Existem no mundo algumas pessoas muito doidas.
Qualquer viciado em série sabe do que eu tô falando; um dos sintomas é quando você passa a medir o tempo por temporadas.
Essas pessoas, pobres doentes, enfrentam regularmente sérios problemas, como greves que atrapalham a temporada, ou a temporada que termina no melhor momento e, principalmente, temporadas que nunca mais começam. No entanto, esses são obstáculos de praxe, acontecem regularmente e, como todo bom (ok, isso é um pouco irônico) filme, a gente sabe que termina bem. Pode demorar, mas todos vivemos felizes para sempre enquanto duram os episódios inéditos.
Há, porém, um problema muito mais grave do que estes. É quando a gente empolga com uma série que ninguém mais empolga, aí ela é cancelada. Também acontece com as de sucesso, depois de alguns anos e, se a gente já não encheu o saco dela, pode mesmo ser dolorido. Mas ainda assim, tivemos algum tempo de esgotar o vício, o que não acontece quando se dá um cancelamento.
Pois bem, eu há pouco me lembrei de um episódio de uma dessas séries, chamava, acho eu, Joan of Arcadia, e era sobre uma garota que falava com deus. Ela tinha aí seus 16 anos, frequentava a escola, como todo mundo, só que, de repente, o faxineiro ou um menino que ela nunca tinha visto começava a falar com ela: sim, perspicaz leitor, o faxineiro ou menino era, na verdade, deus. Ele, ou ela, dizia à Joan para fazer coisas um tanto esquisitas, ela se rebelava, duvidava, fazia e fazia o certo. Então, num dos episódios, ela tinha que aprender a fazer aquele malabarismo com as bolinhas, de manter três no ar ao mesmo tempo. Foi um episódio legal, tinha uma coisa de uma amiga doente, e ela não conseguia manter as três bolinhas no ar, até que ela aprendeu como.
Claro que isso é uma associação livre da minha mente, nem tem nada a ver com a realidade, mas eu funciono assim, ainda, associações livres perpetuando-se até o infinito.
A questão é que acho que é isso mesmo, a vida, né? Como aquele enigma: você tem que cruzar uma ponte com três bolinhas, mas a ponte só aguenta o seu peso e o de duas bolinhas, então como você faz? Uai, passa fazendo malabarismo, porque assim uma das bolinhas tá sempre no ar. Eu às vezes fico pasma com meus insights geniais, tipo ninguém nunca pensou nisso antes, né?
Mas é que não é verdade? A gente não consegue nunca agarrar tudo ao mesmo tempo, tem que deixar alguma coisa no ar pra pegar depois, enquanto solta uma das que estamos segurando. E eu, a senhorita mimada, acredito que chega um ponto em que a gente tem que assumir as rédeas da nossa vida, não importa o que aconteceu antes. Ah, você sofreu? Eu também, e certamente há pessoas por aí que sofreram muito mais do que nós dois juntos, mas ok, bola pra frente, faz por onde, faz diferente. E, nessa, a gente tem escolhas, opta por agarrar isso e deixar aquilo ir. E a gente espera, fervorosamente, ter forças pra assumir as consequências dessas escolhas, quando chegar a hora. Isso é muito assustador, dá um medo da porra. Disso que a gente solta, e se perde; do que não volta, e não temos certeza de que era mesmo isso que devia ir e não outra coisa.
Tem coisas que só o tempo traz e é muito difícil nos despedirmos delas, para esperar que o mesmo tempo que trouxe leve embora.
Um comentário:
obrigada por este texto Má. Muito.
e ficou a dica: preciso aprender malabarismo.
=)
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