É incrível a nossa - ou pelo menos minha - habilidade em saber das coisas não sabendo. Ou então perceber assim de repente uma coisa que a gente - ou eu - já sabia. Ou esperava, até se preparava.
Acho que é porque às vezes a gente sabe das coisas sem prestar muita atenção, sem procurar um significado maior, que às vezes nem está escondido nas profundezas, mas a gente tem que arranhar um tantinho a superfície para ver.
Ou é como aquelas coisas que o nosso cérebro percebe antes da gente, tipos sentir vontade de comer chocolate e depois perceber que tinha visto uma barrinha em algum lugar, ou começar a cantarolar alguma coisa que alguém estava cantarolando do seu lado e parar no meio e pensar "nossa, de onde veio essa música?!".
Eu me lembro de ser criança e começar a estranhar os nomes das coisas. Lembro de ser criança e dizer panela, panela, panela, panelapaneapanelçaplanela, panela, panela, panlea, até não fazer mais sentido e eu não saber o que significava.
E tem tanta coisa tão importante acontecendo por aí, com a gente ou com outros, e a gente vai passando batido, sem se dar conta, até que, por algum motivo, começamos a repetir, e se não vem um significado, vem ao menos a percepção. De que é, deveras, importante. Ou que significa alguma coisa.
Não sei, saio daqui para o google, procurando alguma coisa, talvez uma referência, mas essa alguma coisa se perdeu. Ou não se achou. Nesse imenso espaço que já trouxe - ou espera-se que traga - tanto encontro, eu vou e volto sozinha.
Ontem assisti a um filme que me fez chorar ininterruptamente por duas horas. Minha irmã me disse, em outra vida, para ver, e eu sempre fugi, até ontem. Ininterruptamente, até perceber que estava chorando baixinho e, oras, não tinha ninguém do lado.
Terminei com dor de cabeça.
Páginas
quinta-feira, 28 de maio de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Lembrei
Sim, vinha dizer... bem, comecemos do princípio. Primeiro eu conto que estou me decidindo a nunca mais dizer que sou hipocondríaca, mas reconheço que isso seria, ou melhor, será, um tanto difícil, que eu tenho essa coisa chamada apego às pessoas e às coisas e, mais do que tudo, a mim mesma, que torna difícil abrir mão de uma parte tão apreciada do meu ser. Substantivo e verbo.
Depois, narro como essa decisão me fez lembrar dos meninos recifenses contando da vez que, depois de uma trilha pesadona, encheram a pança e disseram que comeram tanto que chega tavam tristes, aí passou uma velha e disse "meu filho, diz isso não, tristeza é não ter o que comer", aí eles prometeram nunca mais usar essa expressão. Meio isso, mesmo.
Outra coisa, que não cabe muito, exceto que cabe*, é que eu tenho essa propensão descompensada ao choro, não só aquele de tristeza, que eu não controlo mesmo, apesar de vez ou outra conseguir disfarçar, ou contar com a solidariedade, condescendência ou simples indiferença do outro em fingir que não percebe. Eu sempre digo que multidões me comovem às lagrimas e ultimamente o efeito tá se tornando mais forte. O que talvez fosse bom, ou sei lá, se eu não tivesse essa vergonha master que me impede de soltar o berro, e que me faz ficar ali, me sentindo uma idiota, abrindo bem os olhos e pensando "vai passar, vai passar".
Fim.
* Vide post abaixo sobre a mania infernal de afirmar negando.
Depois, narro como essa decisão me fez lembrar dos meninos recifenses contando da vez que, depois de uma trilha pesadona, encheram a pança e disseram que comeram tanto que chega tavam tristes, aí passou uma velha e disse "meu filho, diz isso não, tristeza é não ter o que comer", aí eles prometeram nunca mais usar essa expressão. Meio isso, mesmo.
Outra coisa, que não cabe muito, exceto que cabe*, é que eu tenho essa propensão descompensada ao choro, não só aquele de tristeza, que eu não controlo mesmo, apesar de vez ou outra conseguir disfarçar, ou contar com a solidariedade, condescendência ou simples indiferença do outro em fingir que não percebe. Eu sempre digo que multidões me comovem às lagrimas e ultimamente o efeito tá se tornando mais forte. O que talvez fosse bom, ou sei lá, se eu não tivesse essa vergonha master que me impede de soltar o berro, e que me faz ficar ali, me sentindo uma idiota, abrindo bem os olhos e pensando "vai passar, vai passar".
Fim.
* Vide post abaixo sobre a mania infernal de afirmar negando.
domingo, 24 de maio de 2009
Ser, não ser, não saber.
Eu vindo logar, de repente a HBO anuncia um show do R.E.M. tocando Loosing my religion. Essa música tem mesmo alguma coisa assim mágica, né?
Mas eu vinha falar... bem, me esqueci do que vinha falar.
Exceto que lembro de ter pensado mais cedo em registrar aqui que tive um sonho hoje com uma pessoa que há muito eu não vejo nem sonho, e que há muito as lembranças trazem só um amargor, e no sonho ela era ela, e as coisas ruins, apesar de ainda estarem lá, eram um pouco deixadas de lados com risadas. Estávamos em Ouro Preto, mas era uma cidade diferente, acho que já sonhei com essa cidade antes, ela fica na beira do mar e eu procurava um restaurante e tinha que pegar um trem. Mas dessa vez, apesar de ser o mesmo lugar, eu só lembro disso, de de fato estar num restaurante, em que essa figura trabalhava, aí tinha eu e um cara meio nojento que a pessoa insinuava que eu tava namorando, aí eu dizia que era trabalho, e a gente dava um calote em alguém, e acabávamos rindo. Incrível isso dos sonhos não fazerem mesmo o menor sentido. Começando por Ouro Preto na praia.
Aí que eu sigo lendo o Cortázar e a personagem de que eu mais gosto é a Maga, muito provavelmente pelo nome, mas não posso dizer que me identifico com ela, porque ela parece ser deveras extraordinária; acho que é só porque eu não consigo entender metade das coisas que o cara tá falando. Sem o contraponto de ser extraordinádia.
Às vezes me incomoda o pensamento de que não adianta nada eu ler esses livros, porque realmente não consigo entender. Aí me acho meio burra, mas ignoro continuo lendo, e tem umas partes que eu acho que não entendo e gosto, e depois acho que penso a mesma coisa, o que é o cúmulo da estupidez, já que eu não entendi. Mas fui marcando uma página ou outra e mais tarde venho colocar aqui, talvez. Se ainda me parecer interessante, ou compreensível, ou eu.
Mas que idiotice isso de ficar se procurando no mundo, né?
Eu achei também que tinha aprendido alguma coisa, mas também duvido.
Esses dias me disseram: "nossa, mas tudo que você fala, imediatamente depois você vem e fala o oposto." E eu: "é..." E ele: "ah, você já tinha reparado?" e eu "já"; quando na verdade a resposta correta devia ter sido "meu, você está falando comigo há o quê?, vinte segundos?! Eu convivo comigo há o quê?, 26 anos, percebe?, claro que eu já reparei!", mas só pensei nisso depois, no carro.
Mas isso de aprender, eu às vezes duvido. Os últimos dias têm sido meio difíceis e bastante saudosos, enquanto eu tento encarar o velho hábito - ou defeito - de não aceitar que o mundo seja diferente do que eu gostaria. As pessoas e tudo. Aí pelos instantes em que eu aceito, parece que fica tudo bem, mas depois eu volto atrás, desaceito, e pronto.
Sempre isso, de ir e voltar. Eu vou e volto e de vez em quando me canso. De vez em quando, leia-se: sempre. Eu, pessoa de tantas certezas e absolutos, que não consegue se manter num determinado estado, ou com uma determinada idéia, por mais do que cinco segundos. Porque eu quase diria que as peças se encaixam, mas só quase, porque sei que não demora nada e elas voltam a se embaralhar. Foi mesmo o Cortázar que falou do caleidoscópio e de nunca formar a imagem perfeita? Se sim, falava da Maga. E apesar de andar na onda pernambucana de cortar os artigos, me agrada imensamente ouvier/ver falar "a Maga".
E sem ser extraordinária, olha ali como eu assino.
Eita, que essa vida, e essa garota, é besta demais.
Mas eu vinha falar... bem, me esqueci do que vinha falar.
Exceto que lembro de ter pensado mais cedo em registrar aqui que tive um sonho hoje com uma pessoa que há muito eu não vejo nem sonho, e que há muito as lembranças trazem só um amargor, e no sonho ela era ela, e as coisas ruins, apesar de ainda estarem lá, eram um pouco deixadas de lados com risadas. Estávamos em Ouro Preto, mas era uma cidade diferente, acho que já sonhei com essa cidade antes, ela fica na beira do mar e eu procurava um restaurante e tinha que pegar um trem. Mas dessa vez, apesar de ser o mesmo lugar, eu só lembro disso, de de fato estar num restaurante, em que essa figura trabalhava, aí tinha eu e um cara meio nojento que a pessoa insinuava que eu tava namorando, aí eu dizia que era trabalho, e a gente dava um calote em alguém, e acabávamos rindo. Incrível isso dos sonhos não fazerem mesmo o menor sentido. Começando por Ouro Preto na praia.
Aí que eu sigo lendo o Cortázar e a personagem de que eu mais gosto é a Maga, muito provavelmente pelo nome, mas não posso dizer que me identifico com ela, porque ela parece ser deveras extraordinária; acho que é só porque eu não consigo entender metade das coisas que o cara tá falando. Sem o contraponto de ser extraordinádia.
Às vezes me incomoda o pensamento de que não adianta nada eu ler esses livros, porque realmente não consigo entender. Aí me acho meio burra, mas ignoro continuo lendo, e tem umas partes que eu acho que não entendo e gosto, e depois acho que penso a mesma coisa, o que é o cúmulo da estupidez, já que eu não entendi. Mas fui marcando uma página ou outra e mais tarde venho colocar aqui, talvez. Se ainda me parecer interessante, ou compreensível, ou eu.
Mas que idiotice isso de ficar se procurando no mundo, né?
Eu achei também que tinha aprendido alguma coisa, mas também duvido.
Esses dias me disseram: "nossa, mas tudo que você fala, imediatamente depois você vem e fala o oposto." E eu: "é..." E ele: "ah, você já tinha reparado?" e eu "já"; quando na verdade a resposta correta devia ter sido "meu, você está falando comigo há o quê?, vinte segundos?! Eu convivo comigo há o quê?, 26 anos, percebe?, claro que eu já reparei!", mas só pensei nisso depois, no carro.
Mas isso de aprender, eu às vezes duvido. Os últimos dias têm sido meio difíceis e bastante saudosos, enquanto eu tento encarar o velho hábito - ou defeito - de não aceitar que o mundo seja diferente do que eu gostaria. As pessoas e tudo. Aí pelos instantes em que eu aceito, parece que fica tudo bem, mas depois eu volto atrás, desaceito, e pronto.
Sempre isso, de ir e voltar. Eu vou e volto e de vez em quando me canso. De vez em quando, leia-se: sempre. Eu, pessoa de tantas certezas e absolutos, que não consegue se manter num determinado estado, ou com uma determinada idéia, por mais do que cinco segundos. Porque eu quase diria que as peças se encaixam, mas só quase, porque sei que não demora nada e elas voltam a se embaralhar. Foi mesmo o Cortázar que falou do caleidoscópio e de nunca formar a imagem perfeita? Se sim, falava da Maga. E apesar de andar na onda pernambucana de cortar os artigos, me agrada imensamente ouvier/ver falar "a Maga".
E sem ser extraordinária, olha ali como eu assino.
Eita, que essa vida, e essa garota, é besta demais.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Aaah, porr...
Meu, primeiro a Pri, agora o Adam.
Assim, não dá, o mundo tá todo doido ou é um sinal cósmico pra eu deixar de assistir realiti show. Porque, né? Porra!
Pequeno post protesto.
Essa semana o gnt faz uma programação especial de homenagem aos geeks. Tem até o Kevin Smith, dizendo que era gordo no colégio e não pegava ninguém.
Assim, não dá, o mundo tá todo doido ou é um sinal cósmico pra eu deixar de assistir realiti show. Porque, né? Porra!
Pequeno post protesto.
Essa semana o gnt faz uma programação especial de homenagem aos geeks. Tem até o Kevin Smith, dizendo que era gordo no colégio e não pegava ninguém.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Da série: notas aleatórias sobre coisa alguma
Tenho sentido, no último ano, um estranhamento em relação aos meus escritores. Ou aos livros, ou sei lá. Principalmente quando eles falam de mulheres e eu acho que não tem nada a ver e eles estão sendo só, e muito, homens, ao falar.
Apesar de achar panacão - pra não dizer pau-no-cu - ficar fazendo listinha do que a gente lê, como se fosse pra mostrar nossa imensa cultura e descola...gem (?)*, sei lá, vou mantendo aí por mais uns dois dias.
Mas começo a me perguntar se não devia era começar a nos - ou as - ler publicadas.
* Lembro uma vez que meu primo contava que ia pegar um ônibus, desses intermunicipais, e quando ele, ou outra pessoa, sei lá, ia entrar, não podia porque tava sem certidão de nascimento e era menor, ou tinha que ter autorização judicial pra viajar 50km, ou qualquer merda dessas, e no fim da história ele disse que, afinal, não precisou porque o motorista era legal e deixou a pessoa embarcar sem o documento, e eu pensava "legal?!", e peguntava "o motorista era legal?!", enquanto minha mente distorcida vagava pensando que o cara tava cometendo uma ilegalidade, e como isso podia ser legal, que o primo devia ter dito que ele era ilegal, e não legal, até finalmente me dar conta de que o cara era era "cool", "descolado", e não "conforme ou relativo à lei".
Apesar de achar panacão - pra não dizer pau-no-cu - ficar fazendo listinha do que a gente lê, como se fosse pra mostrar nossa imensa cultura e descola...gem (?)*, sei lá, vou mantendo aí por mais uns dois dias.
Mas começo a me perguntar se não devia era começar a nos - ou as - ler publicadas.
* Lembro uma vez que meu primo contava que ia pegar um ônibus, desses intermunicipais, e quando ele, ou outra pessoa, sei lá, ia entrar, não podia porque tava sem certidão de nascimento e era menor, ou tinha que ter autorização judicial pra viajar 50km, ou qualquer merda dessas, e no fim da história ele disse que, afinal, não precisou porque o motorista era legal e deixou a pessoa embarcar sem o documento, e eu pensava "legal?!", e peguntava "o motorista era legal?!", enquanto minha mente distorcida vagava pensando que o cara tava cometendo uma ilegalidade, e como isso podia ser legal, que o primo devia ter dito que ele era ilegal, e não legal, até finalmente me dar conta de que o cara era era "cool", "descolado", e não "conforme ou relativo à lei".
1, 2, 3
Bão, primeiro que eu sou obcecada com a minha loucura.
Seriamente.
Segundo que me perguntaram sobre as coisas que são e não são, e a única resposta que me veio à mente é que nada é nada e tudo é o sonho de uma lagartixa.
Terceiro que eu despiroquei total, hoje não queria usar um xampu que tava vencido, desde 09/09, e como estamos em 2010 eu achei que era melhor deixar pra lá, sob o risco de todo o meu cabelo cair. Aí agora fui ver quantas vezes já escrevi que sou louca nesse blog, vi um comentário de abril de 2008 e fiquei pensando no porquê de eu ter dito aquelas coisas há um mês atrás*, apenas, e não me lembrar de nadica - porque tudo bem que eu esqueço, mas a memória aqui costumava alcançar até quatro semanas.
*percebo o pleonasmo, mas simplesmente não consegui apagar... Desculpaê, Português, nada pessoal!
Seriamente.
Segundo que me perguntaram sobre as coisas que são e não são, e a única resposta que me veio à mente é que nada é nada e tudo é o sonho de uma lagartixa.
Terceiro que eu despiroquei total, hoje não queria usar um xampu que tava vencido, desde 09/09, e como estamos em 2010 eu achei que era melhor deixar pra lá, sob o risco de todo o meu cabelo cair. Aí agora fui ver quantas vezes já escrevi que sou louca nesse blog, vi um comentário de abril de 2008 e fiquei pensando no porquê de eu ter dito aquelas coisas há um mês atrás*, apenas, e não me lembrar de nadica - porque tudo bem que eu esqueço, mas a memória aqui costumava alcançar até quatro semanas.
*percebo o pleonasmo, mas simplesmente não consegui apagar... Desculpaê, Português, nada pessoal!
Túnel do tempo
Pode ser só o fato de eu ter mesmo que trabalhar, ou que eu meio que esqueci de tomar banho, ou melhor, de não ter tomado ainda e a casa não estar em condições de ouvir um chuveiro barulhento fervente na alta madrugada. Isso da gente querer dizer que não tomou banho sem querer dizer que é porco.
Eu sempre digo que tenho dda auto-diagnosticada, como sempre disse que tenho hipocondria auto-diagnosticada, ou era até o dia em que eu fiz um teste na internet e deu, pra simplificar, positivo. Tem alguma coisa aqui, nesse corpo que eu sou, que me faz literalmente desviar a atenção no meio de cada frase que escrevo, pra fazer qualquer coisa: ver televisão, cobrir o pé, procurar algum vídeo na internet, checar e-mails pela enésima vez. Sim, eu sei que ninguém me escreveu na madrugada - notem que a madrugada está sendo importante nesse momento -, o programa da TV eu já vi, o frio chegou e não há nada que se possa fazer a respeito. Mas sim, eu precisava de algumas informações que talvez estivessem perdidas no mar de pastas do computador, vou procurar, não as encontro mas encontro outras, totalmente inúteis, e escolho agora, esse exato momento, para fazer uma limpa.
Aí aparecem coisas do arco da velha, eus que já foram, outros que vieram pela metade, outros que nunca estiveram aqui e um monte de coisa sem sentido, tipo um formulário de inscrição de uma amiga num curso. Todas elas devem estar aqui por uma razão, que fez sentido na época, mesmo que agora eu não alcance.
Mas aí tem aquelas outras, eus e outros, que deviam ter um nome, que é quase como uma máquina do tempo. Tantas vontades de dizer que nunca saíram daqui, barradas talvez pela prevalecência de um mínimo de bom senso; tantos dizeres que chegaram sem sentido.
E no meio de tudo isso, um eu que já foi. E, apesar de ter ido, ainda está aqui e acorda, como se soasse um daqueles apitos de cachorro (morcego?!) que a gente não consegue ouvir, mas que eles ouvem e ficam todos alvoroçados. E esse eu que desperta de repente toma conta do outro que tomou seu lugar, move o mouse e os dedos e resolve escrever num blog que nunca foi dele.
E ali há tantas coisas que eu, ou ele, alguém vai apagando, com mais ou menos pesar, e outras que vão sendo salvas, talvez aleatoriamente, porque fazem parte daquila mesma matéria do que vai sendo apagado.
E muito do que não vai, fica para eu um dia lembrar. Porque foi importante, algum dia, e talvez, no futuro, eu sinta alguma propensão a voltar e, talvez, entender um pouco do meu passado, talvez para rir da minha imensa imbecilidade, ou sentir pena, ou alívio, ou nada. Talvez, um dia, eu volte e olhe para tudo como uma estranha. E talvez eu seja só tão tão diferente dessa menina que é hoje, e ela não esteja mais presente, nem acorde com apito nenhum. Ou talvez eu não seja ninguém.
Às vezes acontece da gente se tornar ninguém.
Aí eu me emociono e sinto uns apertos estranhos, e a sensação de ter voltado no tempo; faz já alguns dias que eu entrei nessa de obcecar com o passado, mas isso é diferente de voltar. Proust entenderia e, mais do que isso, fdp, explicaria. Estar em dois lugares ao mesmo tempo não é necessariamente bom. E acho que tem aí uma influência do Cortázar, que há meses anda pairando sobre o criado-mudo, e eu pensei que talvez fosse agora o momento de atacar, ataquei, confesso, com alguma hesitação, e desconfio que não vai me fazer muito bem.
Mas coisas boas às vezes não fazem, mesmo. Nem ruins, se a gente for pensar. De repente, nada faz nada, nem de bom nem de ruim.
E agora que eu tô ficando louca, vou ali que tão me chamando.
Eu sempre digo que tenho dda auto-diagnosticada, como sempre disse que tenho hipocondria auto-diagnosticada, ou era até o dia em que eu fiz um teste na internet e deu, pra simplificar, positivo. Tem alguma coisa aqui, nesse corpo que eu sou, que me faz literalmente desviar a atenção no meio de cada frase que escrevo, pra fazer qualquer coisa: ver televisão, cobrir o pé, procurar algum vídeo na internet, checar e-mails pela enésima vez. Sim, eu sei que ninguém me escreveu na madrugada - notem que a madrugada está sendo importante nesse momento -, o programa da TV eu já vi, o frio chegou e não há nada que se possa fazer a respeito. Mas sim, eu precisava de algumas informações que talvez estivessem perdidas no mar de pastas do computador, vou procurar, não as encontro mas encontro outras, totalmente inúteis, e escolho agora, esse exato momento, para fazer uma limpa.
Aí aparecem coisas do arco da velha, eus que já foram, outros que vieram pela metade, outros que nunca estiveram aqui e um monte de coisa sem sentido, tipo um formulário de inscrição de uma amiga num curso. Todas elas devem estar aqui por uma razão, que fez sentido na época, mesmo que agora eu não alcance.
Mas aí tem aquelas outras, eus e outros, que deviam ter um nome, que é quase como uma máquina do tempo. Tantas vontades de dizer que nunca saíram daqui, barradas talvez pela prevalecência de um mínimo de bom senso; tantos dizeres que chegaram sem sentido.
E no meio de tudo isso, um eu que já foi. E, apesar de ter ido, ainda está aqui e acorda, como se soasse um daqueles apitos de cachorro (morcego?!) que a gente não consegue ouvir, mas que eles ouvem e ficam todos alvoroçados. E esse eu que desperta de repente toma conta do outro que tomou seu lugar, move o mouse e os dedos e resolve escrever num blog que nunca foi dele.
E ali há tantas coisas que eu, ou ele, alguém vai apagando, com mais ou menos pesar, e outras que vão sendo salvas, talvez aleatoriamente, porque fazem parte daquila mesma matéria do que vai sendo apagado.
E muito do que não vai, fica para eu um dia lembrar. Porque foi importante, algum dia, e talvez, no futuro, eu sinta alguma propensão a voltar e, talvez, entender um pouco do meu passado, talvez para rir da minha imensa imbecilidade, ou sentir pena, ou alívio, ou nada. Talvez, um dia, eu volte e olhe para tudo como uma estranha. E talvez eu seja só tão tão diferente dessa menina que é hoje, e ela não esteja mais presente, nem acorde com apito nenhum. Ou talvez eu não seja ninguém.
Às vezes acontece da gente se tornar ninguém.
Aí eu me emociono e sinto uns apertos estranhos, e a sensação de ter voltado no tempo; faz já alguns dias que eu entrei nessa de obcecar com o passado, mas isso é diferente de voltar. Proust entenderia e, mais do que isso, fdp, explicaria. Estar em dois lugares ao mesmo tempo não é necessariamente bom. E acho que tem aí uma influência do Cortázar, que há meses anda pairando sobre o criado-mudo, e eu pensei que talvez fosse agora o momento de atacar, ataquei, confesso, com alguma hesitação, e desconfio que não vai me fazer muito bem.
Mas coisas boas às vezes não fazem, mesmo. Nem ruins, se a gente for pensar. De repente, nada faz nada, nem de bom nem de ruim.
E agora que eu tô ficando louca, vou ali que tão me chamando.
sábado, 9 de maio de 2009
É bonito de ver
Na beira da praia, a gandaia das ondas que o barco balança
Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros, como guerreiros na dança
Oh, quem não viu vá ver a onda do mar crescer...
Lenine, Lenine...
Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros, como guerreiros na dança
Oh, quem não viu vá ver a onda do mar crescer...
Lenine, Lenine...
terça-feira, 5 de maio de 2009
Trauma
Sim, eu sei que isso não faz o menor sentido. Meu cabelo anda assim um tanto curto - pros meus padrões - porque eu tirei toda a tinta vermelha que por ele já passou, há coisa já de um ano, quando eu cortei deveras curto - pra qualquer padrão.
Mas, vendo foto, juro que ainda vejo uma coisa vermelha ali que não combina.
E ums* olhos assim meio esquisitos.
Sei lá, se pá eu sou uma osga...
* que será esse fenômeno estranho que acontece com a gente que nos faz escrever umas coisas tão imbecis como "ums"? Porque, sei lá, ainda se fosse ressureição, que eu não sei mesmo escrever, mas "ums"?!
Mas, vendo foto, juro que ainda vejo uma coisa vermelha ali que não combina.
E ums* olhos assim meio esquisitos.
Sei lá, se pá eu sou uma osga...
* que será esse fenômeno estranho que acontece com a gente que nos faz escrever umas coisas tão imbecis como "ums"? Porque, sei lá, ainda se fosse ressureição, que eu não sei mesmo escrever, mas "ums"?!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Uma ilha no meio do mar
Sento para escrever, assim num começo de tarde de segunda-feira, e percebo a luz caindo, o céu pretejando, o vento que derruba roupas do varal e parece querer levar consigo as folhas das árvores. A tempestade que chega, baixando a temperatura e lavando... tudo.
Na minha casa tem árvores.
Tentei, semana passada, entrar no blog de uma amiga, mas ele já não existe. Se morto ou só de licença, é coisa que não se pode saber, mas o fato é que ali estava o último bastião de um tempo, a única voz que, como a minha, lançava gritos ao mundo, pedindo... pedindo o quê? Agora ele já não grita.
Não que não haja outros - até bons - blogs por aí, mas dos que me acompanharam por toda essa história cibernética, sempre presente, restava ela.
Aí, não é, amiga?, até conversamos sobre isso e eu fiquei pensando. No por que escrever.
Até um tempo atrás... bem, no começo dos - meus - tempos, eu era contra esse negócio de contador, de saber quem entra e por que entra. Mais do que isso, quem não entra. Depois, numa onda de curiosidade incontrolável, adicionei um desses contadores invisíveis, com a promessa de não ficar obcecada e checar os números, digamos, uma vez por semana.
A gente se engana tanto nessa vida, né?
Eu já falei aqui sobre isso, os motivos, acho que tem uma coisa de desabafo, sim, mas para isso não se precisaria publicar na internet; um papel ou um Word bastariam. Acho que publicamos porque queremos, sim, um afago, ou alguém dizendo que o que a gente diz importa, que somos amados, aceitos, admirados. Acho que é inevitável publicar para os outros. Outros conhecidos ou não; eu pelo menos sempre tive alguma esperança de que alguém chegasse ao meu blog por um acaso e nele fincasse o pé. Porque eu já fui de fazer isso, nos dos outros, já quis e busquei, apesar de fazer já muito tempo que não me interessa.
Acho que durante muito tempo, pensei em mim mesma como uma espécie de farol, lançando uma luz até tênue pelos mares, esperando guiar alguém em segurança à terra. Minha terra, e minha luz, que talvez não chegue para ninguém mais além de mim mesma. Ou, chegando, não seja suficiente para resgatar, porque a verdade é que a gente não pode salvar ninguém nesse mundo, além de nós mesmos. E ainda temos que lutar contra esse inimigo, nós mesmos, que cisma em puxar nosso pé, ou agarrar o nosso pescoço, enquanto a gente tenta salvá-lo; aí temos que fazer como ensinavam os salva-vidas de SOS Malibu - aqueles mesmos, dos maiôs vermelhos -: dar uma pancada no afogado, deixá-lo inconsciente, enquanto o agarramos por trás e puxamos para a areia. Porque, se não, o imbecil se afoga e leva a gente junto. De desespero.
Eu, luz, palavras.
Concordo com a Amiga que é um tanto frustrante a gente vir aqui, escrever, e ninguém ver. Ir acompanhando todos os dias, e não ver nunca ninguém. Gritar e gritar e só ouvir em resposta silêncio, ou o eco da nossa própria voz, ela também desesperada.
Quase tem uma parte de mim que pensa em fechar mais esse espaço. Quase. Porque ele chama "Errar sem fim", e o que é errar se não um ato solitário? E só por só, opto pela verdade e crueza da falta de resposta. Aceito permanecer aqui, continuar gritando, continuar girando minha luz, sem mais me preocupar com quem vê. Continuo gritando por mim, para me encontrar, me guiar para a terra, talvez por gostar do som da minha voz. Fico com Lenine e Bráulio Tavares, eu agora ouvindo, sem dizer, do povo que no céu batizava as estrelas ao sul do Equador. Sigo ouvindo a chuva que cai agora em grandes gotas.
E você, que porventura caiu aqui, procurando por mim ou por qualquer outra coisa, deixo a você a decisão do que fazer. Volte, se quiser. Ou não. Eu não vou saber. Recolho o lampião para iluminar apenas o meu caminho, sinta-se à vontade para segui-lo ou não, de perto, de longe, como quiser.
Eu, nesse momento, mais uma vez parto, atrás do porto para quem procurava o país onde o sol vai se pôr.
Boa sorte. E silêncio.
Na minha casa tem árvores.
Tentei, semana passada, entrar no blog de uma amiga, mas ele já não existe. Se morto ou só de licença, é coisa que não se pode saber, mas o fato é que ali estava o último bastião de um tempo, a única voz que, como a minha, lançava gritos ao mundo, pedindo... pedindo o quê? Agora ele já não grita.
Não que não haja outros - até bons - blogs por aí, mas dos que me acompanharam por toda essa história cibernética, sempre presente, restava ela.
Aí, não é, amiga?, até conversamos sobre isso e eu fiquei pensando. No por que escrever.
Até um tempo atrás... bem, no começo dos - meus - tempos, eu era contra esse negócio de contador, de saber quem entra e por que entra. Mais do que isso, quem não entra. Depois, numa onda de curiosidade incontrolável, adicionei um desses contadores invisíveis, com a promessa de não ficar obcecada e checar os números, digamos, uma vez por semana.
A gente se engana tanto nessa vida, né?
Eu já falei aqui sobre isso, os motivos, acho que tem uma coisa de desabafo, sim, mas para isso não se precisaria publicar na internet; um papel ou um Word bastariam. Acho que publicamos porque queremos, sim, um afago, ou alguém dizendo que o que a gente diz importa, que somos amados, aceitos, admirados. Acho que é inevitável publicar para os outros. Outros conhecidos ou não; eu pelo menos sempre tive alguma esperança de que alguém chegasse ao meu blog por um acaso e nele fincasse o pé. Porque eu já fui de fazer isso, nos dos outros, já quis e busquei, apesar de fazer já muito tempo que não me interessa.
Acho que durante muito tempo, pensei em mim mesma como uma espécie de farol, lançando uma luz até tênue pelos mares, esperando guiar alguém em segurança à terra. Minha terra, e minha luz, que talvez não chegue para ninguém mais além de mim mesma. Ou, chegando, não seja suficiente para resgatar, porque a verdade é que a gente não pode salvar ninguém nesse mundo, além de nós mesmos. E ainda temos que lutar contra esse inimigo, nós mesmos, que cisma em puxar nosso pé, ou agarrar o nosso pescoço, enquanto a gente tenta salvá-lo; aí temos que fazer como ensinavam os salva-vidas de SOS Malibu - aqueles mesmos, dos maiôs vermelhos -: dar uma pancada no afogado, deixá-lo inconsciente, enquanto o agarramos por trás e puxamos para a areia. Porque, se não, o imbecil se afoga e leva a gente junto. De desespero.
Eu, luz, palavras.
Concordo com a Amiga que é um tanto frustrante a gente vir aqui, escrever, e ninguém ver. Ir acompanhando todos os dias, e não ver nunca ninguém. Gritar e gritar e só ouvir em resposta silêncio, ou o eco da nossa própria voz, ela também desesperada.
Quase tem uma parte de mim que pensa em fechar mais esse espaço. Quase. Porque ele chama "Errar sem fim", e o que é errar se não um ato solitário? E só por só, opto pela verdade e crueza da falta de resposta. Aceito permanecer aqui, continuar gritando, continuar girando minha luz, sem mais me preocupar com quem vê. Continuo gritando por mim, para me encontrar, me guiar para a terra, talvez por gostar do som da minha voz. Fico com Lenine e Bráulio Tavares, eu agora ouvindo, sem dizer, do povo que no céu batizava as estrelas ao sul do Equador. Sigo ouvindo a chuva que cai agora em grandes gotas.
E você, que porventura caiu aqui, procurando por mim ou por qualquer outra coisa, deixo a você a decisão do que fazer. Volte, se quiser. Ou não. Eu não vou saber. Recolho o lampião para iluminar apenas o meu caminho, sinta-se à vontade para segui-lo ou não, de perto, de longe, como quiser.
Eu, nesse momento, mais uma vez parto, atrás do porto para quem procurava o país onde o sol vai se pôr.
Boa sorte. E silêncio.
domingo, 3 de maio de 2009
Desabafo
Não aguento gente que diz que não assite TV. Sério, quem vocês querem enganar? Não assistem TV mas têm orkut, e blogzinho pra comentar notícia da internet. Tipos, ainda se neguinho morasse numa caverna, numa praia sem eletricidade e sem estrada que chegue, vá lá, mas haja paciência, viu.
Como se ser inteligente = não assistir TV. Ou vice-versa, o que é pior.
E sei lá, não quer ver, não vê, que que eu tenho a ver com isso? Pra mim, essa história de dizer pros quatro cantos que não assiste televisão é papo de quem é fã do Domingão do Faustão.
Tipos, qual o problema de uma lavagenzinha cerebral de vez em quando!?
Como se ser inteligente = não assistir TV. Ou vice-versa, o que é pior.
E sei lá, não quer ver, não vê, que que eu tenho a ver com isso? Pra mim, essa história de dizer pros quatro cantos que não assiste televisão é papo de quem é fã do Domingão do Faustão.
Tipos, qual o problema de uma lavagenzinha cerebral de vez em quando!?
Ouvindo uma figura, deveras divertida, comentando um cantor, compositor, músico, brilhante, ou o que quer que seja, de quem ela não gosta mais, por ele vender uma terra à qual não mais pertence.
Ultimamente, tenho percebido algumas coisas a meu respeito, que sempre estiveram aqui, mas eu nunca vi. Por exemplo: quando eu chego num lugar desconhecido ou novo e tem uma pessoa em situação desfavorável, eu simpatizo imediata e profundamente com ela. Mas a força da ligação é desproporcional à sua duração, eu logo me encho e me irrito e já não consigo mais lidar com aquele que me despertara, dias ou horas antes, tanta simpatia. Isso acontece às vezes com conhecidos menos próximos, como se um instinto protetor aflorasse e depois que ele chegasse, se acomodasse, se fizesse em casa e eu me acostumasse com ele, a minha natureza irritadiça e intolerante pudesse novamente voltar à ação, escolhendo como alvo esse ser que eu aproximei tanto de mim. Percebendo isso, nos últimos meses, eu tenho tomado um cuidado muito especial para impedir aquela forte aproximação inicial, esperando que uma certa distância impeça o mau humor de chegar. Por enquanto tem dado surpreendentemente certo, mas agora, escrevendo sobre isso, eu me pergunto até quando.
Outra coisa, que eu acho que sei há muito tempo, mas só agora enxerguei claramente, é minha tendência natural e quase irresistível a discordar do que as pessoas me dizem. Sim, eu sempre soube que fui do contra, até por princípio, mas tenho podido observar como, em alguns momentos, aquilo que me desperta tanta discordância angaria, por sua vez, simpatia de pessoas que eu até admiro. Ora, pessoas que eu admiro não podem sair por aí gostando de coisas totalmente inapropriadas, isso é um princípio da minha existência. Pessoas que eu admiro gostam de coisas e pessoas por razões legítimas, ainda que eu eventualmente discorde delas, é fundamental que elas existam. Então, na tentativa de levar uma vida mais leve, tenho também feito um esforço pra entender porque eu discordo tanto assim do que me dizem, ao mesmo tempo sem odiar a pessoa que diz.
Da figura que falou do artista, eu de fato gostei bastante, simpatizei, ri com as colocações, só esse comentário me fez levantar as orelhas e olhar um tanto torto, disfarçadamente, é claro. Aí eu não a odiei, mas fiquei pensando.
Apesar de ser do contra, eu sou uma pessoa altamente influenciável por impressões alheias, principalmente se elas são negativas em relação a algo ou alguém de que eu gosto. Mais do que aceitar as visões positivas dos outros, quando elas são negativas parece que elas tiram um pouco do brinho daquilo que me agradava tanto, antes de ouvi-las. O que eu reconheço ser uma postura altamente estúpida, mas isso não a torna menos verdadeira.
Então, de novo, o esforço de entender. E de não deixar de gostar do sujeito, vítima da crítica.
Isso de dizer que a pessoa saiu do lugar dela, adotou outra pátria qualquer, próxima ou distante, e portanto não pode mais falar sobre o lugar de onde veio.
Eu, daqui, não acredito que a gente possa, em nenhum momento, esquecer de onde a gente veio. Não sei se é um apego que eu tenho às minhas não-raízes, se é a minha teimosia que se manifesta, se é a minha rejeição a tudo que é novo e diferente do que eu estou acostumada. Talvez seja só minha idiotia, por não ter conseguido - e talvez querido - sair, que não concebe que alguém possa. Porque acho que é fato que as pessoas saem - ou tentam.
E, sendo otimista, se eu sempre fui altamente relativista em tantos aspectos, acho que, em outros, tenho me tornado ainda mais chegada aos absolutos. Por que simplificar? Prefiro o complicado, e acreditar que a gente pode ser, e trazer, tudo, de novo e velho e sonhado. Que, saindo, não precisamos fazer uma troca e escolher, apesar de trocarmos e escolhermos tanta coisa o tempo todo.
Esse tom meio demagógico me incomoda um pouco, como se eu tivesse respostas ou conhecesse qualquer coisa do mundo.
Que eu não conheço.
Mas me conheço, e sei que, até hoje, os momentos que passei fora do meu lugar foram os que mais me ligaram a ele, até na minha incapacidade de ver o outro, de não comparar o tempo todo o que é diferente com o que é conhecido. "A gente lá faz assim, diz, come, olha, anda, assim, e não como vocês", num etnocentrismo extremo mas, espero, não superior. Não por achar melhor, só por ser meu. Também porque até hoje eu não pertenci nunca a outro lugar, que não esse. Nunca tive que estabelecer um outro referencial, ou adotar outras terras, só caminhar sobre elas num caminho que trazia, sempre, invariavelmente, de volta para casa. Nunca parar.
Talvez um dia eu pare e saiba como é isso, de ser e pertencer duplamente. Ou talvez, parando, eu ainda pense que é só um caminho que me trará de volta.
Ultimamente, tenho percebido algumas coisas a meu respeito, que sempre estiveram aqui, mas eu nunca vi. Por exemplo: quando eu chego num lugar desconhecido ou novo e tem uma pessoa em situação desfavorável, eu simpatizo imediata e profundamente com ela. Mas a força da ligação é desproporcional à sua duração, eu logo me encho e me irrito e já não consigo mais lidar com aquele que me despertara, dias ou horas antes, tanta simpatia. Isso acontece às vezes com conhecidos menos próximos, como se um instinto protetor aflorasse e depois que ele chegasse, se acomodasse, se fizesse em casa e eu me acostumasse com ele, a minha natureza irritadiça e intolerante pudesse novamente voltar à ação, escolhendo como alvo esse ser que eu aproximei tanto de mim. Percebendo isso, nos últimos meses, eu tenho tomado um cuidado muito especial para impedir aquela forte aproximação inicial, esperando que uma certa distância impeça o mau humor de chegar. Por enquanto tem dado surpreendentemente certo, mas agora, escrevendo sobre isso, eu me pergunto até quando.
Outra coisa, que eu acho que sei há muito tempo, mas só agora enxerguei claramente, é minha tendência natural e quase irresistível a discordar do que as pessoas me dizem. Sim, eu sempre soube que fui do contra, até por princípio, mas tenho podido observar como, em alguns momentos, aquilo que me desperta tanta discordância angaria, por sua vez, simpatia de pessoas que eu até admiro. Ora, pessoas que eu admiro não podem sair por aí gostando de coisas totalmente inapropriadas, isso é um princípio da minha existência. Pessoas que eu admiro gostam de coisas e pessoas por razões legítimas, ainda que eu eventualmente discorde delas, é fundamental que elas existam. Então, na tentativa de levar uma vida mais leve, tenho também feito um esforço pra entender porque eu discordo tanto assim do que me dizem, ao mesmo tempo sem odiar a pessoa que diz.
Da figura que falou do artista, eu de fato gostei bastante, simpatizei, ri com as colocações, só esse comentário me fez levantar as orelhas e olhar um tanto torto, disfarçadamente, é claro. Aí eu não a odiei, mas fiquei pensando.
Apesar de ser do contra, eu sou uma pessoa altamente influenciável por impressões alheias, principalmente se elas são negativas em relação a algo ou alguém de que eu gosto. Mais do que aceitar as visões positivas dos outros, quando elas são negativas parece que elas tiram um pouco do brinho daquilo que me agradava tanto, antes de ouvi-las. O que eu reconheço ser uma postura altamente estúpida, mas isso não a torna menos verdadeira.
Então, de novo, o esforço de entender. E de não deixar de gostar do sujeito, vítima da crítica.
Isso de dizer que a pessoa saiu do lugar dela, adotou outra pátria qualquer, próxima ou distante, e portanto não pode mais falar sobre o lugar de onde veio.
Eu, daqui, não acredito que a gente possa, em nenhum momento, esquecer de onde a gente veio. Não sei se é um apego que eu tenho às minhas não-raízes, se é a minha teimosia que se manifesta, se é a minha rejeição a tudo que é novo e diferente do que eu estou acostumada. Talvez seja só minha idiotia, por não ter conseguido - e talvez querido - sair, que não concebe que alguém possa. Porque acho que é fato que as pessoas saem - ou tentam.
E, sendo otimista, se eu sempre fui altamente relativista em tantos aspectos, acho que, em outros, tenho me tornado ainda mais chegada aos absolutos. Por que simplificar? Prefiro o complicado, e acreditar que a gente pode ser, e trazer, tudo, de novo e velho e sonhado. Que, saindo, não precisamos fazer uma troca e escolher, apesar de trocarmos e escolhermos tanta coisa o tempo todo.
Esse tom meio demagógico me incomoda um pouco, como se eu tivesse respostas ou conhecesse qualquer coisa do mundo.
Que eu não conheço.
Mas me conheço, e sei que, até hoje, os momentos que passei fora do meu lugar foram os que mais me ligaram a ele, até na minha incapacidade de ver o outro, de não comparar o tempo todo o que é diferente com o que é conhecido. "A gente lá faz assim, diz, come, olha, anda, assim, e não como vocês", num etnocentrismo extremo mas, espero, não superior. Não por achar melhor, só por ser meu. Também porque até hoje eu não pertenci nunca a outro lugar, que não esse. Nunca tive que estabelecer um outro referencial, ou adotar outras terras, só caminhar sobre elas num caminho que trazia, sempre, invariavelmente, de volta para casa. Nunca parar.
Talvez um dia eu pare e saiba como é isso, de ser e pertencer duplamente. Ou talvez, parando, eu ainda pense que é só um caminho que me trará de volta.
sábado, 2 de maio de 2009
A insustentável leveza do ser
Esse já foi um dos grandes livros da minha vida.
Tantas páginas já se passaram depois disso. E ainda hoje, depois de todas elas, ainda hoje eu me pergunto se algum dia vou me esquecer da voz dizendo "você devia ser mais leve, como a insustentável leveza do ser". Sim, porque eu já fui obrigada a ouvir um negócio desses. Obrigada por mim, fique claro, porque panacas estão aí para serem interrompidos e ignorados. E burrice eu já sou obrigada - aí inescapavelmente - a aturar a minha própria, que também não é pequena, então paciência é um produto precioso demais pra desperdiçar. Ainda mais prum bicho mau-humorado como eu.
Eu vinha no caminho; na verdade acho que fazia muito tempo que eu não pensava nessa frase, até ela voltar um dia, numa conversa casual sobre o livro. Só pra eu perceber que ele, como a frase, talvez também tivesse passado, enterrado sobre as letras em papéis que vieram depois e o afogaram. Vez por outra eu queria ser alguém que pode ter assim dois livros da vida ao mesmo tempo. Será que alguém pode? Sei que eu não, ou até hoje não; eu sei que um livro é da minha vida até a chegada do próximo, e do próximo e, espero, do próximo. Eu sou um país sem memória. Acho que depois ele, o livro, ocupa um lugar de honra, mas não mais da vida - a não ser que ele seja, também, um dos próximos que venha a substituí-lo. Bem ou mal, a gente nunca sabe o que o futuro nos reserva.
Nem o passado, a bem dizer. Hoje eu me peguei ressentida com coisas que já me disseram que me causaram trauma, como a minha irmã dizendo que eu sou desafinada - o que eu, indiscutivelmente, sou e, pior, sem ritmo, coisa que me assusta tremendamente e que merece um post próprio para ser explicada - ou a idéia de ser preguiçosa ou o medo da gripe ou esse pavor que eu desenvolvi de estar sendo ingrata com as pessoas.
É terrível esse sentimento, de uma ingratidão infudada. Primeiro porque, racionalmente, eu acredito que gratidão é uma merda; quer dizer, todo aquele discurso da gente fazer as coisas porque a gente quer sem esperar nada em troca, e etc. Que eu até compro, mas sejamos honestos, nem é dos princípios mais simples de se aplicar; posso até estar sendo filha-da-puta, mas acho de verdade que são pouquíssimas as pessoas que conseguem fazê-lo. Mas do alto da minha infantilidade, eu reconheço, em segundo lugar, que às vezes as pessoas nos são gratas de maneiras diferentes e a minha maneira de agradecer não precisa ser exatamente igual à do outro. Acho que, às vezes, a pessoa pode sentir e saber que eu reconheço e agradeço uma ação desempenhada em meu favor, sem ter que me ajoelhar e beijar o chão que ela pisa.
Mas o trauma, também, acontece porque a gente compra. Eu não fiquei com medo de sair na rua depois de ter sido assaltada, por exemplo, apesar de até hoje dar altos saltos quando alguém chega inesperadamente na janela do carro. Talvez eu tenha feito uma força especial, nesse caso, para não carregar sequelas mais graves, enquanto em outros, a coisa toda passa mais despercebida e se instala perenemente.
E medo, convenhamos, é das piores merdas que já apareceram nesse planeta. Ganha até de barata. Ou da maria-fedida que tava no cabelo da minha sobrinha, essa semana. Fala sério, maria-fedida?! Alguém me explica o sentido disso?!
Mas ressentir, de traumas, medos e animais nojentos, também não leva a lugar nenhum.
Também não sei o que leva e que lugar é esse aonde supostamente se devia levar.
E não é esse o dia, esse sábado que começa, não é o dia em que eu poderia pegar o telefone e dizer: "aí, beleza? Aqui, leve, como a insustentável leveza do ser, falou?".
Aqui, ainda peso, impaciência, exclusividade, mau-humor, desafino, traumas e nojo. Desses momentos em que a gente não sabe direito o que sente por si mesmo.
Às vezes, é importante saber.
Tantas páginas já se passaram depois disso. E ainda hoje, depois de todas elas, ainda hoje eu me pergunto se algum dia vou me esquecer da voz dizendo "você devia ser mais leve, como a insustentável leveza do ser". Sim, porque eu já fui obrigada a ouvir um negócio desses. Obrigada por mim, fique claro, porque panacas estão aí para serem interrompidos e ignorados. E burrice eu já sou obrigada - aí inescapavelmente - a aturar a minha própria, que também não é pequena, então paciência é um produto precioso demais pra desperdiçar. Ainda mais prum bicho mau-humorado como eu.
Eu vinha no caminho; na verdade acho que fazia muito tempo que eu não pensava nessa frase, até ela voltar um dia, numa conversa casual sobre o livro. Só pra eu perceber que ele, como a frase, talvez também tivesse passado, enterrado sobre as letras em papéis que vieram depois e o afogaram. Vez por outra eu queria ser alguém que pode ter assim dois livros da vida ao mesmo tempo. Será que alguém pode? Sei que eu não, ou até hoje não; eu sei que um livro é da minha vida até a chegada do próximo, e do próximo e, espero, do próximo. Eu sou um país sem memória. Acho que depois ele, o livro, ocupa um lugar de honra, mas não mais da vida - a não ser que ele seja, também, um dos próximos que venha a substituí-lo. Bem ou mal, a gente nunca sabe o que o futuro nos reserva.
Nem o passado, a bem dizer. Hoje eu me peguei ressentida com coisas que já me disseram que me causaram trauma, como a minha irmã dizendo que eu sou desafinada - o que eu, indiscutivelmente, sou e, pior, sem ritmo, coisa que me assusta tremendamente e que merece um post próprio para ser explicada - ou a idéia de ser preguiçosa ou o medo da gripe ou esse pavor que eu desenvolvi de estar sendo ingrata com as pessoas.
É terrível esse sentimento, de uma ingratidão infudada. Primeiro porque, racionalmente, eu acredito que gratidão é uma merda; quer dizer, todo aquele discurso da gente fazer as coisas porque a gente quer sem esperar nada em troca, e etc. Que eu até compro, mas sejamos honestos, nem é dos princípios mais simples de se aplicar; posso até estar sendo filha-da-puta, mas acho de verdade que são pouquíssimas as pessoas que conseguem fazê-lo. Mas do alto da minha infantilidade, eu reconheço, em segundo lugar, que às vezes as pessoas nos são gratas de maneiras diferentes e a minha maneira de agradecer não precisa ser exatamente igual à do outro. Acho que, às vezes, a pessoa pode sentir e saber que eu reconheço e agradeço uma ação desempenhada em meu favor, sem ter que me ajoelhar e beijar o chão que ela pisa.
Mas o trauma, também, acontece porque a gente compra. Eu não fiquei com medo de sair na rua depois de ter sido assaltada, por exemplo, apesar de até hoje dar altos saltos quando alguém chega inesperadamente na janela do carro. Talvez eu tenha feito uma força especial, nesse caso, para não carregar sequelas mais graves, enquanto em outros, a coisa toda passa mais despercebida e se instala perenemente.
E medo, convenhamos, é das piores merdas que já apareceram nesse planeta. Ganha até de barata. Ou da maria-fedida que tava no cabelo da minha sobrinha, essa semana. Fala sério, maria-fedida?! Alguém me explica o sentido disso?!
Mas ressentir, de traumas, medos e animais nojentos, também não leva a lugar nenhum.
Também não sei o que leva e que lugar é esse aonde supostamente se devia levar.
E não é esse o dia, esse sábado que começa, não é o dia em que eu poderia pegar o telefone e dizer: "aí, beleza? Aqui, leve, como a insustentável leveza do ser, falou?".
Aqui, ainda peso, impaciência, exclusividade, mau-humor, desafino, traumas e nojo. Desses momentos em que a gente não sabe direito o que sente por si mesmo.
Às vezes, é importante saber.
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