A música dizia que tornar o amor real é expulsá-lo de você, pra que ele possa ser de alguém.
Parada em frente ao cursor piscante, eu penso que o caminho mesmo é a saída, de dentro pra fora, não só de amor ou sei lá o que, de tudo mesmo.
E, parada em frente ao cursor piscante, guardo em mim tudo aquilo que não consigo expulsar, porque não sei.
Vinha pensando em dizer que generosidade é uma coisa muito bacana e muito em falta.
Ia dizendo que acho que falta porque só pode ser generoso quem é cheio, e quem ousa se dizer cheio num mundo tão faltoso?
Disse, e aí?
Será que isso era tudo, ou sobrou algo agarrado nas bordas?
Sobra e muito.
Eu tenho aqui uma característica, que não sei nunca se é só minha, porque tenho também a mania de achar que tudo é só meu. Fico às vezes imaginando se, no dia em que eu descobrir minha total mediocridade, vou sentir pesar ou alívio. Talvez os dois, ou alguma outra coisa sem nome, porque nesse dia vou alcançar o impossível feito de me ver com os olhos de outros ou, ainda mais impossível, ver os outros com olhos meus.
E a tal característica é bem essa, da falta de nomes. Muitas vezes eu me pego pensando em coisas que não sei dizer, porque não sei como elas chamam. Ou talvez até saiba o nome que se costuma dar a elas, mas eles me parecem inadequados. Penso, então, em imagens, talvez cores fugidias, penso em som, mas não em palavra. Guardo, então, silêncio, porque o acho preferível ao erro.
Isso pra dizer que fiquei foi pensando muito nessa da generosidade.
Tentando lembrar das vezes em que consegui ser, e de outras em que falhei. E o oposto também, quando senti que eram comigo e quando não.
Em outros momentos talvez essa reflexão viesse com aquele aperto da expectativa frustrada, do desejo de que as pessoas correspondessem às minhas vontades e todas essas coisas mesquinhas que a gente sente tanto.
Agora, sinto aqui talvez alguma pena e só. Porque as pessoas são o que elas podem ser e dão o que elas têm pra dar e isso de não ter pra dar é coisa muito triste. E eu reconheço o quanto sou também muito insuficiente.
Sobra ainda muito, talvez o essencial, mas a porta vai se fechando lentamente, nesse dia cinza, frio e úmido de maio. Sobe o silêncio e as palavras que ele enterra talvez possam ser encontradas num outro dia, ou essa é sempre a esperança que fica.
Fica também uma insatisfação, de inadequação e ausência, de falta de inspiração e incompetência, mas imperfeição e falha fazem parte da brincadeira.
Impera a mediocridade, enquanto seguimos buscando a grandeza.
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