Não sei se há dias, horas ou minutos, estou com uma música na cabeça. um tã, tã nã, tá nã que eu não sabia de onde vinha.
Comecei agora há pouco a fazer o que há pelo menos uma semana eu adiava: gravar um disco com todas as músicas do flamenco. Não do flamenco de todo o mundo, muito menos de todo o flamenco do mundo, mas do meu simples e pobrezinho, cacunda e meio desequilibrado e ainda meu. Tão pequeno, meu flamenco, e ainda tão grande. Tanto estudo para se chegar tão longe e o caminho todo tem só uns cinco centímetros.
Da arte ou da beleza da gente aceitar as coisas como podem ser. Eu sei que sou uma dançarina medíocre e jamais passarei disso, dirão alguns que nem medíocre chegarei a ser, mas o estrelato é para poucos.
Acho que eu sempre reconheci minha própria desimportância na ordem das coisas - lembro-me de, criança, gostar muito de uma música, ou um cantor, e ver na televisão algum programa em que fãs mandavam para ele uma carta de oitocentos e setenta e oito quilômetros e eu pensar: que coisa, pra essas meninas e pra mim, isso é importante e tudo o mais, mas se a gente for ver, o cara meio que não se importa. Nem porque ele seja escroto - como acho que muitos são - mas porque enquanto nós, de alguma forma, o conhecemos, ele não faz idéia de quem sejamos. Ele não tem como saber, se não nos conhece, jamais nos viu, não sabe um nada das nossas vidas e sentimentos e anseios e do tanto que a gente gosta dele, que a música dele faz sentido na nossa vida e tudo o mais.
Não tem como saber, estando ele lá e nós, aqui. Estando ele aqui e nós também, lado a lado, de mãos dadas, olhos nos olhos, já é impossível saber, que dirá através do tubo de uma televisão ou do vão na frente de um palco.
Lembro de pensar isso, há já coisa de vinte anos - sim, vinte anos, já é nesses termos que conto a vida. Não nessas palavras, nem dessa forma, mas lembro de pensar isso criança. Há, obviamente, momentos em que essa visão de mundo - porque não demora muito pra coisa toda extrapolar a tietagem adolescente e invadir e se apropriar de todo o resto - traz algum desespero, mas, como ele também se limita ao lado de dentro, passa ou fica, mas pouco importa para a ordem das coisas.
E ficando tudo do lado de dentro, pouco importa que eu seja medíocre ou pior. Importa um tã, nã nã, ná nã e todo o resto que, sendo de fora, entra.
Seguia eu, então, cantarolando em silêncio e então ouvindo, cantarolando em voz alta e então desconhecendo, quando vim gravar meu disco. Cacei nas músicas que achei que poderiam corresponder ao tã nã e nada, tentava contar o tã nã, para saber o que era - seria um compasso de 4, 5, 12??, mas o tã nã vinha descompassado.
Até que, de repente, fez se a luz. Isso é um silencio.
Que tão absurdo, mas é de fato o silencio de uma alegrías que nunca aprendi. Que ainda assim me marcou e milênios depois veio à tona na forma de um trautear desafinado e perdido.
Nem sou lá muito apegada a alegrías, mas me agrada demais a idéia de que no meio dela tem um silêncio e é nele que estão algumas das minhas melodias favoritas.
Apesar de que, toda nova música é minha favorita e as velhas também.