Tive um professor na faculdade, figura importantíssima na minha história profissional (se é que se pode assim chamá-la) que tem uma característica que invejo.
Talvez ele não tenha sido a primeira pessoa que conheci com essa característica, mas certamente é a que a tem mais acentuada.
E foi com ele que percebi que me falta inteiramente.
A capacidade de pensar antes de falar.
Nem sei, na verdade, de que me adiantaria, porque normalmente eu penso em tal turbilhão que talvez não fizesse diferença alguma. E não sei se sou, nisso, diferente do restante das pessoas, mas sou incapaz de pensar... não sei se linearmente é a palavra, mas pensar com começo, meio e fim. E talvez mesmo eu revele a dimensão da minha ignorância, mas é que li esses dias um cara, num livro, dizer que ia pensar num assunto, aí pensava nele, depois pensava em outro, depois em outro e depois terminava de pensar.
Reconheço que toda essa baboseira pode não passar de recurso narrativo do autor, mas ela me faz pensar irremediavelmente no meu turbilhão. E mesmo sem a tal fala, às vezes me disponho a pensar num assunto e nunca consigo. Quando tenho que tomar uma decisão ou assim. Sento-me num lugar qualquer, ou me deito, e declaro: vou pensar sobre isso. E nada. Lembro de coisas, projeto coisas, mudo de assunto, relembro pessoas, projeto pessoas, mudo de assunto, penso na fome, no frio ou calor (sempre algum dos dois), sinto sono, quero ler um livro, ver um filme, chorar, ligar pra alguém, lembro que esqueci do assunto sobre o qual ia pensar e tento pensar nele e mudo de assunto.
De vez em quando acontece de eu decidir, mas acredito que, no final das contas, mais por instinto que reflexão.
Ou, se há reflexão envolvida, ela é toda quebradiça, não gera uma imagem límpida e reconhecível, é um quebra cabeças desmontado, com algumas peças repetidas e outras ainda viradas para baixo.
Isso tudo só para falar em pensar. Pensar e então falar é exercício impossível para mim.
Aí o resultado são aquelas lambanças terríveis. Pega de surpresa, conto mentiras imbecis, absolutamente óbvias, quando seria bem mais fácil dizer a verdade, se eu apenas pensasse antes de falar. Invento desculpas esfarrapadas, digo besteiras gigantescas; às vezes cometo a bizarrice gigantesca de pensar, antes de falar - mas mesmo antes, tipos cinco minutos e tal - e quando chega a hora, esqueço o que pensei e falo merda.
Sei lá se é trágico ou cômico, muito provavelmente é os dois, mas o que tenho total certeza é que vivo me metendo em enrascadas. Se não pela coisa em si, pela culpa que depois me assola, a repreensão e a inconformidade com a minha inabilidade.
E as perguntas incessantes de por que eu faço isso assim, por que não fiz isso assado e tudo o mais. E as promessas?
Da próxima vez, vou pensar; vou ficar em silêncio cinco segundos e pensar e então responder/dizer/fazer de maneira a depois não me torturar.
E a próxima vez, ou essa próxima vez, nunca chega. E sempre o embaralhamento.
Ia dizer isso por algum motivo que já esqueci.
Perdeu-se no quebra-cabeças do avesso do meu espelho quebrado.
Um comentário:
Descreveu com enorme clareza e poesia exatamente o que se passa comigo.
Obrigada, não me sinto mais só neste turbilhão que, invariavelmente provoca também uma certa sensação de solidão.
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