Páginas

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Jasão

Já contei aqui nos idos do ano que passou - e que ano que passou! - que fui assistir ao espetáculo "Gota d'água" do Chico. Buarque, claro. E a peça - todo mundo sabe? - é uma adaptação do... mito? história?... aquele lance todo da Medéia, que sei lá faz o que no original, mas nesse ela é casada com um cara mais moço que chama Jasão e compõe um samba, aquele "gota d'água" do mesmo genial Chico. "Já estanquei meu sangue quando fervia". "Já lhe dei meu corpo, minha alegria". Ambos tanto, né? Tanto dar quanto estancar, enormes.
"Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa".
Pois lá fui, ver a Medéia-Joana e ela era fenomenal. E os monólogos dela eram fenomenais.
Tanto que a peça ia sair de cartaz logo e eu tive de ir ver de novo. Tentei levar comigo algumas pessoas, mas elas não quiseram/puderam/...eram, então fui sozinha. As duas vezes. E foi fenomenal.
E só o fato do cara chamar Jasão já é de matar. Porque, né? "Jasão!"
Por que mesmo comecei a falar disso?!
Ah, sim, porque me sentei aqui nessa mesma cama, nesse mesmo quarto, para ver um pedacinho da Joana no youtube e ouvir a música, e ouvir a música, e ouvir a música. Tanto tempo, já. E agora, sentada aqui ouvindo outra música, me lembrei dessa. "Já estanquei meu sangue quando fervia".
Aí que hoje eu me sentei com um amigo pra gente meio que resolver qual é a da vida e qual é a das pessoas e eu me dou conta de quanto nosso saber é provisório. Porque eu já sabia, ou melhor, já soube de tudo que ele me disse, mas esqueci. Tão fácil esquecer o que aprendemos e voltar praquela repetição do nosso instinto inicial, pros nossos vícios de sentimentos e interpretação, quando tudo pode ser tão mais simples.
Eu é que ando numa fase complicada, por um lado de saco total cheio das pessoas, por outro, sem ficar satisfeita com as coisas que tenho que fazer e com meu modo de (não) fazê-las. E nessa o bonde vai andando e eu fico aqui, me prometendo, como sempre, que tudo bem no ano que vem.
Mas sim, a Joana. Jasão, sou eu que estou aqui.
Jasão não vê, obviamente. Jasão nunca vê, não é mesmo? Faz parte da natureza de Jasão não ver e da de Medéia, gritar.
Tanto pensei na época, para não deixar de lado velhos hábitos, que I wish (Jasão) were here, mas Jasão estava lá e não via Joana.
Tanto tempo já se foi e, bem ou mal, tudo bem. Tudo bem no ano que vem.
Sorte de quem viu e ouviu a gota d'água.
Azar de quem é cego e não vê nada.
Bem na mesma época, talvez, eu fui ver um show do Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado e fiquei tão deslumbrada com aquele homem no palco. A dança dele toda tão esquisita e como pode haver na falta de senso uma beleza tão encantadora. Vi, depois, outro homem num palco, muito diferente, não tão esquisito, muito muito longe dali, mas senti o mesmo encanto. Um dia talvez fale sobre essa noite, uma das mais especiais que já vivi, apesar de que ao contá-la eu provavelmente não vou conseguir narrar os vazios que a tornaram tão deliciosa. Porque nada demais aconteceu, só um homem num palco e uma música alucinante nos ouvidos, mas se eu tenho alguma crença na existência do que chamam de felicidade, ela está ali. Mais uma vez, nada de mais, não mega-sena, não grande-amor-da-minha-vida, não-nada e, ali, tudo.
Mas sim, vi lá o Lirinha e ele fez uma música linda que mostrei pra um mundo de gente e ninguém gostou. Mas eu gostei. E ele diz: "chamei você, mas você não veio. Eu entendi que era normal. Nada pessoal." Ah se não fosse o amor...
Jasão...?