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domingo, 2 de maio de 2010

Fogo e fúria

Pode ser porque ela chegou, finalmente. Estou esperando a chegada há já uns bons meses, estranhando a demora, me perguntando se há alguma coisa errada. Atrasada que só, mas antes tarde.
Segundo dia de insônia por essas noites. Isso de deitar e a mente continuar nonstop, e você tentar e tentar desligar e ela seguir em frente.
Como projeto de vida, totalmente ruim. Como pessoa totalmente fodida, a única saída.
Mas depois de talvez alguns anos, nos reencontramos. Eu e a Insônia. Ela costumava me visitar aos finais de semestres, quando tinha 4 ou 5 ou 6 ou 7 trabalhos para entregar todos na mesma semana e, mesmo se tratando de 5 ou, estourando, 10 páginas, tudo junto era muita coisa. E, sim, eu fiz absolutamente todos os meus trabalhos da universidade. Não peguei na internet nem copiei de amigo unzinho sequer.
Pois pronto, juntas nós vamos aqui virar as noites e fazer o que deve ser feito.
A reação adversa, no entanto, é aquele humor do cão que vem acompanhando.
Mas pode ser que eu esteja sendo injusta comigo. Uma irritaçãozinha de leve é de se esperar, quando a gente percebe como as pessoas são toscas. As pessoas em geral, mesmo, e o mundo que tem tanta coisa errada. E algumas pessoas em particular, mas tentemos abstrair.
Aí, nessas, muito por minha culpa, vejo uma pessoa falando de um tal "vandalismo terceiro-mundista". Seu cu, né? A raiva é tanta que o coração pula uma batida e dói, a razão falta e o que fica no lugar é a agressão. Ou o tal "vandalismo terceiro-mundista", porque, né?, nós aqui de baixo não somos "civilizados". Como se prestasse muito, a "civilização". E o tal vandalismo a que o infeliz se refere não acontece aqui no sertão, não, é bem ali no berço, no centro do mundo, quase diria no Éden, tamanha a perfeição.
Há algum tempo, relativamente pouco, uma conversa com um desses seres superiores me deixou ruminando. Ele nos classificou de exóticos e alguns de nós, exóticos, ficaram fulos da vida. Na hora eu nem dei tanta bola, talvez por causa do clima bacana que, afora isso, rondava a mesa, mas deixei guardado*.
Depois, vi a Marcia Tiburi, adorada, defendendo os caras que picharam o Cristo Redentor; porque ela defende a pichação como forma de expressão, talvez única para quem tem todas as suas outras vozes caladas. Defendia o direito da pessoa de dar um tapa na cara da sociedade, que fica toda sentida porque sujaram a estátua. E é vandalismo.
E o terceiro-mundo, coitado?
Sei lá, não conheço. Ontem mesmo, antes de dormir, lembrei de uma conversa com uma amiga, sobre as pequenas coisas que me fazem muito feliz; e pensei na tatuagem da Fernanda Young do contorno do mapa do Brasil, e em fazer uma tatuagem do contorno do mapa do Brasil, mas aí ia ter que ter toda a América do Sul, e depois toda a América, e talvez depois todo o mundo. E se há no mundo uma idéia que me faz feliz é essa da América, que eu desconheço e com toda a podridão nela contida, porque nele contida. A podridão vem das pessoas, mais do que dos lugares.
Não sei e não quero saber de teoria. Talvez porque não possa, mas só talvez também por falta de vontade.
Nem chego, então, a conclusão nenhuma. O coitado do "exótico" já voltou lá pro mundo dele, e nós seguimos aqui. Pensando ainda nele, mas pensando também em nós ou, talvez, nem pensando.
Não acredito, porém, que a irritação seja resultado da insônia. Não essa irritação, ao menos. É que tem umas coisas por aí que tiram a gente do sério. Eu, no auge da fúria, busquei conselho em um amigo que sugeriu "fogo, muito fogo", então lá foi.

* Putz, descobri depois que o infeliz não disse exótico, não, disse foi "excêntrico". "Excêntrico", meu senhor! Fora daonde?!?!

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