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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O tempo é um das minhas maiores obsessões.
Em vários aspectos.
Um é a velocidade, que é ao mesmo tempo rápida e lenta, que passa e para e, por segundos, volta. Isso de voltar não faz nenhum sentido, exceto pela concretude da realidade do retorno.
Outro é isso das janelas. Como se a vida fosse um trem que passa, com algumas janelas abertas e outras fechadas e que a gente fica tentando entrar, ou sair, e que depois que a janela passou acabou; você pode até entrar no trem - ou sair dele - por outra janela, mas aí cai em outro vagão, com outras pessoas e, quiçá, outro destino. A janela que foi não volta, por mais que o tempo por vezes pareça fazê-lo.
Tem crueldade e beleza nisso, acho que em medidas exatamente iguais.
Outra ainda é o mistério, que envolve tudo isso que parece tão claro. E se a gente achava que a janela tinha passado, porque o tempo corria, mas na verdade ele ia lento e ainda dá pra alcançar? Quando correr e quando desistir, como saber?
E essa brincadeira que é escrever? Quando é cedo e quando é tarde?
Não sei mesmo se o momento já passou de contar o que eu queria dizer.
Nem, na verdade contar, que eu achei o pedacinho do Bernardo Soares em que ele diz que os fatos não o interessam, as emoções sim e quase dei um grito e falei "isso mesmo, meu irmão". Como se Bernardo precisasse da minha aprovação - que ele tem, independente de necessidades.
Mas o fato é que me peguei pensando em como pode acontecer isso da gente amar as pessoas.
Penso que sempre tive na minha vida modelos muito fortes e, por isso, achei que amável era a força, a coragem, a certeza. Mesmo sabendo que isso de certeza não existe, eu pra gostar de qualquer pessoa tenho que admirá-la, tenho que ver nela alguma coisa que eu queria ser e não consigo, e me engano dizendo que talvez um dia.
Aprendi, não sei se ensinada por alguém, a olhar para cima e amar para cima. Eu amo a força, reconhecendo nela sua fragilidade. Amo a armadura e os buracos sem os quais ela não se mexe. Se admiro, amo, e é esse o meu fetiche.
Então é claro que o oposto gera, no mínimo, uma ansiedade. E ambos os lados são muito mascarados, se travestem e se imiscuem e chega uma hora que a gente não sabe onde começa um e termina o outro.
Só que de repente eu percebo uma coisa que não sabia, que de verdade ignorava dentro desse mundo de coisas que desconheço.
Percebi, de chofre, que é possível amar o desamparo, quando ele se manifesta com pureza cristalina. E a mesma coisa que assusta, que rejeita, repele, repudia, é tão admirável quanto seu inverso.
Se é raríssimo um exemplo, mesmo que volátil, de força, quão mais rara é essa vulnerabilidade exposta, frágil, porque não se cobre de mais nada? Eu sou dessas pessoas que raramente fica triste, porque imediatamente recobre a tristeza de raiva e ressentimento ou qualquer outro desses sentimentos explosivos. Eu, desamparada, sou animal acuado que ataca quem tentar chegar perto.
E acho um espetáculo isso de vê-lo como é, com uma simplicidade que quase chega à loucura.
Sem armadura, sem arma, sem coberta, sem nem mesmo lágrima. Sem nada, só a pessoa ali com tudo que ela não tem, e é das cenas mais tocantes que eu já imaginei na vida.

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