Eu sempre fico surpresa com a forma que a gente tem de se conhecer. A gente passa uma vida por aqui e não sabe nada da gente, até que acontece alguma coisa que nos mostra quem somos.
Eu sempre soube que não era uma patriota, defensora aguerrida desse belo país tropical, abençoado por deus e blá blá blá. Sempre considerei isso uma qualidade, mais que um defeito, porque acredito que crítica de mais é sempre melhor do que de menos. Um dos casos em que mais é mais, mesmo.
Ano passado, tive minha primeira experiência internacional. Gostei, porque, não me conhecendo, acho que gosto de viajar, sair da minha vida conhecida para viver diferente, e isso eu certamente fiz. Durante um mês, pouco mais ou menos, vivi diferente. Não me senti especialmente brasileira.
Aí, no mesmo ano, fiz algumas viagens a trabalho, por aqui mesmo, Rio, Minas, Espírito Santo. E me senti totalmente paulista. Foi assim que eu descobri, na pele, como é diferente viajar brincando e trabalhando. No segundo caso, é muito mais difícil nos livrarmos dos nossos padrões, frios, um tanto quanto eficientes, rápidos. Eu me dei conta do quanto somos, afinal, filhos de um lugar.
Ainda assim... esses dias eu via na tv uma entrevista com um poeta amazonense. Era um senhor, que dizia o quanto ele era filho da floresta e como nós temos uma ligação com a nossa terra. Ah, sim, ele contou um episódio, ele criança, brincava, acho que de empinar pipa, com um colega, praí uns dez anos, pouco mais ou menos, quando o colega caiu no rio. Ele era caboclo mas não sabia nadar. O poeta, então, foi pra beira do rio, sem saber o que fazer, e viu um trabalhador dali de perto pulando pra tentar salvar o garoto. Não conseguiu. O corpo apareceu não sei a que distância dali. O poeta chegou em casa e fez uma poesia, sem saber que era poesia, mas um terceto de sete sílabas. Será isso? Eu não me lembro dos versos.
Sabe lá deus por que diabo eu hoje resolvi ver um road-movie. México Brasil. Eu já disse que adoro o Diego Luna? Não conheço muito, mas o vi com o Gael García Bernal, e depois arrasando nas noites de Havana. As escolhas que a gente faz, sempre. Eu podia ter assistido ao jornal, ou ido ler um texto, dormir mais, ouvir música, viajar na internet, mas assisti a um road-movie. México Brasil. De vez em quando parece mesmo que a gente gosta de sofrer.
Além da nostalgia e desejo, eu fiquei com uma coisa na cabeça - e também no peito.
Ok, então eu não sou uma imbecil que acha o meu país o melhor do mundo, e eu nem tenho cidade, mas isso tem um preço. De tradições que eu não tenho, e se não ter raízes te dá liberdade, também te deixa à deriva. No deserto sem saudade, sem remorso, só, sem amarras, barco embriagado ao mar. Porque eu não sei que a festas típicas ir - nem atípicas, para ser sincera - nem tenho um santo de devoção, nem saberia partilhar esse passado ontológico, mostrá-lo ao Outro.
Eu nem sei o que é ontológico, nem se o uso está correto, mas pareceu.
E eu sei, me falo isso o tempo todo, e me falam isso também o tempo todo, desde sempre o tempo todo, que isso não existe, buscar um lar fora da gente, que viemos sozinhos, iremos sozinhos, tudo é passageiro e a única pessoa que pode nos fazer, me fazer, feliz, ou mais feliz, sou eu. E, sem falsa modéstia, eu sou uma ótima conselheira de mim mesma, o único senão é que eu me recuso a me ouvir.
Então eu continuo me debatendo e sofrendo por não ter um lar; claro, eu tenho a minha casa, a minha clara, mas é diferente, porque nem ali existem essas tradições. E também tem vários tipos de lar, eu tenho um deles, esse de família, mas não tenho o maior, e não tenho o menor. Foi esse o soco que o filme me deu. O menor. Lembro do Garden State:
Andrew Largeman: You know that point in your life when you realize that the house that you grew up in isn't really your home anymore? All of the sudden even though you have some place where you can put your stuff that idea of home is gone.
Sam: still feel at home in my house.
Andrew Largeman: You'll see when you move out it just sort of happens one day one day and it's just gone. And you can never get it back. It's like you get homesick for a place that doesn't exist. I mean it's like this rite of passage, you know. You won't have this feeling again until you create a new idea of home for yourself, you know, for your kids, for the family you start, it's like a cycle or something. I miss the idea of it. Maybe that's all family really is. A group of people who miss the same imaginary place.
Aí esse vai ser o maior post do mundo. Mas outro dia desses, eu no meu quarto, sem saber se casava ou comprava uma bicicleta; minha mãe tem essa mania que eu às vezes acho infernal, ela deixa um rádio ligado na cozinha o tempo todo, desde a hora em que acorda - aka muito cedo - até a hora de dormir, não importa se ela está na cozinha ou em casa, fica ali, ligado. Aí nesse dia, era um fim de tarde, e de repente eu ouço a voz da Adriana Calcanhoto dizendo "no dia em que fui mais feliz". Eu dei um pulo, um berro, pedi imediatamente a ela que abaixasse o volume, fechei a porta, cobri os ouvidos com travesseiros, me concentrei num livro. Há muitos e muitos anos, eu escrevi essa letra em um caderno. Não sei em que eu pensava, então, ou qual era a dor da vez. Sempre tem uma. E ela voltou, multiplicada, e eu fugi e me escondi. Eu continuo pasma com isso, como tem coisas que doem, parece que essencialmente. Mas, agora, pensando nisso e lembrando, tive de ir atrás da música pra fazer doer. Arde, cura e tal.
Não sei , isso de lar. Eu nunca encontrei nem nunca senti; talvez tenha pressentido o cheiro, mas nunca entrou pelas minhas veias e me aqueceu e me acolheu, isso de um lar em uma pessoa.
Aí o Diego Luna e o Valiant e o passaporte, o cheiro mais forte e mais distante. É tão tão difícil saber quando vale a pena, até que ponto insistir. Pra mim é tão difícil aceitar o mundo diferente do meu desejo, e eu já confundi muito vontade com obstinação.
Eu já quis muito e sei que é hora, agora, de soltar e deixar o mundo girar e ver aonde ele vai. Comédia da vida privada, o grande amor da minha vida.Ver o que ele traz.
Até lá, o youtube traz a Adriana, e o google diz:
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá, não sei
caminho ao longo canal
Faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial
Algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente
que larguei naquele dia mesmo
o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
sem amarras, barco embriagado ao mar.
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se a terra um instante por nós dois
pouco antes do Ocidente se assombrar.
Exceto que eu não fui mais feliz.
Da lista de canções que eu não posso cantar, mas canto assim mesmo.
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