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domingo, 3 de maio de 2009

Ouvindo uma figura, deveras divertida, comentando um cantor, compositor, músico, brilhante, ou o que quer que seja, de quem ela não gosta mais, por ele vender uma terra à qual não mais pertence.
Ultimamente, tenho percebido algumas coisas a meu respeito, que sempre estiveram aqui, mas eu nunca vi. Por exemplo: quando eu chego num lugar desconhecido ou novo e tem uma pessoa em situação desfavorável, eu simpatizo imediata e profundamente com ela. Mas a força da ligação é desproporcional à sua duração, eu logo me encho e me irrito e já não consigo mais lidar com aquele que me despertara, dias ou horas antes, tanta simpatia. Isso acontece às vezes com conhecidos menos próximos, como se um instinto protetor aflorasse e depois que ele chegasse, se acomodasse, se fizesse em casa e eu me acostumasse com ele, a minha natureza irritadiça e intolerante pudesse novamente voltar à ação, escolhendo como alvo esse ser que eu aproximei tanto de mim. Percebendo isso, nos últimos meses, eu tenho tomado um cuidado muito especial para impedir aquela forte aproximação inicial, esperando que uma certa distância impeça o mau humor de chegar. Por enquanto tem dado surpreendentemente certo, mas agora, escrevendo sobre isso, eu me pergunto até quando.
Outra coisa, que eu acho que sei há muito tempo, mas só agora enxerguei claramente, é minha tendência natural e quase irresistível a discordar do que as pessoas me dizem. Sim, eu sempre soube que fui do contra, até por princípio, mas tenho podido observar como, em alguns momentos, aquilo que me desperta tanta discordância angaria, por sua vez, simpatia de pessoas que eu até admiro. Ora, pessoas que eu admiro não podem sair por aí gostando de coisas totalmente inapropriadas, isso é um princípio da minha existência. Pessoas que eu admiro gostam de coisas e pessoas por razões legítimas, ainda que eu eventualmente discorde delas, é fundamental que elas existam. Então, na tentativa de levar uma vida mais leve, tenho também feito um esforço pra entender porque eu discordo tanto assim do que me dizem, ao mesmo tempo sem odiar a pessoa que diz.
Da figura que falou do artista, eu de fato gostei bastante, simpatizei, ri com as colocações, só esse comentário me fez levantar as orelhas e olhar um tanto torto, disfarçadamente, é claro. Aí eu não a odiei, mas fiquei pensando.
Apesar de ser do contra, eu sou uma pessoa altamente influenciável por impressões alheias, principalmente se elas são negativas em relação a algo ou alguém de que eu gosto. Mais do que aceitar as visões positivas dos outros, quando elas são negativas parece que elas tiram um pouco do brinho daquilo que me agradava tanto, antes de ouvi-las. O que eu reconheço ser uma postura altamente estúpida, mas isso não a torna menos verdadeira.
Então, de novo, o esforço de entender. E de não deixar de gostar do sujeito, vítima da crítica.
Isso de dizer que a pessoa saiu do lugar dela, adotou outra pátria qualquer, próxima ou distante, e portanto não pode mais falar sobre o lugar de onde veio.
Eu, daqui, não acredito que a gente possa, em nenhum momento, esquecer de onde a gente veio. Não sei se é um apego que eu tenho às minhas não-raízes, se é a minha teimosia que se manifesta, se é a minha rejeição a tudo que é novo e diferente do que eu estou acostumada. Talvez seja só minha idiotia, por não ter conseguido - e talvez querido - sair, que não concebe que alguém possa. Porque acho que é fato que as pessoas saem - ou tentam.
E, sendo otimista, se eu sempre fui altamente relativista em tantos aspectos, acho que, em outros, tenho me tornado ainda mais chegada aos absolutos. Por que simplificar? Prefiro o complicado, e acreditar que a gente pode ser, e trazer, tudo, de novo e velho e sonhado. Que, saindo, não precisamos fazer uma troca e escolher, apesar de trocarmos e escolhermos tanta coisa o tempo todo.
Esse tom meio demagógico me incomoda um pouco, como se eu tivesse respostas ou conhecesse qualquer coisa do mundo.
Que eu não conheço.
Mas me conheço, e sei que, até hoje, os momentos que passei fora do meu lugar foram os que mais me ligaram a ele, até na minha incapacidade de ver o outro, de não comparar o tempo todo o que é diferente com o que é conhecido. "A gente lá faz assim, diz, come, olha, anda, assim, e não como vocês", num etnocentrismo extremo mas, espero, não superior. Não por achar melhor, só por ser meu. Também porque até hoje eu não pertenci nunca a outro lugar, que não esse. Nunca tive que estabelecer um outro referencial, ou adotar outras terras, só caminhar sobre elas num caminho que trazia, sempre, invariavelmente, de volta para casa. Nunca parar.
Talvez um dia eu pare e saiba como é isso, de ser e pertencer duplamente. Ou talvez, parando, eu ainda pense que é só um caminho que me trará de volta.

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