Tava super comendo mosca por aqui, noitão de domingo. Tenho às vezes essa sensação que associo à velhice que é passar o dia esperando o dia passar. Sem esperar mais, porque não há. Há somente as horas e o sol a subir, depois a cair, depois a noite chegando e passando e de novo a vinda do sol. O tempo pelo tempo, o que significa a ausência do tempo. O tempo que nada traz nem leva, que passa vazio e anda sem direção.
Um dia depois do outro, sem nada de novo nem diferente, que associo não somente à velhice, mas à velhice esquecida.
E eu tenho vinte e sete anos.
Às vezes me assusto com a minha vida e tenho medo do que será de mim em algumas décadas, porque eu sou, com demasiada frequência, o oposto do que se espera que a juventude seja. Vivi coisas opostas a ela e ainda vivo e me pergunto se chegará o dia em que vou me arrepender, enquanto me debato tentando descobrir como fazer diferente e não sei. Que venha, então, o arrependimento.
Mas sim, eu estava no domingo à noite e assisti a um documentário chamado um coração palestino, que a gnt passou.
É sobre um menino árabe que foi assassinado na frente de casa, aos 12 anos, porque brincava na rua com uma arma de mentira. Chegou lá um tal de exército e acabou com a brincadeira e, de leva, com o menino. Aí o pai dele resolveu doar os órgãos do filho e o filme fica muito nisso.
Na verdade ele é muito simples e tudo que não é dito - o que é muito - acho que tenta não dramatizar demais a história. Como se fosse possível, né?
E o pai é uma figura incrível, sei lá por quê. Tem ali alguma coisa que parece bonita, não sei direito, mas o filme todo passa meio rápido. E eu sinto uma dor, ao vê-lo e imaginá-lo, dessas dores imaginadas, talvez chamada compaixão, talvez porque a dor dele é minha, apesar de não ser e não poder ser. Mas me dói a história dele e imaginá-lo sentindo as coisas que eu acho que ele sentiu. E tem um momento, bem ao final, em que ele olha para a câmera, olhos limpos, e diz "vocês aí que tão vendo esse documentário, sei lá, mas o que vocês querem que a gente faça?".
E nós, aqui, vendo esse documentário... sei lá. Acho que tem partes da gente que morre um pouco de ver. Porque somos nós, afinal, que fazemos essa merda toda e sei lá como faz para desfazer. Morrer um pouco não adianta nada; nem viver um pouco; nem pouco nem muito. Nem sei de que vale, também, o sofrer, se é que vale, ou se é só mais dor a se juntar à imensa bola que corre solta por aí. Dá pra pensar que a saída é ser feliz, mesmo, pura e simplesmente. Mas o caminho até ela...
O tempo e o coração, hoje, estão contra mim.
Não há transplante possível.
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Aleluia
Sim, dessa vez em Agosto.
Chegaram neste final de semana aqueles bichinhos que anunciam o fim do inverno.
Eu sei, eu sei, nós aqui não temos inverno, mas frente-fria ou não, mas ainda assim. Mesmo sem frente e mesmo com o forte calor que esquenta nossos dias, as noites são mesmo frias. Talvez não realmente frias, mas ainda exigem casacos e cachecóis e etc.
Mas quando chegam, os tais bichinhos - diz o Aurélio serem cupins, "que abandonam o ninho no vôo nupcial", olha que coisa incrível de se imaginar insetos fazendo: a cupim de vestidinho e branco e talz, andando virginalmente por uma igreja, onde a espera o cupim de fraque - vêm dizer que logo logo vai esquentar a sério. E as noites serão agradáveis, por um tempo, com brisa fresca, às vezes algo fria; e depois serão quentes, até difíceis, noites de verão.
Como é doce o tempo que não é.
Eu sinto agora falta do calor como sei, com essas certezas inabaláveis nascidas da experiência, que sentirei, então, falta do frio. O tempo que virá ganha sempre do que está, porque o ideal é perfeito, né?
Mas eu tenho tentado, daqui, aproveitar mesmo o que é. Aproveitar as noites frias pesadas de cobertas e as bebidas quentes ou encorpadas e as comidas pesadas e as roupas de lã e em camadas e o vento que faz barulho na minha janela.
Não consigo, porém, evitar de ansiar por noites mais leves, de menos roupas e uma maior disposição que, afinal, talvez não exista.
E eu sei que já escrevi talvez exatamente as mesmas coisas aqui. É só que tenho me dado conta, ultimamente, da minha relação absurda com o tempo; isso de ele ir e ficar e de passar e tantas e tantas coisas mudarem e tantas outras permanecerem iguais.
Acho que tenho mesmo essa relação algo autista com o mundo, como fui acusada de ter recentemente - e, pensando assim, acredito me diferenciar do normal das pessoas.
Sendo igual ou diferente, penso que as coisas ficam demais para mim e pareço então viver num mundo que já não é, enquanto eu ainda sou.
Eu sou ainda, o resto não mais.
A questão que fica é se é possível viver na incongruência ou se eu terei de avançar, ou o resto terá de regressar, ou nos encontraremos no meio do caminho.
Talvez também eu anuncie o fim do inverno e a chegada da primavera em mim. E, como as aleluias, possa afinal sair.
Chegaram neste final de semana aqueles bichinhos que anunciam o fim do inverno.
Eu sei, eu sei, nós aqui não temos inverno, mas frente-fria ou não, mas ainda assim. Mesmo sem frente e mesmo com o forte calor que esquenta nossos dias, as noites são mesmo frias. Talvez não realmente frias, mas ainda exigem casacos e cachecóis e etc.
Mas quando chegam, os tais bichinhos - diz o Aurélio serem cupins, "que abandonam o ninho no vôo nupcial", olha que coisa incrível de se imaginar insetos fazendo: a cupim de vestidinho e branco e talz, andando virginalmente por uma igreja, onde a espera o cupim de fraque - vêm dizer que logo logo vai esquentar a sério. E as noites serão agradáveis, por um tempo, com brisa fresca, às vezes algo fria; e depois serão quentes, até difíceis, noites de verão.
Como é doce o tempo que não é.
Eu sinto agora falta do calor como sei, com essas certezas inabaláveis nascidas da experiência, que sentirei, então, falta do frio. O tempo que virá ganha sempre do que está, porque o ideal é perfeito, né?
Mas eu tenho tentado, daqui, aproveitar mesmo o que é. Aproveitar as noites frias pesadas de cobertas e as bebidas quentes ou encorpadas e as comidas pesadas e as roupas de lã e em camadas e o vento que faz barulho na minha janela.
Não consigo, porém, evitar de ansiar por noites mais leves, de menos roupas e uma maior disposição que, afinal, talvez não exista.
E eu sei que já escrevi talvez exatamente as mesmas coisas aqui. É só que tenho me dado conta, ultimamente, da minha relação absurda com o tempo; isso de ele ir e ficar e de passar e tantas e tantas coisas mudarem e tantas outras permanecerem iguais.
Acho que tenho mesmo essa relação algo autista com o mundo, como fui acusada de ter recentemente - e, pensando assim, acredito me diferenciar do normal das pessoas.
Sendo igual ou diferente, penso que as coisas ficam demais para mim e pareço então viver num mundo que já não é, enquanto eu ainda sou.
Eu sou ainda, o resto não mais.
A questão que fica é se é possível viver na incongruência ou se eu terei de avançar, ou o resto terá de regressar, ou nos encontraremos no meio do caminho.
Talvez também eu anuncie o fim do inverno e a chegada da primavera em mim. E, como as aleluias, possa afinal sair.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Meio
Eba, hoje eu completo meio ano de vida!
Além dos 27 inteiros que o precedem, obviamente.
Nem acho isso importante, é que queria escrever um lance e deu errado, porque... enfim, porque as coisas às vezes dão errado na vida, né? E eu, como sou tagarela, quando não posso falar da coisa, falo sobre o porquê de eu não poder nela falar.
Tenho essa relação estranha com o tempo, em que passo grandes períodos sem saber direito o dia, do mês ou da semana; então nunca prestaria atenção a uma data como essa, não fosse pela coincidência de ter prestado.
Mas, por um lado, esses marcos podem ser importantes para a gente notar mesmo que ele passa, inexoravelmente. Passa todos dias e - pecado! - segundos e vai-se embora mesmo de verdade, sem blefe e sem volta.
Metade dos meus 27 já foram e foram bem idos. Foram também mal idos, que isso das coisas serem uma só não praticamos.
Eles vão e eu também e esperemos que eu - que volto - volte melhor.
Além dos 27 inteiros que o precedem, obviamente.
Nem acho isso importante, é que queria escrever um lance e deu errado, porque... enfim, porque as coisas às vezes dão errado na vida, né? E eu, como sou tagarela, quando não posso falar da coisa, falo sobre o porquê de eu não poder nela falar.
Tenho essa relação estranha com o tempo, em que passo grandes períodos sem saber direito o dia, do mês ou da semana; então nunca prestaria atenção a uma data como essa, não fosse pela coincidência de ter prestado.
Mas, por um lado, esses marcos podem ser importantes para a gente notar mesmo que ele passa, inexoravelmente. Passa todos dias e - pecado! - segundos e vai-se embora mesmo de verdade, sem blefe e sem volta.
Metade dos meus 27 já foram e foram bem idos. Foram também mal idos, que isso das coisas serem uma só não praticamos.
Eles vão e eu também e esperemos que eu - que volto - volte melhor.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Quebra, cabeça!
Tive um professor na faculdade, figura importantíssima na minha história profissional (se é que se pode assim chamá-la) que tem uma característica que invejo.
Talvez ele não tenha sido a primeira pessoa que conheci com essa característica, mas certamente é a que a tem mais acentuada.
E foi com ele que percebi que me falta inteiramente.
A capacidade de pensar antes de falar.
Nem sei, na verdade, de que me adiantaria, porque normalmente eu penso em tal turbilhão que talvez não fizesse diferença alguma. E não sei se sou, nisso, diferente do restante das pessoas, mas sou incapaz de pensar... não sei se linearmente é a palavra, mas pensar com começo, meio e fim. E talvez mesmo eu revele a dimensão da minha ignorância, mas é que li esses dias um cara, num livro, dizer que ia pensar num assunto, aí pensava nele, depois pensava em outro, depois em outro e depois terminava de pensar.
Reconheço que toda essa baboseira pode não passar de recurso narrativo do autor, mas ela me faz pensar irremediavelmente no meu turbilhão. E mesmo sem a tal fala, às vezes me disponho a pensar num assunto e nunca consigo. Quando tenho que tomar uma decisão ou assim. Sento-me num lugar qualquer, ou me deito, e declaro: vou pensar sobre isso. E nada. Lembro de coisas, projeto coisas, mudo de assunto, relembro pessoas, projeto pessoas, mudo de assunto, penso na fome, no frio ou calor (sempre algum dos dois), sinto sono, quero ler um livro, ver um filme, chorar, ligar pra alguém, lembro que esqueci do assunto sobre o qual ia pensar e tento pensar nele e mudo de assunto.
De vez em quando acontece de eu decidir, mas acredito que, no final das contas, mais por instinto que reflexão.
Ou, se há reflexão envolvida, ela é toda quebradiça, não gera uma imagem límpida e reconhecível, é um quebra cabeças desmontado, com algumas peças repetidas e outras ainda viradas para baixo.
Isso tudo só para falar em pensar. Pensar e então falar é exercício impossível para mim.
Aí o resultado são aquelas lambanças terríveis. Pega de surpresa, conto mentiras imbecis, absolutamente óbvias, quando seria bem mais fácil dizer a verdade, se eu apenas pensasse antes de falar. Invento desculpas esfarrapadas, digo besteiras gigantescas; às vezes cometo a bizarrice gigantesca de pensar, antes de falar - mas mesmo antes, tipos cinco minutos e tal - e quando chega a hora, esqueço o que pensei e falo merda.
Sei lá se é trágico ou cômico, muito provavelmente é os dois, mas o que tenho total certeza é que vivo me metendo em enrascadas. Se não pela coisa em si, pela culpa que depois me assola, a repreensão e a inconformidade com a minha inabilidade.
E as perguntas incessantes de por que eu faço isso assim, por que não fiz isso assado e tudo o mais. E as promessas?
Da próxima vez, vou pensar; vou ficar em silêncio cinco segundos e pensar e então responder/dizer/fazer de maneira a depois não me torturar.
E a próxima vez, ou essa próxima vez, nunca chega. E sempre o embaralhamento.
Ia dizer isso por algum motivo que já esqueci.
Perdeu-se no quebra-cabeças do avesso do meu espelho quebrado.
Talvez ele não tenha sido a primeira pessoa que conheci com essa característica, mas certamente é a que a tem mais acentuada.
E foi com ele que percebi que me falta inteiramente.
A capacidade de pensar antes de falar.
Nem sei, na verdade, de que me adiantaria, porque normalmente eu penso em tal turbilhão que talvez não fizesse diferença alguma. E não sei se sou, nisso, diferente do restante das pessoas, mas sou incapaz de pensar... não sei se linearmente é a palavra, mas pensar com começo, meio e fim. E talvez mesmo eu revele a dimensão da minha ignorância, mas é que li esses dias um cara, num livro, dizer que ia pensar num assunto, aí pensava nele, depois pensava em outro, depois em outro e depois terminava de pensar.
Reconheço que toda essa baboseira pode não passar de recurso narrativo do autor, mas ela me faz pensar irremediavelmente no meu turbilhão. E mesmo sem a tal fala, às vezes me disponho a pensar num assunto e nunca consigo. Quando tenho que tomar uma decisão ou assim. Sento-me num lugar qualquer, ou me deito, e declaro: vou pensar sobre isso. E nada. Lembro de coisas, projeto coisas, mudo de assunto, relembro pessoas, projeto pessoas, mudo de assunto, penso na fome, no frio ou calor (sempre algum dos dois), sinto sono, quero ler um livro, ver um filme, chorar, ligar pra alguém, lembro que esqueci do assunto sobre o qual ia pensar e tento pensar nele e mudo de assunto.
De vez em quando acontece de eu decidir, mas acredito que, no final das contas, mais por instinto que reflexão.
Ou, se há reflexão envolvida, ela é toda quebradiça, não gera uma imagem límpida e reconhecível, é um quebra cabeças desmontado, com algumas peças repetidas e outras ainda viradas para baixo.
Isso tudo só para falar em pensar. Pensar e então falar é exercício impossível para mim.
Aí o resultado são aquelas lambanças terríveis. Pega de surpresa, conto mentiras imbecis, absolutamente óbvias, quando seria bem mais fácil dizer a verdade, se eu apenas pensasse antes de falar. Invento desculpas esfarrapadas, digo besteiras gigantescas; às vezes cometo a bizarrice gigantesca de pensar, antes de falar - mas mesmo antes, tipos cinco minutos e tal - e quando chega a hora, esqueço o que pensei e falo merda.
Sei lá se é trágico ou cômico, muito provavelmente é os dois, mas o que tenho total certeza é que vivo me metendo em enrascadas. Se não pela coisa em si, pela culpa que depois me assola, a repreensão e a inconformidade com a minha inabilidade.
E as perguntas incessantes de por que eu faço isso assim, por que não fiz isso assado e tudo o mais. E as promessas?
Da próxima vez, vou pensar; vou ficar em silêncio cinco segundos e pensar e então responder/dizer/fazer de maneira a depois não me torturar.
E a próxima vez, ou essa próxima vez, nunca chega. E sempre o embaralhamento.
Ia dizer isso por algum motivo que já esqueci.
Perdeu-se no quebra-cabeças do avesso do meu espelho quebrado.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Medo
Acordei de sonhos intranquilos, mas não li o Kafka nem ouvi o Otto.
Sonhei que estava na minha casa, essa mesma em que vivo.
Sonhei que estava de camisola, essa mesma que visto.
Sonhei que era noite, como é, e que fazia um friozinho bão, como faz.
Sonhei que não conseguia dormir com medo de que entrasse alguém aqui. Não sei se por isso acordei, mas de fato acordei.
Sentia algum frio então busquei mais cobertas. Fui ao banheiro, pensei em comer, pensei em beber, pensei em dizer.
É interessante porque, vivendo numa cidade relativamente grande e perigosa, eu tenho sim algum medo mas não muito. Ou não tanto medo - não em comparação ao comum das pessoas, mas à histeria e neurose cujo potencial sinto em mim com demasiada frequência.
Numa noite dessas, chegando em casa à minha rua quase deserta, levei um susto. Ninguém passa pela minha rua, ela não leva a lugar nenhum, então normalmente entro nela sozinha. Por acaso, enquanto eu esperava o portão abrir, um carro virou a esquina e parou atrás de mim. Em milésimos de segundos imaginei assaltantes saindo dele e me abordando e resolvi ir embora. O lance todo de os caras não poderem entrar na casa e etc. Arranquei e desci a rua e, antes de seu curto fim, percebi que o carro que me seguia andou um pouco e parou. Pensei "putz, os caras vão me esperar, porque viram que eu tava entrando e saí com medo; sabem que vou dar uma volta no quarteirão e voltar". Neurose, né? Mas pelo menos eu não tava chorando nem ligando pra polícia. Fiquei pensando que a gente tem esse reflexo de sair, mas o meu ao menos para por aí. Sem plano. E depois, pra onde ir? Enquanto andava por ruas próximas, procurava pelo meu cérebro sem senso de localização alguma delegacia perto, cujo caminho me fosse possível desvendar.
Procurava em vão, como procuramos uma palavra que está na ponta da língua e não vem. Como se soubéssemos alguma coisa, mas ela estivesse encoberta por um véu que não podemos desfazer ou dissipar. Tanta coisa dá essa sensação. Senti há pouco com uma música; ouvi na rádio e soube antes de saber as palavras que era da Adriana Calcanhoto e que eu conhecia muito e precisei de vários segundos para reconhecer completamente, nome e voz, e é engraçado porque não é um descobrir ou lembrar, é mesmo como se soubesse instantaneamente mas nublado. Saber nublado, parece bem.
Mas ia lá eu, nublada sem saber o caminho, quando percebi que o mesmo carro que me assustara estava atrás de mim. Dei-lhe uma pequena fechada num farol e resolvi virar uma rua, em direção à casa ou qualquer outro lugar, pensando que se ele me seguisse, corria para a polícia.
Não seguiu. Nem acho que era um assaltante desencorajado, mesmo uma pessoa perdida que calhou de estar num lugar algo ermo e me assustar à toa.
Depois disso, num carro desconhecido, saí por horas, também na noite deserta, e deixei uma janela aberta. Não um pouco aberta, mesmo escancarada. Percebi sei lá como quando voltei, olhei assustada para o lado, bati a mão no vidro inexistente e pensei "poxa, não é que esse mundo não é o terror que a gente acredita ser?". Não se isso é ser otimista ou maluca, mas é que nem tudo que poderia dar errado na vida efetivamente dá e isso pra mim é motivo de consolo.
Tenho, porém, medo, mas também não tenho. Não me lembro de um passado recente em que perdi o sono por temor, pelo menos não de algo concreto.
De não terminar um trabalho, perder o prazo, ser escrachada, reduzida a migalhas, metaforicamente, lá isso acontece.
Mas a repressão funciona melhor com pequenezas mundanas como assalto e violência, ou porque não há mesmo como evitá-las ou porque elas são de fato menos aterrorizantes que o esmigalhamento. Já aconteceu, inclusive, de as enfrentando eu chamar o sono, como fuga bendita que ajuda a noite a passar.
Não acordei em pânico, nem sequer acredito que acordei por medo. Sonhei com medo e acordei, como se as duas coisas não se relacionassem. Será absurdo pensar isso? É que às vezes a gente tem mesmo uns pesadelos que nos despertam em desespero, toda aquela história de uma saída para algo terrível, mesmo insuportável, então nosso corpo sabiamente desperta.
Tenho medo e não tenho, mas acho que o que tenho mesmo é essa insônia torta, que me impede de dormir cedo e aproveitar o escuro, que gosta de aproveitar a noite e perder o começo do dia, que me acorda sempre e me faz sempre estar acordada às meia-noites.
De repente há algo em mim que ama a meia noite e me obriga a apreciá-la, mesmo quando não sei de mim nem das horas.
De repente há algo que sabe.
Sonhei que estava na minha casa, essa mesma em que vivo.
Sonhei que estava de camisola, essa mesma que visto.
Sonhei que era noite, como é, e que fazia um friozinho bão, como faz.
Sonhei que não conseguia dormir com medo de que entrasse alguém aqui. Não sei se por isso acordei, mas de fato acordei.
Sentia algum frio então busquei mais cobertas. Fui ao banheiro, pensei em comer, pensei em beber, pensei em dizer.
É interessante porque, vivendo numa cidade relativamente grande e perigosa, eu tenho sim algum medo mas não muito. Ou não tanto medo - não em comparação ao comum das pessoas, mas à histeria e neurose cujo potencial sinto em mim com demasiada frequência.
Numa noite dessas, chegando em casa à minha rua quase deserta, levei um susto. Ninguém passa pela minha rua, ela não leva a lugar nenhum, então normalmente entro nela sozinha. Por acaso, enquanto eu esperava o portão abrir, um carro virou a esquina e parou atrás de mim. Em milésimos de segundos imaginei assaltantes saindo dele e me abordando e resolvi ir embora. O lance todo de os caras não poderem entrar na casa e etc. Arranquei e desci a rua e, antes de seu curto fim, percebi que o carro que me seguia andou um pouco e parou. Pensei "putz, os caras vão me esperar, porque viram que eu tava entrando e saí com medo; sabem que vou dar uma volta no quarteirão e voltar". Neurose, né? Mas pelo menos eu não tava chorando nem ligando pra polícia. Fiquei pensando que a gente tem esse reflexo de sair, mas o meu ao menos para por aí. Sem plano. E depois, pra onde ir? Enquanto andava por ruas próximas, procurava pelo meu cérebro sem senso de localização alguma delegacia perto, cujo caminho me fosse possível desvendar.
Procurava em vão, como procuramos uma palavra que está na ponta da língua e não vem. Como se soubéssemos alguma coisa, mas ela estivesse encoberta por um véu que não podemos desfazer ou dissipar. Tanta coisa dá essa sensação. Senti há pouco com uma música; ouvi na rádio e soube antes de saber as palavras que era da Adriana Calcanhoto e que eu conhecia muito e precisei de vários segundos para reconhecer completamente, nome e voz, e é engraçado porque não é um descobrir ou lembrar, é mesmo como se soubesse instantaneamente mas nublado. Saber nublado, parece bem.
Mas ia lá eu, nublada sem saber o caminho, quando percebi que o mesmo carro que me assustara estava atrás de mim. Dei-lhe uma pequena fechada num farol e resolvi virar uma rua, em direção à casa ou qualquer outro lugar, pensando que se ele me seguisse, corria para a polícia.
Não seguiu. Nem acho que era um assaltante desencorajado, mesmo uma pessoa perdida que calhou de estar num lugar algo ermo e me assustar à toa.
Depois disso, num carro desconhecido, saí por horas, também na noite deserta, e deixei uma janela aberta. Não um pouco aberta, mesmo escancarada. Percebi sei lá como quando voltei, olhei assustada para o lado, bati a mão no vidro inexistente e pensei "poxa, não é que esse mundo não é o terror que a gente acredita ser?". Não se isso é ser otimista ou maluca, mas é que nem tudo que poderia dar errado na vida efetivamente dá e isso pra mim é motivo de consolo.
Tenho, porém, medo, mas também não tenho. Não me lembro de um passado recente em que perdi o sono por temor, pelo menos não de algo concreto.
De não terminar um trabalho, perder o prazo, ser escrachada, reduzida a migalhas, metaforicamente, lá isso acontece.
Mas a repressão funciona melhor com pequenezas mundanas como assalto e violência, ou porque não há mesmo como evitá-las ou porque elas são de fato menos aterrorizantes que o esmigalhamento. Já aconteceu, inclusive, de as enfrentando eu chamar o sono, como fuga bendita que ajuda a noite a passar.
Não acordei em pânico, nem sequer acredito que acordei por medo. Sonhei com medo e acordei, como se as duas coisas não se relacionassem. Será absurdo pensar isso? É que às vezes a gente tem mesmo uns pesadelos que nos despertam em desespero, toda aquela história de uma saída para algo terrível, mesmo insuportável, então nosso corpo sabiamente desperta.
Tenho medo e não tenho, mas acho que o que tenho mesmo é essa insônia torta, que me impede de dormir cedo e aproveitar o escuro, que gosta de aproveitar a noite e perder o começo do dia, que me acorda sempre e me faz sempre estar acordada às meia-noites.
De repente há algo em mim que ama a meia noite e me obriga a apreciá-la, mesmo quando não sei de mim nem das horas.
De repente há algo que sabe.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Sem jeito
Nem por nada, mas é só que eu sou tão tão besta.
Tenho sido a vida toda, desde que posso lembrar.
A gente acha, ou eu achei, que chega um momento em que isso para, mas eu me vejo aqui, do alto dos meus vinte e sete anos e meio de vida e pronto. Mesmíssima coisa.
A gente acha que vai saber melhor, com o passar do tempo, mas desconfio que acontece da gente saber menos.
Toda aquela coisa de só a mais pífia juventude poder se achar velha e sábia. Só mesmo o cúmulo da ignorância para achar que sabe alguma coisa e eu confesso que, muitas vezes, acho.
Acho que sei mais e melhor, quando consigo pensar na minha vida e na minha história, com plena consciência, em termos de dez ou quinze anos atrás. Pensar num livro que li e fazer as contas e achar que pode fazer quase vinte anos. Saber que há dez me formava no colegial. Há quase isso começava a dirigir. Isso do tempo passar e ir aumentando a distância entre a memória e o presente.
Então muitas vezes subo no pedestal e, ali de cima, normalmente sei que tudo ali, eu e meu olhar, não passa de uma farsa. Tenho até a humildade de me referir a ele com alguma ironia, dizendo as maiores verdades "do alto dos meus vinte e sete anos". E quando me acontece de dar lições de vida e bom comportamento por aí, tenho o bom senso de admitir que não sei do que estou falando, apesar de falar e infligir às palavras a maior propriedade.
Esse estado inerentemente contraditório da existência, que às vezes nos exaspera e tira o sentido das coisas e, noutras, parece ser a graça de tudo.
É só que eu me acho adulta e falo toda impostada quando na verdade sou é criança e criança besta.
Sou, agora, e pode ser que daqui a um nada não seja mais. Por outro lado, se sou ainda talvez seja sempre.
Talvez eu volte em mais vinte e sete anos e meio com um veredito e então saiba alguma coisa de verdade. Até lá, sei com certeza - juvenil ou não - que sou besta e sem jeito.
Tenho sido a vida toda, desde que posso lembrar.
A gente acha, ou eu achei, que chega um momento em que isso para, mas eu me vejo aqui, do alto dos meus vinte e sete anos e meio de vida e pronto. Mesmíssima coisa.
A gente acha que vai saber melhor, com o passar do tempo, mas desconfio que acontece da gente saber menos.
Toda aquela coisa de só a mais pífia juventude poder se achar velha e sábia. Só mesmo o cúmulo da ignorância para achar que sabe alguma coisa e eu confesso que, muitas vezes, acho.
Acho que sei mais e melhor, quando consigo pensar na minha vida e na minha história, com plena consciência, em termos de dez ou quinze anos atrás. Pensar num livro que li e fazer as contas e achar que pode fazer quase vinte anos. Saber que há dez me formava no colegial. Há quase isso começava a dirigir. Isso do tempo passar e ir aumentando a distância entre a memória e o presente.
Então muitas vezes subo no pedestal e, ali de cima, normalmente sei que tudo ali, eu e meu olhar, não passa de uma farsa. Tenho até a humildade de me referir a ele com alguma ironia, dizendo as maiores verdades "do alto dos meus vinte e sete anos". E quando me acontece de dar lições de vida e bom comportamento por aí, tenho o bom senso de admitir que não sei do que estou falando, apesar de falar e infligir às palavras a maior propriedade.
Esse estado inerentemente contraditório da existência, que às vezes nos exaspera e tira o sentido das coisas e, noutras, parece ser a graça de tudo.
É só que eu me acho adulta e falo toda impostada quando na verdade sou é criança e criança besta.
Sou, agora, e pode ser que daqui a um nada não seja mais. Por outro lado, se sou ainda talvez seja sempre.
Talvez eu volte em mais vinte e sete anos e meio com um veredito e então saiba alguma coisa de verdade. Até lá, sei com certeza - juvenil ou não - que sou besta e sem jeito.
sábado, 7 de agosto de 2010
Caipira
Diz o relógio, ou sei lá quem que na verdade guarda o tempo, que já é 8 de agosto.
8 de agosto já não significa que o ano acabou? Já passou da metade, aí pra chegar natal e todo o resto é um pulo e eu, que não guardo nada, perdi totalmente a noção dos dias.
Sempre me irrita essa história de "nossa, como esse ano passou rápido" porque todos os anos passam rápido e a gente não cansa de se surpreender com isso. E tem todo o resto, né? De que, durante, parecia que ia devagar mas de repente acabou.
E se você é um otimista, foi um ano fantástico.
Se é um pessimista, ou apenas ligeiramente dramático, foi o pior da sua vida.
Aí depois começa aquela baboseira toda dos planos, como se o próximo fosse ser diferente, mas ele também vai parecer devagar, terminar de repente e ser lindo ou terrível.
Mas ele vai, foi e sei lá.
Inventei hoje de sair de casa e foi um erro. Onda consumista e aquilo tudo, somado ao fato de a frente fria ter partido e a tarde ter sido mesmo quente.
E as pessoas, olhava para elas nas ruas e mesmo as odiava. Desse ódio que só pode ser impessoal, porque à distância a gente não tem que reconhecer motivos e passados e lados bons nem nada, não tem que reconhecer e se preocupar com o sentimentos das pessoas e podemos com mais facilidade ser pura e simplesmente levianos.
Mesmo assim, ele traz consigo alguma culpa que nos faz querer apagar a palavra e matizar o sentimento com um "detestar" ou "desgostar" ou "incomodar". Seja por reconhecer que talvez elas não fossem assim tão más, ou que nós não sejamos assim tão maus, ou que há aí algum exagero, ou um "o que vão pensar de mim se eu disser isso" qualquer. Mas hoje escolhemos ficar do lado negro e deixámo-la aí.
Acho muita graça nisso da gente sentir esse amor universal pela humanidade e detestá-la na mesma medida. Amar o povo à distância, já tanta gente não falou sobre isso?
Minha contribuição em não tornar esse mundo uma merda maior do que já é está em admitir que o problema sou eu. Sei lá se as pessoas são amáveis ou não, mas também não me interesso em saber porque sou, afinal, anti-social. Fico pensando, em momentos assim, que devia ir morar na roça, sem vizinhos nem ninguém por perto, para poder ficar sozinha e não detestar ninguém, ignorando algo conscientemente que então sempre poderei me odiar. O x da questão é sempre a gente, né não?
Mas eu também gosto muito das pessoas, quando estou no clima de apreciá-las e quando elas fazem coisas bonitas, quando torcem ou rezam ou cantam juntas.
Esses dias fui levar a sobrinha para a escola, uma nova escola, uma - algo - grande escola e não sei. Deixei-a sozinha ali na sala e ela ficou, porque ela é de ficar. Criança corajosa, a sobrinha. Nova escola sem manha, sem reclamar, sem querer colo, sem querer ir embora. Ela vai e encara, do jeito dela que é, de começo, silencioso. Arregala os olhos castanhos e fica em silêncio e só olha e depois não diz a ninguém o que viu, pensou ou sentiu. Encara em silêncio e eu acho admirável, porque eu velha sou de choramingar e fazer birra e não querer ir e pedir socorro.
Deixei-a sozinha na sala e ela ficou e foi, chamada por uma garotinha como eu também fui um dia, quando já era muito maior.
Quando saía, olhei pela janela e ela estava lá, com as outras crianças naquele barulho enorme, ainda em silêncio, ainda olhando e não parecendo estar bem nem mal, parecendo estar ali decidindo.
Também eu calei. Mas, por um instante, amei ali aquelas pessoas que não faziam nada de especial, só eram como podiam ser e faziam o que podiam fazer e, sendo ainda tão pequenas, faziam e eram mais do que estamos acostumados a ver.
Tão opostas as minhas reações às mesmas banalidades e ambas também tão sem importância, na ordem do dia.
É só que hoje eu fui atacada pela fobia social e não achei grande consolo em saber que há por aí outros que a partilham comigo. Talvez achasse, se pudesse amaldiçoar com eles.
Mas é já 8 de agosto e nosso tempo passou.
8 de agosto já não significa que o ano acabou? Já passou da metade, aí pra chegar natal e todo o resto é um pulo e eu, que não guardo nada, perdi totalmente a noção dos dias.
Sempre me irrita essa história de "nossa, como esse ano passou rápido" porque todos os anos passam rápido e a gente não cansa de se surpreender com isso. E tem todo o resto, né? De que, durante, parecia que ia devagar mas de repente acabou.
E se você é um otimista, foi um ano fantástico.
Se é um pessimista, ou apenas ligeiramente dramático, foi o pior da sua vida.
Aí depois começa aquela baboseira toda dos planos, como se o próximo fosse ser diferente, mas ele também vai parecer devagar, terminar de repente e ser lindo ou terrível.
Mas ele vai, foi e sei lá.
Inventei hoje de sair de casa e foi um erro. Onda consumista e aquilo tudo, somado ao fato de a frente fria ter partido e a tarde ter sido mesmo quente.
E as pessoas, olhava para elas nas ruas e mesmo as odiava. Desse ódio que só pode ser impessoal, porque à distância a gente não tem que reconhecer motivos e passados e lados bons nem nada, não tem que reconhecer e se preocupar com o sentimentos das pessoas e podemos com mais facilidade ser pura e simplesmente levianos.
Mesmo assim, ele traz consigo alguma culpa que nos faz querer apagar a palavra e matizar o sentimento com um "detestar" ou "desgostar" ou "incomodar". Seja por reconhecer que talvez elas não fossem assim tão más, ou que nós não sejamos assim tão maus, ou que há aí algum exagero, ou um "o que vão pensar de mim se eu disser isso" qualquer. Mas hoje escolhemos ficar do lado negro e deixámo-la aí.
Acho muita graça nisso da gente sentir esse amor universal pela humanidade e detestá-la na mesma medida. Amar o povo à distância, já tanta gente não falou sobre isso?
Minha contribuição em não tornar esse mundo uma merda maior do que já é está em admitir que o problema sou eu. Sei lá se as pessoas são amáveis ou não, mas também não me interesso em saber porque sou, afinal, anti-social. Fico pensando, em momentos assim, que devia ir morar na roça, sem vizinhos nem ninguém por perto, para poder ficar sozinha e não detestar ninguém, ignorando algo conscientemente que então sempre poderei me odiar. O x da questão é sempre a gente, né não?
Mas eu também gosto muito das pessoas, quando estou no clima de apreciá-las e quando elas fazem coisas bonitas, quando torcem ou rezam ou cantam juntas.
Esses dias fui levar a sobrinha para a escola, uma nova escola, uma - algo - grande escola e não sei. Deixei-a sozinha ali na sala e ela ficou, porque ela é de ficar. Criança corajosa, a sobrinha. Nova escola sem manha, sem reclamar, sem querer colo, sem querer ir embora. Ela vai e encara, do jeito dela que é, de começo, silencioso. Arregala os olhos castanhos e fica em silêncio e só olha e depois não diz a ninguém o que viu, pensou ou sentiu. Encara em silêncio e eu acho admirável, porque eu velha sou de choramingar e fazer birra e não querer ir e pedir socorro.
Deixei-a sozinha na sala e ela ficou e foi, chamada por uma garotinha como eu também fui um dia, quando já era muito maior.
Quando saía, olhei pela janela e ela estava lá, com as outras crianças naquele barulho enorme, ainda em silêncio, ainda olhando e não parecendo estar bem nem mal, parecendo estar ali decidindo.
Também eu calei. Mas, por um instante, amei ali aquelas pessoas que não faziam nada de especial, só eram como podiam ser e faziam o que podiam fazer e, sendo ainda tão pequenas, faziam e eram mais do que estamos acostumados a ver.
Tão opostas as minhas reações às mesmas banalidades e ambas também tão sem importância, na ordem do dia.
É só que hoje eu fui atacada pela fobia social e não achei grande consolo em saber que há por aí outros que a partilham comigo. Talvez achasse, se pudesse amaldiçoar com eles.
Mas é já 8 de agosto e nosso tempo passou.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Fim feliz
Inventei de assistir o bonecas russas.
Não, não é assim que começa.
Foi-me perguntado, quer dizer, não somente a mim, que filme eu vi ultimamente de que gostei.
Uma que a pergunta é estranha pra caramba. A pessoa que a fez era só um pouco estranha e tava naquelas de puxar desesperadamente assunto. E desespero é das coisas menos atraentes do mundo, exceto quando é a mais. A segunda opção é mais rara e de um tipo diferente; mais comum mesmo é a primeira, que leva a pessoa a fazer perguntas desse tipo.
Ou talvez o problema fosse o alvo. Se fosse dirigida a adolescentes bobinhas, elas talvez respondessem um "crepúsculo" da vida ou assim. E tirassem da carteira ou da bolsa as figurinhas do filme, ou o pôster do carinha, ou mostrassem a tatuagem que fizeram em homenagem àquela que é a melhor história de todos os tempos.
Ou eu é que sou mesmo irrevogavelmente arrogante, mas acho que a gente chega a um momento da vida em que não sabe bem responder a essas coisas. Acho que, na verdade, sempre estive mais ou menos nesse momento. Ou você me pega na onda de empolgação de alguma coisa que acabei de ver, ou a pergunta suscita uma explosão de imagens e nomes no meu cérebro que me paralisam e impedem uma resposta inteligível.
E às vezes a resposta não vem por algo de preguiça, quando antevejo que, número 2 do formulário, segue o temido "por quê?". Pergunta essa que, apesar de fazer incansavelmente, sou, via de regra, incapaz de responder.
Por que gostei de tal filme? Sei lá, gostei, achei bonito, me tocou, achei bonito, gostei. Porque sim. Não te interessa. Não enche o saco.
Mas eu, numa onda incomum de boa vontade, fui tentar responder amigavelmente. Dizendo, claro, que não sei e isso e aquilo.
Falou-se de Amélie Poulain e eu me dei conta, também influenciada por outro da Audrey Tatou, que filmes felizinhos demais me deprimem.
Gostei demais da Amélie, assisti várias vezes e minha reação variava: podia me deixar feliz e leve ou, em uma palavra, triste.
Fiquei pensando nisso, porque inventei de assistir às tais bonecas russas.
Isso de finais felizes meio que me deprimem, porque eu meio que me dou conta de que... bem, eles não exatamente existem, né? Aí quando são assim mais forçados, em filmes piores, tudo bem porque, beirando o ridículo, não despertam nenhum tipo de ânsia.
Mas, por exemplo, a Amélie, é tão bonitinho e dá tanta vontade de viver naquele mundo, com aqueles sons e aquelas cores e aquela luz, de viver naquele apartamento e trabalhar naquele bar e encontrar um álbum e tudo o mais. Li esses dias uma notícia dizendo que não sei quem não sei aonde encontrou uma mala de cartas numas montanhas quaisquer, de um avião de correio que caiu não sei quando. E eu não tenho uma vizinha esperando notícias do marido desaparecido. Ou tenho, mas não conheço porque não é da minha natureza conhecer. E, se tivesse e soubesse, será que forjava uma carta, banhando-a em chá para parecer antiga?
De repente, a verdade nua e crua é que eu, euzinha, não tenho aqui dessa leveza necessária para nada disso. Não tenho essas cores e esses sons e esses lugares. Sou dura e pesada e, só de vez em quando, gosto de ser assim. Noutras, acho triste.
Vi de novo o bonecas e, ao contrário da primeira vez, não me convenceu. Se visse o albergue, podia ter também a mesma sensação, de Jens, Murari e Katia, não Xavier.
E Maíra.
Daí é que não se escapa.
E todo o lance do filme terminar e a gente, de fora, continuar. E continuar. E continuar. Que é bom, claro. E, claro, mau.
É só que às vezes bate um cansaço, principalmente porque tenho pensado nisso da vida como eterna, até o fim. E como o fim ainda não é agora, não existe.
Então, eterna e cansada.
Busco, então, por aí, alguém que fale com a minha melancolia, que a partilhe comigo, que a sinta como sua, apesar de sabê-lo impossível. Ou impossível agora ou impossível pra sempre.
Começo, essa tarde, a sudoeste.
Não, não é assim que começa.
Foi-me perguntado, quer dizer, não somente a mim, que filme eu vi ultimamente de que gostei.
Uma que a pergunta é estranha pra caramba. A pessoa que a fez era só um pouco estranha e tava naquelas de puxar desesperadamente assunto. E desespero é das coisas menos atraentes do mundo, exceto quando é a mais. A segunda opção é mais rara e de um tipo diferente; mais comum mesmo é a primeira, que leva a pessoa a fazer perguntas desse tipo.
Ou talvez o problema fosse o alvo. Se fosse dirigida a adolescentes bobinhas, elas talvez respondessem um "crepúsculo" da vida ou assim. E tirassem da carteira ou da bolsa as figurinhas do filme, ou o pôster do carinha, ou mostrassem a tatuagem que fizeram em homenagem àquela que é a melhor história de todos os tempos.
Ou eu é que sou mesmo irrevogavelmente arrogante, mas acho que a gente chega a um momento da vida em que não sabe bem responder a essas coisas. Acho que, na verdade, sempre estive mais ou menos nesse momento. Ou você me pega na onda de empolgação de alguma coisa que acabei de ver, ou a pergunta suscita uma explosão de imagens e nomes no meu cérebro que me paralisam e impedem uma resposta inteligível.
E às vezes a resposta não vem por algo de preguiça, quando antevejo que, número 2 do formulário, segue o temido "por quê?". Pergunta essa que, apesar de fazer incansavelmente, sou, via de regra, incapaz de responder.
Por que gostei de tal filme? Sei lá, gostei, achei bonito, me tocou, achei bonito, gostei. Porque sim. Não te interessa. Não enche o saco.
Mas eu, numa onda incomum de boa vontade, fui tentar responder amigavelmente. Dizendo, claro, que não sei e isso e aquilo.
Falou-se de Amélie Poulain e eu me dei conta, também influenciada por outro da Audrey Tatou, que filmes felizinhos demais me deprimem.
Gostei demais da Amélie, assisti várias vezes e minha reação variava: podia me deixar feliz e leve ou, em uma palavra, triste.
Fiquei pensando nisso, porque inventei de assistir às tais bonecas russas.
Isso de finais felizes meio que me deprimem, porque eu meio que me dou conta de que... bem, eles não exatamente existem, né? Aí quando são assim mais forçados, em filmes piores, tudo bem porque, beirando o ridículo, não despertam nenhum tipo de ânsia.
Mas, por exemplo, a Amélie, é tão bonitinho e dá tanta vontade de viver naquele mundo, com aqueles sons e aquelas cores e aquela luz, de viver naquele apartamento e trabalhar naquele bar e encontrar um álbum e tudo o mais. Li esses dias uma notícia dizendo que não sei quem não sei aonde encontrou uma mala de cartas numas montanhas quaisquer, de um avião de correio que caiu não sei quando. E eu não tenho uma vizinha esperando notícias do marido desaparecido. Ou tenho, mas não conheço porque não é da minha natureza conhecer. E, se tivesse e soubesse, será que forjava uma carta, banhando-a em chá para parecer antiga?
De repente, a verdade nua e crua é que eu, euzinha, não tenho aqui dessa leveza necessária para nada disso. Não tenho essas cores e esses sons e esses lugares. Sou dura e pesada e, só de vez em quando, gosto de ser assim. Noutras, acho triste.
Vi de novo o bonecas e, ao contrário da primeira vez, não me convenceu. Se visse o albergue, podia ter também a mesma sensação, de Jens, Murari e Katia, não Xavier.
E Maíra.
Daí é que não se escapa.
E todo o lance do filme terminar e a gente, de fora, continuar. E continuar. E continuar. Que é bom, claro. E, claro, mau.
É só que às vezes bate um cansaço, principalmente porque tenho pensado nisso da vida como eterna, até o fim. E como o fim ainda não é agora, não existe.
Então, eterna e cansada.
Busco, então, por aí, alguém que fale com a minha melancolia, que a partilhe comigo, que a sinta como sua, apesar de sabê-lo impossível. Ou impossível agora ou impossível pra sempre.
Começo, essa tarde, a sudoeste.
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