Se tem uma coisa - ok, entre muitas, mas uma - que eu detesto, é gente que cita livros que não leu.
Acho de um absurdo sem tamanho, de uma impostura, de uma canalhice sem fim.
Andei contando pra uns amigos o lance do "você tem que ser mais leve, como a insustentável leveza do ser"; inclusive de como uma amiga roubou a história e passava adiante como se tivesse sido com ela.
Mas não foi, foi comigo, e eu juro que não estava sob efeito de substância alguma que me faça ter entendido errado, as palavras foram mesmo essas. Exatamente essas. Quer dizer, isso se não considerarmos insanidade temporária, dessas que nos atacam sazonalmente, uma substância.
O fato é que detesto gente que cita livros que não leu. Não me refiro aqui a ler a citação, propriamente, que acho bem possível de as pessoas fazerem - embora não seja condição sine qua non pra uma galera sair por aí falando merda. Se encaixa na categoria citar livros que não se terminou de ler. Porque né? Pode demais ser que dali a cinco páginas, ou na penúltima página, o livro resolva te dar uma lambada e afinal aquela frase ali que você achou tão bonitinha na página dois é oposto da mensagem que ele traz ao final. Então eu acho importante isso de final, acho que é nele - se for em algum lugar - que a gente pode dizer alguma coisa sobre o que passou.
Mas há momentos na vida de uma pessoa em que... bem, é impossível chegar ao final. E, por não estar ainda lá, também é impossível saber por que é impossível chegar, já que a gente só entende as coisas no fim. Ai, as bolas de neve.
Aí eu, no meio desse drama, há milênios não termino um livro de literatura - o que é super estranho, porque desde que me entendo por gente nunca passei por seca literária. Começou tudo lá com a Turma da Mônica, depois foi a Coleção Vagalume, depois romances água-com-açúcar até chegar finalmente ao filé. Não que os outros gêneros tenham ficado de lado, porque não ficaram, mas eu alcancei, e não foi ontem, algo que se poderia talvez chamar, com algum esnobismo, de uma certa maturidade leitoral. Não no sentido de eu ler bem, ser exímia leitora, mas eu já visitei os grandes - mesmo que não os tenha entendido bem. E já visitei também outros menores e mais prazerosos. A questão é que eu nunca deixei de visitar. Nunca deixei de ir e seguir esses caminhos, desenhados por letras, guiada por palavras, nunca deixei de ir.
E agora não vou, não importa o quanto me esforce. Seca literária, pois não. Sei lá há quanto tempo não termino um livro. Tenho vários, vááários, começados, mas parece que acaba o combustível. Ou eu que mudo de rumo, ou o tempo mesmo que tá curto e ocupado por outras leituras, empenhado num engajamento recém-descoberto. Ou recém-apaixonado.
É só que eu comecei, mais uma vez, o grande sertão: veredas. Entrei numa onda de amor à terra, e aos campos gerais, e à fala do Guimarães, e larguei as traduções que tinha em mãos, todas recém-começadas e pensei "não, eu vou é por aqui". E eu sinceramente não acho que seja grande a chance de terminar dessa vez. Porque estou atolada, algo estressada, tenho zilhões de coisas pra fazer e pra ler e pra escrever e imagino, da página dois, que essa jornada tenha de ser empreendida em outras condições. Achei graça de notar o tanto de vezes em que ele diz que "viver é perigoso"; eu não tinha chegado aí ou se cheguei esqueci, mas entendi porque a galera que cita cita tanto isso.
Mas ia eu lendo e pouquíssimo depois da página dois, sem saber se vou chegar ao final, achando que não vou, esse cara tem a ousadia de me dizer da neblina. E eu acho de uma beleza, de uma dor, de uma verdade que rasga e sangra, não sei do que ele está falando, mas eu acho isso tudo e posso muito estar errada e me tornar alvo do meu próprio rancor, mas a neblina.
Não, eu não cito. Apenas comento.
Acho aqui alguma coisa que não tenho palavras para dizer; sinto aqui alguma coisa cujo nome desconheço.
Neblina. Não qualquer, minha. Vez em quando parece mesmo que a gente precisa é tomar posse das coisas. E sendo elas nossas... não sei se muda alguma coisa, acho que afinal não muda nada, de concreto, mas há conforto aí em algum lugar.
Exceto que neblina é o desconforto.
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Reunião
Fui me dar conta assim algo inesperadamente de que, se vivesse numa sociedade que valoriza essas coisas, eu poderia estar numa daquelas festas de dez anos de formatura do colegial.
Como boa viciada em seriados que sou, devo confessar que já pensei nisso algumas vezes, ao longo da minha vida, mas realmente não percebi o momento chegar. Os dez anos sempre pareciam estar muito mais adiante, daqui a cinco anos, ou sete, ou nove, ou só ano que vem, talvez. Não sei se cheguei a pensar nisso nos idos de zero-nove, mas poderia ter pensado. E contrariando o hábito de não lembrar de data nenhuma na minha vida, esta se junta às (poucas) outras que eu sei. Colegial: noventa-e-oito-dois-mil.
E dois-mil foi há dez anos, né? E o final de dois-mil, quando eu terminava as últimas matérias, fechava notas e não ficava de recuperação foi mesmo pelo fim de dezembro. Depois viriam as férias, como desde então não sei fazer. Mais que isso eu não alcanço; tenho às vezes vislumbres do que foi aquele período, principalmente enquanto estava lidando diretamente com adolescentes, de me perguntar como eu fui, como poderia ter sido. Se fiz isso e aquilo e como reagiria a essa ou aquela situação, mas a verdade é que está tudo distante demais. Mesmo me lembrando de como era já não toco com as mãos, aquela garota não existe mais, como tantas outras que já se perderam e ainda se perderão. Quanto tempo será que a gente leva para entender e compreender e incorporar que a vida vai numa mão só? Sempre indo, em frente, e nunca voltar e o que fica pelo caminho forma a lembrança de uma paisagem que vai perdendo a nitidez. O tempo todo as coisas vão e será que a gente um dia deixa de tentar segurá-las com as mãos? E, deixando de tentar por um momento, será que vai continuar deixando no próximo?
Pois o fato é que toda a brincadeira do colégio vai esmorecendo e o que veio depois parece ter maior importância. A grandes decisões foram tomadas depois da escola, se é que a gente decide alguma coisa nessa vida. Como diria o Bernardo, então eu já era o que sou agora, bem pode ser que até melhor acabada, apesar da lapidação que o tempo trouxe.
Cresci, embora ainda falte muito chão para a vida adulta. Talvez hoje menos chão do que ontem, mas ainda.
De repente, se eu fosse outra, iria querer fazer um balanço do que passou por essas paragens desde então, mas não é do meu feitio enumerar as coisas que me acontecem. Nem as boas nem as más. Nem mesmo as ótimas.
Foram-se, então, dez anos. Número redondo e tudo.
Aqui hoje o lago é mais tranquilo.
Como boa viciada em seriados que sou, devo confessar que já pensei nisso algumas vezes, ao longo da minha vida, mas realmente não percebi o momento chegar. Os dez anos sempre pareciam estar muito mais adiante, daqui a cinco anos, ou sete, ou nove, ou só ano que vem, talvez. Não sei se cheguei a pensar nisso nos idos de zero-nove, mas poderia ter pensado. E contrariando o hábito de não lembrar de data nenhuma na minha vida, esta se junta às (poucas) outras que eu sei. Colegial: noventa-e-oito-dois-mil.
E dois-mil foi há dez anos, né? E o final de dois-mil, quando eu terminava as últimas matérias, fechava notas e não ficava de recuperação foi mesmo pelo fim de dezembro. Depois viriam as férias, como desde então não sei fazer. Mais que isso eu não alcanço; tenho às vezes vislumbres do que foi aquele período, principalmente enquanto estava lidando diretamente com adolescentes, de me perguntar como eu fui, como poderia ter sido. Se fiz isso e aquilo e como reagiria a essa ou aquela situação, mas a verdade é que está tudo distante demais. Mesmo me lembrando de como era já não toco com as mãos, aquela garota não existe mais, como tantas outras que já se perderam e ainda se perderão. Quanto tempo será que a gente leva para entender e compreender e incorporar que a vida vai numa mão só? Sempre indo, em frente, e nunca voltar e o que fica pelo caminho forma a lembrança de uma paisagem que vai perdendo a nitidez. O tempo todo as coisas vão e será que a gente um dia deixa de tentar segurá-las com as mãos? E, deixando de tentar por um momento, será que vai continuar deixando no próximo?
Pois o fato é que toda a brincadeira do colégio vai esmorecendo e o que veio depois parece ter maior importância. A grandes decisões foram tomadas depois da escola, se é que a gente decide alguma coisa nessa vida. Como diria o Bernardo, então eu já era o que sou agora, bem pode ser que até melhor acabada, apesar da lapidação que o tempo trouxe.
Cresci, embora ainda falte muito chão para a vida adulta. Talvez hoje menos chão do que ontem, mas ainda.
De repente, se eu fosse outra, iria querer fazer um balanço do que passou por essas paragens desde então, mas não é do meu feitio enumerar as coisas que me acontecem. Nem as boas nem as más. Nem mesmo as ótimas.
Foram-se, então, dez anos. Número redondo e tudo.
Aqui hoje o lago é mais tranquilo.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A con ti nu a ção
Tenho a impressão de que a gente vai ficando mais velho e mais doido.
Claro que eu sempre fui razoavelmente doida, mas tem umas coisas muito esquisitas, umas mudanças que não fazem muito sentido na vida da pessoa, se você for pensar bem. Eu, por exemplo, de uns tempos pra cá, mudei meu padrão de sono. Ou ele mudou para mim, sei lá, porque de fato não assimilei bem o lance. É que eu sempre tive um sono pesado, de seguir adiante com algum barulho e luz (não muito, que também sou filha de deus), super não me importava de ser acordada antes do tempo, porque virava e continuava a dormir na maior. Hoje já não, tenho aquele sono mais leve, que se despertado parte, se incomoda com tudo e toda aquela chatice que é meio de gente velha, mas não exclusivamente.
Tenho uma tia que diz, hoje mais mas há anos, que não dorme à noite. A verdade, ou o que eu vejo dela, é que ela de fato dorme, mas desse jeito leve e intermitente e dá para imaginar a cabeça dela funcionando e dizendo "eita, que você ainda não dormiu?" e aí ela capota mas logo acorda e a questão ainda é a mesma. Como se ela não se desse conta e aí a vida tem que ser uma merda, né?
Por outro lado, eu venho desenvolvendo a habilidade primorosa de dormir sentada. Em ônibus, principalmente, mas quando eu era adolescente me gabava de jamais ter adormecido num sofá, enquanto via televisão. Também dizia que não dormia lendo, coisa que hoje sabemos é uma total inverdade - ler aliás se tornou meu instrumento mais precioso na conciliação do descanso.
Nem sei por que resolvi escrever essa bagaça, eu queria mesmo era ter comentado o lance do Rio e o Júnior, coisa que talvez ainda faça, porque acho importante e bonito e sei lá.
De repente eu não falo por isso mesmo, toda a coisa do indizível e da beleza.
Isso de admirar alguém, né? Que importância da porra tem na nossa vida, tem na minha ao menos, poder olhar pro mundo e admirar uma pessoa e eu confesso ter algum medo de o encantamento, mais do que a paciência, vir em porção limitada e poder acabar de uma hora para outra para nunca mais.
Ai, os limites. As coisas que têm ou terão ou faremos de tudo para impedir de ter fim. Como se fosse terrível e pode muito ser, mas terrível é tudo nesse mundo velho de guerra.
Eu estou um tanto sem paciência, mas espero que o ano novo traga um novo estoque. Ou é mesmo pelo fim do ano, que mais uma vez voou e aconteceu tanta, tanta coisa, diferente de outros momentos da minha meio-curta-meio-longa vida.
Entrei numas esses dias de, durante uma conversa, afirmar que estou num momento de tranquilidade e, enquanto o dizia, me dava conta tanto da importância de ser uma verdade quanto da volatilidade da mesma. Todo o lance de ter defendido e terminado um trabalho e aquela angústia - não tem como escapar dela e olha que eu tentei - sobre o que fazer depois, mesmo quando o caminho está todo demarcado. Eu fiz um esforço tremendo, no começo do ano, para me preparar, fiz até uma lista das coisas a fazer quando terminasse e posso dizer com orgulho que alguns itens já foram riscados. Só que é um fim e não foi terrível, mas o desconhecido tem essa capacidade de nos deixar temerosos. E todo o processo que é desgastante chega uma hora que dá nos nervos e a gente se pergunta - ou se pergunta o tempo todo, só que algumas vezes dá pra ouvir - se é isso mesmo, se escolhemos certo, se estamos indo bem e tudo o mais.
E a gente responde - ou eu respondo - que não tem muito como saber, que é confiar e seguir adiante, porque o que mais a gente pode fazer?
Mas aí tem momentos, como naquele café, em que você olha para si e ao redor e diz: certo, acho que é isso aí. Muitíssimo por causa do curso maravilhoso que acabei de fazer, estupendo, fenomenal e tudo mais de adjetivo que se queira colocar, me sinto empolgada com as minhas escolhas, com o x que assinalei há quase dez anos num formulário de inscrição e que me trouxe até aqui. Sei não se a história tem moral, mas tem um comprometimento que é lindo de ver e sentir e participar. Eu gosto dele e ele combina comigo e me deixa à vontade para eu poder dizer que me sinto, sim, tranquila, mesmo sabendo que o caminho é longo e árduo, que o meu ano ainda não acabou e só vai terminar depois de muitas páginas, mas é isso aí.
Fixei mais uma vez no Lenine e adoro quando ele diz "amor a morte a continuação".
Claro que eu sempre fui razoavelmente doida, mas tem umas coisas muito esquisitas, umas mudanças que não fazem muito sentido na vida da pessoa, se você for pensar bem. Eu, por exemplo, de uns tempos pra cá, mudei meu padrão de sono. Ou ele mudou para mim, sei lá, porque de fato não assimilei bem o lance. É que eu sempre tive um sono pesado, de seguir adiante com algum barulho e luz (não muito, que também sou filha de deus), super não me importava de ser acordada antes do tempo, porque virava e continuava a dormir na maior. Hoje já não, tenho aquele sono mais leve, que se despertado parte, se incomoda com tudo e toda aquela chatice que é meio de gente velha, mas não exclusivamente.
Tenho uma tia que diz, hoje mais mas há anos, que não dorme à noite. A verdade, ou o que eu vejo dela, é que ela de fato dorme, mas desse jeito leve e intermitente e dá para imaginar a cabeça dela funcionando e dizendo "eita, que você ainda não dormiu?" e aí ela capota mas logo acorda e a questão ainda é a mesma. Como se ela não se desse conta e aí a vida tem que ser uma merda, né?
Por outro lado, eu venho desenvolvendo a habilidade primorosa de dormir sentada. Em ônibus, principalmente, mas quando eu era adolescente me gabava de jamais ter adormecido num sofá, enquanto via televisão. Também dizia que não dormia lendo, coisa que hoje sabemos é uma total inverdade - ler aliás se tornou meu instrumento mais precioso na conciliação do descanso.
Nem sei por que resolvi escrever essa bagaça, eu queria mesmo era ter comentado o lance do Rio e o Júnior, coisa que talvez ainda faça, porque acho importante e bonito e sei lá.
De repente eu não falo por isso mesmo, toda a coisa do indizível e da beleza.
Isso de admirar alguém, né? Que importância da porra tem na nossa vida, tem na minha ao menos, poder olhar pro mundo e admirar uma pessoa e eu confesso ter algum medo de o encantamento, mais do que a paciência, vir em porção limitada e poder acabar de uma hora para outra para nunca mais.
Ai, os limites. As coisas que têm ou terão ou faremos de tudo para impedir de ter fim. Como se fosse terrível e pode muito ser, mas terrível é tudo nesse mundo velho de guerra.
Eu estou um tanto sem paciência, mas espero que o ano novo traga um novo estoque. Ou é mesmo pelo fim do ano, que mais uma vez voou e aconteceu tanta, tanta coisa, diferente de outros momentos da minha meio-curta-meio-longa vida.
Entrei numas esses dias de, durante uma conversa, afirmar que estou num momento de tranquilidade e, enquanto o dizia, me dava conta tanto da importância de ser uma verdade quanto da volatilidade da mesma. Todo o lance de ter defendido e terminado um trabalho e aquela angústia - não tem como escapar dela e olha que eu tentei - sobre o que fazer depois, mesmo quando o caminho está todo demarcado. Eu fiz um esforço tremendo, no começo do ano, para me preparar, fiz até uma lista das coisas a fazer quando terminasse e posso dizer com orgulho que alguns itens já foram riscados. Só que é um fim e não foi terrível, mas o desconhecido tem essa capacidade de nos deixar temerosos. E todo o processo que é desgastante chega uma hora que dá nos nervos e a gente se pergunta - ou se pergunta o tempo todo, só que algumas vezes dá pra ouvir - se é isso mesmo, se escolhemos certo, se estamos indo bem e tudo o mais.
E a gente responde - ou eu respondo - que não tem muito como saber, que é confiar e seguir adiante, porque o que mais a gente pode fazer?
Mas aí tem momentos, como naquele café, em que você olha para si e ao redor e diz: certo, acho que é isso aí. Muitíssimo por causa do curso maravilhoso que acabei de fazer, estupendo, fenomenal e tudo mais de adjetivo que se queira colocar, me sinto empolgada com as minhas escolhas, com o x que assinalei há quase dez anos num formulário de inscrição e que me trouxe até aqui. Sei não se a história tem moral, mas tem um comprometimento que é lindo de ver e sentir e participar. Eu gosto dele e ele combina comigo e me deixa à vontade para eu poder dizer que me sinto, sim, tranquila, mesmo sabendo que o caminho é longo e árduo, que o meu ano ainda não acabou e só vai terminar depois de muitas páginas, mas é isso aí.
Fixei mais uma vez no Lenine e adoro quando ele diz "amor a morte a continuação".
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