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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Quando fevereiro chegar...
Tô há anos cantarolando só esse versinho, pedacinho da música de Geraldo Azevedo que não sai da cabeça.
Fevereiro tem tão isso, né, da espera? Como o Chico, se guardando pra quando o carnaval chegar.
Eu tenho cá meu mimo com o mês, mas isso de ter nele nascido influencia nossa relação. Espero, sempre, claro. Temo, vez em quando.
Eu ando tão que tão atabalhoada que já tô querendo colocar 2010 em tudo que é cheque que assino. Aí paro, penso, quase mudo pra 2008 até chegar o senso de realidade e me dizer "não, Maíra, ainda 2009".
Nos últimos tempos mudei minha fixação de números divisíveis por 3 para primos, o que dá um baita trabalho, já que o cálculo é significativamente mais difícil.
Mas olha, se a gente pensar bem, meu aniversário já chegou: outubro foi; novembro vai voar, com entrega de texto e etc; dezembro nunca conta, porque é natal; janeiro não conta que o ano acabou de começar e a gente ainda tá se acostumando; aí pronto. Carnaval e aniversário assim, embaladinhos.
No meio da confusão que é a minha vida nos últimos tempos, junto com 2009 já estou tendendo a deixar os 26 pra trás. 27, aqui vamos nós. Acho mais marcante, 27; já a linha de chegada pros 30, não tem mais aquela brincadeira de "vinte e poucos". Já vinte e um monte.
"Quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente".
"Um sorriso quando acordar pintado pelo sol nascente". Ai, Geraldo, Geraldo...
Depois, se for ele mesmo cantando, segue aquele sotaque mais lindo do mundo, da gente, continua, semente, do dia, noite, verdades e mentiras. Hino, né?
Meio gosto meio não, do que segue. Gosto mais do fevereiro chegar, e a saudade não matar a gente. Pense, um fevereiro sem saudade?
Eu por aqui espero, que já é amanhã. Ou essa noite.
Saudade ainda mata a gente...
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Esqueletos na madrugada
Eita, que mente dispersa, que amor por errar habita esse corpo.
Já pra sair há horas, tendo a cada instante idéias geniais para ficar, fui procurar umas fotos que não estão aqui e me deparei com diversos registros, esquecidos sob nome enigmáticos e que são, de fato, uma viagem no tempo.
Alguns levam a momentos específicos, facilmente identificáveis, outros nem tanto, se escondem nas brumas, outros ainda dizem de tempos e sentimentos que se foram há muito e não voltam nem pra trazer um cheiro, como o de dama-da-noite que invade agora a sala fria.
Talvez minha vida se tornasse mais fácil se eu me desfizesse dos encostos, deixasse o passado para trás e jogasse isso tudo no lixo, ou enterrasse numa caixa, para não serem jamais visitados. Eu, realmente, não sei o que fazer com eles; ficam ali me dizendo de coisas que já não existem e eu olho, não sei o que fazer e deixo estar. Sherlock Holmes não aprovaria; falta espaço para novas informações e lembranças.
Encontrei passagens do Proust que, sendo otimista, não me dizem muito. Tem a do eu que morre, talvez eu cole aqui, durante o dia, mas outras... Como não adianta nada isso, né, de marcar passagens importantes; como se elas fossem eternas, como se não se referissem àquele momento e só ele. Depois a gente volta, lê e fica com aquela cara de interrogação, olhando pro eu que morreu e aguçando o ouvido, mas sem distinguir as palavras que o vulto murmura na distância. Talvez um leve sussurro, mais provavelmente silêncio.
Enquanto isso vou pensando "mando um sorriso, não corro". Mel ronca aqui ao lado, que fico com dó e a deixo dormir cá dentro.
Encontrei uma conversa com um amigo querido que me magoou profundamente. Ele criticava um comportamento meu, mas nunca disse claramente o que exatamente eu fizera que ele julgava errado. Da angústia, ao ler, eu me lembro, mas não sei também o que eu fiz. Ele dizia que não adiantava cavocar; eu pensava então, e penso hoje, que adianta muito. Talvez ali, no dia, ou nas semanas e meses que seguiram, eu não entendesse e alimentasse a mágoa. Mas pode ser que numa noite como essa eu caísse ali de repente e entendesse. Nem a ele, mas a mim, inadequada que fui. Talvez estivesse hoje distante o suficiente para perceber meus equívocos, ou perceber que não foram equívocos, ou concluir que não importa. Fica ali, então, um registro tão parcial de oportunidades perdidas e um marco da distância que seguiu.
Eu dizia há pouco que esse blog tentou nascer diversas vezes, até que veio meio cambaleando, como toda criança que aprende a andar, até se firmar nas pernas e dar os primeiros passos. Tenho ali algumas das tentativas e, olhando retrospectivamente, não eram tão más como eu me lembrava. Sempre é um consolo, saber que não fomos tão ruins como acreditamos. Mas eu sou mesmo muito mal acostumada, e mimada, e gosto de estar certa e receber somente elogios.
Ai, um amor no Recife. Amor do Recife.
Podia ainda cavar mais fundo, que sempre tem um esqueletinho no armário querendo me chamar pra dançar. Mas está, afinal, tarde demais.
Se um dia eu conseguir parar de ouvir essa música, é possivel que eu durma.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Meu coração errante...
Era assim que eu cantava a música do Paulinho da Viola. Música tema, né, poderia ser? Se estivesse certo. O dele é amante.
O meu também.
"Canto pra dizer que no meu coração já não mais se agitam as ondas de uma paixão, ele não é mais abrigo de amores perdidos, é um lago mais tranquilo onde a dor não tem razão..." Quem que não queria, né não?
Nem conheço tudo dele, nem sou fã ardorosa, mas, ao assisti-lo ao vivo, emanando simpatia e tranquilidade, fiquei pensando em como eu gosto de samba.
Gosto, claro, de muita coisa, mas gosto também tanto de samba. Nem nada, só sentar e ouvir e cantarolar. Acho um estilo de música tão encantador, que pode suscitar paixões e fazer a gente (leia-se as pessoas, que o pouco samba que eu já tive no pé deve ter caído pelo caminho num desses tropeços da vida) enlouquecer dançando, ou cantar gritando, ou só sentar e balançar de levinho pra lá e pra cá.
Sinto cá dentro um orgulho desse povo que inventou isso e faz isso cotidianamente e quase acho que faço parte dele por ser, também, daqui. Desse mundo que chama Brasil e que não existe e existe, que foi inventado e é mentira, ao qual a gente pertence sem pertencer. Ahh, História, o que fizesse comigo?
Às vezes, chego até a pertencer. Não por participar diretamente, mas por conhecer e conviver e reconhecer e gostar.
Que coisa maluca é essa que a música faz com a gente? Chega dá um sentido pra vida, mesmo que momentâneo, efêmero e volátil. Ela, também, a vida, não pode ser assim descrita?
Mas ouvi-lo cantar o amor no Recife não faz alguma coisa com a gente? Tão logo a noite acabe, tão logo este tempo passe...
Não conheço, não sei, mas, de algum modo, sou. Ou quero ser, ou sou um pouco só às vezes, até não ser mais.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Do medo
Não tenho, por exemplo, de barata; mas tenho aquele nojo gigante que me faz sair gritando quando vejo uma. Sempre achei que isso devia ser esclarecido, a diferença, apesar de pensar que a maioria das pessoas concordaria comigo. Quer dizer, elas são nojentas, mas não vão te picar, arrancar pedaço, nem nada. Essas são coisas que me assustam.
Tenho, algum, de dirigir, mas esse me faz ficar mais atenta; compensa a distração crônica. Algum também de avião, apesar de ele ter diminuído pacas, ultimamente.
Falei, há pouco, do de livros e filmes de terror, que me fazem andar nas pontas dos pés e olhando para os lados, acendendo todas as luzes da casa durante a noite, e mantê-las acesas no quarto, enquanto tento dormir, imaginando uma pessoa na porta do quarto com uma faca na mão. E o robe da Agatha Christie.
De assalto. De dar aula. De ralar o dedo no ralador de queijo. De esquecer compromissos. De perder arquivos. De, um dia, esquecer de colocar calças ou saia antes de sair de casa e não ser um sonho.
Tem também aqueles mais íntimos, dos quais a gente não fala: de perder, de falhar, de ser mal entendida, não ser amada, nem sequer gostada, de desperdiçar, do medo, de ganhar, da morte, da vida. Medo do medo que dá, como diriam Lenine e a moça cujo nome esqueci.
Mas estava eu aqui, pensando no Norte, no sol e na praia e na loucura; ouvindo aqui o mesmo Lenine cantar do Leão e tem uma frase nessa música que me apaixona.
Tem a ver, pra mim, com uma outra frase, um verso do corão usado numa revolta de escravos de 35, que diz "essa noite é de paz até o raiar do dia". Cito livremente, mas lembro ainda de ficar ali, lendo e parando e vendo alguma coisa que eu não identifico nem nomeio, só leio, ouço e paro.
Aí, no meio do sonho que é pra mim, moça tão sem raízes, uma música que fala sobre pertencer, ele chega e canta: na noite dos tambores silenciosos... Sem saber o significado, que obviamente se esconde ali por trás, eu paro e fico. Ouço e paro. Existe aí, nessas palavras agrupadas dessa maneira, alguma coisa extremamente mística. Uma magia, um contrasenso, uma beleza que eu não sei explicar. Sei parar, apenas. E gostar. Mais do que tudo, gosto.
Quero ver, de olhos apertados, ouvir ou não, o barulho e o silêncio dessa noite.
Será?
Há apenas aí um porém: depois ele segue com "sou a calunga revelando o carnaval". Kalunga, penso eu em Bob e os desenhos do mar e do espelho e do atravessar e malungos, irmãos, companheiros, o dia, a noite, a morte, o branco. Penso nisso e mais, certo ou errado, mas não penso, de jeito nenhum, nas bonecas.
Bonecas me aterrorizam. Sou capaz de conviver com as da sobrinha, numas roupas normaizinhas, e me forço a não pensar nelas se somos obrigadas a dividir o mesmo aposento. Principalmente de noite. Pode ser herança da xuxa ou do fofão ou qualquer outra paranóia, mas elas realmente me assustam. De desviar os olhos. Bruno era quem me provocava com isso, querendo me obrigar a olhar para vitrines cheias daqueles plásticos parecidos demais com pessoas. Quanto mais parecidos, pior.
Aí eu também sou um poço de ignorância, desconheço tudo, mas vejo vez em quando na televisão um documentário ou imagem de maracatu e aqueles desfiles de bonecas presas em pauzinhos me dão nos nervos. Peço desculpas se ofendo alguém com a minha aversão, mas não é nada pessoal. Só não curto bonecas. Aí não é que também elas recebem a alcunha lá dos espelhos e águas?
Lenine super quis me sacanear, mas tudo bem.
Amor vence medo, né, não?
Se não, deveria.
Dos Inglórios
Curto demais o Brad Pitt, que acho um excelente ator. Quando estava ainda em Leiden, uma noite, um casal de amigos me chamou para assistir o Benjamin Button, mas eu não pude acompanhá-los por estar envolvida na reescrita (que ultimamente tem preenchido meus dias e noites) de um trabalho. Aluguei, depois; enrolei um monte pra ver e, mais uma vez, amei. Lindíssimo filme, dos melhores que vi nos últimos tempos. Eu tenho cá uma coisa que gosta de se emocionar e ser trazida à tona à força, resistindo, se agarrando nos batentes até chegar e se debulhar em lágrimas. Nunca fui do tipo que, quando triste, procura ao redor alguma coisa alegre como que para compensar. Sou mais de mergulhar fundo na tristeza, deixá-la me preencher até que, como mudança de lua na maré, ela vá saindo lentamente, deixando para trás areias molhadas. Em momentos de maior tranquilidade, aprecio também passar por isso, me deixar tomar por dores que são minhas e não são e me lembram da fragilidade e da força disso que a gente chama de vida. Assisto, portanto, sozinha, que o que então sai de mim não gosta de ser visto por olhos outros. Venho, no entanto, dizê-lo, à luz do dia, enquanto ele permanece adormecido em profundezas escuras. E, se mais não digo, é porque não posso dizer. Palavras que não chegam.
Mas eu vinha era falar dos Bastardos Inglórios. Filme (algo) histórico. Do melhor tipo de (algo) história que eu conheço. Deleitam os olhos e a mente as opções do roteiro e as grandes atuações; imagino que também a direção, mas essa eu não sei julgar. Sou dessas pessoas que curtem o mocinho e detestam o bandido, apesar de tentar ser às vezes menos politicamente correta. Aqui, nenhum esforço para apreciar o diabo do Coronel Landa, que me conquista sem eu saber bem por quê.
Gostei muito, enfim. É o que tenho a dizer, que gostei, porque é o que gosto de ouvir. Achou bom ou achou ruim? A história eu prefiro ver por mim mesma, em vez de chegar ao cinema já conhecendo metade do filme. Achei ótimo, mas advirto que minha sensibilidade menininha anda reforçada por um carinho incontrolável por serial-killers imaginários.
Registro, no entanto, e recomendo.
Embora
Querer... Quem desvendará um dia o que é isso que a gente chama de vontades. Desejos e precisões, o dicionário dá conta, não.
Fui hoje procurar no Aurélio pra ver se umas expressões que eu curto muito usar existem ou são invenção da minha audição falha; umas tem, outras nem. Gosto de catucar, mais que cutucar. Trupicar cai tão melhor que cair. Engruvinhar ele não conhece, mas fala por si. Já não lembro de outras; restou só na memória o estranhamento que causa às vezes aos outros as palavras estranhas que me saem da boca.
Hoje ouvi minha mãe ao telefone numas de "tudo bão?" e "Tá bão, então", e dei comigo uma risada do ão, ão, porque parece tão melhor que o om, om.
Precisava, hoje, ir, mas fico, porque preciso também ficar.
Dizer alguma coisa nesse começo de madrugada quente, gostoso, sem saber qual lua lumia o céu noturno. É crescente, cheia? Minguante, eu chutaria. Mas o céu, está, agora, distante demais de mim.
Tava eu aqui, no meio das vontades, e elas me levaram por seus caminhos tortuosos de acordes conhecidos através de uma viagem no tempo.
Ouvia aqui a música amiga me lembrando de outra noite e uma varanda; de uma busca enlouquecida, motivada por vontade imensa. E o encontrar algo feliz, que estava em mim, ao meu redor e, mais que tudo, nas estrelas do céu litorâneo.
Me entristece pensar que o outro não saberá nunca o que significou pra mim, nem do grande carinho que fica, porque... não sei exatamente o porquê. Porque não, talvez, ou qualquer outro motivo. Ou talvez o conhecimento exista, mas se perca nos vazios de silêncios que enchem o mundo de abismos.
Feliz. Não me agrada, a palavra. Joyeux? Heurex? Happy? Não, nada disso. Parecem todas algo vazias do significado gigantesco que deveriam carregar.
Agradeço, no entanto, para o precipício cheio de ecos, a apresentação iluminada por uma estrela brilhante, da varanda. Pelas risadas e músicas e luzes malucas. Pela descoberta e descobrir-se.
Seguimos, então, eu, o mar, o luar.
Muito mais coisas seguem do que ficam e eu, agora, me deixo levar.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Ela tem pra vender
Nesse mundo tão silêncio ou barulho, em que tudo parece passar tão batido, senti aqui um comichão, outra vontade, de saia rodada e sapatilha, de dançar nas pontas dos pés e, como dizia Gonzaga, cochilar.
Aproveito, então, um momento de palavras para dar boas-vindas.
Fumo de rolo, arreio e cangalha. Bolo de milho, broa e cocada. Pé-de-moleque, alecrim, canela. Cabresto de cavalo e rabichola. Farinha, rapadura e graviola. Pavio de candeeiro, panela de barro.
Bem-vinda, ó da Feira de Mangaio.
Eu compro e recomendo.
Bora uma hora dessas arrastar um pé?
Perfeição
Ok, a gente aqui não tem estações tão definidas, mas isso de ficar um dia empacotado e no outro desidratar não tá rolando. Uma semana de verão, outra de inverno e a seguinte de novo verão é a tônica desse interior de São Paulo, nos últimos tempos.
Essa tarde, enquanto saía pela cidade cumprindo obrigações, torrando no sol inclemente, senti uma vontade absurda de mar. Tudo não sei se daria, mas dava era muito para hoje dar um mergulho nas águas de Iemanjá. Ouvia, ainda, Bethânia cantando seus nomes, chamando e levando, naquele balanço tão envolvente e doce como dizia Caymmi.
Tenho essa crença de que é impossível as pessoas reconhecerem cotidianamente a beleza do lugar onde vivem; acho que depois de um tempo a beleza é banalizada e não causa aquela admiração inicial do estranho, do incomum. Pode ser que haja exceções, até acredito que existam, mas eu não sei se seria uma delas. Andei sentindo muita vontade de um quiosque ou um bar à beira mar, com aquela brisa de maresia, um sol poente, um começo de noite, uma felicidade, em resumo, que está ali adiante, sempre tão inalcançável. Que está também aqui, ou poderia estar, se não faltasse sempre alguma coisa.
Hoje, pra mim, faltou um mergulho em águas geladas, um secar-se ao sol, espreguiçar-se e tomar uma caipirinha do Tadeu, enquanto Lenine canta um samba ali ao lado, de olhos fechados, balançando pra lá e pra cá.
Deu aqui uma overdose de açúcar, que foi bom até ficar ruim.
Sempre assim, né?
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Mistério
Não exatamente comigo, que eu continuo focada no eterno procastinar, enquanto levianamente afogo a culpa em distrações de segunda ordem.
Mas ao meu redor... estranhas coisas acontecem.
Tem lá seu lado divertido, que sacode um pouco a vida. Sempre curti um suspense, apesar de eles me manterem acordada à noite. Gosto muito de Poirot e daquele jogo do Sherlock Holmes. Mas quando li Assassinato no Expresso do Oriente, não conseguia dormir imaginando um homem num robe feminino com estampa de dragão nas costas me olhando da porta com uma faca na mão.
Quando criança - ok, era já tecnicamente adolescente - eu brincava demais de detetive, sendo que uma das noites mais divertidas da brincadeira foi quando eu mudei pra um condomínio que ocupava um quarteirão e eu não tinha entendido a lógica da numeração dos diferentes blocos, e passei a noite com uma lanterna tentando encontrar o E, ou coisa que o valha.
Se pá me inscrevo pro próximo Amazing Race - América Latina, mas tenho que encontrar um parceiro fortão, que eu ainda tô dolorida das desventuras cimentais de terça-feira.
Mas tem aquilo, né, primeiro chegam as pistas, depois a gente decifra.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Dos livros
E entram também os guilty pleasures?
Se o fator decisivo for honestidade, sim.
Se for... dignidade, não.
Ela andava bem desatualizada, aí fui tentar aqui lembrar o que andei lendo nos últimos meses e só chegaram à memória esses daí.
Sei não, capaz de sair apagando os menos recomendados, pra preservar uma boa imagem de mim mesma, mas também posso deixá-los ali, porque eu gosto mesmo deles e fazem parte do que eu sou, apesar da vergonha intelectualóide-wanna-be.
Eu podia também acrescentar um pequeno comentário, conforme fosse terminando, né?
Acho que aí que minha ilusão a meu respeito ia pro brejo, porque acho que o comentário mais recorrente seria do tipo "acho que não entendi muito bem o que o cara queria dizer...".
Porque não sei mesmo se entendi o Quixote, e acho que começo a digerir a Amarelinha. O James passou meio batido, o Agualusa é muito interessante.
E tenho mesmo um certo desinteresse pela literatura contemporânea séria - deixando de lado as Bridgets da vida - mas aí fico pensando que o que sobra são os best-sellers do Da Vinci e das pipas e, convenhamos, eu ainda sou a pessoa mais do contra que já conheci.
Fico pensando que clássicos são clássicos por um motivo e me contradigo dizendo que muita coisa boa pode ter ficado de fora da seleção-natural-literal.
Comprei Virginia Wolf, tenho o maior do Dostoiévski na estante e me preparo para reler meu querido Harry Potter nas férias.
Agora, vou finalmente me recolher, tentando aprender sobre vizinhanças, e concluindo que tenho esse quê esquizofrênico e "é o meu dinheiro, ninguém tem nada com isso", em ritmo da marchinha de carnaval*.
* Putz, tô em choque que o terra diz que a turma do funil é de Chico e Jobim, entre outros. Super não sabia disso**.
** Ah, afinal parece que não era, o terra só juntou duas músicas numa mesma letra e a turma é mesmo dos outros. Desculpem, não vos conheço, nada pessoal, eu sou mesmo muito ignorante e acho que marchinha surge do nada, que nem espinha na testa quando a gente tem um compromisso importante.
Se é samba que eles querem
Tava aqui numa vontade de ouvir o Ney e o Pedro Luís cantando a noite severina.
Sempre me pergunto o que eles querem dizer com suassuna e sempre concluo que nunca dá pra saber exatamente o que uma pessoa quer dizer quando diz qualquer coisa.
E se a pessoa, como eu agora, não quer dizer nada?
Aí ela devia ficar em silêncio, né? Mas isso desconsidera uma tagarelice incontrolável, ou outra coisa qualquer que eu não sei o nome que dá vontade da gente dizer o que é indizível. Talvez porque não exista, ou porque a gente não tenha ainda aprendido a língua, as palavras necessárias para dizê-lo.
Tava eu aqui olhando, procrastinando. Desanimei essa noite porque rolou um desastre natural aqui em casa, envolvendo cimento, chuva e quintal. Eu nunca fui conhecida - por mim mesma, obviamente - como uma pessoa de braços fortes e hoje confirmo que 50kg realmente não são a minha praia. Ah, praia...
Então, procrastinando. Caçando na internet algo que distraia a minha atenção, que me prenda, me puxe, me segure, e anda tão tão difícil. Mesmo as palavras desinteressantes que busco como distração são poucas, terminam rápido demais e segue a pescaria. Mas procurar o quê?
Eu sei que já disse isso zilhões de vezes, mas sinto alguma raiva de mim mesma por ter terminado a busca do tempo perdido. Acho que, por ter um projeto de leitura tão longo, desacostumei de mudar e buscar outras coisas. E sinceramente ainda não superei a sensação de que essa obra é, por sua vez, insuperável. Estaria tudo dito ali? Eu sei que eu estou muito e sinto também uma preguiça em sair de novo buscando por aí outros eus.
Sinto falta das minhas aulas de francês na Unicamp e não sei onde buscá-las.
Tenho pensado demais nisso de conflitos e separações e sinto em mim, apesar de tudo, um ranço difícil de desfazer. De ditos e não ditos, pensados ou não, ações e paralisias que às vezes significam muito. Tão triste isso de ficar no final de uma história um vazio. E eu sei que essa é a minha tendência e meu desafio, minha luta e meu inimigo, porque isso de sair apagando o povo pra mim é fácil demais. Tão perigoso cair nessa balela que a gente se basta, né?
Eu qualquer hora vou viver numa caverna.
Só se tiver chocolate. Em bolo ou sorvete ou torta, que ele puro já não me apetece.
PS: Na verdade, eu tinha pensado em escrever sobre o lance do Rio receber as Olimpíadas em 2016 e como eu fiquei feliz com a escolha, e como ando torcendo o nariz pras pessoas que falam mal, porque deus-me-livre de alguém que pense diferente de mim. Fiquei feliz porque adoro as Olimpíadas, acordo de madrugada para ver absurdos como vela e hipismo e acho um barato isso do ser humano sair por aí fazendo umas maluquices, com o povo todo olhando. Gosto porque lembro de mim pulando na cama quando o Aurélio Miguel (é esse, né?) ganhou uma medalha no judô e eu era tão pequena, morava ainda em São Paulo; depois na minha onda de gravar tudo que passava na tv gravei a abertura das de Atlanta, nem imaginando que nunca mais ia olhar praquela fita. Gosto porque lembro de assistir ao vôlei masculino em Atenas com a minha mãe, da seleção que a gente adorava, que ainda tinha o Ricardinho, ganhar da Itália num quinto set por algo como 32 a 30, num jogo que eu achava que era a final, mas parece que nem era. Gosto das Olimpíadas, acho o Rio lindíssimo, concordo com todo o lance da América do Sul estar no mapa, curto demais o Lula e a sem-noçãozice dele. Achei mesmo ótimo, super não importa, mas dane-se.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Panegírico
Eu partilho dessa fascinação tão vulgar de me apaixonar por uma coisa - qualquer coisa - bem feita. Não consigo pensar em nada mais sedutor do que isso: ver uma pessoa fazer algo que ela faz bem.
Mas não há também uma beleza emocionante no tentar?
Hoje tive a oportunidade de apreciar ambos. Erros e acertos e, confesso, o primeiro me emocionou mais. Às lágrimas, se eu as vertesse em público. Isso de dar a cara a bater realmente é forte. Porque fazer o que a gente sabe fazer bem é, ou parece, fácil; mas se dispôr a encarar a própria imperfeição e mediocridade tem um quê de soberbo. E é mais real, acho.
Só que, depois do contato com o concreto, fiquei pensando numa outra coisa.
Eu sou historiadora. Sempre acho um saco dizer isso, normalmente respondo aos questionários automáticos de secretárias de médicos ou afins que sou estudante. Nem por nada, mas não gosto da palavra, "historiadora", acho dura, falta aí um molejo, uma ginga. Prefiro "historienne", mas Brasil, português, etc.
Gosto do que faço, às vezes, acho um trabalho interessante e relevante, e eu o escolhi... não sei precisar o porquê. Por uma paixão, talvez, pela sabedoria que nunca vou ter. Avidez por conhecimento, ou coisa que o valha.
Não foi, afirmo com certeza, pela beleza.
Apesar de acreditar que há, nele, alguma, ela é diferente daquela que a gente vê por aí, no que se chama de arte. Porque, na arte, ela é isso e pronto. Na dança e na música, é isso.
Centro e fim.
Nem me pergunto, nem questiono, simplesmente paro extasiada diante de pessoas que escolheram a beleza. Fazer disso a vida e dar de presente para os outros. Porque é, certamente, dos outros. Dos que assistem quase às lágrimas, aplaudem, prendem o fôlego ou perdem a respiração. Dos que ficam ali sentindo os olhos e ouvidos presos, imaginando como seria.
Para mim, ao menos, vendo os corpos e mãos e sons e pés se movendo, encantando, não tenho tanta vontade de ser a pessoa que faz aquilo, mas aquilo que ela faz. Ser música e dança e sintonia. Que quem faz, também, não tem nem guarda em si, mas é como um canal ou ponte ou instrumento para mostrar aquilo que é tão efêmero e que pode ser simplificadamente nomeado de beleza.
E agradeço por aqueles que a escolheram.