Há anos - anos!!! - deixei de ler o Livro do Desassossego, interminado.
Nunca deixei de pensar naquele excerto do transformar-se em si. Vez ou outra vou tentar explicá-lo a alguém, alguma outra alma perdida por aqui, fazendo todas as ressalvas de que o lance é ler o Bernardo falando e que eu, M., não sou capaz de expressar o que ele diz ali mas, nessas ironias que a vida aprecia tanto pôr à nossa frente, sigo tentando explicar.
Aí que deixei lá, o Bernardo, na solidão de uma prateleira qualquer, ou na multidão de uma prateleira qualquer, com um marca-páginas em seu âmago e milhares de páginas marcadas, dobradinhas na ponta, traçando um mapa de uma leitura que jamais voltará. Por que aquele caminho já passou e aquela pessoa que leu já não é mais, mas é ainda, né Bernardo, a mesma. Transforma-se, transmuta-se para ser tornar o que já era.
Nem nada disso importa; é só que o que eu queria vir dizer, num momento de reflexão original, provavelmente já disse à exaustão.
E quem se importa?
Eu assistia dia desses, ou daqueles, a um programa em que as apresentadoras perguntavam se elas se casariam consigo mesmas. Lembrei de uma discussão antiga - que agora as coisas todas já são muito antigas - em que eu dizia reiteradamente o quanto gostaria de tirar férias de mim mesma. Claro que eu não me casaria comigo, se já me canso de mim sendo só uma. É só que ali, naqueles tempos idos que não voltam, esse cansaço era mais. Mais cansado, mais angustiante, talvez mais vivo, enquanto hoje, sei lá, tá tudo certo.
Não é meio desesperador isso de estar tudo certo? Tudo bem, óquêi, se não deu, paciência, tudo passa, a vida passa, tudo certo.
Não acho que eu trocaria esse quê de pasmaceiras por tempestades passadas, mas também... sei lá.
Tenho sentido muito isso, que me distanciei dessa vida que se transborda em arte. Vi ali pela televisão umas pessoas cantando e foi assim quase como ler pela primeira vez Cem Anos de Solidão, quase descobrir uma coisa nova pensar: nossa, é mesmo, música. Não que eu não ouça música constantemente, no rádio do carro, da cozinha, na aula de dança; mas o fato é que tenho andado assim impaciente, mudo logo para uma estação de notícias porque o fato é que, para mim, poucas são as coisas que têm me tocado.
Aí lembro que é óbvio que estou mentindo, porque dia desses mesmo encanei com a Bethânia dizendo da coisa feita, da mandinga, da maleita. E ouvi Caymmi, aquele mesmo disco com que minha mãe me acordava há já algumas décadas, nas manhãs de domingo, em último volume. E o mar de Caymmi, que, também ele, sempre volta. E há pouco tempo ouvi aí algo do Vinícius e, ainda antes, uma parada num samba do... meu deus, como ele chama? O mega sambista de São Paulo... Adoniran! Ufa... Bem tenho dito que as palavras se me evadem. E, ao longo de tudo, Bethânia de novo, cantando do navio negreiro, primeiro à capela, aí entra ali, acho, um violão e depois um pandeiro.
Eu nova de hoje me transformo no que era e fico obcecada por ali um segundo, ou meio, numa música qualquer e repito o trecho ad infinitum.
Mas, afinal, o que era mesmo que eu vinha dizer?
Sim, vinha dizer que, revisitando o passado achei ali uma referência a Vinícius e a arte do encontro.
Pensei ali no que eu sou, que sei da arte do encontro e do Vinícius e que, mesmo estando tudo certo, ando cansada.
Assim, algo meio presa e não apenas em mim mesma. Ou tão somente em mim mesma, que afinal esta é mesmo a maior prisão.
Mas pensei nisso, e lembrei disso, e me lembrei de quando era tão grande a ânsia por dizer, de quando havia sempre mais a dizer, por vezes a gritar e, infelizmente, espernear; mas hoje está tudo certo.
Ou quase certo, afinal cá estou eu a dizer.
Dizer o que, como se percebe, também não sei exatamente.
Me dizer a mim, talvez; me dizer para mim, que voltarei um dia e pensarei que não está assim tão mau.
Ou dizer, apenas, que estou aqui, como sempre estive e estarei, porque é impossível estar em outro lugar. E, diferente do desespero que a ideia me causava há alguns anos, para o bem e para o mal, está tudo certo.
Nem é, acho, o pior lugar para se estar.
Talvez sobre aqui uma melancolia por aqueles que saíram antes do apito final.
Mas tudo bem.