Há alguns minutos - ok, horas - esse texto teria saído muito mais sangue, suor e lágrimas.
O olho do furacão, no entanto, já passou.
Meu saco foi parar na lua e -a gente sabe que anda lendo muito o tdud? quando está prestes a fazer piadinhas com balões que enchem e se perdem - eu resolvi tomar atitudes drásticas.
Eu já disse que adoro a Fernanda Young e acho que nos últimos dois programas ela disse coisas que fazem sentido pra mim: uma que isso de escrever não exorciza, do que eu discordo completamente. Não cura, não resolve, mas que dá um puta alívio, isso dá. Ou então eu aqui tô fazendo a coisa muito errada. Então seguem algumas lamentações que todo mundo já conhece e pensamentos que todo mundo já sabe, eu inclusive, mas tem horas na vida em que a gente simplesmente tem que recapitular. Tipo aquilo de fazer revisão antes do vestibular.
A outra é que ela nunca conseguiu ficar amiga de ex-namorado.
Eu não tenho namorado, nem ex, mas entendo muito o que ela diz. Eu há muito tempo percebi isso em mim, que tenho uma dificuldade gigante em conviver, mesmo minimamente, com pessoas com as quais já tive uma proximidade muito grande que foi quebrada por alguma razão. Durante anos tentei mudar isso em mim, pensando constantemente no assunto, sem me torturar em demasia porque reconheço que fiz o melhor que eu poderia na ocasião, mas eu achava que esse melhor de então poderia melhorar, pra um melhor de agora, não tão radical, um pouco mais humano e compassivo.
Aí vieram os testes. Em um eu achei que passei bem, com toda a raiva, respirei fundo e tentei encarar como adulta. No seguinte também, não ser radical e pedir para devolverem minhas coisas, tentar conversar civilizadamente sobre o problema - coisa que nunca tive a oportunidade de fazer porque, a meu ver, antes de eu poder colocar em prática o esforço, a situação sofreu reviravoltas que me fizeram perder a vontade de falar.
Aí agora, finalmente, surge um Everest. Eu fui a passos de formiga, um dia de cada vez, não importa a aparência ou o que outras pessoas pensem a respeito, muito lentamente eu tomei consciência de que não gostava do lugar que ocupava, finalmente tive força pra dar o primeiro passo, de formiga e aos prantos, tremendo de medo do que eu deixava para trás e, mais ainda, muito mais, do que eu deixava para frente. Humildemente, me recolhi. Dessa vez com os motivos às claras e aceitação. "Não é isso que eu quero, mas aceito, se é pro seu bem". É tão engraçado quando as pessoas não acreditam na gente. Quando a gente não acredita nem tanto, porque aí nada acontece, mesmo, mas quando a pessoa olha na sua cara e blefa, sem nunca acreditar que você afinal de contas pode mesmo fazer o que disse que faria. Aí ela cai em si, começa a perceber que você falava sério e vem o esperneio.
Eu digo uma coisa: eu sei o quanto eu fiz por essa história, quanto tentei parar de olhar o meu umbigo e aceitar que as pessoas são diferentes do que eu quero e têm necessidades tão grandes quanto meus desejos. Então eu segui, com meus passinhos, arrastando aquele peso enorme nas costas e seguindo. Instinto, ou sei lá. Sufocamento. Saber que não dava para continuar não vivendo daquela maneira.
Imagino que seja difícil isso, você se acostumar com uma pessoa ali, saber do poder que tem sobre ela e abrir mão. Acho que isso é uma das maneiras de se definir amor.
Não era pro meu bem? E agora, já não é mais?
Eu sinceramente não sei o que está acontecendo e, o mais triste talvez, não me importo. Tudo que eu tentei fazer desde sempre até há cinco minutos para não ser injusta, não causar maiores danos, não ser precipitada, não ser radical, tudo rui, agora, porque eu percebo que o terreno é arido. Seco, talvez fosse a expressão mais apropriada. Eu não vejo o meu bem ser apreciado, os danos que ações externas causam em mim, a meu ver propositadamente. Quando a pessoa se levanta do alto de sua inexistência, deixa a letargia para entrar no seu mundo e tentar bagunçá-lo, a meu ver propositadamente, não há mais respeito. Sem respeito não fica nada, né?
Eu só não entendo o prêmio. Você diz gostar de uma pessoa, ela diz que está sofrendo, você pede pra mudar de assunto, falar de alguma coisa "mais leve". Você diz "olha, quer se afastar um pouco de mim? Não é o que eu quero, mas se é pro seu bem, eu aceito" e pede para ela voltar, ela te explica o porquê não pode, você ignora os motivos e fala de música.
Resultado: meu saco na lua.
Eu não entendo o prêmio. Sim, muita raiva, mágoa e dor de cotovelo. Mas eu não rastejo mais. Caio, sim, muito mais do que gostaria, mas não rastejo. Você uma vez disse que ia embora, não cito, apesar de poder, mas que para descobrir o novo, é necessário coragem de abandonar os olhos que ficam para trás, amando nossos ombros.
Eu vou, para o novo, a passos de formiga, ainda com medo, não por te deixar amando meus ombros, que você nunca amou, mas porque eu achei que talvez, se eu fizesse as coisas direito, você poderia vir a amar. Você disse que não, que não tem fantasmas e tem certeza. Eu decidi finalmente aceitar isso e o mais estranho é que você também não parece aceitar muito bem. Mas se eu o tempo todo estive para trás, ou por baixo, agora eu me levantei e, que fiquem bem claras as nossas posições. Você fica. Eu não fiz nada para te magoar, até procurei evitá-lo, mas chegou o momento em que isso não me importa mais, porque você não demonstra a mesma preocupação comigo. Então vamos brincar em pé de igualdade.
Você nunca me deu valor nem considerou o que eu sentia. Os exemplos saltam à velocidade da luz, em abundância, mas não importa.
Esta sou eu, morrendo, e te matando.
De novo, adeus, mais um e quantos forem necessários.
Aqui é outono e logo vai ser inverno. Diferente do seu, o meu tem céu azul.
Adeus.
Páginas
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Vício
Como eu tenho mania de explicar, começo logo por aí para evitar mal-entendidos.
A gente vicia em muita coisa nessa vida, séries de televisão, tdud?, horóscopos e conselhinhos de auto-ajuda. Entre outras coisas um pouco mais complicadas.
Numa dessas de saber como ser mais feliz, eu achei um conselho dizendo que "É chegado o momento de verbalizar, expor, ainda que isso incorra num conflito. O veneno precisa ser posto para fora, a fim de que a cura emocional possa se processar." Ok, a gente só leva isso a sério quando condiz com o que queremos, se não, ignoramos totalmente, mas achei que valia a pena vir e enfatizar que, há coisa de uma hora, estava eu aqui falando de veneno.
Mas eu acredito que, às vezes, o veneno não tem que ser posto pra fora, mas ser digerido. Bem como soro, em doses homeopáticas, pra fortalecer o sistema imunológico. Porque nem sempre o resto do mundo tem a ver com o veneno que a gente tem do nosso lado, mesmo que as coisas e as pessoas tenham um impacto - às vezes gigantesco, admito - em nossa vida, quem faz o nosso veneno somos nós. Ou eu que não estou mesmo em condição de soltar, mas sou muito do partido de cada um lidar com as próprias merdas, ou ao menos tentar o máximo possível.
Mas tem graça, ver isso ali no site.
Não tanto quanto o "umbrella", mas aí seria pedir demais.
A gente vicia em muita coisa nessa vida, séries de televisão, tdud?, horóscopos e conselhinhos de auto-ajuda. Entre outras coisas um pouco mais complicadas.
Numa dessas de saber como ser mais feliz, eu achei um conselho dizendo que "É chegado o momento de verbalizar, expor, ainda que isso incorra num conflito. O veneno precisa ser posto para fora, a fim de que a cura emocional possa se processar." Ok, a gente só leva isso a sério quando condiz com o que queremos, se não, ignoramos totalmente, mas achei que valia a pena vir e enfatizar que, há coisa de uma hora, estava eu aqui falando de veneno.
Mas eu acredito que, às vezes, o veneno não tem que ser posto pra fora, mas ser digerido. Bem como soro, em doses homeopáticas, pra fortalecer o sistema imunológico. Porque nem sempre o resto do mundo tem a ver com o veneno que a gente tem do nosso lado, mesmo que as coisas e as pessoas tenham um impacto - às vezes gigantesco, admito - em nossa vida, quem faz o nosso veneno somos nós. Ou eu que não estou mesmo em condição de soltar, mas sou muito do partido de cada um lidar com as próprias merdas, ou ao menos tentar o máximo possível.
Mas tem graça, ver isso ali no site.
Não tanto quanto o "umbrella", mas aí seria pedir demais.
domingo, 25 de maio de 2008
Premonição
Eu tive hoje um sonho premonitório.
Parêntesis - Será que alguma outra pessoa no mundo não só tem medo de avião quando está em um, mas quando ouve o barulho de um voando lá em cima, e para um pouquinho pra ouvir o diabo do bicho e ter certeza de que ele vai ficar lá em cima? - Fecha parêntesis.
Enfim, não sonhei com avião, mas que eu arrumava meu quarto. Porque a merda da minha cabeça não me deixa sonhar que eu tô voando ou com o Brad Pitt, ela insiste em me colocar nesses cenários medíocres e possíveis.
Fui lá eu, então, arrumar meu quarto. Todas as gavetinhas cheeeeias de papéis, em que eu desconfio que não mexia desde os idos de 2006. Resultado: sacos e sacos de lixo, minhas costas que já doíam agora doem mais, minha barriga continua doendo (ela não foi afetada pela faxina, mas puta-que-o-pariu, ginástica do caralho!) e as gavetinhas estão novamente habitáveis. Pena que eu não achei nenhuma notinha de cem, nem de um, na verdade, reais perdida na bagunça, mas é a vida.
Agora eu pressinto que não tem nada de bão pra ver na televisão, mas vou arriscar ser surpreendida pelo cosmos.
Parêntesis - Será que alguma outra pessoa no mundo não só tem medo de avião quando está em um, mas quando ouve o barulho de um voando lá em cima, e para um pouquinho pra ouvir o diabo do bicho e ter certeza de que ele vai ficar lá em cima? - Fecha parêntesis.
Enfim, não sonhei com avião, mas que eu arrumava meu quarto. Porque a merda da minha cabeça não me deixa sonhar que eu tô voando ou com o Brad Pitt, ela insiste em me colocar nesses cenários medíocres e possíveis.
Fui lá eu, então, arrumar meu quarto. Todas as gavetinhas cheeeeias de papéis, em que eu desconfio que não mexia desde os idos de 2006. Resultado: sacos e sacos de lixo, minhas costas que já doíam agora doem mais, minha barriga continua doendo (ela não foi afetada pela faxina, mas puta-que-o-pariu, ginástica do caralho!) e as gavetinhas estão novamente habitáveis. Pena que eu não achei nenhuma notinha de cem, nem de um, na verdade, reais perdida na bagunça, mas é a vida.
Agora eu pressinto que não tem nada de bão pra ver na televisão, mas vou arriscar ser surpreendida pelo cosmos.
sábado, 24 de maio de 2008
Todo o sentimento
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu.
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu.
Notinha
Eu, minha mãe, aeroporto. Ela vê o Oswaldo Montenegro e começa a ameaçar ir falar com ele. Eu tento reprimir o pânico, tento desmotivá-la um pouco e acabo assumindo a postura "se quiser ir, vai, o mico é seu." Ela ameaça de sacanagem e, que eu saiba, não fala com ele.
Mas ele fez um cd, há um tempo já, a gente comprou, perdeu, comprou de novo, como acontece com os dele, que chama "letras brasileiras". São músicas - surpresa! - brasileiras que ele e o Menescal acham que têm letras estupendas. Hoje, um pouco por acaso, caiu na minha mão esse cd e eu fui ouvindo algumas vezes essa música que eu simplesmente adoro, há muito tempo, mas hoje, eu hoje ouvindo, fez tanto sentido, não só uma parte ou outra, ou desconsiderando isso ou aquilo, mas absolutamente todo sentido. Porque tudo cabe em perfeição, na hora eu decidi colocar a letra aqui e, apesar de tudo, e há um tudo a pesar, vim e coloquei.
Chico Buarque, Cristovão Bastos, 1987, disco "Francisco", aquele com ele na capa, numa feira, que minha mãe tinha em vinil. Eu com quatro anos.
Uma pequena nota, apenas.
Mas ele fez um cd, há um tempo já, a gente comprou, perdeu, comprou de novo, como acontece com os dele, que chama "letras brasileiras". São músicas - surpresa! - brasileiras que ele e o Menescal acham que têm letras estupendas. Hoje, um pouco por acaso, caiu na minha mão esse cd e eu fui ouvindo algumas vezes essa música que eu simplesmente adoro, há muito tempo, mas hoje, eu hoje ouvindo, fez tanto sentido, não só uma parte ou outra, ou desconsiderando isso ou aquilo, mas absolutamente todo sentido. Porque tudo cabe em perfeição, na hora eu decidi colocar a letra aqui e, apesar de tudo, e há um tudo a pesar, vim e coloquei.
Chico Buarque, Cristovão Bastos, 1987, disco "Francisco", aquele com ele na capa, numa feira, que minha mãe tinha em vinil. Eu com quatro anos.
Uma pequena nota, apenas.
Pequenos erros e acertos
Eu dormi, sonhei que conversava com uma amiga a conversa mais possível de todas.
Ontem me perguntaram qual a minha idade, eu respondi na lata: 24! Vinte-e-quatro. Eu não me esqueci completamente; há alguns dias, à mesma pergunta, respondi corretamente. Mas a verdade é que meu aniversário esse ano foi tão merdoso que eu até hoje eu não me recuperei totalmente. Já vou falar sobre isso, mas não agora.
Hoje dói tudo, por aqui. Parece um pouco que andei um montão a cavalo, mas sem aquela sensação de andar a cavalo, que fica na alma, nem o cheiro.
Por enquanto é isso.
Ontem me perguntaram qual a minha idade, eu respondi na lata: 24! Vinte-e-quatro. Eu não me esqueci completamente; há alguns dias, à mesma pergunta, respondi corretamente. Mas a verdade é que meu aniversário esse ano foi tão merdoso que eu até hoje eu não me recuperei totalmente. Já vou falar sobre isso, mas não agora.
Hoje dói tudo, por aqui. Parece um pouco que andei um montão a cavalo, mas sem aquela sensação de andar a cavalo, que fica na alma, nem o cheiro.
Por enquanto é isso.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A busca
Eu sou fã do Saia Justa e órfã da Fernanda Young. Tudo bem, o tempo passa, as fases passam, mas meia hora dela Irritando para mim não é suficiente. Eu adorava o programa.
No entanto, eu venho falar da outra fase do programa. Tema recorrente: eu sinto alguma irritação - o que não é nada pessoal nem surpreendente, já que eu sou, de fato, uma pessoa muito facilmente irritável - quando as pessoas chegam e dizem: "ah, eu queria ler um livro, o que eu leio?". Não qualquer pessoa, mas aquelas que, aparentemente, querem botar uma banca de "oh-como-eu-gosto-de-ler" e não têm nenhuma técnica. Porque os leitores ávidos têm de ter uma técnica para chegar ao que lêem. Imagino que tem gente que lê críticas, revistas especializadas, vêem o programa do Abujamra, vão à livraria e percorrem as prateleiras, em busca de um título - por que não uma capa? - interessante, ou recorrem a um autor favorito. Se você quer ler muito, tem que tirar idéias do que ler de algum lugar, e isso faz parte do sistema todo, descobrir o que te interessa, em vez de comprar interesses alheios. Claro que existe muito pedir conselhos, eu também os peço, mas tem todo o resto, o seguir e o ser seduzido por uma obra qualquer.
Eu sempre me lembro, há muitos e muitos anos, eu sem saber o que ler perguntava à minha mãe e ela sempre sempre me indicava O amor nos tempos do cólera. Eu comecei umas cinco vezes e nunca passava das primeiras três páginas, que me pareciam trinta. Aí, um dia, eu vim à estante em busca de um novo amor e encontrei outro García Márquez, Cem anos de solidão, comecei a ler e li e me arrependi, porque todo mundo sabe que uma das maiores invejas da minha vida é de quem nunca leu esse livro e vai ainda poder lê-lo pela primeira vez e eu já não posso. Depois disso, fui com maior boa vontade ao outro, sempre indicado pela minha mãe, e percebi que as trinta páginas eram apenas três e o livro é, realmente, maravilhoso.
Outro favorito, Orgulho e preconceito, assistindo aquele filme com a Meg Ryan e o Tom Hanks, Mensagem pra você, meio remake de Sintonia de Amor, ela dizia que era o favorito dela, eu anotei num papelzinho e encontrei num sebo e já li algumas vezes. Guerra e paz eu peguei fazendo um trabalho, primeiro ano de faculdade, o Dosse dizia que era um clássico; Crime e castigo, xerox da biblioteca, pseudo-amigo comentando que gostava muito, e assim vai. Essas descobertas já são parte da aventura.
Em busca do tempo perdido, eu me lembro de ouvir pela primeira vez em um Saia Justa, a Mônica, creio eu, comentando que era uma obra gigantesca que todo mundo comenta mas que poucos leram, de verdade. Armada a armadilha.
Não, eu não me enquadro nas pessoas que leram a busca. Mas quase. Talvez o suficiente pra ter uma boa idéia do que o Proust quis dizer, apesar de ter um bloqueio tremendo em entender as coisas que leio. Prefiro ler, apenas, ir, me deixar levar. Mas esses dias eu ouvi alguém dizer que o Proust escreveu Em busca do tempo perdido porque ele não conseguia perdoar o mundo por sei lá o quê. Eu fiz a maior cara de interrogação que minha testa inexpressiva me permite. Não tive nem um pouco dessa sensação ao ler, até ao contrário. Acho que o foco é tão ele, interno, pra se poder dizer que o mundo fez alguma coisa.
Eu me lembrava, dia desses, de quando ele fala, acho que já sobre a Albertine, e isso do tempo que passa e no futuro não vamos mais querer o que queremos agora, porque seremos outras pessoas, e como essa certeza dói muito agora, porque ainda somos nós agora, não nós depois. Tão, tão verdade, isso, e eu fiquei pensando nisso dele falar quase exclusivamente do amor pela Albertine, e depois esse amor como que perde totalmente a importância pra ele, o personagem - porque também me irritam as pessoas que dizem que o personagem é o Proust, porque mesmo sendo não é -, e se torna um amor, passado, porque ele é ele depois. Eu gosto tanto desse livro, tanto, o das raparigas.
Eu não sei quando acontece isso da gente decifrar o tempo. Eu hoje ouvi a Nana cantando a resposta. Sabe passar e eu não sei. Adormece paixões e eu desperto.
Eu tive uma ótima semana, a melhor que eu consigo lembrar em muito, muito tempo, não sei se anestesia, analgésico, tempo, mas não doeu e foi tão bom. A resposta à minha pergunta era sim. Liberdade.
Mas sempre tem um mas, um senão, um então, de repente. De novo chega o aperto, eu sinto as mãos que envolvem alguma coisa dentro do meu peito. Não sei de onde tiram isso, que a gente não sente as coisas com o coração, se é ele que dói. Dói dentro, quando eu respiro, enquanto espero, dói.
Eu hoje ouvi Deep Purple, ontem Marisa Monte, vontade absurda de Los Hermanos e Pink Floyd. Good bye blue sky. Isso sou eu coming back to life, sendo eu depois e me deixando para trás? Mas eu de trás não quero que eu vá e me seguro, me amarro pelo peito e aperto, pra não me deixar escapar.
Mas o tempo sabe passar e adormecer e eu não sei. Ele passa e me leva e eu não quero mais correntes. A great day for freedom.
Sim, minha frase favorita: não sei. Vou ouvir a música e dormir em silêncio, mas ainda carrego comigo a dor. Menor, talvez, mas ainda demora um pouco antes dela também sumir. Em silêncio.
Eu vou partir e passar.
Adeus.
No entanto, eu venho falar da outra fase do programa. Tema recorrente: eu sinto alguma irritação - o que não é nada pessoal nem surpreendente, já que eu sou, de fato, uma pessoa muito facilmente irritável - quando as pessoas chegam e dizem: "ah, eu queria ler um livro, o que eu leio?". Não qualquer pessoa, mas aquelas que, aparentemente, querem botar uma banca de "oh-como-eu-gosto-de-ler" e não têm nenhuma técnica. Porque os leitores ávidos têm de ter uma técnica para chegar ao que lêem. Imagino que tem gente que lê críticas, revistas especializadas, vêem o programa do Abujamra, vão à livraria e percorrem as prateleiras, em busca de um título - por que não uma capa? - interessante, ou recorrem a um autor favorito. Se você quer ler muito, tem que tirar idéias do que ler de algum lugar, e isso faz parte do sistema todo, descobrir o que te interessa, em vez de comprar interesses alheios. Claro que existe muito pedir conselhos, eu também os peço, mas tem todo o resto, o seguir e o ser seduzido por uma obra qualquer.
Eu sempre me lembro, há muitos e muitos anos, eu sem saber o que ler perguntava à minha mãe e ela sempre sempre me indicava O amor nos tempos do cólera. Eu comecei umas cinco vezes e nunca passava das primeiras três páginas, que me pareciam trinta. Aí, um dia, eu vim à estante em busca de um novo amor e encontrei outro García Márquez, Cem anos de solidão, comecei a ler e li e me arrependi, porque todo mundo sabe que uma das maiores invejas da minha vida é de quem nunca leu esse livro e vai ainda poder lê-lo pela primeira vez e eu já não posso. Depois disso, fui com maior boa vontade ao outro, sempre indicado pela minha mãe, e percebi que as trinta páginas eram apenas três e o livro é, realmente, maravilhoso.
Outro favorito, Orgulho e preconceito, assistindo aquele filme com a Meg Ryan e o Tom Hanks, Mensagem pra você, meio remake de Sintonia de Amor, ela dizia que era o favorito dela, eu anotei num papelzinho e encontrei num sebo e já li algumas vezes. Guerra e paz eu peguei fazendo um trabalho, primeiro ano de faculdade, o Dosse dizia que era um clássico; Crime e castigo, xerox da biblioteca, pseudo-amigo comentando que gostava muito, e assim vai. Essas descobertas já são parte da aventura.
Em busca do tempo perdido, eu me lembro de ouvir pela primeira vez em um Saia Justa, a Mônica, creio eu, comentando que era uma obra gigantesca que todo mundo comenta mas que poucos leram, de verdade. Armada a armadilha.
Não, eu não me enquadro nas pessoas que leram a busca. Mas quase. Talvez o suficiente pra ter uma boa idéia do que o Proust quis dizer, apesar de ter um bloqueio tremendo em entender as coisas que leio. Prefiro ler, apenas, ir, me deixar levar. Mas esses dias eu ouvi alguém dizer que o Proust escreveu Em busca do tempo perdido porque ele não conseguia perdoar o mundo por sei lá o quê. Eu fiz a maior cara de interrogação que minha testa inexpressiva me permite. Não tive nem um pouco dessa sensação ao ler, até ao contrário. Acho que o foco é tão ele, interno, pra se poder dizer que o mundo fez alguma coisa.
Eu me lembrava, dia desses, de quando ele fala, acho que já sobre a Albertine, e isso do tempo que passa e no futuro não vamos mais querer o que queremos agora, porque seremos outras pessoas, e como essa certeza dói muito agora, porque ainda somos nós agora, não nós depois. Tão, tão verdade, isso, e eu fiquei pensando nisso dele falar quase exclusivamente do amor pela Albertine, e depois esse amor como que perde totalmente a importância pra ele, o personagem - porque também me irritam as pessoas que dizem que o personagem é o Proust, porque mesmo sendo não é -, e se torna um amor, passado, porque ele é ele depois. Eu gosto tanto desse livro, tanto, o das raparigas.
Eu não sei quando acontece isso da gente decifrar o tempo. Eu hoje ouvi a Nana cantando a resposta. Sabe passar e eu não sei. Adormece paixões e eu desperto.
Eu tive uma ótima semana, a melhor que eu consigo lembrar em muito, muito tempo, não sei se anestesia, analgésico, tempo, mas não doeu e foi tão bom. A resposta à minha pergunta era sim. Liberdade.
Mas sempre tem um mas, um senão, um então, de repente. De novo chega o aperto, eu sinto as mãos que envolvem alguma coisa dentro do meu peito. Não sei de onde tiram isso, que a gente não sente as coisas com o coração, se é ele que dói. Dói dentro, quando eu respiro, enquanto espero, dói.
Eu hoje ouvi Deep Purple, ontem Marisa Monte, vontade absurda de Los Hermanos e Pink Floyd. Good bye blue sky. Isso sou eu coming back to life, sendo eu depois e me deixando para trás? Mas eu de trás não quero que eu vá e me seguro, me amarro pelo peito e aperto, pra não me deixar escapar.
Mas o tempo sabe passar e adormecer e eu não sei. Ele passa e me leva e eu não quero mais correntes. A great day for freedom.
Sim, minha frase favorita: não sei. Vou ouvir a música e dormir em silêncio, mas ainda carrego comigo a dor. Menor, talvez, mas ainda demora um pouco antes dela também sumir. Em silêncio.
Eu vou partir e passar.
Adeus.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Temporada de caça
Legal, né?
Pensei nisso e não sei mais o que dizer.
A não ser que eu comprei uma bolsa liiinda e estou feliz e saltitante sem ela - é, ainda não chegou! - há já dois imensos dias. Eu lia hoje uma reportagem sobre materialismo ser aproveitar o que se tem até o fim e viver de maneira simples e não sei o que lá que é "correto". Beleuza, eu nunca me considerei uma consumista, juro que eu afirmo em alto e bom som que detesto shopping e comprar roupas, apesar de, em resposta, eu ouvir murmúrios e muxoxos de desaprovação pela mentira. Porque, claro, toda mulher gosta de comprar e eu vou de fato muito ao shopping. Da última vez em que eu disse isso, depois de questionada, me pus a pensar e concluí que eu estava indo semanalmente ao antro da perdição.
Aí as pessoas dizem que isso de comprar e, sejamos francos, comer enlouquecidamente é porque você quer preencher um vazio interior, mas nada disso resulta e só te deixa pobre, gorda e com a cara cheia de espinhas. Eu já defendo que, se a gente tem um vazio interior, e vamos concordar que todos temos, e não conseguimos preencher de outra forma, um chocolatinho e uma bolsinha vêm sim a calhar. Oras, bolas! A gente tem que encher de algum jeito, né? Eu ainda sou das sortudas - não que não têm TPM, porque pra essas só pena de morte - que não têm espinhas relacionadas com comida, só com inconveniência. Explico: eu posso morrer de comer qualquer merda - ok... nevermind - que me dê na telha e tudo azul - ou no meu caso branco translúcido. Porém, é só aparecer alguma coisa para fazer, um evento, uma azaração (sim, eu ando vendo mesmo muita televisão, melhor deixar a referência pra lá) ou sei lá, uma sessão de fotos pra formatura, que lá vem elas.
Mas eu hoje fiquei de babá. Enquanto exercia minhas funções super especializadas, eu pensava nessa coisa da diferença entre os sexos. Tpm, exército e cólica à parte, um dos pontos fracos de ser homem é que eles são sempre chamados de "meu" ou nomes ou pronomes ou quaisquer coisas masculinas. Minha sobrinha, entre suas diversas particularidades, não aprendeu os pronomes possessivos femininos. Ela simplesmente não sabe dizer "minha", então anda por aí falando do meu mãe, meu vó, meu tia. Mas o top é quando a gente brinca com ela enrolada no cobertor e diz "a Clara não tem mãão" (bem assim, mesmo, musiquinha irritante style), ela ri e diz "tem, siiim" e depois mostra as mãos e diz "olha aqui meu mão". Juro que é a coisa mais fofa do mundo.
Será que cria trauma, isso, dizer que ela não tem mão? Acho que não, né? Se causar, não deve ser nada de muito grave. Se bem que eu lembro de quando meu pai dizia que tinha arrancado meu nariz, mas lembro mais como uma fotografia, não como uma angústia gritante de andar por aí mega deformada.
Não sei, mas nesse meio tempo eu ando me divertindo.
E esperando a bolsa! Ai, ai...
Pensei nisso e não sei mais o que dizer.
A não ser que eu comprei uma bolsa liiinda e estou feliz e saltitante sem ela - é, ainda não chegou! - há já dois imensos dias. Eu lia hoje uma reportagem sobre materialismo ser aproveitar o que se tem até o fim e viver de maneira simples e não sei o que lá que é "correto". Beleuza, eu nunca me considerei uma consumista, juro que eu afirmo em alto e bom som que detesto shopping e comprar roupas, apesar de, em resposta, eu ouvir murmúrios e muxoxos de desaprovação pela mentira. Porque, claro, toda mulher gosta de comprar e eu vou de fato muito ao shopping. Da última vez em que eu disse isso, depois de questionada, me pus a pensar e concluí que eu estava indo semanalmente ao antro da perdição.
Aí as pessoas dizem que isso de comprar e, sejamos francos, comer enlouquecidamente é porque você quer preencher um vazio interior, mas nada disso resulta e só te deixa pobre, gorda e com a cara cheia de espinhas. Eu já defendo que, se a gente tem um vazio interior, e vamos concordar que todos temos, e não conseguimos preencher de outra forma, um chocolatinho e uma bolsinha vêm sim a calhar. Oras, bolas! A gente tem que encher de algum jeito, né? Eu ainda sou das sortudas - não que não têm TPM, porque pra essas só pena de morte - que não têm espinhas relacionadas com comida, só com inconveniência. Explico: eu posso morrer de comer qualquer merda - ok... nevermind - que me dê na telha e tudo azul - ou no meu caso branco translúcido. Porém, é só aparecer alguma coisa para fazer, um evento, uma azaração (sim, eu ando vendo mesmo muita televisão, melhor deixar a referência pra lá) ou sei lá, uma sessão de fotos pra formatura, que lá vem elas.
Mas eu hoje fiquei de babá. Enquanto exercia minhas funções super especializadas, eu pensava nessa coisa da diferença entre os sexos. Tpm, exército e cólica à parte, um dos pontos fracos de ser homem é que eles são sempre chamados de "meu" ou nomes ou pronomes ou quaisquer coisas masculinas. Minha sobrinha, entre suas diversas particularidades, não aprendeu os pronomes possessivos femininos. Ela simplesmente não sabe dizer "minha", então anda por aí falando do meu mãe, meu vó, meu tia. Mas o top é quando a gente brinca com ela enrolada no cobertor e diz "a Clara não tem mãão" (bem assim, mesmo, musiquinha irritante style), ela ri e diz "tem, siiim" e depois mostra as mãos e diz "olha aqui meu mão". Juro que é a coisa mais fofa do mundo.
Será que cria trauma, isso, dizer que ela não tem mão? Acho que não, né? Se causar, não deve ser nada de muito grave. Se bem que eu lembro de quando meu pai dizia que tinha arrancado meu nariz, mas lembro mais como uma fotografia, não como uma angústia gritante de andar por aí mega deformada.
Não sei, mas nesse meio tempo eu ando me divertindo.
E esperando a bolsa! Ai, ai...
terça-feira, 13 de maio de 2008
Será
hoje o primeiro dia da minha liberdade?
Hoje, será? Será liberdade?
Eu gostaria que hoje fosse o primeiro dia da minha liberdade.
Será?
Hoje, será? Será liberdade?
Eu gostaria que hoje fosse o primeiro dia da minha liberdade.
Será?
da Esperança
Vou agora ver um filme, Clive Owen, sempre ele, mas esse é aquele do mundo sem crianças.
Sei lá, acho que pra gente ver como as coisas sempre podem piorar.
Tchau, beijo.
Sei lá, acho que pra gente ver como as coisas sempre podem piorar.
Tchau, beijo.
Première
O maior clichê do mundo é aquele de como o mundo é maior do que as palavras.
Bem, à maior parte das pessoas isso pode parecer só um clichê ou ainda uma desculpa. No meu caso, é uma obsessão. Mesmo, persistente. Não uma desculpa, porque não me impede de dizer, mas é que eu não me livro da idéia de como o dizer é menor do que a realidade, e há vezes em que queremos que um momento se eternize, e a única forma que eu conheço de tentar alcançar isso, o eterno, é dizendo atabalhoadamente das minhas impressões sobre o que me cerca. Mas eterno não existe, o tempo é rápido demais e o passado chega à velocidade da luz.
Eu não sou uma pessoa feliz. Fato. Eu gostaria de ser, mas não sou.
O que eu também não sou, nem gostaria de ser, é alegrinha. Tipo uau-como-o-mundo-é-lindo-e-o-sol-brilha. Eu não tenho nada sem meu ar blasé, sou totalmente esquecível, todo mundo tem um it, um tchans, um quê: eu sou blasé.
Então ontem, pela primeira vez que eu me lembre, eu senti um amor e uma alegria tão forte que fiquei triste e com pena. Porque eu sou pelas ferraduras, acho que o máximo de qualquer coisa se aproxima de seu oposto, ou assim. Como eu já experenciei momentos do mais puro ódio, rasgante, concomitante, em sincronia perfeita com o momento de maior amor que eu já senti.
São amores diferentes, um traz ódio, um tristeza e pena.
Mas eu vi braços fazendo a lua cheia e ouvi o som "cheia" e queria permanecer ali para sempre e que a lua ficasse sempre cheia, sempre, eternamente, e os braços em lua cheia.
Não existe eterno além da repetição incessante que fazemos em nossa mente uma sombra, mas entre o breu e a sombra ficamos com a sombra.
Inesperadamente, hoje, eu poderia me encantar e apaixonar. Estender, novamente, a minha mão e buscar o impossível. Mas eu hoje parei. Sim, por medo, por juventude, mas porque a Morgana também dizia que as coisas que na nossa vida se repetem, repetem para aprendermos com elas e enquanto não aprendemos elas ficam ali, voltando num bumerangue sem fim.
Eu hoje optei pelo diferente e por isso me calo.
Pessoa, eu hoje te amei e você nunca saberá.
Pessoa, se um dia você me amar, por favor, me faça saber.
Bem, à maior parte das pessoas isso pode parecer só um clichê ou ainda uma desculpa. No meu caso, é uma obsessão. Mesmo, persistente. Não uma desculpa, porque não me impede de dizer, mas é que eu não me livro da idéia de como o dizer é menor do que a realidade, e há vezes em que queremos que um momento se eternize, e a única forma que eu conheço de tentar alcançar isso, o eterno, é dizendo atabalhoadamente das minhas impressões sobre o que me cerca. Mas eterno não existe, o tempo é rápido demais e o passado chega à velocidade da luz.
Eu não sou uma pessoa feliz. Fato. Eu gostaria de ser, mas não sou.
O que eu também não sou, nem gostaria de ser, é alegrinha. Tipo uau-como-o-mundo-é-lindo-e-o-sol-brilha. Eu não tenho nada sem meu ar blasé, sou totalmente esquecível, todo mundo tem um it, um tchans, um quê: eu sou blasé.
Então ontem, pela primeira vez que eu me lembre, eu senti um amor e uma alegria tão forte que fiquei triste e com pena. Porque eu sou pelas ferraduras, acho que o máximo de qualquer coisa se aproxima de seu oposto, ou assim. Como eu já experenciei momentos do mais puro ódio, rasgante, concomitante, em sincronia perfeita com o momento de maior amor que eu já senti.
São amores diferentes, um traz ódio, um tristeza e pena.
Mas eu vi braços fazendo a lua cheia e ouvi o som "cheia" e queria permanecer ali para sempre e que a lua ficasse sempre cheia, sempre, eternamente, e os braços em lua cheia.
Não existe eterno além da repetição incessante que fazemos em nossa mente uma sombra, mas entre o breu e a sombra ficamos com a sombra.
Inesperadamente, hoje, eu poderia me encantar e apaixonar. Estender, novamente, a minha mão e buscar o impossível. Mas eu hoje parei. Sim, por medo, por juventude, mas porque a Morgana também dizia que as coisas que na nossa vida se repetem, repetem para aprendermos com elas e enquanto não aprendemos elas ficam ali, voltando num bumerangue sem fim.
Eu hoje optei pelo diferente e por isso me calo.
Pessoa, eu hoje te amei e você nunca saberá.
Pessoa, se um dia você me amar, por favor, me faça saber.
domingo, 11 de maio de 2008
Mudaram as estações? Nada mudou?
Eu me lembro da primeira vem em que em falaram do Napster, eu não fazia idéia do que era, conversava com um cara pela internet e ele falou preu pegar uma música qualquer lá e eu não fazia idéia do que era.
Eu estava sentada, espacialmente, no mesmo lugar em que estou hoje, embora, como tudo na vida, as coisas tenham mudado. Agora estou numa sala com uma bancada, televisão, som, livros, um lugar habitável, em resumo. Antes um tipo de galpão, com chão de cimento e uma Megan ressonando ao meu lado. Eu não a deixava entrar a não ser quando chovia, ela tinha muito medo dos trovões e eu ficava com pena. Ela deitava debaixo de uma escrivaninha e ressonava. Lembro também de alguém me dizer que os cachorros só ressonam quando eles dormem se sentindo perfeitamente seguros, lembro de olhar para ela e ouvi-la e pensar nisso. E já faz tanto tempo.
Foi nessa mesma época que eu fiz um mapa astral pela internet, antes de ser pago, e eu discordei completamente de tudo que estava ali, começando pelo meu signo, que eu sempre pensara ser outro.
Há pouco tempo, eu fui atrás dele, na tentativa de entender por que exatamente eu discordara, mas as coisas mudaram muito desde então e, agora, relendo, acho que ele se encaixa. Inclusive quanto ao signo. Entrei numas de querer um mapa astral na época do meu aniversário, mas aquele foi um período em que as coisas realmente não estavam acontecendo conforme o plano. Então, estamos aqui, três meses depois; eu rebebo meu horóscopo quase diariamente e acho uma merda. Tanta baboseira que eu quase rio. Riria, na verdade, se pudesse.
As coisas não estão muito se encaixando, eu sinto como se tivesse voltado a ser aquela garota que ia para a escola de manhã, com neblina, e no caminho até o ponto do ônibus eu era tomada pelo mau-humor matinal, que persiste, e pensava que não ia falar com ninguém aquele dia porque estava mesmo irritada e, ao encontrar o primeiro rosto conhecido, voltava à vida normal e ao máximo de interação que eu poderia ter com uma pessoa. Eu sempre tive essa coisa meio anti-social de não me encaixar muito bem. Sem enganos, eu ali fiz algumas amizades que valeram a pena, mas tinha o resto.
Esses dias eu assisti ao documentário da menina austríaca que ficou em cativeiro por oito anos; ela dizia que enquanto ia para a escola, na manhã do sequestro, estava chateada e pensava, na verdade desejava que acontecesse alguma coisa que mudasse a vida dela. Já dizia a Morgana, cuidado com o que desejas. Ela viu o sequestrador ao lado da van em que ele a carregou, sentiu uma apreensão, pensou em atravessar a rua, mas achou que era besteira dela. A gente acaba esquecendo, né, de seguir os instintos. Ficamos tão condicionados em reprimi-los. E nos é tão importante. Vital, às vezes.
Eu tenho medo, mesmo, às vezes de viver, outras de não viver.
Já escrevi aqui sobre essa coisa do mundo parar, mas eu estou tão em câmera lenta que mal dá para ver o mundo daqui.
Temo haver começado a alucinar.
Eu estava sentada, espacialmente, no mesmo lugar em que estou hoje, embora, como tudo na vida, as coisas tenham mudado. Agora estou numa sala com uma bancada, televisão, som, livros, um lugar habitável, em resumo. Antes um tipo de galpão, com chão de cimento e uma Megan ressonando ao meu lado. Eu não a deixava entrar a não ser quando chovia, ela tinha muito medo dos trovões e eu ficava com pena. Ela deitava debaixo de uma escrivaninha e ressonava. Lembro também de alguém me dizer que os cachorros só ressonam quando eles dormem se sentindo perfeitamente seguros, lembro de olhar para ela e ouvi-la e pensar nisso. E já faz tanto tempo.
Foi nessa mesma época que eu fiz um mapa astral pela internet, antes de ser pago, e eu discordei completamente de tudo que estava ali, começando pelo meu signo, que eu sempre pensara ser outro.
Há pouco tempo, eu fui atrás dele, na tentativa de entender por que exatamente eu discordara, mas as coisas mudaram muito desde então e, agora, relendo, acho que ele se encaixa. Inclusive quanto ao signo. Entrei numas de querer um mapa astral na época do meu aniversário, mas aquele foi um período em que as coisas realmente não estavam acontecendo conforme o plano. Então, estamos aqui, três meses depois; eu rebebo meu horóscopo quase diariamente e acho uma merda. Tanta baboseira que eu quase rio. Riria, na verdade, se pudesse.
As coisas não estão muito se encaixando, eu sinto como se tivesse voltado a ser aquela garota que ia para a escola de manhã, com neblina, e no caminho até o ponto do ônibus eu era tomada pelo mau-humor matinal, que persiste, e pensava que não ia falar com ninguém aquele dia porque estava mesmo irritada e, ao encontrar o primeiro rosto conhecido, voltava à vida normal e ao máximo de interação que eu poderia ter com uma pessoa. Eu sempre tive essa coisa meio anti-social de não me encaixar muito bem. Sem enganos, eu ali fiz algumas amizades que valeram a pena, mas tinha o resto.
Esses dias eu assisti ao documentário da menina austríaca que ficou em cativeiro por oito anos; ela dizia que enquanto ia para a escola, na manhã do sequestro, estava chateada e pensava, na verdade desejava que acontecesse alguma coisa que mudasse a vida dela. Já dizia a Morgana, cuidado com o que desejas. Ela viu o sequestrador ao lado da van em que ele a carregou, sentiu uma apreensão, pensou em atravessar a rua, mas achou que era besteira dela. A gente acaba esquecendo, né, de seguir os instintos. Ficamos tão condicionados em reprimi-los. E nos é tão importante. Vital, às vezes.
Eu tenho medo, mesmo, às vezes de viver, outras de não viver.
Já escrevi aqui sobre essa coisa do mundo parar, mas eu estou tão em câmera lenta que mal dá para ver o mundo daqui.
Temo haver começado a alucinar.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
V
A verdade é que eu estou triste.
E, pior, em dúvida. Já me disseram isso, para aceitar que eu sou uma pessoa dúvida.
Brincando de gente grande na cidade grande, mas eu desconfio que isso é uma farsa.
Assisti agora ao V de Vingança; gostei bastante. Natalie Portman, de novo.
A verdade é que eu não consigo me impedir de estar triste. Não sei muito por onde começar, também. Talvez por ali, vêem? Amor incondicional.
Mas quando a gente é criança, como eu sou, é muito difícil descobri-lo debaixo dos montes de raiva e ressentimento. Nem nada pessoal, só eu como eu sou.
E eu sou assim, se sou obrigada a tirar a máscara, esperneio, depois é possível que tente me redimir na minha nudez, talvez tente aceitar uma coberta. Isso é a raiva e o ressentimento falando, mas... e quando te tiram também a coberta?
Eu sinto muito como se tudo fosse em vão, agora, e minha garganta dói, de raiva e ressentimento.
Eu tenho raiva porque as coisas agora estão muito diferentes do que eu esperava, há seis, dois ou um mês. Não ruins, mas diferentes; eu consegui tantas coisas, nesse meio tempo, ou melhor, não consegui coisas, mas o caminho para conseguir coisas que eu queria há muito tempo e queria muito há pouco tempo. Melhor ainda, eu consegui as pernas, mas não sei por onde andar. Sim, é isso. Como muitas portas abertas que levam diretamente a uma fechada, que eu não sei como abrir. Até ela, os corredores são vazios e o vazio me enche. Cheia de vazio, eu estou cheia de vazio. E triste com a minha garganta doendo. Tanto fel queimando e pedindo pra sair.
Vou soltando, conforme posso.
Às vezes eu queria chamar por socorro. Mas não acredito que se possa querer alguma coisa e não fazer. Eu não posso ganhar na loteria, mas não sou idiota. Se eu quisesse gritar, tenho ainda boca e cordas, mesmo a minha garganta doendo não me impediria. E tenho tão mais que isso, e tanta raiva.
Não, eu não grito por socorro, estou enjoada e vomito.
E, pior, em dúvida. Já me disseram isso, para aceitar que eu sou uma pessoa dúvida.
Brincando de gente grande na cidade grande, mas eu desconfio que isso é uma farsa.
Assisti agora ao V de Vingança; gostei bastante. Natalie Portman, de novo.
A verdade é que eu não consigo me impedir de estar triste. Não sei muito por onde começar, também. Talvez por ali, vêem? Amor incondicional.
Mas quando a gente é criança, como eu sou, é muito difícil descobri-lo debaixo dos montes de raiva e ressentimento. Nem nada pessoal, só eu como eu sou.
E eu sou assim, se sou obrigada a tirar a máscara, esperneio, depois é possível que tente me redimir na minha nudez, talvez tente aceitar uma coberta. Isso é a raiva e o ressentimento falando, mas... e quando te tiram também a coberta?
Eu sinto muito como se tudo fosse em vão, agora, e minha garganta dói, de raiva e ressentimento.
Eu tenho raiva porque as coisas agora estão muito diferentes do que eu esperava, há seis, dois ou um mês. Não ruins, mas diferentes; eu consegui tantas coisas, nesse meio tempo, ou melhor, não consegui coisas, mas o caminho para conseguir coisas que eu queria há muito tempo e queria muito há pouco tempo. Melhor ainda, eu consegui as pernas, mas não sei por onde andar. Sim, é isso. Como muitas portas abertas que levam diretamente a uma fechada, que eu não sei como abrir. Até ela, os corredores são vazios e o vazio me enche. Cheia de vazio, eu estou cheia de vazio. E triste com a minha garganta doendo. Tanto fel queimando e pedindo pra sair.
Vou soltando, conforme posso.
Às vezes eu queria chamar por socorro. Mas não acredito que se possa querer alguma coisa e não fazer. Eu não posso ganhar na loteria, mas não sou idiota. Se eu quisesse gritar, tenho ainda boca e cordas, mesmo a minha garganta doendo não me impediria. E tenho tão mais que isso, e tanta raiva.
Não, eu não grito por socorro, estou enjoada e vomito.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
terça-feira, 6 de maio de 2008
Só deus sabe
Eu sempre fico surpresa com a forma que a gente tem de se conhecer. A gente passa uma vida por aqui e não sabe nada da gente, até que acontece alguma coisa que nos mostra quem somos.
Eu sempre soube que não era uma patriota, defensora aguerrida desse belo país tropical, abençoado por deus e blá blá blá. Sempre considerei isso uma qualidade, mais que um defeito, porque acredito que crítica de mais é sempre melhor do que de menos. Um dos casos em que mais é mais, mesmo.
Ano passado, tive minha primeira experiência internacional. Gostei, porque, não me conhecendo, acho que gosto de viajar, sair da minha vida conhecida para viver diferente, e isso eu certamente fiz. Durante um mês, pouco mais ou menos, vivi diferente. Não me senti especialmente brasileira.
Aí, no mesmo ano, fiz algumas viagens a trabalho, por aqui mesmo, Rio, Minas, Espírito Santo. E me senti totalmente paulista. Foi assim que eu descobri, na pele, como é diferente viajar brincando e trabalhando. No segundo caso, é muito mais difícil nos livrarmos dos nossos padrões, frios, um tanto quanto eficientes, rápidos. Eu me dei conta do quanto somos, afinal, filhos de um lugar.
Ainda assim... esses dias eu via na tv uma entrevista com um poeta amazonense. Era um senhor, que dizia o quanto ele era filho da floresta e como nós temos uma ligação com a nossa terra. Ah, sim, ele contou um episódio, ele criança, brincava, acho que de empinar pipa, com um colega, praí uns dez anos, pouco mais ou menos, quando o colega caiu no rio. Ele era caboclo mas não sabia nadar. O poeta, então, foi pra beira do rio, sem saber o que fazer, e viu um trabalhador dali de perto pulando pra tentar salvar o garoto. Não conseguiu. O corpo apareceu não sei a que distância dali. O poeta chegou em casa e fez uma poesia, sem saber que era poesia, mas um terceto de sete sílabas. Será isso? Eu não me lembro dos versos.
Sabe lá deus por que diabo eu hoje resolvi ver um road-movie. México Brasil. Eu já disse que adoro o Diego Luna? Não conheço muito, mas o vi com o Gael García Bernal, e depois arrasando nas noites de Havana. As escolhas que a gente faz, sempre. Eu podia ter assistido ao jornal, ou ido ler um texto, dormir mais, ouvir música, viajar na internet, mas assisti a um road-movie. México Brasil. De vez em quando parece mesmo que a gente gosta de sofrer.
Além da nostalgia e desejo, eu fiquei com uma coisa na cabeça - e também no peito.
Ok, então eu não sou uma imbecil que acha o meu país o melhor do mundo, e eu nem tenho cidade, mas isso tem um preço. De tradições que eu não tenho, e se não ter raízes te dá liberdade, também te deixa à deriva. No deserto sem saudade, sem remorso, só, sem amarras, barco embriagado ao mar. Porque eu não sei que a festas típicas ir - nem atípicas, para ser sincera - nem tenho um santo de devoção, nem saberia partilhar esse passado ontológico, mostrá-lo ao Outro.
Eu nem sei o que é ontológico, nem se o uso está correto, mas pareceu.
E eu sei, me falo isso o tempo todo, e me falam isso também o tempo todo, desde sempre o tempo todo, que isso não existe, buscar um lar fora da gente, que viemos sozinhos, iremos sozinhos, tudo é passageiro e a única pessoa que pode nos fazer, me fazer, feliz, ou mais feliz, sou eu. E, sem falsa modéstia, eu sou uma ótima conselheira de mim mesma, o único senão é que eu me recuso a me ouvir.
Então eu continuo me debatendo e sofrendo por não ter um lar; claro, eu tenho a minha casa, a minha clara, mas é diferente, porque nem ali existem essas tradições. E também tem vários tipos de lar, eu tenho um deles, esse de família, mas não tenho o maior, e não tenho o menor. Foi esse o soco que o filme me deu. O menor. Lembro do Garden State:
Andrew Largeman: You know that point in your life when you realize that the house that you grew up in isn't really your home anymore? All of the sudden even though you have some place where you can put your stuff that idea of home is gone.
Sam: still feel at home in my house.
Andrew Largeman: You'll see when you move out it just sort of happens one day one day and it's just gone. And you can never get it back. It's like you get homesick for a place that doesn't exist. I mean it's like this rite of passage, you know. You won't have this feeling again until you create a new idea of home for yourself, you know, for your kids, for the family you start, it's like a cycle or something. I miss the idea of it. Maybe that's all family really is. A group of people who miss the same imaginary place.
Aí esse vai ser o maior post do mundo. Mas outro dia desses, eu no meu quarto, sem saber se casava ou comprava uma bicicleta; minha mãe tem essa mania que eu às vezes acho infernal, ela deixa um rádio ligado na cozinha o tempo todo, desde a hora em que acorda - aka muito cedo - até a hora de dormir, não importa se ela está na cozinha ou em casa, fica ali, ligado. Aí nesse dia, era um fim de tarde, e de repente eu ouço a voz da Adriana Calcanhoto dizendo "no dia em que fui mais feliz". Eu dei um pulo, um berro, pedi imediatamente a ela que abaixasse o volume, fechei a porta, cobri os ouvidos com travesseiros, me concentrei num livro. Há muitos e muitos anos, eu escrevi essa letra em um caderno. Não sei em que eu pensava, então, ou qual era a dor da vez. Sempre tem uma. E ela voltou, multiplicada, e eu fugi e me escondi. Eu continuo pasma com isso, como tem coisas que doem, parece que essencialmente. Mas, agora, pensando nisso e lembrando, tive de ir atrás da música pra fazer doer. Arde, cura e tal.
Não sei , isso de lar. Eu nunca encontrei nem nunca senti; talvez tenha pressentido o cheiro, mas nunca entrou pelas minhas veias e me aqueceu e me acolheu, isso de um lar em uma pessoa.
Aí o Diego Luna e o Valiant e o passaporte, o cheiro mais forte e mais distante. É tão tão difícil saber quando vale a pena, até que ponto insistir. Pra mim é tão difícil aceitar o mundo diferente do meu desejo, e eu já confundi muito vontade com obstinação.
Eu já quis muito e sei que é hora, agora, de soltar e deixar o mundo girar e ver aonde ele vai. Comédia da vida privada, o grande amor da minha vida.Ver o que ele traz.
Até lá, o youtube traz a Adriana, e o google diz:
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá, não sei
caminho ao longo canal
Faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial
Algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente
que larguei naquele dia mesmo
o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
sem amarras, barco embriagado ao mar.
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se a terra um instante por nós dois
pouco antes do Ocidente se assombrar.
Exceto que eu não fui mais feliz.
Da lista de canções que eu não posso cantar, mas canto assim mesmo.
Eu sempre soube que não era uma patriota, defensora aguerrida desse belo país tropical, abençoado por deus e blá blá blá. Sempre considerei isso uma qualidade, mais que um defeito, porque acredito que crítica de mais é sempre melhor do que de menos. Um dos casos em que mais é mais, mesmo.
Ano passado, tive minha primeira experiência internacional. Gostei, porque, não me conhecendo, acho que gosto de viajar, sair da minha vida conhecida para viver diferente, e isso eu certamente fiz. Durante um mês, pouco mais ou menos, vivi diferente. Não me senti especialmente brasileira.
Aí, no mesmo ano, fiz algumas viagens a trabalho, por aqui mesmo, Rio, Minas, Espírito Santo. E me senti totalmente paulista. Foi assim que eu descobri, na pele, como é diferente viajar brincando e trabalhando. No segundo caso, é muito mais difícil nos livrarmos dos nossos padrões, frios, um tanto quanto eficientes, rápidos. Eu me dei conta do quanto somos, afinal, filhos de um lugar.
Ainda assim... esses dias eu via na tv uma entrevista com um poeta amazonense. Era um senhor, que dizia o quanto ele era filho da floresta e como nós temos uma ligação com a nossa terra. Ah, sim, ele contou um episódio, ele criança, brincava, acho que de empinar pipa, com um colega, praí uns dez anos, pouco mais ou menos, quando o colega caiu no rio. Ele era caboclo mas não sabia nadar. O poeta, então, foi pra beira do rio, sem saber o que fazer, e viu um trabalhador dali de perto pulando pra tentar salvar o garoto. Não conseguiu. O corpo apareceu não sei a que distância dali. O poeta chegou em casa e fez uma poesia, sem saber que era poesia, mas um terceto de sete sílabas. Será isso? Eu não me lembro dos versos.
Sabe lá deus por que diabo eu hoje resolvi ver um road-movie. México Brasil. Eu já disse que adoro o Diego Luna? Não conheço muito, mas o vi com o Gael García Bernal, e depois arrasando nas noites de Havana. As escolhas que a gente faz, sempre. Eu podia ter assistido ao jornal, ou ido ler um texto, dormir mais, ouvir música, viajar na internet, mas assisti a um road-movie. México Brasil. De vez em quando parece mesmo que a gente gosta de sofrer.
Além da nostalgia e desejo, eu fiquei com uma coisa na cabeça - e também no peito.
Ok, então eu não sou uma imbecil que acha o meu país o melhor do mundo, e eu nem tenho cidade, mas isso tem um preço. De tradições que eu não tenho, e se não ter raízes te dá liberdade, também te deixa à deriva. No deserto sem saudade, sem remorso, só, sem amarras, barco embriagado ao mar. Porque eu não sei que a festas típicas ir - nem atípicas, para ser sincera - nem tenho um santo de devoção, nem saberia partilhar esse passado ontológico, mostrá-lo ao Outro.
Eu nem sei o que é ontológico, nem se o uso está correto, mas pareceu.
E eu sei, me falo isso o tempo todo, e me falam isso também o tempo todo, desde sempre o tempo todo, que isso não existe, buscar um lar fora da gente, que viemos sozinhos, iremos sozinhos, tudo é passageiro e a única pessoa que pode nos fazer, me fazer, feliz, ou mais feliz, sou eu. E, sem falsa modéstia, eu sou uma ótima conselheira de mim mesma, o único senão é que eu me recuso a me ouvir.
Então eu continuo me debatendo e sofrendo por não ter um lar; claro, eu tenho a minha casa, a minha clara, mas é diferente, porque nem ali existem essas tradições. E também tem vários tipos de lar, eu tenho um deles, esse de família, mas não tenho o maior, e não tenho o menor. Foi esse o soco que o filme me deu. O menor. Lembro do Garden State:
Andrew Largeman: You know that point in your life when you realize that the house that you grew up in isn't really your home anymore? All of the sudden even though you have some place where you can put your stuff that idea of home is gone.
Sam: still feel at home in my house.
Andrew Largeman: You'll see when you move out it just sort of happens one day one day and it's just gone. And you can never get it back. It's like you get homesick for a place that doesn't exist. I mean it's like this rite of passage, you know. You won't have this feeling again until you create a new idea of home for yourself, you know, for your kids, for the family you start, it's like a cycle or something. I miss the idea of it. Maybe that's all family really is. A group of people who miss the same imaginary place.
Aí esse vai ser o maior post do mundo. Mas outro dia desses, eu no meu quarto, sem saber se casava ou comprava uma bicicleta; minha mãe tem essa mania que eu às vezes acho infernal, ela deixa um rádio ligado na cozinha o tempo todo, desde a hora em que acorda - aka muito cedo - até a hora de dormir, não importa se ela está na cozinha ou em casa, fica ali, ligado. Aí nesse dia, era um fim de tarde, e de repente eu ouço a voz da Adriana Calcanhoto dizendo "no dia em que fui mais feliz". Eu dei um pulo, um berro, pedi imediatamente a ela que abaixasse o volume, fechei a porta, cobri os ouvidos com travesseiros, me concentrei num livro. Há muitos e muitos anos, eu escrevi essa letra em um caderno. Não sei em que eu pensava, então, ou qual era a dor da vez. Sempre tem uma. E ela voltou, multiplicada, e eu fugi e me escondi. Eu continuo pasma com isso, como tem coisas que doem, parece que essencialmente. Mas, agora, pensando nisso e lembrando, tive de ir atrás da música pra fazer doer. Arde, cura e tal.
Não sei , isso de lar. Eu nunca encontrei nem nunca senti; talvez tenha pressentido o cheiro, mas nunca entrou pelas minhas veias e me aqueceu e me acolheu, isso de um lar em uma pessoa.
Aí o Diego Luna e o Valiant e o passaporte, o cheiro mais forte e mais distante. É tão tão difícil saber quando vale a pena, até que ponto insistir. Pra mim é tão difícil aceitar o mundo diferente do meu desejo, e eu já confundi muito vontade com obstinação.
Eu já quis muito e sei que é hora, agora, de soltar e deixar o mundo girar e ver aonde ele vai. Comédia da vida privada, o grande amor da minha vida.Ver o que ele traz.
Até lá, o youtube traz a Adriana, e o google diz:
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá, não sei
caminho ao longo canal
Faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial
Algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente
que larguei naquele dia mesmo
o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
sem amarras, barco embriagado ao mar.
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se a terra um instante por nós dois
pouco antes do Ocidente se assombrar.
Exceto que eu não fui mais feliz.
Da lista de canções que eu não posso cantar, mas canto assim mesmo.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Saudade
Existem no mundo algumas pessoas muito doidas.
Qualquer viciado em série sabe do que eu tô falando; um dos sintomas é quando você passa a medir o tempo por temporadas.
Essas pessoas, pobres doentes, enfrentam regularmente sérios problemas, como greves que atrapalham a temporada, ou a temporada que termina no melhor momento e, principalmente, temporadas que nunca mais começam. No entanto, esses são obstáculos de praxe, acontecem regularmente e, como todo bom (ok, isso é um pouco irônico) filme, a gente sabe que termina bem. Pode demorar, mas todos vivemos felizes para sempre enquanto duram os episódios inéditos.
Há, porém, um problema muito mais grave do que estes. É quando a gente empolga com uma série que ninguém mais empolga, aí ela é cancelada. Também acontece com as de sucesso, depois de alguns anos e, se a gente já não encheu o saco dela, pode mesmo ser dolorido. Mas ainda assim, tivemos algum tempo de esgotar o vício, o que não acontece quando se dá um cancelamento.
Pois bem, eu há pouco me lembrei de um episódio de uma dessas séries, chamava, acho eu, Joan of Arcadia, e era sobre uma garota que falava com deus. Ela tinha aí seus 16 anos, frequentava a escola, como todo mundo, só que, de repente, o faxineiro ou um menino que ela nunca tinha visto começava a falar com ela: sim, perspicaz leitor, o faxineiro ou menino era, na verdade, deus. Ele, ou ela, dizia à Joan para fazer coisas um tanto esquisitas, ela se rebelava, duvidava, fazia e fazia o certo. Então, num dos episódios, ela tinha que aprender a fazer aquele malabarismo com as bolinhas, de manter três no ar ao mesmo tempo. Foi um episódio legal, tinha uma coisa de uma amiga doente, e ela não conseguia manter as três bolinhas no ar, até que ela aprendeu como.
Claro que isso é uma associação livre da minha mente, nem tem nada a ver com a realidade, mas eu funciono assim, ainda, associações livres perpetuando-se até o infinito.
A questão é que acho que é isso mesmo, a vida, né? Como aquele enigma: você tem que cruzar uma ponte com três bolinhas, mas a ponte só aguenta o seu peso e o de duas bolinhas, então como você faz? Uai, passa fazendo malabarismo, porque assim uma das bolinhas tá sempre no ar. Eu às vezes fico pasma com meus insights geniais, tipo ninguém nunca pensou nisso antes, né?
Mas é que não é verdade? A gente não consegue nunca agarrar tudo ao mesmo tempo, tem que deixar alguma coisa no ar pra pegar depois, enquanto solta uma das que estamos segurando. E eu, a senhorita mimada, acredito que chega um ponto em que a gente tem que assumir as rédeas da nossa vida, não importa o que aconteceu antes. Ah, você sofreu? Eu também, e certamente há pessoas por aí que sofreram muito mais do que nós dois juntos, mas ok, bola pra frente, faz por onde, faz diferente. E, nessa, a gente tem escolhas, opta por agarrar isso e deixar aquilo ir. E a gente espera, fervorosamente, ter forças pra assumir as consequências dessas escolhas, quando chegar a hora. Isso é muito assustador, dá um medo da porra. Disso que a gente solta, e se perde; do que não volta, e não temos certeza de que era mesmo isso que devia ir e não outra coisa.
Tem coisas que só o tempo traz e é muito difícil nos despedirmos delas, para esperar que o mesmo tempo que trouxe leve embora.
Qualquer viciado em série sabe do que eu tô falando; um dos sintomas é quando você passa a medir o tempo por temporadas.
Essas pessoas, pobres doentes, enfrentam regularmente sérios problemas, como greves que atrapalham a temporada, ou a temporada que termina no melhor momento e, principalmente, temporadas que nunca mais começam. No entanto, esses são obstáculos de praxe, acontecem regularmente e, como todo bom (ok, isso é um pouco irônico) filme, a gente sabe que termina bem. Pode demorar, mas todos vivemos felizes para sempre enquanto duram os episódios inéditos.
Há, porém, um problema muito mais grave do que estes. É quando a gente empolga com uma série que ninguém mais empolga, aí ela é cancelada. Também acontece com as de sucesso, depois de alguns anos e, se a gente já não encheu o saco dela, pode mesmo ser dolorido. Mas ainda assim, tivemos algum tempo de esgotar o vício, o que não acontece quando se dá um cancelamento.
Pois bem, eu há pouco me lembrei de um episódio de uma dessas séries, chamava, acho eu, Joan of Arcadia, e era sobre uma garota que falava com deus. Ela tinha aí seus 16 anos, frequentava a escola, como todo mundo, só que, de repente, o faxineiro ou um menino que ela nunca tinha visto começava a falar com ela: sim, perspicaz leitor, o faxineiro ou menino era, na verdade, deus. Ele, ou ela, dizia à Joan para fazer coisas um tanto esquisitas, ela se rebelava, duvidava, fazia e fazia o certo. Então, num dos episódios, ela tinha que aprender a fazer aquele malabarismo com as bolinhas, de manter três no ar ao mesmo tempo. Foi um episódio legal, tinha uma coisa de uma amiga doente, e ela não conseguia manter as três bolinhas no ar, até que ela aprendeu como.
Claro que isso é uma associação livre da minha mente, nem tem nada a ver com a realidade, mas eu funciono assim, ainda, associações livres perpetuando-se até o infinito.
A questão é que acho que é isso mesmo, a vida, né? Como aquele enigma: você tem que cruzar uma ponte com três bolinhas, mas a ponte só aguenta o seu peso e o de duas bolinhas, então como você faz? Uai, passa fazendo malabarismo, porque assim uma das bolinhas tá sempre no ar. Eu às vezes fico pasma com meus insights geniais, tipo ninguém nunca pensou nisso antes, né?
Mas é que não é verdade? A gente não consegue nunca agarrar tudo ao mesmo tempo, tem que deixar alguma coisa no ar pra pegar depois, enquanto solta uma das que estamos segurando. E eu, a senhorita mimada, acredito que chega um ponto em que a gente tem que assumir as rédeas da nossa vida, não importa o que aconteceu antes. Ah, você sofreu? Eu também, e certamente há pessoas por aí que sofreram muito mais do que nós dois juntos, mas ok, bola pra frente, faz por onde, faz diferente. E, nessa, a gente tem escolhas, opta por agarrar isso e deixar aquilo ir. E a gente espera, fervorosamente, ter forças pra assumir as consequências dessas escolhas, quando chegar a hora. Isso é muito assustador, dá um medo da porra. Disso que a gente solta, e se perde; do que não volta, e não temos certeza de que era mesmo isso que devia ir e não outra coisa.
Tem coisas que só o tempo traz e é muito difícil nos despedirmos delas, para esperar que o mesmo tempo que trouxe leve embora.
sábado, 3 de maio de 2008
Babel
Babel.
Terceiro filme que vejo do Iñárritu. Antes, por acaso, Amores perros; depois, intencionalmente, 21 gramas. Este, um dos filmes mais marcantes que eu já vi, me lembro até hoje do caminho: um colega de faculdade, conhecido como Gulliver - que aliás eu pensei ter visto essa semana num ponto de ônibus, mas me enganei -, mandou um e-mail para o grupo, dizendo que o filme era maravilhoso, que ele foi ver numa sala de cinema com dez pessoas, cinco das quais saíram antes do fim.
Depois o anúncio, o acordo, lembro com quem vi, quem mais estava ali, o cheiro da sala e o momento fenomenal em que finalmente entendi o que se passava na tela. E é pena, porque é como o Cem anos de solidão, uma vez na vida, mais só se formos acometidos por amnésia.
Aí, buscando no imdb o modo correto de escrever esse nome - que eu não aprendi, mas copiei - vi que ele fez um dos curtas do 11 de setembro - 11' 09'' 01, que eu vi na mesma sala, em parte na mesma companhia e com o mesmo cheiro, que tem o curta do Sean Penn que eu juro por deus quase me matou. Onze e tal minutos, simplesmente maravilhoso, daqueles momentos em que dá uma puta vontade de levantar e ir embora, porque já foi suficiente.
Eu pensava nisso mais cedo, vi esses dias um programa sobre pessoas que realmente têm distúrbio alimentar, não são só frescas como eu, tinha um cara que vivia - juro que é verdade! - de sopa de tomate com macarrão enlatada e sorvete. Aí o programa era uma tentativa de terapia de um mês, em que um monte de gente tentava trabalhar com a pessoa, descobrir o motivo do problema e como superá-lo. O objetivo era a pessoa em questão, depois do mês, sair pra jantar e comer alguma coisa que estivesse no menu. As pessoas não conseguiam muito, mas vale a intenção - ao menos valeu preu saber que meu problema não é assim tão grave. Mas o ponto é: uma das coisas que eles diziam (eu ao menos acho que eram eles, mas pensando melhor poderia ser qualquer outra pessoa, ou não pessoa, dado o fato que eu costumo sonhar com essas merdas)... ah, ok, definitivamente não eram eles, era um cara falando numa dessas revistas sobre como ser mais feliz ou assim, e ele dizia que um dos nossos defeitos era ficar escolhendo demais, então ele sugeria, por exemplo, que o leitor fosse a um restaurante e, em vez de olhar o cardápio inteiro (perceberam o ponto de ligação? menu, cardápio...), simplesmente escolher a primeira coisa que agradar, sem procurar depois se tem outra melhor. Então, mais cedo, eu pensava nisso. Não do cardápio, porque eu sou gulosa, escolho a primeira coisa de que gosto e se vejo outras apetitosas, faço por voltar ao lugar para experimentá-las - ou fico o resto da vida pensando se o prato seria mesmo maravilhoso. Mas, na vida, será fragilidade, insegurança, o que, será, a gente achar que a primeira opção pode mesmo ser a melhor? Se pode ser ruim a gente ficar pensando que na página seguinte tem coisa melhor, também não é perigoso parar na primeira página? Mas tem coisas na vida que são tão certas. No filme, 11 de setembro, 11 curtas, acho que o do Sean Penn é o décimo; até ali, eu via e achava legalzinho. Depois desse, a certeza, absoluta, que nada poderia ser melhor e superá-lo, o que se mostrou verdade. Então eu penso que de vez em quando a gente sabe. É como o Cem anos de solidão, na primeira página você sabe que é um dos melhores livros que você vai ler na sua vida, sem mais nada, sem comparação, sem experimentar, é uma certeza quase sobrenatural que nos toma quando nos deparamos com algo verdadeiramente grande. Eu escrevi há pouco sobre isso, a primeira cena de um filme que nos faz saber que ele vale a pena. Acho que a vida também tem isso, no momento em que acontece e depois, é uma união que permanece, o bem-estar e a certeza de que esse momento vai ficar marcado.
Então, Babel. Confesso que não gostei tanto quanto de 21 gramas. Poderia até dizer que esperava mais, mas não sei, é um ótimo filme, desses que a gente não percebe o tempo passar. E faz a gente pensar, a coisa da torre - eu não sei nada de bíblia, mas sei que tem lá, uma torre, de Babel, que era pra chegar no céu, mas aí as pessoas tiveram de se afastar tanto para construí-la que criaram línguas diferentes e no fim não conseguiam mais se comunicar pra acabar a construção. Confere?
Diz a wikipedia que não, mas é assim que eu me lembro de alguém me explicando, um professor que eu não sei se de história ou dos idos tempos do ensino religioso.
De qualquer maneira, isso das pessoas falarem línguas diferentes aparece muito bem no filme, às vezes de maneira explícita, outras, mais sutil. A maior sutileza está, claro, nisso da gente se ver. Eu me ver. Perceber ali uma solidão que é minha, apesar de não ser nada minha, talvez exatamente por não ser. Isso me fascina tanto, a solidão; acho que o filme trata disso e eu, sem nada dessa genialidade, venho falando disso, escrevia no Idiotia Coletiva, e agora escrevo no Errar sem fim. Que errar é esse, senão uma busca maluca por alguém que nos ouça, tantas vezes nós mesmos que, preocupados com a busca, nos tornamos surdos à nossa própria voz.
Durante muito tempo eu acreditei que era isso mesmo que nós todos fazíamos aqui. Vagar sem propósito. Errar sem fim. Mas, às vezes, não sei se isso se chama fé ou se é só o desespero de um náufrago que vê em qualquer palito uma tábua de salvação, mas, às vezes, eu quase acredito que é mentira. Como se houvesse alguma coisa no mundo maior do que eu, não que governa a minha vida, mas que me coloca diante de diversas estradas e que me é dado escolher entre elas, e mais, que esses caminhos são bons. E eu quase consigo acreditar que é verdade, enquanto eu penso que essa fé, ou desespero, provém unicamente do fato de que na minha vida ainda não aconteceu nenhuma tragédia grande o suficiente pra me fazer duvidar. Caso alguém esteja me ouvindo, eu prefiro continuar podendo acreditar, hein? Sem nada doloroso o suficiente para trazer a dúvida final.
Sem saber mais o que dizer, eu olho para a televisão. A cena que vejo traz uma história, minha, que me faz perceber que eu estou viva. Uma vez, uma pessoa me disse que nunca esteve tão viva como quando sofria pelo fim de um amor. Desculpe, Pessoa, nada pessoal, mas meu mundo cor-de-rosa - como, aliás, o meu pijama - me permite ainda acreditar que eu estou viva agora, como estive antes e como estarei, mais, se, porventura, em algum momento, em algum lugar, se uma força maior consentir, se paralelas se dobrarem por força própria ou alheia, se dois mundos colidirem, se agarrarem e permanecerem assim unidos, por um segundo ou mil. Se alguma vez parecer que o errar acabou ou simplesmente teve um sentido, isso eu chamo de vida. Se não existe, é uma fantasia pela qual vale a pena levantar da cama de manhã.
Mas eu sou só uma garotinha romântica, de pijama cor-de-rosa, e não conheço nada dessa senhora tão garbosa, que a Pessoa chama de vida.
Nós falamos línguas diferentes.
Babel.
Terceiro filme que vejo do Iñárritu. Antes, por acaso, Amores perros; depois, intencionalmente, 21 gramas. Este, um dos filmes mais marcantes que eu já vi, me lembro até hoje do caminho: um colega de faculdade, conhecido como Gulliver - que aliás eu pensei ter visto essa semana num ponto de ônibus, mas me enganei -, mandou um e-mail para o grupo, dizendo que o filme era maravilhoso, que ele foi ver numa sala de cinema com dez pessoas, cinco das quais saíram antes do fim.
Depois o anúncio, o acordo, lembro com quem vi, quem mais estava ali, o cheiro da sala e o momento fenomenal em que finalmente entendi o que se passava na tela. E é pena, porque é como o Cem anos de solidão, uma vez na vida, mais só se formos acometidos por amnésia.
Aí, buscando no imdb o modo correto de escrever esse nome - que eu não aprendi, mas copiei - vi que ele fez um dos curtas do 11 de setembro - 11' 09'' 01, que eu vi na mesma sala, em parte na mesma companhia e com o mesmo cheiro, que tem o curta do Sean Penn que eu juro por deus quase me matou. Onze e tal minutos, simplesmente maravilhoso, daqueles momentos em que dá uma puta vontade de levantar e ir embora, porque já foi suficiente.
Eu pensava nisso mais cedo, vi esses dias um programa sobre pessoas que realmente têm distúrbio alimentar, não são só frescas como eu, tinha um cara que vivia - juro que é verdade! - de sopa de tomate com macarrão enlatada e sorvete. Aí o programa era uma tentativa de terapia de um mês, em que um monte de gente tentava trabalhar com a pessoa, descobrir o motivo do problema e como superá-lo. O objetivo era a pessoa em questão, depois do mês, sair pra jantar e comer alguma coisa que estivesse no menu. As pessoas não conseguiam muito, mas vale a intenção - ao menos valeu preu saber que meu problema não é assim tão grave. Mas o ponto é: uma das coisas que eles diziam (eu ao menos acho que eram eles, mas pensando melhor poderia ser qualquer outra pessoa, ou não pessoa, dado o fato que eu costumo sonhar com essas merdas)... ah, ok, definitivamente não eram eles, era um cara falando numa dessas revistas sobre como ser mais feliz ou assim, e ele dizia que um dos nossos defeitos era ficar escolhendo demais, então ele sugeria, por exemplo, que o leitor fosse a um restaurante e, em vez de olhar o cardápio inteiro (perceberam o ponto de ligação? menu, cardápio...), simplesmente escolher a primeira coisa que agradar, sem procurar depois se tem outra melhor. Então, mais cedo, eu pensava nisso. Não do cardápio, porque eu sou gulosa, escolho a primeira coisa de que gosto e se vejo outras apetitosas, faço por voltar ao lugar para experimentá-las - ou fico o resto da vida pensando se o prato seria mesmo maravilhoso. Mas, na vida, será fragilidade, insegurança, o que, será, a gente achar que a primeira opção pode mesmo ser a melhor? Se pode ser ruim a gente ficar pensando que na página seguinte tem coisa melhor, também não é perigoso parar na primeira página? Mas tem coisas na vida que são tão certas. No filme, 11 de setembro, 11 curtas, acho que o do Sean Penn é o décimo; até ali, eu via e achava legalzinho. Depois desse, a certeza, absoluta, que nada poderia ser melhor e superá-lo, o que se mostrou verdade. Então eu penso que de vez em quando a gente sabe. É como o Cem anos de solidão, na primeira página você sabe que é um dos melhores livros que você vai ler na sua vida, sem mais nada, sem comparação, sem experimentar, é uma certeza quase sobrenatural que nos toma quando nos deparamos com algo verdadeiramente grande. Eu escrevi há pouco sobre isso, a primeira cena de um filme que nos faz saber que ele vale a pena. Acho que a vida também tem isso, no momento em que acontece e depois, é uma união que permanece, o bem-estar e a certeza de que esse momento vai ficar marcado.
Então, Babel. Confesso que não gostei tanto quanto de 21 gramas. Poderia até dizer que esperava mais, mas não sei, é um ótimo filme, desses que a gente não percebe o tempo passar. E faz a gente pensar, a coisa da torre - eu não sei nada de bíblia, mas sei que tem lá, uma torre, de Babel, que era pra chegar no céu, mas aí as pessoas tiveram de se afastar tanto para construí-la que criaram línguas diferentes e no fim não conseguiam mais se comunicar pra acabar a construção. Confere?
Diz a wikipedia que não, mas é assim que eu me lembro de alguém me explicando, um professor que eu não sei se de história ou dos idos tempos do ensino religioso.
De qualquer maneira, isso das pessoas falarem línguas diferentes aparece muito bem no filme, às vezes de maneira explícita, outras, mais sutil. A maior sutileza está, claro, nisso da gente se ver. Eu me ver. Perceber ali uma solidão que é minha, apesar de não ser nada minha, talvez exatamente por não ser. Isso me fascina tanto, a solidão; acho que o filme trata disso e eu, sem nada dessa genialidade, venho falando disso, escrevia no Idiotia Coletiva, e agora escrevo no Errar sem fim. Que errar é esse, senão uma busca maluca por alguém que nos ouça, tantas vezes nós mesmos que, preocupados com a busca, nos tornamos surdos à nossa própria voz.
Durante muito tempo eu acreditei que era isso mesmo que nós todos fazíamos aqui. Vagar sem propósito. Errar sem fim. Mas, às vezes, não sei se isso se chama fé ou se é só o desespero de um náufrago que vê em qualquer palito uma tábua de salvação, mas, às vezes, eu quase acredito que é mentira. Como se houvesse alguma coisa no mundo maior do que eu, não que governa a minha vida, mas que me coloca diante de diversas estradas e que me é dado escolher entre elas, e mais, que esses caminhos são bons. E eu quase consigo acreditar que é verdade, enquanto eu penso que essa fé, ou desespero, provém unicamente do fato de que na minha vida ainda não aconteceu nenhuma tragédia grande o suficiente pra me fazer duvidar. Caso alguém esteja me ouvindo, eu prefiro continuar podendo acreditar, hein? Sem nada doloroso o suficiente para trazer a dúvida final.
Sem saber mais o que dizer, eu olho para a televisão. A cena que vejo traz uma história, minha, que me faz perceber que eu estou viva. Uma vez, uma pessoa me disse que nunca esteve tão viva como quando sofria pelo fim de um amor. Desculpe, Pessoa, nada pessoal, mas meu mundo cor-de-rosa - como, aliás, o meu pijama - me permite ainda acreditar que eu estou viva agora, como estive antes e como estarei, mais, se, porventura, em algum momento, em algum lugar, se uma força maior consentir, se paralelas se dobrarem por força própria ou alheia, se dois mundos colidirem, se agarrarem e permanecerem assim unidos, por um segundo ou mil. Se alguma vez parecer que o errar acabou ou simplesmente teve um sentido, isso eu chamo de vida. Se não existe, é uma fantasia pela qual vale a pena levantar da cama de manhã.
Mas eu sou só uma garotinha romântica, de pijama cor-de-rosa, e não conheço nada dessa senhora tão garbosa, que a Pessoa chama de vida.
Nós falamos línguas diferentes.
Babel.
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