Estou aqui meio desesperada. Ou desesperada e meio.
Estou aqui meia, porque eu consigo viver uma vida na bolha, bolha multifacetada de menina branca, paulista fresca de classe média, e muitas vezes é a bolha que me permite respirar e sobreviver e viver. A bolha resiste a muita coisa, intacta ou levemente transposta, à violência, injustiça e crueldade que permeiam esse mundão de sem-deus.
Estou aqui meia e desesperada, depois de ter assistido a esse absurdo vídeo da TV Folha sobre uns tais "yellow blocs" que não vivem na bolha, mas em outro mundo.
Assisti constrangida àquele rei do camarote e fiquei com vergonha e pena, mas não me desesperei. Achei o cara babaca, mas tá ali sendo babaca meio que na dele. Ou não é isso e eu lembro mal?
Mas esse povo nojento que aparece indignado por ter pagado mil reais para ir a um evento não-vip-o-suficiente... Eles são gente como eu? Eles têm de ser, porque não há alternativa, mas que desespero.
Então eu tenho que ser menos gente do que sou, ou que gostaria de ser.
Que burrice e arrogância é essa, de gente que deveria ser esclarecida por ter acesso a tanta coisa que falta à maioria das pessoas?
Quer dizer que o cara paga trezentos reais para ir num lugar, uma festa privada, suponho, reclama do atendimento e da falta de banheiro e conclui que o problema do Brasil é esse, exatamente o mesmo, e que mostra suas outras facetas na saúde e educação. Como pode uma pessoa não perceber que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e vice-versa. Nem é uma pergunta, é mesmo uma afirmação assim toda torta. O que esse ser sabe de educação e saúde pública nesse mundo?
Eu não digo que sei. Eu sou menina branca, paulista fresca de classe média. Estudei em escolas particulares, porque meus pais valorizavam minha educação e entendiam que no sistema público não rolava. Entendiam, sabe-se lá se correta ou erroneamente. Fiz colegial numa escola pública de elite, com prova eliminatória para entrar e estudei com muita gente branca paulista fresca, de classe mais ou menos média. Por tudo isso, estudei numa universidade pública de elite, com muita gente fresca e pouca gente pobre. A bolha é resistente e o privilégio de viver nela não é para todos.
Estudo ainda numa universidade pública de elite, com gente talvez mais diversificada, mas mesmo poucas que não tem histórico parecido com o meu.
Mas a bolha vez por outra estoura, mais ou menos violentamente, como ao assistir um negócio desse. Essa gente branca, paulista fresca e sem classe, porque não pertence a esse mundo.
Nem sei, acho que estou tão dentro dessa lógica que acho que a pessoa pode gastar trezentos ou mil ou dez mil reais onde bem quiser e entender. Não é isso que eu acho? Ou acho que elas não deveriam ter trezentos ou dez mil? Persiste aqui a garota que, aos dez ou doze anos de idade, ficou chocada ao ouvir a explicação do professor de história sobre o que era comunismo. Achava eu, não sei por que razões já que fui criada num lar de esquerda com direito a exemplar d'O Capital e tudo o mais, que era qualquer coisa ruim. Como foi mesmo que ele disse? Minha memória, para variar, falha, mas devia ser algo do tipo "é acreditar que as pessoas deveriam ter tudo igualmente, partilhar da propriedade, sem haver ricos nem pobres", algo assim simplista para que uma menina de dez ou doze anos pudesse compreender e pensar: "poxa, mas isso é o máximo! Qual é o problema, por que não vivemos assim?". Como se fosse um ideal absoluto, de uma menina branca, paulista fresca de classe média numa sala de aula de escola particular com 18 coleguinhas.
Eu compreendo a vida privilegiada que levo, ao menos até o ponto que me é dado compreender. Eu gosto dessa vida, porque privilégio é bom. Eu posso ser parada numa blitz e perguntar por que ao policial. Posso até ouvir como resposta "não, é porque você tava subindo a rua meio rápido e por causa do farol não dava pra ver quem tava dirigindo". Não significa que eu queira que ele seja exclusivo, bom seria que não fosse privilégio, mas direito ou sei lá o que partilhado por todo mundo.
Será que isso significa que, sendo paulista branca, fresca de classe média, eu estou do lado dessa gente?
Pode ser que sim, mas eu não quero estar. Não gostaria de estar, nem almejo sequer flertar com o acesso a esse mundo vip tão asqueroso.
A bolha se estoura e explode na minha cara. Então por que vir aqui falar isso?
A verdade é que minha arrogância é tão suprema que me acho melhor até do que essas pessoas, que por sua vez se acham melhor do que toda e qualquer pessoa que não partilha de sua pulseirinha, jóia ou guífiti.
Eu sei que vivo nesse mundo. No entanto, minha bolha me protege até mesmo dele, não apenas dos miseráveis marginalizados, do cara que bate à porta da minha casa pedindo um café com pão.
Quando ela falha, não há saída para além do desespero. De me sentir menor, destroçada, mesmo roubada, porque se eu vejo beleza nas coisas e nas pessoas, se me vejo nelas e elas em mim, se me completa ver o bêbado dançando frevo no carnaval, também me esvazia ser obrigada a perceber a podridão espalhada pelas mesmas ruas e avenidas em que dança o rapaz frente ao esquadrão de choque da polícia.
Mas ela não está mesmo na mesma rua, está ali fechada atrás de seus altos muros, protegida por seguranças (pessoas, como eu e todo o resto), alijada de qualquer senso de pertencimento à mesma lama em que chafurdamos todos.
Eu sinto vergonha, porque não consigo evitar de me sentir algo responsável pelo mundo em que vivo. No mínimo, faço parte dele e, arrogante que sou, sei que cometo injustiças e crueldades e erro. Desconfio que minha bolha e meus privilégios não sejam suficientes, porém, para me tornar totalmente alheia ao que me rodeia.
De dentro da floresta, eu vejo as árvores.
PS: Depois só que reparei que o politizadão reclama da dificuldade em comprar fichas e usar o banheiro e a reportagem corta para o caixa vazio e um mundaréu de gente usando os banheiros sem nem fila. E ele "tem medo".
PPS: Sim. TV Folha. www.youtube.com/watch?v=0Zkp1C9ucrc
PPPS: E que "povo" é esse que essa gente pensa representar, meus sais? Falando de uma governante legitima e democraticamente eleita, como se o cargo que ela ocupa lhe tivesse sido concedido por, sei lá, marcianos. O "Brasil" aprendeu a elegê-la. Eu daqui acho um absurdo, por exemplo, que o governador deste estado seja quem é. Acho sintoma de um "povo" alienado e reacionário, que foi lá e nele votou. Sinto raiva, muita, mas pera lá. Ele foi eleito. Gostaria que não o fosse novamente, é meu direito, minha opinião, minha opção política. Isso não significa desprezar simplisticamente o processo que o colocou no lugar onde está. Né?
Mas é isso aí, o povo branco, paulista de classe média pra cima, que não liga nem pra futebol e tá ali meio torcendo porque sim, que está nas arenas (ou em algumas delas) xingando a Dilma. Faço questão de, menina branca, paulista fresca de classe média, de desparticipar dele.
PPPPS: E tem mais; parte dos "protestos" que teoricamente indicam a insatisfação do "povo" com o "governo" aconteceu ou não por causa do aumento das tarifas de ônibus? Quer dizer, um lance concreto, que afeta o bolso e a vida das pessoas "diferenciadas", não por causa de "palhaçada" de ninguém.
PPPPPS: Concluindo, classe média é uma merda. Bom mesmo é o Tano Pasman.