Tava super comendo mosca por aqui, noitão de domingo. Tenho às vezes essa sensação que associo à velhice que é passar o dia esperando o dia passar. Sem esperar mais, porque não há. Há somente as horas e o sol a subir, depois a cair, depois a noite chegando e passando e de novo a vinda do sol. O tempo pelo tempo, o que significa a ausência do tempo. O tempo que nada traz nem leva, que passa vazio e anda sem direção.
Um dia depois do outro, sem nada de novo nem diferente, que associo não somente à velhice, mas à velhice esquecida.
E eu tenho vinte e sete anos.
Às vezes me assusto com a minha vida e tenho medo do que será de mim em algumas décadas, porque eu sou, com demasiada frequência, o oposto do que se espera que a juventude seja. Vivi coisas opostas a ela e ainda vivo e me pergunto se chegará o dia em que vou me arrepender, enquanto me debato tentando descobrir como fazer diferente e não sei. Que venha, então, o arrependimento.
Mas sim, eu estava no domingo à noite e assisti a um documentário chamado um coração palestino, que a gnt passou.
É sobre um menino árabe que foi assassinado na frente de casa, aos 12 anos, porque brincava na rua com uma arma de mentira. Chegou lá um tal de exército e acabou com a brincadeira e, de leva, com o menino. Aí o pai dele resolveu doar os órgãos do filho e o filme fica muito nisso.
Na verdade ele é muito simples e tudo que não é dito - o que é muito - acho que tenta não dramatizar demais a história. Como se fosse possível, né?
E o pai é uma figura incrível, sei lá por quê. Tem ali alguma coisa que parece bonita, não sei direito, mas o filme todo passa meio rápido. E eu sinto uma dor, ao vê-lo e imaginá-lo, dessas dores imaginadas, talvez chamada compaixão, talvez porque a dor dele é minha, apesar de não ser e não poder ser. Mas me dói a história dele e imaginá-lo sentindo as coisas que eu acho que ele sentiu. E tem um momento, bem ao final, em que ele olha para a câmera, olhos limpos, e diz "vocês aí que tão vendo esse documentário, sei lá, mas o que vocês querem que a gente faça?".
E nós, aqui, vendo esse documentário... sei lá. Acho que tem partes da gente que morre um pouco de ver. Porque somos nós, afinal, que fazemos essa merda toda e sei lá como faz para desfazer. Morrer um pouco não adianta nada; nem viver um pouco; nem pouco nem muito. Nem sei de que vale, também, o sofrer, se é que vale, ou se é só mais dor a se juntar à imensa bola que corre solta por aí. Dá pra pensar que a saída é ser feliz, mesmo, pura e simplesmente. Mas o caminho até ela...
O tempo e o coração, hoje, estão contra mim.
Não há transplante possível.
Um comentário:
Engraçado, Má! Uma dessa aleluia pousou em mim, ontem, enquanto lavava a louça e pensei a mesma coisa!
Beijo,
Re
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