser daquelas bobocas que ficam de fora da educação física. Gostava mesmo de esportes, era das melhores jogadoras de handebol, basquete e vôlei, só no futebol é que não fazia grande coisa. Mas ser das melhores jogadoras, afinal, nunca importou muito, visto as outras jogadoras serem normalmente metidas a dondocas que preferiam tricotar a marcar pontos. A prova mesmo era brincar com os meninos e eu normalmente não fazia tão feio, apesar de não figurar mais entre os melhores de nada.
Eu nunca fui rápida, mas tinha lá outras habilidades. No polícia-e-ladrão, era difícil me pegarem, porque eu ficava me movimentando, em vez de ficar escondida esperando ser encontrada. Se visse a polícia procurando num esconderijo manjado estava feita: esperava ela ir embora e me mocozava ali, porque ela não mais voltaria a um lugar em que já procurou. Lembro de uma vez em que uns meninos subiram numa pitangueira do predinho e pronto, acabou ali a brincadeira. Sei não como se descobriu que eles estavam lá, porque a tendência mesmo é a gente procurar a rés-do-chão, mas, mesmo expostos, era impossível pegá-los porque os do chão não sabiam subir aos ares.
Perguntei então à sobrinha se ela preferia ser polícia ou ladrão e a resposta, "deus me livre de ser ladrão", me pegou um pouco de surpresa.
Porque claro que todo mundo sabe que é muito mais legal ser ladrão, porque é mais divertido e mais fácil. A polícia vai lá, prende os caras, tem que deixar um guarda, mas mesmo assim os bandidos sempre conseguem se libertar, numas de "salva-o-mundo", e o trabalho não termina. E fugir é mais fácil que capturar.
Senti, talvez forçando a barra, um lance moral na fala da sobrinha. "Deus me livre de ser ladrão" . Não deve ter mesmo a ver com a brincadeira, alguém deve ter lhe ensinado - eu não fui, acho - que ser ladrão é mau.
Não duvido que seja um bom valor, mas que torna a brincadeira mais chata, isso lá torna.
Aí essa reflexão superficial entra na conta daquela outra, sobre as canções de ninar que sempre trazem imagens aterrorizantes. Das coisas que ensinamos às nossas crianças, né?
Problema gigante esse, porque também é um saco isso do politicamente correto. "Ah, então ser polícia na brincadeira é melhor, porque deus me livre de ser ladrão". Também é ser literal demais e levar as coisas a sério demais. Até porque isso da moral é amplamente relativo. Mas, sim, devemos ensiná-las a não roubar e tudo aquilo.
É só que, moral à parte, a diversão mesmo está em fugir e enganar. Na hora da brincadeira, o valor mais precioso devia ser o deus-me-livre-de-ser-chato.
Eu imaginando os pimpolhos fazendo bolo de lama e pendurados no trepa-trepa.
A sobrinha continua, dizendo que fulano e fulano eram polícia e tinham que pegar os outros.
Entendo, afinal, que a brincadeira era o famoso polícia-e-ladrão, das brincadeiras favoritas da minha infância. Bate aí uma vontade louca de brincar e penso que não há mais oportunidades. Quase diria "tantas", mas o fato é que, há já muitos anos, não há nenhuma. Nem em reuniões de adultos bobos, querendo voltar no tempo, não surge uma alma santa dizendo "vamos brincar de polícia-e-ladrão?" Quem sabe, da próxima vez, se me lembrar, eu faço o papel de alma santa. Mas aí é aquela coisa toda, das roupas e sapatos inapropriados para correr, do almoço que tem de sair, da cerveja que vai esquentar, disso e daquilo que nos diferencia inexoravelmente do mundo da sobrinha.
Fica então a lembrança, principalmente do predinho, com sua piscina que não enchia e servia às vezes como cadeia, noutras como campo de futebol de gol-a-gol. Do quarteirão em que se brincava de fugir da autoridade, e ficar bolando estratégias e esconderijos para não ser capturado. Eu nunca fui uma criança veloz, apesar de não ser daquelas bobocas que ficam de fora da educação física. Gostava mesmo de esportes, era das melhores jogadoras de handebol, basquete e vôlei, só no futebol é que não fazia grande coisa. Mas ser das melhores jogadoras, afinal, nunca importou muito, visto as outras jogadoras serem normalmente metidas a dondocas que preferiam tricotar a marcar pontos. A prova mesmo era brincar com os meninos e eu normalmente não fazia tão feio, apesar de não figurar mais entre os melhores de nada.
Eu nunca fui rápida, mas tinha lá outras habilidades. No polícia-e-ladrão, era difícil me pegarem, porque eu ficava me movimentando, em vez de ficar escondida esperando ser encontrada. Se visse a polícia procurando num esconderijo manjado estava feita: esperava ela ir embora e me mocozava ali, porque ela não mais voltaria a um lugar em que já procurou. Lembro de uma vez em que uns meninos subiram numa pitangueira do predinho e pronto, acabou ali a brincadeira. Sei não como se descobriu que eles estavam lá, porque a tendência mesmo é a gente procurar a rés-do-chão, mas, mesmo expostos, era impossível pegá-los porque os do chão não sabiam subir aos ares.
Perguntei então à sobrinha se ela preferia ser polícia ou ladrão e a resposta, "deus me livre de ser ladrão", me pegou um pouco de surpresa.
Porque claro que todo mundo sabe que é muito mais legal ser ladrão, porque é mais divertido e mais fácil. A polícia vai lá, prende os caras, tem que deixar um guarda, mas mesmo assim os bandidos sempre conseguem se libertar, numas de "salva-o-mundo", e o trabalho não termina. E fugir é mais fácil que capturar.
Senti, talvez forçando a barra, um lance moral na fala da sobrinha. "Deus me livre de ser ladrão" . Não deve ter mesmo a ver com a brincadeira, alguém deve ter lhe ensinado - eu não fui, acho - que ser ladrão é mau.
Não duvido que seja um bom valor, mas que torna a brincadeira mais chata, isso lá torna.
Aí essa reflexão superficial entra na conta daquela outra, sobre as canções de ninar que sempre trazem imagens aterrorizantes. Das coisas que ensinamos às nossas crianças, né?
Problema gigante esse, porque também é um saco isso do politicamente correto. "Ah, então ser polícia na brincadeira é melhor, porque deus me livre de ser ladrão". Também é ser literal demais e levar as coisas a sério demais. Até porque isso da moral é amplamente relativo. Mas, sim, devemos ensiná-las a não roubar e tudo aquilo.
É só que, moral à parte, a diversão mesmo está em fugir e enganar. Na hora da brincadeira, o valor mais precioso devia ser o deus-me-livre-de-ser-chato.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Errar
Um dos aspectos mais interessantes de manter um registro como esse que me acompanha praí há dois anos é a possibilidade de perceber as mudanças que nos acontecem e que, de outra maneira, poderiam ficar melhor camufladas.
Mas também as mudanças não saltam aos olhos por vezes, ou não aos nossos olhos, viciados demais em nós mesmos para nos ver com alguma clareza. Inconstantes que somos, somos também sempre nós. E os clichês se reproduzem.
Eu percebo, nesse começo de noite invernal, algumas das transformações que se estamparam aqui. Acho que a principal aconteceu, talvez de maneira óbvia, sem eu me dar conta, no próprio modo de escrever. Penso que antes, nesse antes idealizado que pode ser, eu normalmente vinha com uma idéia e um fim e fazia, com os dois, o caminho para deixar as palavras. Mas eu ia a algum lugar, conhecia o fim da estrada.
E hoje eu não sei. Só que é engraçado e uma dessas peças que a vida nos prega o fato de, antes, com o objetivo claro, eu ser ainda mais perdida do que sou agora. Como se a certeza do destino fosse dessas coisas que só um coração jovem pode ter. Como se o destino, afinal, fosse um eterno perder-se a que nos acostumamos e o tempo apagasse as certezas e os caminhos e deixasse alguma outra coisa. Ou não deixasse nada, porque a verdade de hoje é que só existe nada, e esse nada é o mesmo sentido da vida.
Então a eu que sou hoje, velha, não sabe aonde vai. Nem por onde. Nem como. Sabe de vez em quando que quer alguma coisa, seja fazer ou escrever. Sabe que gosta de realizar esse desejo, então vem, vez por outra, dizer coisas que nem sabe o que são. Sabe que sente, mas não lhes conhece o nome. Ou acha melhor calar, porque... porque. Sabe que sente e vem e para de repente, porque não sabe nunca se chegou aonde deveria.
Não há começo, meio e fim na vida, porque haveria no texto?
Só idéias desconjuntadas, que fazem sentido na cabeça e, transpostas em palavras, formam uma imagem difícil de decifrar e sempre tão diferente da original. E aquém. Ou nem aquém de fato, só na aparência deturpada pela imagem elevada demais que tenho de mim.
Não sei, o fato é que chega ao fim uma segunda-feira que, pra mim, não teve cara de segunda-feira. Isso das férias que me concedi, sei nem por que faço já que, no fim do dia, além das horas de sono dormidas e das horas de tv mal assistidas, bate aquele vazio e aquela culpa, de tudo que devia ter sido feito e não foi. E a inércia, que dificulta tanto a movimentação de um corpo parado.
Pode ter muito a ver com o fato de, depois de bastante tempo, não haver por aqui perspectivas. Ou melhor, até há, mas mais distantes. Compromissos de julho cumpridos e restam agora só aqueles que dependem de mim, da minha disciplina e tudo aquilo que eu posso adiar para sempre.
Hoje senti aqui uma fome de estrada que, apesar de me acompanhar sempre e povoar meus pensamentos e sonhos, fazia tempo que não acordava. Aquilo de sair daqui agora, em vez de planejar para um mês ou dois. De hoje, tem que ser agora, e agora é impossível.
Fica a estrada e fico eu.
Ela se perde e também eu.
Eu que me perco, sem saber aonde quero chegar. Que chego ao fim que não há.
É o errar.
Mas também as mudanças não saltam aos olhos por vezes, ou não aos nossos olhos, viciados demais em nós mesmos para nos ver com alguma clareza. Inconstantes que somos, somos também sempre nós. E os clichês se reproduzem.
Eu percebo, nesse começo de noite invernal, algumas das transformações que se estamparam aqui. Acho que a principal aconteceu, talvez de maneira óbvia, sem eu me dar conta, no próprio modo de escrever. Penso que antes, nesse antes idealizado que pode ser, eu normalmente vinha com uma idéia e um fim e fazia, com os dois, o caminho para deixar as palavras. Mas eu ia a algum lugar, conhecia o fim da estrada.
E hoje eu não sei. Só que é engraçado e uma dessas peças que a vida nos prega o fato de, antes, com o objetivo claro, eu ser ainda mais perdida do que sou agora. Como se a certeza do destino fosse dessas coisas que só um coração jovem pode ter. Como se o destino, afinal, fosse um eterno perder-se a que nos acostumamos e o tempo apagasse as certezas e os caminhos e deixasse alguma outra coisa. Ou não deixasse nada, porque a verdade de hoje é que só existe nada, e esse nada é o mesmo sentido da vida.
Então a eu que sou hoje, velha, não sabe aonde vai. Nem por onde. Nem como. Sabe de vez em quando que quer alguma coisa, seja fazer ou escrever. Sabe que gosta de realizar esse desejo, então vem, vez por outra, dizer coisas que nem sabe o que são. Sabe que sente, mas não lhes conhece o nome. Ou acha melhor calar, porque... porque. Sabe que sente e vem e para de repente, porque não sabe nunca se chegou aonde deveria.
Não há começo, meio e fim na vida, porque haveria no texto?
Só idéias desconjuntadas, que fazem sentido na cabeça e, transpostas em palavras, formam uma imagem difícil de decifrar e sempre tão diferente da original. E aquém. Ou nem aquém de fato, só na aparência deturpada pela imagem elevada demais que tenho de mim.
Não sei, o fato é que chega ao fim uma segunda-feira que, pra mim, não teve cara de segunda-feira. Isso das férias que me concedi, sei nem por que faço já que, no fim do dia, além das horas de sono dormidas e das horas de tv mal assistidas, bate aquele vazio e aquela culpa, de tudo que devia ter sido feito e não foi. E a inércia, que dificulta tanto a movimentação de um corpo parado.
Pode ter muito a ver com o fato de, depois de bastante tempo, não haver por aqui perspectivas. Ou melhor, até há, mas mais distantes. Compromissos de julho cumpridos e restam agora só aqueles que dependem de mim, da minha disciplina e tudo aquilo que eu posso adiar para sempre.
Hoje senti aqui uma fome de estrada que, apesar de me acompanhar sempre e povoar meus pensamentos e sonhos, fazia tempo que não acordava. Aquilo de sair daqui agora, em vez de planejar para um mês ou dois. De hoje, tem que ser agora, e agora é impossível.
Fica a estrada e fico eu.
Ela se perde e também eu.
Eu que me perco, sem saber aonde quero chegar. Que chego ao fim que não há.
É o errar.
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