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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Fim feliz

Inventei de assistir o bonecas russas.
Não, não é assim que começa.
Foi-me perguntado, quer dizer, não somente a mim, que filme eu vi ultimamente de que gostei.
Uma que a pergunta é estranha pra caramba. A pessoa que a fez era só um pouco estranha e tava naquelas de puxar desesperadamente assunto. E desespero é das coisas menos atraentes do mundo, exceto quando é a mais. A segunda opção é mais rara e de um tipo diferente; mais comum mesmo é a primeira, que leva a pessoa a fazer perguntas desse tipo.
Ou talvez o problema fosse o alvo. Se fosse dirigida a adolescentes bobinhas, elas talvez respondessem um "crepúsculo" da vida ou assim. E tirassem da carteira ou da bolsa as figurinhas do filme, ou o pôster do carinha, ou mostrassem a tatuagem que fizeram em homenagem àquela que é a melhor história de todos os tempos.
Ou eu é que sou mesmo irrevogavelmente arrogante, mas acho que a gente chega a um momento da vida em que não sabe bem responder a essas coisas. Acho que, na verdade, sempre estive mais ou menos nesse momento. Ou você me pega na onda de empolgação de alguma coisa que acabei de ver, ou a pergunta suscita uma explosão de imagens e nomes no meu cérebro que me paralisam e impedem uma resposta inteligível.
E às vezes a resposta não vem por algo de preguiça, quando antevejo que, número 2 do formulário, segue o temido "por quê?". Pergunta essa que, apesar de fazer incansavelmente, sou, via de regra, incapaz de responder.
Por que gostei de tal filme? Sei lá, gostei, achei bonito, me tocou, achei bonito, gostei. Porque sim. Não te interessa. Não enche o saco.
Mas eu, numa onda incomum de boa vontade, fui tentar responder amigavelmente. Dizendo, claro, que não sei e isso e aquilo.
Falou-se de Amélie Poulain e eu me dei conta, também influenciada por outro da Audrey Tatou, que filmes felizinhos demais me deprimem.
Gostei demais da Amélie, assisti várias vezes e minha reação variava: podia me deixar feliz e leve ou, em uma palavra, triste.
Fiquei pensando nisso, porque inventei de assistir às tais bonecas russas.
Isso de finais felizes meio que me deprimem, porque eu meio que me dou conta de que... bem, eles não exatamente existem, ? Aí quando são assim mais forçados, em filmes piores, tudo bem porque, beirando o ridículo, não despertam nenhum tipo de ânsia.
Mas, por exemplo, a Amélie, é tão bonitinho e dá tanta vontade de viver naquele mundo, com aqueles sons e aquelas cores e aquela luz, de viver naquele apartamento e trabalhar naquele bar e encontrar um álbum e tudo o mais. Li esses dias uma notícia dizendo que não sei quem não sei aonde encontrou uma mala de cartas numas montanhas quaisquer, de um avião de correio que caiu não sei quando. E eu não tenho uma vizinha esperando notícias do marido desaparecido. Ou tenho, mas não conheço porque não é da minha natureza conhecer. E, se tivesse e soubesse, será que forjava uma carta, banhando-a em chá para parecer antiga?
De repente, a verdade nua e crua é que eu, euzinha, não tenho aqui dessa leveza necessária para nada disso. Não tenho essas cores e esses sons e esses lugares. Sou dura e pesada e, só de vez em quando, gosto de ser assim. Noutras, acho triste.
Vi de novo o bonecas e, ao contrário da primeira vez, não me convenceu. Se visse o albergue, podia ter também a mesma sensação, de Jens, Murari e Katia, não Xavier.
E Maíra.
Daí é que não se escapa.
E todo o lance do filme terminar e a gente, de fora, continuar. E continuar. E continuar. Que é bom, claro. E, claro, mau.
É só que às vezes bate um cansaço, principalmente porque tenho pensado nisso da vida como eterna, até o fim. E como o fim ainda não é agora, não existe.
Então, eterna e cansada.
Busco, então, por aí, alguém que fale com a minha melancolia, que a partilhe comigo, que a sinta como sua, apesar de sabê-lo impossível. Ou impossível agora ou impossível pra sempre.
Começo, essa tarde, a sudoeste.

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