Bernardo Soares.
BernardoSoares.
bernardosoares.
Ontem, antes de dormir, ia pegando nele, mas aí comecei a pensar.
Uma é que o cara curtia muito "r" antes de consoante, né não?
Pensei nisso e que eu acho que é o Seymour o cara do conto da Esmé.
Eu vez por outra me gabo de ser uma pessoa que aprecia a própria companhia. Apreciar talvez seja exagero, mas suporta com alguma tranquilidade. Tranquilidade talvez seja exagero, melhor dizer "sem um desespero gritante que faz a gente sair pela janela".
Mas ontem, na hora de dormir, me dei conta de que eu absolutamente não convivo comigo mesma. Consigo ficar sozinha, sem pessoas ao meu redor, porque normalmente encho o tempo, e preencho o vazio, com outras pessoas menos concretas, personagens criadas, mais raramente reais, que invoco para me distraírem e me livrarem de mim. Quando tudo é silêncio, não suporto a minha própria voz mais do que os outros, que tanto gosto de criticar.
A gente não vale mesmo nada nessa vida. Nem a vida não vale.
Escondo-me, mais uma vez, atrás de coletividades. Então, revelo-me:
Eu, mesma, não valho nada.
Ontem brinquei de silêncio. E pensei em Bernardo e Seymour - outros que não eu. E pensei, pensei pensei até me cansar.
Percebi, afinal, que a laje não é companheira ideal para esse tipo de encontro. O teto por demais baixo e branco tolda a visão e prende a alma.
Eu sou eu em paz comigo em silêncio e só quando meus olhos desfocados fitam um céu de estrelas. Sigo seus brilhos e imagino qual mensagem mandam elas para mim. Lendo-as sem decifrá-las, sou.
Mas hoje, o teto me prende e eu me deixo prender. É quase inverno.
Encontro, talvez, Bernardo Soares, se as palavras dele forem também minhas:
"Ópio tenho-o eu na alma"
"Minhas pálpebras dormem, mas não eu"
"Como se dormisse, acordo e não me pertenço"
"Tenho uma indigestão na alma"
"Se o Destino o der, que o dê. Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os fatos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma"
"Nada me satisfaz, nada me consola, tudo - quer haja sido, quer não - me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero"
"Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos"
"Prefiro a prosa ao verso, como modo de arte, por duas razões, das quais a primeira, que é minha, é que não tenho escolha, pois sou incapaz de escrever em verso"
"E através de tudo, como um silvo de angústia nua, sentirei a minha alma por detrás do devaneio - uivo fundo e puro, inútil no escuro do mundo"*
Comigo estou sempre, sempre querendo estar só.
* L. do D. : 251, 243, 235, 232, 228, 227, 203.
Páginas
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
Sem fim!
Maio meio que já era e eu tô que nem esses seres mitólogicos, que você corta uma cabeça e aparecem duas. Quer dizer, minha cabeça ninguém cortou, mas a cada item que eu acho que risquei da minha listinha aparecem mais uns cinco, ainda pra fazer. Ou de repente eu que estou ansiosa por fins e fico delirando achando que os vejo, quando na verdade isso de fim não existe, né? É, essa explicação é mais do meu agrado, não por ser em si agradável, mas por parecer mais coerente.
A gente nunca sabe mesmo o que vem depois porque, diferente de filme, nossas histórias não acabam com o rolar de créditos. Ou acabam, mas aí é uma vez só e eu espero que demore um tanto, ainda.
Mas essa história eu sei que não acaba, porque já começa de novo, então paciência é, como sempre, a solução universal. E seguir tentando cortando as cabeças, que senão elas vêm e me comem.
Enquanto isso eu brinco de fim-de-semana, pra amanhã brincar de segunda-feira.
E isso de dormir no escuro e acordar no claro é esquisito à beça, mas dizem que nosso corpo foi feito pra funcionar assim.
Feito por quem, né?, mas enfim.
Bora lá que é capaz de chover.
A gente nunca sabe mesmo o que vem depois porque, diferente de filme, nossas histórias não acabam com o rolar de créditos. Ou acabam, mas aí é uma vez só e eu espero que demore um tanto, ainda.
Mas essa história eu sei que não acaba, porque já começa de novo, então paciência é, como sempre, a solução universal. E seguir tentando cortando as cabeças, que senão elas vêm e me comem.
Enquanto isso eu brinco de fim-de-semana, pra amanhã brincar de segunda-feira.
E isso de dormir no escuro e acordar no claro é esquisito à beça, mas dizem que nosso corpo foi feito pra funcionar assim.
Feito por quem, né?, mas enfim.
Bora lá que é capaz de chover.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O tempo é um das minhas maiores obsessões.
Em vários aspectos.
Um é a velocidade, que é ao mesmo tempo rápida e lenta, que passa e para e, por segundos, volta. Isso de voltar não faz nenhum sentido, exceto pela concretude da realidade do retorno.
Outro é isso das janelas. Como se a vida fosse um trem que passa, com algumas janelas abertas e outras fechadas e que a gente fica tentando entrar, ou sair, e que depois que a janela passou acabou; você pode até entrar no trem - ou sair dele - por outra janela, mas aí cai em outro vagão, com outras pessoas e, quiçá, outro destino. A janela que foi não volta, por mais que o tempo por vezes pareça fazê-lo.
Tem crueldade e beleza nisso, acho que em medidas exatamente iguais.
Outra ainda é o mistério, que envolve tudo isso que parece tão claro. E se a gente achava que a janela tinha passado, porque o tempo corria, mas na verdade ele ia lento e ainda dá pra alcançar? Quando correr e quando desistir, como saber?
E essa brincadeira que é escrever? Quando é cedo e quando é tarde?
Não sei mesmo se o momento já passou de contar o que eu queria dizer.
Nem, na verdade contar, que eu achei o pedacinho do Bernardo Soares em que ele diz que os fatos não o interessam, as emoções sim e quase dei um grito e falei "isso mesmo, meu irmão". Como se Bernardo precisasse da minha aprovação - que ele tem, independente de necessidades.
Mas o fato é que me peguei pensando em como pode acontecer isso da gente amar as pessoas.
Penso que sempre tive na minha vida modelos muito fortes e, por isso, achei que amável era a força, a coragem, a certeza. Mesmo sabendo que isso de certeza não existe, eu pra gostar de qualquer pessoa tenho que admirá-la, tenho que ver nela alguma coisa que eu queria ser e não consigo, e me engano dizendo que talvez um dia.
Aprendi, não sei se ensinada por alguém, a olhar para cima e amar para cima. Eu amo a força, reconhecendo nela sua fragilidade. Amo a armadura e os buracos sem os quais ela não se mexe. Se admiro, amo, e é esse o meu fetiche.
Então é claro que o oposto gera, no mínimo, uma ansiedade. E ambos os lados são muito mascarados, se travestem e se imiscuem e chega uma hora que a gente não sabe onde começa um e termina o outro.
Só que de repente eu percebo uma coisa que não sabia, que de verdade ignorava dentro desse mundo de coisas que desconheço.
Percebi, de chofre, que é possível amar o desamparo, quando ele se manifesta com pureza cristalina. E a mesma coisa que assusta, que rejeita, repele, repudia, é tão admirável quanto seu inverso.
Se é raríssimo um exemplo, mesmo que volátil, de força, quão mais rara é essa vulnerabilidade exposta, frágil, porque não se cobre de mais nada? Eu sou dessas pessoas que raramente fica triste, porque imediatamente recobre a tristeza de raiva e ressentimento ou qualquer outro desses sentimentos explosivos. Eu, desamparada, sou animal acuado que ataca quem tentar chegar perto.
E acho um espetáculo isso de vê-lo como é, com uma simplicidade que quase chega à loucura.
Sem armadura, sem arma, sem coberta, sem nem mesmo lágrima. Sem nada, só a pessoa ali com tudo que ela não tem, e é das cenas mais tocantes que eu já imaginei na vida.
Em vários aspectos.
Um é a velocidade, que é ao mesmo tempo rápida e lenta, que passa e para e, por segundos, volta. Isso de voltar não faz nenhum sentido, exceto pela concretude da realidade do retorno.
Outro é isso das janelas. Como se a vida fosse um trem que passa, com algumas janelas abertas e outras fechadas e que a gente fica tentando entrar, ou sair, e que depois que a janela passou acabou; você pode até entrar no trem - ou sair dele - por outra janela, mas aí cai em outro vagão, com outras pessoas e, quiçá, outro destino. A janela que foi não volta, por mais que o tempo por vezes pareça fazê-lo.
Tem crueldade e beleza nisso, acho que em medidas exatamente iguais.
Outra ainda é o mistério, que envolve tudo isso que parece tão claro. E se a gente achava que a janela tinha passado, porque o tempo corria, mas na verdade ele ia lento e ainda dá pra alcançar? Quando correr e quando desistir, como saber?
E essa brincadeira que é escrever? Quando é cedo e quando é tarde?
Não sei mesmo se o momento já passou de contar o que eu queria dizer.
Nem, na verdade contar, que eu achei o pedacinho do Bernardo Soares em que ele diz que os fatos não o interessam, as emoções sim e quase dei um grito e falei "isso mesmo, meu irmão". Como se Bernardo precisasse da minha aprovação - que ele tem, independente de necessidades.
Mas o fato é que me peguei pensando em como pode acontecer isso da gente amar as pessoas.
Penso que sempre tive na minha vida modelos muito fortes e, por isso, achei que amável era a força, a coragem, a certeza. Mesmo sabendo que isso de certeza não existe, eu pra gostar de qualquer pessoa tenho que admirá-la, tenho que ver nela alguma coisa que eu queria ser e não consigo, e me engano dizendo que talvez um dia.
Aprendi, não sei se ensinada por alguém, a olhar para cima e amar para cima. Eu amo a força, reconhecendo nela sua fragilidade. Amo a armadura e os buracos sem os quais ela não se mexe. Se admiro, amo, e é esse o meu fetiche.
Então é claro que o oposto gera, no mínimo, uma ansiedade. E ambos os lados são muito mascarados, se travestem e se imiscuem e chega uma hora que a gente não sabe onde começa um e termina o outro.
Só que de repente eu percebo uma coisa que não sabia, que de verdade ignorava dentro desse mundo de coisas que desconheço.
Percebi, de chofre, que é possível amar o desamparo, quando ele se manifesta com pureza cristalina. E a mesma coisa que assusta, que rejeita, repele, repudia, é tão admirável quanto seu inverso.
Se é raríssimo um exemplo, mesmo que volátil, de força, quão mais rara é essa vulnerabilidade exposta, frágil, porque não se cobre de mais nada? Eu sou dessas pessoas que raramente fica triste, porque imediatamente recobre a tristeza de raiva e ressentimento ou qualquer outro desses sentimentos explosivos. Eu, desamparada, sou animal acuado que ataca quem tentar chegar perto.
E acho um espetáculo isso de vê-lo como é, com uma simplicidade que quase chega à loucura.
Sem armadura, sem arma, sem coberta, sem nem mesmo lágrima. Sem nada, só a pessoa ali com tudo que ela não tem, e é das cenas mais tocantes que eu já imaginei na vida.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Apenas uma vez
O ruim do silêncio é que a gente se acostuma com ele.
O bom também.
Sinto às vezes uma saudade imensa de outro tempo, outra vida talvez, em que ele era menor.
Então o barulho beirava o insuportável.
Dos males, não sei qual o menor.
Sento-me no chão como o cara azul do Salinger; a madrugada avança e há já muitas horas, anos, talvez décadas, não ouço o som da minha voz.
O silêncio persiste.
Eu também.
O bom também.
Sinto às vezes uma saudade imensa de outro tempo, outra vida talvez, em que ele era menor.
Então o barulho beirava o insuportável.
Dos males, não sei qual o menor.
Sento-me no chão como o cara azul do Salinger; a madrugada avança e há já muitas horas, anos, talvez décadas, não ouço o som da minha voz.
O silêncio persiste.
Eu também.
domingo, 23 de maio de 2010
O Passado
Comprei mesmo pela capa.
E pelo desconto, talvez mais pelo desconto.
Mas a capa me deixa feliz em olhá-la; papel meio pardo, com algumas figuras coladas, tipo ingressos e cartões postais e carimbos de alfândega, toda a contracapa de foto de passaporte e ingresso para um jogo do Boca.
Comprei praí há 6 meses.
Comecei, então, a ler e parei; isso, talvez, de não ser o tempo.
Lembro muito de amigos, principalmente durante a faculdade, que diziam que não estavam lendo literatura, só historiografia, porque não dava tempo. Esses dias, um deles me disse que tinha preguiça.
Eu pasmo e fico boquiaberta, porque se tem coisa que me tira do eixo é não estar lendo algumas dessas histórias viajadas e tão reais. Um professor dizia que ali eles contam verdades sobre coisas que não aconteceram, enquanto nós de cá contamos mentiras sobre as que ocorreram.
Deve ter alguma razão, o professor. É o mesmo que falava pra gente não cair nessa conversa de confiar em cabelo branco porque canalha também envelhece.
Mas comecei, o passado, e já quase acabei, enquanto devia, talvez, dedicar o tempo mais ao trabalho. Só que às vezes a cabeça da gente não aguenta e precisa de um respiro, ou ao menos a minha cabeça é assim.
Bem ou mal, preciso sempre de um respiro.
Mas aí vou lá e encaro um passado desses e fico meio zonza, ou não sei. O bicho tem a força de um liquidificador, ou sei lá como chamam aqueles negócios que tem no mar que te puxam pra baixo.
Ando muito esquecida das palavras, não por influência de Rímini.
Redemoinho? Diz o Aurélio que bem pode ser rodamoinho.
Mas aí ele te puxa, ou me puxa, e eu me deixo levar, que é o que se há de fazer e fico tonta, sem fôlego, não sei direito o que pensar. Eu quando mergulho não consigo pensar e depois fico reclamando que não entendo o que vi.
Tem horas que gosto do cara, outras detesto. Fico me perguntando se ele é covarde ou se é só humano e se as duas coisas são interdependentes e se algum dia alguém vai saber me responder ou se essa vai ser mais uma das zilhões de perguntas cujas respostas eu vou ter de me acostumar a viver sem.
Pior ainda é questionar se essa é a pergunta certa, mas quem sabe, não?
E a capa é tão bonita.
O recheio acho que também, mas é mais doído, o que não sei se aumenta ou diminui a beleza.
Nessas horas que eu me perdôo pelos guilty pleasures que insisto em ter. Um ideal de mim se contentaria com as verdades sobre mentiras ou as mentiras sobre verdades, mas eu ainda não cheguei lá nem lá me vejo num futuro próximo. Preciso, então, para desintoxicar, de mentiras óbvias sobre mentiras absurdas, que isso de verdade cansa demais.
Tinha até pensado em fazer aqui uma mini-enquete, me autorizando a cometer um desses crimes - pelo qual ainda não consegui decidir se vale arriscar minha dignidade, porque ela não sairia inteira e era até capaz de não sair de jeito nenhum - mas tem muito sentido não, né?
A gente fica querendo ter a aprovação das pessoas, mas que pessoas, cara-pálida? Egocentrismo por aqui sobe e desce e, bem agora, ele tá em baixa.
Então decido que, se vou chafurdar, que seja por minha conta e risco e ninguém tem nada a ver com isso.
Mas não é pra agora, de todo jeito, e quando for pra ser, será em segredo.
E ainda hoje eu sigo em frente com o passado, que assim vamos nós.
PS: Eita, e li agora um spoiler dizendo que ele rende homenagem ao Proust. Sei nada de Proust, sinto só um eco de amor, talvez ilusório, mas o que não é ilusório nessa vida? A gente nunca sabe direito, ou eu não sei, do que sentiu, porque já foi, então a saída mesmo é acreditar que aquilo que um dia dissemos que era era mesmo e continua sendo, até prova em contrário. Achei o tempo redescoberto de uma genialidade suprema, pra mim até então impossível, justamente porque desconhecida e inimaginável. E depois silêncio, esse silêncio ensurdecedor, ensurdecedor e mudo, silencio tanto que as palavras fogem, e a saída é procurá-las no calar soturno das letras.
E pelo desconto, talvez mais pelo desconto.
Mas a capa me deixa feliz em olhá-la; papel meio pardo, com algumas figuras coladas, tipo ingressos e cartões postais e carimbos de alfândega, toda a contracapa de foto de passaporte e ingresso para um jogo do Boca.
Comprei praí há 6 meses.
Comecei, então, a ler e parei; isso, talvez, de não ser o tempo.
Lembro muito de amigos, principalmente durante a faculdade, que diziam que não estavam lendo literatura, só historiografia, porque não dava tempo. Esses dias, um deles me disse que tinha preguiça.
Eu pasmo e fico boquiaberta, porque se tem coisa que me tira do eixo é não estar lendo algumas dessas histórias viajadas e tão reais. Um professor dizia que ali eles contam verdades sobre coisas que não aconteceram, enquanto nós de cá contamos mentiras sobre as que ocorreram.
Deve ter alguma razão, o professor. É o mesmo que falava pra gente não cair nessa conversa de confiar em cabelo branco porque canalha também envelhece.
Mas comecei, o passado, e já quase acabei, enquanto devia, talvez, dedicar o tempo mais ao trabalho. Só que às vezes a cabeça da gente não aguenta e precisa de um respiro, ou ao menos a minha cabeça é assim.
Bem ou mal, preciso sempre de um respiro.
Mas aí vou lá e encaro um passado desses e fico meio zonza, ou não sei. O bicho tem a força de um liquidificador, ou sei lá como chamam aqueles negócios que tem no mar que te puxam pra baixo.
Ando muito esquecida das palavras, não por influência de Rímini.
Redemoinho? Diz o Aurélio que bem pode ser rodamoinho.
Mas aí ele te puxa, ou me puxa, e eu me deixo levar, que é o que se há de fazer e fico tonta, sem fôlego, não sei direito o que pensar. Eu quando mergulho não consigo pensar e depois fico reclamando que não entendo o que vi.
Tem horas que gosto do cara, outras detesto. Fico me perguntando se ele é covarde ou se é só humano e se as duas coisas são interdependentes e se algum dia alguém vai saber me responder ou se essa vai ser mais uma das zilhões de perguntas cujas respostas eu vou ter de me acostumar a viver sem.
Pior ainda é questionar se essa é a pergunta certa, mas quem sabe, não?
E a capa é tão bonita.
O recheio acho que também, mas é mais doído, o que não sei se aumenta ou diminui a beleza.
Nessas horas que eu me perdôo pelos guilty pleasures que insisto em ter. Um ideal de mim se contentaria com as verdades sobre mentiras ou as mentiras sobre verdades, mas eu ainda não cheguei lá nem lá me vejo num futuro próximo. Preciso, então, para desintoxicar, de mentiras óbvias sobre mentiras absurdas, que isso de verdade cansa demais.
Tinha até pensado em fazer aqui uma mini-enquete, me autorizando a cometer um desses crimes - pelo qual ainda não consegui decidir se vale arriscar minha dignidade, porque ela não sairia inteira e era até capaz de não sair de jeito nenhum - mas tem muito sentido não, né?
A gente fica querendo ter a aprovação das pessoas, mas que pessoas, cara-pálida? Egocentrismo por aqui sobe e desce e, bem agora, ele tá em baixa.
Então decido que, se vou chafurdar, que seja por minha conta e risco e ninguém tem nada a ver com isso.
Mas não é pra agora, de todo jeito, e quando for pra ser, será em segredo.
E ainda hoje eu sigo em frente com o passado, que assim vamos nós.
PS: Eita, e li agora um spoiler dizendo que ele rende homenagem ao Proust. Sei nada de Proust, sinto só um eco de amor, talvez ilusório, mas o que não é ilusório nessa vida? A gente nunca sabe direito, ou eu não sei, do que sentiu, porque já foi, então a saída mesmo é acreditar que aquilo que um dia dissemos que era era mesmo e continua sendo, até prova em contrário. Achei o tempo redescoberto de uma genialidade suprema, pra mim até então impossível, justamente porque desconhecida e inimaginável. E depois silêncio, esse silêncio ensurdecedor, ensurdecedor e mudo, silencio tanto que as palavras fogem, e a saída é procurá-las no calar soturno das letras.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Escrever, muxoxar, publicar.
A música dizia que tornar o amor real é expulsá-lo de você, pra que ele possa ser de alguém.
Parada em frente ao cursor piscante, eu penso que o caminho mesmo é a saída, de dentro pra fora, não só de amor ou sei lá o que, de tudo mesmo.
E, parada em frente ao cursor piscante, guardo em mim tudo aquilo que não consigo expulsar, porque não sei.
Vinha pensando em dizer que generosidade é uma coisa muito bacana e muito em falta.
Ia dizendo que acho que falta porque só pode ser generoso quem é cheio, e quem ousa se dizer cheio num mundo tão faltoso?
Disse, e aí?
Será que isso era tudo, ou sobrou algo agarrado nas bordas?
Sobra e muito.
Eu tenho aqui uma característica, que não sei nunca se é só minha, porque tenho também a mania de achar que tudo é só meu. Fico às vezes imaginando se, no dia em que eu descobrir minha total mediocridade, vou sentir pesar ou alívio. Talvez os dois, ou alguma outra coisa sem nome, porque nesse dia vou alcançar o impossível feito de me ver com os olhos de outros ou, ainda mais impossível, ver os outros com olhos meus.
E a tal característica é bem essa, da falta de nomes. Muitas vezes eu me pego pensando em coisas que não sei dizer, porque não sei como elas chamam. Ou talvez até saiba o nome que se costuma dar a elas, mas eles me parecem inadequados. Penso, então, em imagens, talvez cores fugidias, penso em som, mas não em palavra. Guardo, então, silêncio, porque o acho preferível ao erro.
Isso pra dizer que fiquei foi pensando muito nessa da generosidade.
Tentando lembrar das vezes em que consegui ser, e de outras em que falhei. E o oposto também, quando senti que eram comigo e quando não.
Em outros momentos talvez essa reflexão viesse com aquele aperto da expectativa frustrada, do desejo de que as pessoas correspondessem às minhas vontades e todas essas coisas mesquinhas que a gente sente tanto.
Agora, sinto aqui talvez alguma pena e só. Porque as pessoas são o que elas podem ser e dão o que elas têm pra dar e isso de não ter pra dar é coisa muito triste. E eu reconheço o quanto sou também muito insuficiente.
Sobra ainda muito, talvez o essencial, mas a porta vai se fechando lentamente, nesse dia cinza, frio e úmido de maio. Sobe o silêncio e as palavras que ele enterra talvez possam ser encontradas num outro dia, ou essa é sempre a esperança que fica.
Fica também uma insatisfação, de inadequação e ausência, de falta de inspiração e incompetência, mas imperfeição e falha fazem parte da brincadeira.
Impera a mediocridade, enquanto seguimos buscando a grandeza.
Parada em frente ao cursor piscante, eu penso que o caminho mesmo é a saída, de dentro pra fora, não só de amor ou sei lá o que, de tudo mesmo.
E, parada em frente ao cursor piscante, guardo em mim tudo aquilo que não consigo expulsar, porque não sei.
Vinha pensando em dizer que generosidade é uma coisa muito bacana e muito em falta.
Ia dizendo que acho que falta porque só pode ser generoso quem é cheio, e quem ousa se dizer cheio num mundo tão faltoso?
Disse, e aí?
Será que isso era tudo, ou sobrou algo agarrado nas bordas?
Sobra e muito.
Eu tenho aqui uma característica, que não sei nunca se é só minha, porque tenho também a mania de achar que tudo é só meu. Fico às vezes imaginando se, no dia em que eu descobrir minha total mediocridade, vou sentir pesar ou alívio. Talvez os dois, ou alguma outra coisa sem nome, porque nesse dia vou alcançar o impossível feito de me ver com os olhos de outros ou, ainda mais impossível, ver os outros com olhos meus.
E a tal característica é bem essa, da falta de nomes. Muitas vezes eu me pego pensando em coisas que não sei dizer, porque não sei como elas chamam. Ou talvez até saiba o nome que se costuma dar a elas, mas eles me parecem inadequados. Penso, então, em imagens, talvez cores fugidias, penso em som, mas não em palavra. Guardo, então, silêncio, porque o acho preferível ao erro.
Isso pra dizer que fiquei foi pensando muito nessa da generosidade.
Tentando lembrar das vezes em que consegui ser, e de outras em que falhei. E o oposto também, quando senti que eram comigo e quando não.
Em outros momentos talvez essa reflexão viesse com aquele aperto da expectativa frustrada, do desejo de que as pessoas correspondessem às minhas vontades e todas essas coisas mesquinhas que a gente sente tanto.
Agora, sinto aqui talvez alguma pena e só. Porque as pessoas são o que elas podem ser e dão o que elas têm pra dar e isso de não ter pra dar é coisa muito triste. E eu reconheço o quanto sou também muito insuficiente.
Sobra ainda muito, talvez o essencial, mas a porta vai se fechando lentamente, nesse dia cinza, frio e úmido de maio. Sobe o silêncio e as palavras que ele enterra talvez possam ser encontradas num outro dia, ou essa é sempre a esperança que fica.
Fica também uma insatisfação, de inadequação e ausência, de falta de inspiração e incompetência, mas imperfeição e falha fazem parte da brincadeira.
Impera a mediocridade, enquanto seguimos buscando a grandeza.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Noite e menino
Tava hoje de bobeira e... - rá, pegadinha!
Bobeira tem mais não nesse corpo. O ócio agora é todo criativo, como provam as duas ou três páginas que acabei de escrever. Podem estar uma merda ou uma pérola, obviamente, mas elas nasceram porque eu pensei nelas. E elas vão é aguardar a sentença, enquanto eu continuo.
Mas sim, não de bobeira, mas dei um tempo - comer, socializar, etc. - e peguei mamãe assistindo a um show do MPB4 e falando como os adora e tudo mais. Eu acho legal e meio que paro por aí, apesar de a música da lua, deles, ter sido a trilha e mote de uma as lembranças mais fofuras da sobrinha rodando e abrindo os braços na ponta dos pés pra fazê-la cheia.
Aí eles cantaram essa daqui, do Chico:
Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar
Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar
E, né? As pessoas podem dizer que ele canta mal e não sabe escrever, mas vá, compor tem discussão? A felicidade que se for de samba há de querer ficar?
Desculpae, mas eu hipnotizo. E acho que a graça da voz dele tá no desafinado, imensamente preferível àquelas ondinhas velosas nojentas.
Afora isso, eu perdi, no processo, a capacidade de conhecer palavras. Nunca fui de lembrar nada, e até algumas referências específicas de livros que li trocentas vezes evaporarem da minha mente eu acho aceitável, mas palavras?! Elas se foram e eu fico meia hora parada na frente da tela, contemplando o infinito, tentando puxá-las pela rabiola, mas nem sempre elas voltam. Sinônimos, afinal, foram inventados pra alguma coisa, né? O que ferra neles é o "quase" que o dicionário lhes atribui. E, de falar nele, Aurélio agora é meu melhor amigo. Gosto mais dele que do outro, se pá porque era o nome da minha avó.
Bora lá, então, que a noite é criança e o samba é menino.
Bobeira tem mais não nesse corpo. O ócio agora é todo criativo, como provam as duas ou três páginas que acabei de escrever. Podem estar uma merda ou uma pérola, obviamente, mas elas nasceram porque eu pensei nelas. E elas vão é aguardar a sentença, enquanto eu continuo.
Mas sim, não de bobeira, mas dei um tempo - comer, socializar, etc. - e peguei mamãe assistindo a um show do MPB4 e falando como os adora e tudo mais. Eu acho legal e meio que paro por aí, apesar de a música da lua, deles, ter sido a trilha e mote de uma as lembranças mais fofuras da sobrinha rodando e abrindo os braços na ponta dos pés pra fazê-la cheia.
Aí eles cantaram essa daqui, do Chico:
Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar
Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar
E, né? As pessoas podem dizer que ele canta mal e não sabe escrever, mas vá, compor tem discussão? A felicidade que se for de samba há de querer ficar?
Desculpae, mas eu hipnotizo. E acho que a graça da voz dele tá no desafinado, imensamente preferível àquelas ondinhas velosas nojentas.
Afora isso, eu perdi, no processo, a capacidade de conhecer palavras. Nunca fui de lembrar nada, e até algumas referências específicas de livros que li trocentas vezes evaporarem da minha mente eu acho aceitável, mas palavras?! Elas se foram e eu fico meia hora parada na frente da tela, contemplando o infinito, tentando puxá-las pela rabiola, mas nem sempre elas voltam. Sinônimos, afinal, foram inventados pra alguma coisa, né? O que ferra neles é o "quase" que o dicionário lhes atribui. E, de falar nele, Aurélio agora é meu melhor amigo. Gosto mais dele que do outro, se pá porque era o nome da minha avó.
Bora lá, então, que a noite é criança e o samba é menino.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Agora que entendi
Eita, tava vagando pela internet e já tinha visto a notícia, mas só agora que me toquei.
Deve ser o tal do vandalismoterceiromundista chegando de novo, né, pessoal?
Ainda vamos dar uma de Cérebro e conquistar o mundo.
Ai, nós bárbaros... Como somos incorrigíveis.
Mas tenhamos calma, amiguinhos, logo deve chegar aqui um barquinho e nos trazer a civilização.
Depois lembrei dessa fotinho que tirei, num reveillon desenvolvido qualquer. Mas acho que ela nem se encaixa na discussão, foi só uma associação livre; quem fez isso devem ter sido os imigrantes-terceiro-mundistas.

Que além de tocar fogo em carro, jogavam bicicletas nos pobres dos canais primeiro-mundistas. Congelados, claro, que isso de verão em janeiro é por demais subdesenvolvido.
Deve ser o tal do vandalismoterceiromundista chegando de novo, né, pessoal?
Ainda vamos dar uma de Cérebro e conquistar o mundo.
Ai, nós bárbaros... Como somos incorrigíveis.
Mas tenhamos calma, amiguinhos, logo deve chegar aqui um barquinho e nos trazer a civilização.
Depois lembrei dessa fotinho que tirei, num reveillon desenvolvido qualquer. Mas acho que ela nem se encaixa na discussão, foi só uma associação livre; quem fez isso devem ter sido os imigrantes-terceiro-mundistas.
Que além de tocar fogo em carro, jogavam bicicletas nos pobres dos canais primeiro-mundistas. Congelados, claro, que isso de verão em janeiro é por demais subdesenvolvido.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
E a música?!
Tava procurando aqui a Mary e ela me mostrou isso.
A Mary não sabe quem eu sou, nem que eu existo.
E eu devia muito estar em outro lugar, agora.
Mas não tem dessas coisas no mundo que fazem a gente parar?
Conversava com um amigo, dia desses, e ele dizia que eu não gosto de futebol, mas de esporte.
Porque que eu gosto de alguma coisa, não há dúvida alguma.
E esporte parece funcionar bem. Sou capaz de ficar horas assistindo, as coisas mais esdrúxulas. Acordo de madrugada para ver provas de natação, de vela, de equitação. Quem tem paciência pra ver cavalo correr e pular cerquinhas? Adoro amo vôlei, mesmo sem entender lhufas.
E gosto muito de futebol, do jeito que sei gostar das coisas. Dizia eu ao amigo que, normalmente, não consigo torcer para um time, porque tenho simpatia por outros. Tenho, muita, mas não muda nada. Tenho cá minha torcida fiel.
Só que aí a Mary vem e me mostra isso e eu percebo que não é nada disso.
São as pessoas, né? O que elas fazem e o que fazem com elas.
Isso de rixa eu tenho muitas, mas não essa.
Vejam que coisa linda:
A Mary não sabe quem eu sou, nem que eu existo.
E eu devia muito estar em outro lugar, agora.
Mas não tem dessas coisas no mundo que fazem a gente parar?
Conversava com um amigo, dia desses, e ele dizia que eu não gosto de futebol, mas de esporte.
Porque que eu gosto de alguma coisa, não há dúvida alguma.
E esporte parece funcionar bem. Sou capaz de ficar horas assistindo, as coisas mais esdrúxulas. Acordo de madrugada para ver provas de natação, de vela, de equitação. Quem tem paciência pra ver cavalo correr e pular cerquinhas? Adoro amo vôlei, mesmo sem entender lhufas.
E gosto muito de futebol, do jeito que sei gostar das coisas. Dizia eu ao amigo que, normalmente, não consigo torcer para um time, porque tenho simpatia por outros. Tenho, muita, mas não muda nada. Tenho cá minha torcida fiel.
Só que aí a Mary vem e me mostra isso e eu percebo que não é nada disso.
São as pessoas, né? O que elas fazem e o que fazem com elas.
Isso de rixa eu tenho muitas, mas não essa.
Vejam que coisa linda:
domingo, 2 de maio de 2010
Da Marcia
Pensamento PiXação*
Publicado em 30 de março de 2010
Para questionar a estética da fachada
A revolta geral da sociedade contemporânea contra a pichação se ampara na hipótese de seu caráter violento. Usarei a expressão pixação, com X, para tentar tocar no X da questão. A estética da brancura ou do liso dos muros, hegemônica em uma sociedade que preserva o ideal da limpeza estética, dificulta outras leituras do fenômeno da pixação. O excessivo amor pela lisura dos muros, a sacralização que faz da pixação demônio, revela enquanto esconde uma estética da fachada.
Toda estética inclui uma ética, assim a da fachada. Fachada é aquilo que mostra uma habitação por fora; pode tanto dar sequência ao que há na interioridade, quanto ser dela desconexo. É da fachada que se baste por si mesma à medida que lhe é próprio ser suficiente aos olhos. A estética da fachada que defende o muro branco é a mesma que sustenta a plastificação dos rostos, a ostentação dos luxos no “aparecimento geral” da cultura espetacular, no histérico “dar-se a ver” que produz efeitos catastróficos em uma sociedade inconsciente de seus próprios processos.
Nesta São Paulo do começo de século 21 não é permitido cobrir “fachadas” com propagandas e outdoors. A proibição, ainda que democrática, produz um novo efeito de observação da cidade. Tornou-se visível o que se ocultava por trás do “embelezamento” capcioso sobre um outro cenário. A obrigação do padrão do liso é efeito da democracia que, no entanto, flerta com sua manutenção autoritária. É o desejo governamental da neutralidade e da objetividade no espaço público o que deve servir de cenário à vida na cidade. Governar é no Brasil a habilidade de comandar a fachada que na administração paulistana sai do símbolo para entrar na prática mais imediata do cotidiano. A vontade de fachada é, afinal, uma vontade de poder compartilhada por toda a cultura em todos os seus níveis.
A pixação é o contrário do outdoor, ainda que compartilhe com ele a proibição de aparecer no cenário urbano comprometido pelo governo com uma neutralidade que serve à mesma ocultação de carroceiros e outros excluídos. Ampara-se no olhar burguês cego para mendigos e crianças abandonadas nas ruas. Enquanto o outdoor pode se sustentar no pagamento das taxas que o permitem, a pixação não alcança nenhuma autorização, ela está fora das relações de produção. O que o outdoor escondia era muitas vezes a própria pixação, enquanto a pixação não esconde nada, ela é o que se mostra quando ninguém quer ver sendo meramente compreendida como “ofensa” ao muro branco. Anticapitalista, a pixação não se insere em nenhuma lógica produtiva, ela é irrupção de algo que não pode ser dito. Sem pagar taxas, o pichador exercerá uma espécie de lógica da denúncia. Mas quem poderá perceber?
Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento a ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade. Um abaixo-assinado, às vezes surdo, às vezes cego, pleno de erros, analfabeto, precário em sua retórica, mas que, em sua forma e conteúdo, sinaliza um retrato em negativo da verdade quanto ao espaço – e nosso modo de percebê-lo – nas sociedades urbanas. Espaço atravessado, estraçalhado, pela exclusão social.
A pixação é uma gramática que requer a compreensão da brancura dos muros. O gesto de escrever só pode ser compreendido tendo em vista que todo signo, letra, palavra, investe-se contra ou a favor de um branco pressuposto no papel. O grau zero da literatura é esta luta com o branco. A escrita é combate contra o branco, negação do alvor fanático, como o pensamento é sempre oposição e negação do que se dispõe como evidente, convencional, pressuposto. Por outro lado, a escrita é abertura e dissecação do branco, lapidação do branco pelo esforço da pedra, mas nunca sua confirmação, nunca é a ação da borracha, do apagamento, da camada de tinta que alisará o passado, o que desagrada ver. Sua lógica é a do inconformismo infinito. Imagine-se uma sociedade em que o papel não fosse feito para a escrita, em que as superfícies brancas de celulose não sustentassem ideias, comunicação, expressão, afetos, anseios, angústias. Imagine-se uma sociedade em branco e começar-se-á a entender porque a pixação nas grandes cidades é bem mais do que um ato vândalo que, para além de ser uma forma de violência, define a cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada. O pichador é o mais ousado escritor de todos os tempos. Diante do pichador todo escritor é ingênuo. Diante da pixação a literatura é lixo.
A Cidade como Mídia
Uma leitura da pixação que veja nela a mera ofensa ao branco perderá de vista a negação filosófica do branco que é exercida pela pixação. A pixação eleva o muro a campo de experiência, faz dele algo mais do que parede separadora de territórios. Mais do que propriedade invadida é a própria questão da propriedade quanto ao que se vê que é posta em xeque.
A pixação é o grito impresso nos muros. Ação afetivo-reflexiva em uma sociedade violenta que não aceita a violência que advém de um estado de violência. Ela é a marca antiespetacular, o furo no padrão da falsidade estética que estrutura a cidade. É a irrupção do insuportável à leitura e que exige leitura para a qual a tão assustada quanto autoritária sociedade civil é analfabeta. E politicamente analfabeta.
Em vez do gesto autocontente, o que a pixação revela é a irrupção de uma lírica anormal. A Internet com seus blogs (horrendos, bonitos, mais bem feitos ou mais mal-humorados) é o seu análogo perfeito. A pixação revela o desejo da publicação que manifesta a cidade como uma grande mídia em que a edição se dá como transgressão e reedição onde o pichador é o único a buscar, para além das meras possibilidades de informar ou comunicar, a verdade atual da poesia, aquela que revela a destruição da beleza, o espasmo, a irregularidade, a afronta, que não foi promovida pela pixação, mas que ela dá a ver. Em sua existência convulsa, a pixação é a única lírica que nos resta.
* Tirado daqui: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/pensamento-pixacao
Publicado em 30 de março de 2010
Para questionar a estética da fachada
Marcia Tiburi
A revolta geral da sociedade contemporânea contra a pichação se ampara na hipótese de seu caráter violento. Usarei a expressão pixação, com X, para tentar tocar no X da questão. A estética da brancura ou do liso dos muros, hegemônica em uma sociedade que preserva o ideal da limpeza estética, dificulta outras leituras do fenômeno da pixação. O excessivo amor pela lisura dos muros, a sacralização que faz da pixação demônio, revela enquanto esconde uma estética da fachada.
Toda estética inclui uma ética, assim a da fachada. Fachada é aquilo que mostra uma habitação por fora; pode tanto dar sequência ao que há na interioridade, quanto ser dela desconexo. É da fachada que se baste por si mesma à medida que lhe é próprio ser suficiente aos olhos. A estética da fachada que defende o muro branco é a mesma que sustenta a plastificação dos rostos, a ostentação dos luxos no “aparecimento geral” da cultura espetacular, no histérico “dar-se a ver” que produz efeitos catastróficos em uma sociedade inconsciente de seus próprios processos.
Nesta São Paulo do começo de século 21 não é permitido cobrir “fachadas” com propagandas e outdoors. A proibição, ainda que democrática, produz um novo efeito de observação da cidade. Tornou-se visível o que se ocultava por trás do “embelezamento” capcioso sobre um outro cenário. A obrigação do padrão do liso é efeito da democracia que, no entanto, flerta com sua manutenção autoritária. É o desejo governamental da neutralidade e da objetividade no espaço público o que deve servir de cenário à vida na cidade. Governar é no Brasil a habilidade de comandar a fachada que na administração paulistana sai do símbolo para entrar na prática mais imediata do cotidiano. A vontade de fachada é, afinal, uma vontade de poder compartilhada por toda a cultura em todos os seus níveis.
A pixação é o contrário do outdoor, ainda que compartilhe com ele a proibição de aparecer no cenário urbano comprometido pelo governo com uma neutralidade que serve à mesma ocultação de carroceiros e outros excluídos. Ampara-se no olhar burguês cego para mendigos e crianças abandonadas nas ruas. Enquanto o outdoor pode se sustentar no pagamento das taxas que o permitem, a pixação não alcança nenhuma autorização, ela está fora das relações de produção. O que o outdoor escondia era muitas vezes a própria pixação, enquanto a pixação não esconde nada, ela é o que se mostra quando ninguém quer ver sendo meramente compreendida como “ofensa” ao muro branco. Anticapitalista, a pixação não se insere em nenhuma lógica produtiva, ela é irrupção de algo que não pode ser dito. Sem pagar taxas, o pichador exercerá uma espécie de lógica da denúncia. Mas quem poderá perceber?
Não é possível negar o direito ao muro branco ou liso em uma sociedade democrática, na qual está sempre em jogo a convivência das diferenças. O direito ao muro branco é efeito da democracia. Mas a questão é bem mais séria do que a sustentação de uma aparência ou de um padrão do gosto. A pixação é também um efeito da democracia, mas apenas no momento a ela inerente em que ela nega a si mesma. Ela é efeito do mutismo nascido no cerne da democracia e por ela negado ao fingir a inexistência de combates intestinos e velados. A pixação é, neste sentido, a assinatura compulsiva de um direito à cidade. Um abaixo-assinado, às vezes surdo, às vezes cego, pleno de erros, analfabeto, precário em sua retórica, mas que, em sua forma e conteúdo, sinaliza um retrato em negativo da verdade quanto ao espaço – e nosso modo de percebê-lo – nas sociedades urbanas. Espaço atravessado, estraçalhado, pela exclusão social.
A pixação é uma gramática que requer a compreensão da brancura dos muros. O gesto de escrever só pode ser compreendido tendo em vista que todo signo, letra, palavra, investe-se contra ou a favor de um branco pressuposto no papel. O grau zero da literatura é esta luta com o branco. A escrita é combate contra o branco, negação do alvor fanático, como o pensamento é sempre oposição e negação do que se dispõe como evidente, convencional, pressuposto. Por outro lado, a escrita é abertura e dissecação do branco, lapidação do branco pelo esforço da pedra, mas nunca sua confirmação, nunca é a ação da borracha, do apagamento, da camada de tinta que alisará o passado, o que desagrada ver. Sua lógica é a do inconformismo infinito. Imagine-se uma sociedade em que o papel não fosse feito para a escrita, em que as superfícies brancas de celulose não sustentassem ideias, comunicação, expressão, afetos, anseios, angústias. Imagine-se uma sociedade em branco e começar-se-á a entender porque a pixação nas grandes cidades é bem mais do que um ato vândalo que, para além de ser uma forma de violência, define a cidade como um grande livro escrito em linguagem cifrada. O pichador é o mais ousado escritor de todos os tempos. Diante do pichador todo escritor é ingênuo. Diante da pixação a literatura é lixo.
A Cidade como Mídia
Uma leitura da pixação que veja nela a mera ofensa ao branco perderá de vista a negação filosófica do branco que é exercida pela pixação. A pixação eleva o muro a campo de experiência, faz dele algo mais do que parede separadora de territórios. Mais do que propriedade invadida é a própria questão da propriedade quanto ao que se vê que é posta em xeque.
A pixação é o grito impresso nos muros. Ação afetivo-reflexiva em uma sociedade violenta que não aceita a violência que advém de um estado de violência. Ela é a marca antiespetacular, o furo no padrão da falsidade estética que estrutura a cidade. É a irrupção do insuportável à leitura e que exige leitura para a qual a tão assustada quanto autoritária sociedade civil é analfabeta. E politicamente analfabeta.
Em vez do gesto autocontente, o que a pixação revela é a irrupção de uma lírica anormal. A Internet com seus blogs (horrendos, bonitos, mais bem feitos ou mais mal-humorados) é o seu análogo perfeito. A pixação revela o desejo da publicação que manifesta a cidade como uma grande mídia em que a edição se dá como transgressão e reedição onde o pichador é o único a buscar, para além das meras possibilidades de informar ou comunicar, a verdade atual da poesia, aquela que revela a destruição da beleza, o espasmo, a irregularidade, a afronta, que não foi promovida pela pixação, mas que ela dá a ver. Em sua existência convulsa, a pixação é a única lírica que nos resta.
* Tirado daqui: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/pensamento-pixacao
Fogo e fúria
Pode ser porque ela chegou, finalmente. Estou esperando a chegada há já uns bons meses, estranhando a demora, me perguntando se há alguma coisa errada. Atrasada que só, mas antes tarde.
Segundo dia de insônia por essas noites. Isso de deitar e a mente continuar nonstop, e você tentar e tentar desligar e ela seguir em frente.
Como projeto de vida, totalmente ruim. Como pessoa totalmente fodida, a única saída.
Mas depois de talvez alguns anos, nos reencontramos. Eu e a Insônia. Ela costumava me visitar aos finais de semestres, quando tinha 4 ou 5 ou 6 ou 7 trabalhos para entregar todos na mesma semana e, mesmo se tratando de 5 ou, estourando, 10 páginas, tudo junto era muita coisa. E, sim, eu fiz absolutamente todos os meus trabalhos da universidade. Não peguei na internet nem copiei de amigo unzinho sequer.
Pois pronto, juntas nós vamos aqui virar as noites e fazer o que deve ser feito.
A reação adversa, no entanto, é aquele humor do cão que vem acompanhando.
Mas pode ser que eu esteja sendo injusta comigo. Uma irritaçãozinha de leve é de se esperar, quando a gente percebe como as pessoas são toscas. As pessoas em geral, mesmo, e o mundo que tem tanta coisa errada. E algumas pessoas em particular, mas tentemos abstrair.
Aí, nessas, muito por minha culpa, vejo uma pessoa falando de um tal "vandalismo terceiro-mundista". Seu cu, né? A raiva é tanta que o coração pula uma batida e dói, a razão falta e o que fica no lugar é a agressão. Ou o tal "vandalismo terceiro-mundista", porque, né?, nós aqui de baixo não somos "civilizados". Como se prestasse muito, a "civilização". E o tal vandalismo a que o infeliz se refere não acontece aqui no sertão, não, é bem ali no berço, no centro do mundo, quase diria no Éden, tamanha a perfeição.
Há algum tempo, relativamente pouco, uma conversa com um desses seres superiores me deixou ruminando. Ele nos classificou de exóticos e alguns de nós, exóticos, ficaram fulos da vida. Na hora eu nem dei tanta bola, talvez por causa do clima bacana que, afora isso, rondava a mesa, mas deixei guardado*.
Depois, vi a Marcia Tiburi, adorada, defendendo os caras que picharam o Cristo Redentor; porque ela defende a pichação como forma de expressão, talvez única para quem tem todas as suas outras vozes caladas. Defendia o direito da pessoa de dar um tapa na cara da sociedade, que fica toda sentida porque sujaram a estátua. E é vandalismo.
E o terceiro-mundo, coitado?
Sei lá, não conheço. Ontem mesmo, antes de dormir, lembrei de uma conversa com uma amiga, sobre as pequenas coisas que me fazem muito feliz; e pensei na tatuagem da Fernanda Young do contorno do mapa do Brasil, e em fazer uma tatuagem do contorno do mapa do Brasil, mas aí ia ter que ter toda a América do Sul, e depois toda a América, e talvez depois todo o mundo. E se há no mundo uma idéia que me faz feliz é essa da América, que eu desconheço e com toda a podridão nela contida, porque nele contida. A podridão vem das pessoas, mais do que dos lugares.
Não sei e não quero saber de teoria. Talvez porque não possa, mas só talvez também por falta de vontade.
Nem chego, então, a conclusão nenhuma. O coitado do "exótico" já voltou lá pro mundo dele, e nós seguimos aqui. Pensando ainda nele, mas pensando também em nós ou, talvez, nem pensando.
Não acredito, porém, que a irritação seja resultado da insônia. Não essa irritação, ao menos. É que tem umas coisas por aí que tiram a gente do sério. Eu, no auge da fúria, busquei conselho em um amigo que sugeriu "fogo, muito fogo", então lá foi.
* Putz, descobri depois que o infeliz não disse exótico, não, disse foi "excêntrico". "Excêntrico", meu senhor! Fora daonde?!?!
Segundo dia de insônia por essas noites. Isso de deitar e a mente continuar nonstop, e você tentar e tentar desligar e ela seguir em frente.
Como projeto de vida, totalmente ruim. Como pessoa totalmente fodida, a única saída.
Mas depois de talvez alguns anos, nos reencontramos. Eu e a Insônia. Ela costumava me visitar aos finais de semestres, quando tinha 4 ou 5 ou 6 ou 7 trabalhos para entregar todos na mesma semana e, mesmo se tratando de 5 ou, estourando, 10 páginas, tudo junto era muita coisa. E, sim, eu fiz absolutamente todos os meus trabalhos da universidade. Não peguei na internet nem copiei de amigo unzinho sequer.
Pois pronto, juntas nós vamos aqui virar as noites e fazer o que deve ser feito.
A reação adversa, no entanto, é aquele humor do cão que vem acompanhando.
Mas pode ser que eu esteja sendo injusta comigo. Uma irritaçãozinha de leve é de se esperar, quando a gente percebe como as pessoas são toscas. As pessoas em geral, mesmo, e o mundo que tem tanta coisa errada. E algumas pessoas em particular, mas tentemos abstrair.
Aí, nessas, muito por minha culpa, vejo uma pessoa falando de um tal "vandalismo terceiro-mundista". Seu cu, né? A raiva é tanta que o coração pula uma batida e dói, a razão falta e o que fica no lugar é a agressão. Ou o tal "vandalismo terceiro-mundista", porque, né?, nós aqui de baixo não somos "civilizados". Como se prestasse muito, a "civilização". E o tal vandalismo a que o infeliz se refere não acontece aqui no sertão, não, é bem ali no berço, no centro do mundo, quase diria no Éden, tamanha a perfeição.
Há algum tempo, relativamente pouco, uma conversa com um desses seres superiores me deixou ruminando. Ele nos classificou de exóticos e alguns de nós, exóticos, ficaram fulos da vida. Na hora eu nem dei tanta bola, talvez por causa do clima bacana que, afora isso, rondava a mesa, mas deixei guardado*.
Depois, vi a Marcia Tiburi, adorada, defendendo os caras que picharam o Cristo Redentor; porque ela defende a pichação como forma de expressão, talvez única para quem tem todas as suas outras vozes caladas. Defendia o direito da pessoa de dar um tapa na cara da sociedade, que fica toda sentida porque sujaram a estátua. E é vandalismo.
E o terceiro-mundo, coitado?
Sei lá, não conheço. Ontem mesmo, antes de dormir, lembrei de uma conversa com uma amiga, sobre as pequenas coisas que me fazem muito feliz; e pensei na tatuagem da Fernanda Young do contorno do mapa do Brasil, e em fazer uma tatuagem do contorno do mapa do Brasil, mas aí ia ter que ter toda a América do Sul, e depois toda a América, e talvez depois todo o mundo. E se há no mundo uma idéia que me faz feliz é essa da América, que eu desconheço e com toda a podridão nela contida, porque nele contida. A podridão vem das pessoas, mais do que dos lugares.
Não sei e não quero saber de teoria. Talvez porque não possa, mas só talvez também por falta de vontade.
Nem chego, então, a conclusão nenhuma. O coitado do "exótico" já voltou lá pro mundo dele, e nós seguimos aqui. Pensando ainda nele, mas pensando também em nós ou, talvez, nem pensando.
Não acredito, porém, que a irritação seja resultado da insônia. Não essa irritação, ao menos. É que tem umas coisas por aí que tiram a gente do sério. Eu, no auge da fúria, busquei conselho em um amigo que sugeriu "fogo, muito fogo", então lá foi.
* Putz, descobri depois que o infeliz não disse exótico, não, disse foi "excêntrico". "Excêntrico", meu senhor! Fora daonde?!?!
sábado, 1 de maio de 2010
Closer
Já assisti Closer tantas vezes que não posso contar.
Essa semana assisti a metade d'O último dos moicanos, que foi também repetido milhares de vezes, há uns quinze anos. Ele e o Robin Hood com o Kevin Costner. Sabia de cor, quase, o Robin. E via dublado, ainda, mas essas coisas meio pré-adolescentes, né. Vi lá uns pedaços do moicano e fiquei um tanto decepcionada, apesar de a trilha sonora ainda parecer maravilhosa.
Mas Closer não foi dessas paixões. Se forçar a memória, começo a achar que vi pela primeira vez no cinema, com uma amiga que odiou. Depois vi de bode, com a companhia de uma grande amiga e um sorvete. E depois não lembro mais. Acho que nunca mais vi por querer, mais por estar passando e eu dizer "ah, vou ver só aquela cena" e pronto, chegam os letreiros.
Peguei agora do meio e parei. DDA e tudo o mais.
O pior é que eu não entendo lhufas do filme. Quem mente pra quem, quem ama quem, quem tá só de sacanagem. Entro numas de Bentinho, no Dom Casmurro, que eu sei que é furada, mas, sem entender, fico que nem criança olhando fixamente tentando desvendar o mistério.
Acho que é porque eu não sou adulta. Não conheço o jogo e, assim, não consigo entrar na brincadeira.
Mas gosto de ver, sei lá por quê. Isso de desafiar a arrogância e me colocar no meu lugar, de bico caladinho.
Mas tão legal,
Essa semana assisti a metade d'O último dos moicanos, que foi também repetido milhares de vezes, há uns quinze anos. Ele e o Robin Hood com o Kevin Costner. Sabia de cor, quase, o Robin. E via dublado, ainda, mas essas coisas meio pré-adolescentes, né. Vi lá uns pedaços do moicano e fiquei um tanto decepcionada, apesar de a trilha sonora ainda parecer maravilhosa.
Mas Closer não foi dessas paixões. Se forçar a memória, começo a achar que vi pela primeira vez no cinema, com uma amiga que odiou. Depois vi de bode, com a companhia de uma grande amiga e um sorvete. E depois não lembro mais. Acho que nunca mais vi por querer, mais por estar passando e eu dizer "ah, vou ver só aquela cena" e pronto, chegam os letreiros.
Peguei agora do meio e parei. DDA e tudo o mais.
O pior é que eu não entendo lhufas do filme. Quem mente pra quem, quem ama quem, quem tá só de sacanagem. Entro numas de Bentinho, no Dom Casmurro, que eu sei que é furada, mas, sem entender, fico que nem criança olhando fixamente tentando desvendar o mistério.
Acho que é porque eu não sou adulta. Não conheço o jogo e, assim, não consigo entrar na brincadeira.
Mas gosto de ver, sei lá por quê. Isso de desafiar a arrogância e me colocar no meu lugar, de bico caladinho.
Mas tão legal,
Nando
E agora, que eu apaixonei no Nando Reis?
Já ensaio há algum tempo, de pegar uma música começada na rádio, mas até agora foi um lance mais casual. E ontem, bem de manhãzinha, ouvi sem querer. E depois, já fim de tarde, peguei uma dessas sequências que os programadores parece que escolhem pra você, praí meia hora só de música muito boa e querida.
E do meio do limbo em que eu ando, de não saber bem o que ouvir, e de ter essa aversão idiota pela novidade, gamei aqui nele, num videozinho do youtube, cheio de sorrisos e ondas. A figura e o som e tudo o mais.
Apesar da alegriazinha que chega contaminando, sinto também algo de uma insatisfação quanto à pessoa que eu sou. Queria ser daquelas que, na onda, liga pra alguém, ou liga só o carro, enche o tanque, calibra os pneus, compra umas guloseimas, água de coco, põe um óculos de sol na cara e desce. Que vai ouvi-lo lá, à beira-mar, só porque sim.
Mas não, né? Terminar aqui o trabalho, levar a cachorra no vet, arrumar a cama, ver o almoço, terminar o trabalho, o trabalho, o trabalho. Terminar, achando que então serei feliz.
Que se eu estivesse na estrada, de carro cheio, seria então feliz.
Palavrinha encruada, essa, que a gente vive buscando.
E, enquanto procura, arruma a cama, vê o cachorro, o almoço, o trabalho. E se sente melhor, também, e talvez chegue um tantico mais perto do destino.
Mas o mar. Eu ainda não sei bem qual a relação possível, se essa privação que traz uma vontade enorme, ou se seria possível desejá-lo no contato diário.
Sei não e também não vou descobrir agora.
À cama, então.
Já ensaio há algum tempo, de pegar uma música começada na rádio, mas até agora foi um lance mais casual. E ontem, bem de manhãzinha, ouvi sem querer. E depois, já fim de tarde, peguei uma dessas sequências que os programadores parece que escolhem pra você, praí meia hora só de música muito boa e querida.
E do meio do limbo em que eu ando, de não saber bem o que ouvir, e de ter essa aversão idiota pela novidade, gamei aqui nele, num videozinho do youtube, cheio de sorrisos e ondas. A figura e o som e tudo o mais.
Apesar da alegriazinha que chega contaminando, sinto também algo de uma insatisfação quanto à pessoa que eu sou. Queria ser daquelas que, na onda, liga pra alguém, ou liga só o carro, enche o tanque, calibra os pneus, compra umas guloseimas, água de coco, põe um óculos de sol na cara e desce. Que vai ouvi-lo lá, à beira-mar, só porque sim.
Mas não, né? Terminar aqui o trabalho, levar a cachorra no vet, arrumar a cama, ver o almoço, terminar o trabalho, o trabalho, o trabalho. Terminar, achando que então serei feliz.
Que se eu estivesse na estrada, de carro cheio, seria então feliz.
Palavrinha encruada, essa, que a gente vive buscando.
E, enquanto procura, arruma a cama, vê o cachorro, o almoço, o trabalho. E se sente melhor, também, e talvez chegue um tantico mais perto do destino.
Mas o mar. Eu ainda não sei bem qual a relação possível, se essa privação que traz uma vontade enorme, ou se seria possível desejá-lo no contato diário.
Sei não e também não vou descobrir agora.
À cama, então.
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