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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Lembretes

Vontade de dizer coisas.
Uma que eu desenvolvi essa mania de, quando fico bêbada, tentar avaliar o quão bêbada estou. Não sei de onde saiu isso, mas vez ou outra, quando passo da primeira cerveja, começo a perguntar pra geral: eu tô bêbada. O que, eu sei, é a maior babaquice, mas é também das coisas que a gente não controla quando o álcool sobe pro cérebro. E todo mundo sabe que bêbado é chato, então pelo menos não sou só eu. Parei de chorar, ao menos, pelo menos ultimamente, o que é sempre muito bom. Também meio que parei de beber, o que talvez explique, mas enfim.
As coisas estão relacionadas, pelo menos na minha lógica.
Fato é que eu não exatamente enfiei um pé na jaca, muito menos os dois, e diria que de 0 a 10 eu fiquei ali num sólido 5,5 ou 6,0, mas depois disso tava conversando com uma amiga sobre essa coisa de escrever. Ela tem um vocabulário do caralho, metade das coisas que ela fala eu não entendo, mas dizia que não tem. E eu pensando: afe, se você não tem, imagina eu.
Qual a relação entre uma coisa e outra, você se pergunta. É que as duas conversas aconteceram com a mesma pessoa. Total sentido.
Acontece que eu leio muito, portanto conheço muitas palavras. No entanto, não as coloco no devido uso, assim, diariamente. Em vez disso, continuo usando as mesmas palavras de sempre.
E tem umas palavras de que eu gosto particularmente, então as repito pelo simples prazer de dizê-las.
Aí tem aquelas expressões que eu acho divertidas, mas nem sempre uso. Lembrei disso agora porque tava procurando umas coisas aqui e achei uma correspondência em que eu me referia a alguém como xarope.
Que coisa fantástica, dizer que alguém é xarope. Acho que era uma expressão recorrente na minha infância, mas não sei por que deixei de aplicar.
Das coisas que preciso remediar.
Vou fazer cá uma lista dessas pequenas pérolas.
- xarope.
- ainda gosto muito de "pacote".

Foda



Ouvi esses dias essa música no rádio.
Gosto disso de rádio, porque tenho essa péssima memória e esqueço de músicas das quais não deveria me esquecer. Aí ele me lembra.
Normalmente, vou ao youtube mais para ouvir do que para ver, mas comecei a ver as imagens da Cássia e achei tão fodidas e doídas.
Aí entrei no feminista cansada, que eu adoro mas fazia tempo que não visitava, e tem umas coisas lá... também aqui nenhuma novidade, mas porra, tem hora que fica foda viver nesse mundo.

PS: Claro que essa letra tinha de ser do Nando Reis. E claro que a letra que ele canta é diferente da dela. Mas eu, apesar de achar o Nando tudo de bom nessa vida (apesar de ter detestado aquela música que ele pôs na novela, não só porque ela é chata pacas, mas porque me lembra outra linda do Zeca Baleiro), prefiro a Cássia.

Ônibus

Ok, ok, Maria Helena.
Eu sei que essa história de ônibus é meio velha, mas fazer o que se é neles que a vida acontece.
Aliás, eu tenho cá uma certa fantasia de um dia soltar um "ok, ok, Maria Helena" e um "Maria Helena, me dá um copo d'água" em ritmo de "Madalena".
Aliás, dos momentos mais engraçados que eu vivi nos últimos tempos. Primeiro, minha irmã se referindo à dentista da filha, que chama Magdalena, de repete começa  a cantar. Eu e a irmã temos essa relação assim desse jeito que irmãs são, e eu tento resistir às piadas dela porque ela deveras me irrita sobremaneira, mas tem umas horas que é difícil. Rolava algum estresse familiar, porque a pequena não tava usando o aparelho direito, o que levou ao surgimento de um dramático "mas o que eu vou dizer pra Dra. Magdalena?!". E a irmã se sai com um: "diz assim: 'ô, Madalena'...".
O mesmo vale para um dia em que, comentando as peripécias de uma reforma e que o diabo de uma caçamba não chegou, ou sei lá qual era o problema com ela, de repente começa: "traz a caçamba, traz a caçamba..." Sei lá, só é muito engraçado.
E já que abriu a porteira, um momento genial da mãe: conversando com uma amiga que queria/planejava ir pra Nova York, tudo mais ou menos certo, mas aí a coisa desandou, desse jeito que às vezes a vida desanda. Ou enguiça, como diz nosso querido Zeca Baleiro. E as duas ali conversando, "pô, não vai dar pra ir pra Nova York", e tal e coisa e coisa e tal, de repente surge um: pois é, né, quem não pode Nova York vai de Madureira...
Também não tem a menor graça visto de fora, e eu sei porque já contei pra um monte de gente, mas eu acho genial. Eu não tinha pensado em nada disso e elas pensaram e soltaram com timing perfeito. Eu só me regozijo de saber e recontar, mesmo que seja só para eu mesma rir.
E toda a história do Zeca me lembra do Davi e da Baíba, massa, o que me faz rir mais.
Mas, sim.
O ônibus.
E as piadas que só têm graça pra mim.
Mas eu fui pegar um ônibus esses dias e duas cenas, totalmente não relacionadas, chamaram minha atenção.

1. Uma fila do cão para comprar a passagem. Eu ali, no modo resignada, porque fila é das coisas sem jeito nessa vida, vendo o tempo passar, sei lá o que eu fazia, quando vejo duas senhoras irem direto na cabine, pedir uma informação à atendente:
- Oi, é aqui que compra passagem para Artur Nogueira?
- Não...
- Você sabe onde é?
- Não...
- "Não..."? Nossa, essa é paulista, mesmo.
E a senhorinha sai andando cortando a fila. Eu comecei dar risada, porque né?, tanto estereótipo que a gente tem sobre todo o resto, nós-paulistas-centro-do-mundo, e a senhorinha ali despejando um na nossa cara. Da falta de amabilidade, de não pensar em ajudar uma pessoa, de estar muito ocupado, fazer tudo rápido e etc. Eu li isso ali e achei engraçado.

2. Eu no meu lugar favorito, tomando um milkshake de ovomaltine, me sentindo feliz com a perspectiva da viagem, como costumo sentir só que nem sempre, sem querer ler nem ouvir música, só ali, estando.
Começo a ouvir a conversa de um cara do outro lado do corredor, cara assim meio boa pinta, com aqueles sapatos de bico quadrado, calça jeans preta desbotada e jaqueta descolada, cabelo assim não muito curto, praí uns quarenta anos (é galera, quarenta anos nem é mais velho....), falando no celular. Vale dizer, para descrédito do sujeito, que ele usava um anel no mindinho, o que é, a meu ver, meio nojento. Não sei dizer por quê, apenas constato o fato.
Aí tá lá o cara, o ônibus em silêncio e ele mandando uma conversinha meio fiada com uma mulher. Que tá com saudade, que à noite vão ver um filme comendo pipoca e tomando vinho, se vão comer pipoca, tomar vinho ou ver filme primeiro ou, basicamente, se vão deixar tudo pra lá e transar loucamente. Acho que inferi essa última parte, mas tava no contexto. Depois de todo o debate, aquela despedida básica: então tá, a gente se vê à noite, te amo.
Eu ali achando tudo meio brega.
Dali a pouco, o cara mexendo no celular e eu pensando: meu, isso vai ser bom.
Começa a falar no celular. Mas não sei quem foi viajar e deixou a cozinha toda suja?! Mas isso não se faz, é uma falta de respeito, uma falta de civilidade, não, você não vai lavar nada, não, porque isso não se faz e as pessoas precisam aprender a se tratar bem, como assim?!, e etc. Tipos, não era a mesma pessoa com quem ele tinha acabado de falar, né?
E eu ali ouvindo.
"Olha, vou entrar numa reunião agora, devo sair lá prumas quatro horas, aí eu vou praí." Silêncio enquanto a pessoa responde. "Blá blá blá blá, eu te amo". E o cara põe a língua pra fora. Fazendo cara de quem tá fazendo merda, ou a mesma cara que eu faço quando super erro uma coreografia no flamenco.
Aí que até o cara estar ali, modus traição-e-enganação on, não tudo bem, mas vá lá. Mas o cara colocar a língua pra fora ao dizer que ama a mina eu achei muita filha-da-putice.
E é isso, quer sacanear, sacaneia, mas não fode.
Também nem muita novidade, mas achei anedótico.

Antes eu tinha cá essa idéia que a vida acontecia nas filas, do banco ou da sinfônica, mas venho a perceber a realidade de que é mesmo dentro do busão.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Movimento

Outra, essa com a musa maior, amadíssima Bethânia.



Só me pergunto, muito honestamente.
Eu não gosto de Caetano, né, todo mundo sabe. Aí fui ensinada que ele é incrível, porque fala coisas incríveis e, como exemplo, fui ensinada que aquela merda da piscina e da gasolina é tipo uma crítica ao capitalismo. O que eu, sinceramente, quero que se foda, porque o que me incomoda é a forma, mesmo. Porra de piscina, meu!
Mas tem isso, que eu fui ensinada, da interpretação. Do que será que quer dizer, que é óbvio não me é nenhuma novidade, assim literalmente, mas vez ou outra surpreende. Muitas vezes (sempre, na verdade) eu interpreto mesmo como quero. Há, afinal, outra possibilidade?
E gosto tanto tanto dessa música, mas me pergunto, muito honestamente: como assim, "vou sair sem abrir a porta"?
Sério mesmo.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um Girassol da Cor do seu Cabelo

Nem sei quanto tempo depois. Três meses? Três vidas? Três mortes.
Tenho sentido aqui esse silêncio que anseia por ser preenchido e eu hesito tanto em preenchê-lo e penso em tantas coisas. Penso em "refrão de bolero", nem sei por quê. Um erro assim tão vulgar nos persegue a noite inteira?
Penso em "eternas ondas". Não sei por quê.
Penso em "bicho de sete cabeças", porque a melodia é qualquer coisa de sobrenatural. E também a letra.
Mas eu começo o caminho pelo mesmo Timoneiro com que me despedi. Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Porque eu gosto da rima.
E do mar.
Afora isso, tenho aqui sentido uma necessidade de solidão e silêncio que são difíceis de encontrar.
Mas sim, eu vinha dizer que a Ana anda esquecida, inacabada, abandonada e cheia de pó, até não sei quando. Para sempre, talvez, ou até a próxima volta. A Ana que tanto me impressionou, há tantos e tantos anos com aquela loucura incontrolável que eu identificava e me identificava. Às vezes eu fico pensando que sou a pessoa mais vazia do mundo, no sentido simplório de que posso ser preenchida por uma série sem sentido de coisas e idéias. Como se eu fosse a folha em branco e tudo que me dissessem pudesse ser potencialmente escrito em mim. Ou qualquer outra dessas metáforas, da tábula e sei lá o quê, do quadro e as cores. Eu me pergunto se a Ana me fez tanto quanto qualquer das outras besteiras que já ouvi e que ficaram. Muitas ficaram e para ser bem sincera elas me incomodam. Como se elas reduzissem o espaço em que posso simplesmente ser. Eu.
Abandonada a Ana, tenho lido tanto e tanta coisa que me pergunto o que sobra depois do ponto final. Volto à minha antiga e maior idéia fixa: eu não sou Diadorim. Nunca fui, nem Diadorim me disse do que eu precisava ser e fazer, nem nunca escreveu na minha folha.
A fascinação de ler qualquer coisa que não sou eu - considerando que posso ser tudo.
Mas essa história é antiga, como eu me sinto ao recontá-la. E requentá-la.
Eu ontem ouvia a chuva cair. Depois de imensa ausência e muito de leve e me fazendo pensar: porque será que o barulho de chuva leve sobre uma palmeira parece tanto fogo? O estalar. Louca que sou, ouço mais atentamente para tentar diferenciar e vou percebendo como gosto de ambos. Posso ter assistido muito Capitão Planeta quando era criança - e ele escreveu em mim - mas o fato é que gosto. Dos elementos à toda, dos sons e cores - desde que eu permaneça sã e salva.
De repente chegam aqui Belchior e Milton e Djavan, que tem esse som de "dj" (nem) tão estranho alhures.
Clube da Esquina.
Um dia eu tava ouvindo uma rádio que só pega em determinados aparelhos. É de uma cidadezinha e muito engraçada. Uma vez, ouvimos o locutor brigar com a produtora ao vivo, xingando todo mundo e saindo no meio do programa. E ela toca de tudo, mas nada de muito pop. Não popular, pop, mesmo, dessas coisas que a galera anda ouvindo. Que nicaraguenses conhecem, ou que tocam em lojas de bagagem em Leiden e as pessoas cantam andando de bicicleta à noite. Coisas como Francisco Alves e, sei lá, esses dias tocaram um pedaço de Shine On num programa de músicas instrumentais. Tudo bem que Shine On não é instrumental: eles cortaram. Na hora do almoço, toca música clássica; aos fins de semana toca música italiana (Italianíssima o nome do programa) e eles explicam como funcionam sinfonias e instrumentos e coisas assim.
Um dia, eu ouvia da mesa, não lembro fazendo o que eu estava e começou essa música incrível que eu nunca tinha ouvido. Exceto que eu nunca gosto de uma música quando a ouço pela primeira vez (quem terá escrito isso na minha folha?). Mas era incrível. Falava alguma coisa de uma rua. Eu pensei: eu não vou esquecer dessa letra para depois procurar e reouvir e achar incrível de novo. Não me esqueci. Por cinco minutos. Foi-se para sempre, porque vá lá você procurar "música" e "rua" no google.
Há umas semanas, eu estava numa festa em que as pessoas tocavam violão. Fazia sabe-se lá quanto tempo que eu não ia a uma festa em que as pessoas tocam violão. As pessoas também comiam bancon defumado na geléia de damasco, mas isso realmente não vem ao caso. Só que era delicioso.
Um dos caras que tocavam violão, sentado à minha frente, começa a cantar essa música incrível que eu nunca ouvi antes na vida. Exceto que a acho incrível e eu nunca gosto de uma música quando a ouço pela primeira vez. De repente, do nada, me lembro de sentar na cozinha e ouvir essa outra música incrível que vem me chegado à memória. Da rua. Era a mesma, linda, do Lô Borges.
Um desses (infelizmente tão raros) momentos da vida. Um momento "carolina" (porque eu sou brasileira e traduzo). Inexplicável, como acho que é tudo que importa. Quem tá aí pro fato de eu reconhecer uma porra de uma música? "So what?", como diria o professor escroto. Importa apenas e somente a mim, a minha carolina.
Reconhecimento final da própria desimportância.
Tanto a dizer, para me dar a conhecer.
Tão pouco a ouvir.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Cálice

Talvez fosse mais simples e menos desgastante para mim não entrar nesse debate, mas resolvi me utilizar do meu direito inalienável de dizer e decidi (tenho esse poder) não me calar. Resolvi também responder aqui, e não em privado, porque escreveste em público, não em privado.
Em primeiro lugar, quero registrar minha surpresa ao ler o que você teve a pachorra de escrever. Você, que eu sempre considerei uma pessoa inteligente, sensível e antenada, ser capaz de pensar, escrever e publicar tais palavras, de fato me chocou. Licença poética alguma é desculpa para tamanha escrotice.  Saberá já você a que palavras estou me referindo?
“Ela calou-se dentro de um colonialismo de fêmea” é das coisas mais nojentas que já tive o desprazer de ler. É errado e desprezível de tantas maneiras que acho deveras difícil tentar te explicar – porque pelo visto você precisa de explicação – o tamanho do seu equívoco, da sua insensibilidade, do seu falocentrismo, do seu machismo, da sua indelicadeza, da sua arrogância, do seu eurocentrismo, da sua inadvertida crueldade, da sua condescendência, do seu narcisismo, do seu egocentrismo e, afinal, da sua cegueira.
Sim, eu escolhi usar todos esses substantivos para descrever sua frase. Deveria, talvez, ser suficiente, mas não é. Terá você a capacidade de, ser humano que erra, olhar no espelho, ver a sujeira e tentar limpá-la?
Que absurdo precisar eu, mulher sul-americana, vir te dizer que não somos fêmeas. Que você atribuir um silêncio – cujos motivos te escaparam e escaparão sempre – ao fato de se tratar de uma “fêmea” é de uma misoginia absurda. É atribuir à mulher, ser biológico, social e relacional, a característica inerente da submissão pelo simples fato de ter ela uma vagina, no lugar de um pau. Em que década estaremos? Em que século? Será mesmo 2013, pós-modernismo, pós-colonialismo, alguns mesmo dirão pós-feminismo? Será mesmo uma pessoa que sempre julguei inteligente quem vem dizer de “calar-se por ser fêmea”? Eu, mulher sul-americana, sinto pena de você, homem europeu que ainda está pensando o mundo nesses termos. Sinto pena maior das pobres meninas com quem você se relaciona, que são expostas talvez cotidianamente ao seu machismo, ainda mais pérfido porque mascarado sob uma mentirosa aparência de sensibilidade.
Dirá você, talvez, que, veja bem, não foi isso que eu quis dizer. Pode bem ser que não. Mas foi isso que você disse e, muitas vezes, nas coisas que falamos inadvertidamente revelamos as profundezas dos nossos pensamentos e convicções, os quais, em outras ocasiões, refreamos porque socialmente inaceitáveis.
Eu acho inaceitável o que você disse. Me pergunto dos seus leitores, o que terão pensado; por que ninguém mais terá se manifestado para além da cretina pergunta se se tratavam de prostitutas e… qual era mesmo, o termo preconceituoso usado para se referir a homossexuais? Você terá se incomodado com o questionamento, sem perceber que suas palavras foram ainda mais cretinas. Minha indignação vai muito além da pessoalidade das ofensas que você escreveu; é uma indignação que abarca todas as mulheres que você ofendeu através de mim, todos os habitantes dos países hoje independentes que tiveram a má sorte de terem sido um dia dominados por essa merda a que se dá o nome de Europa, e que você ofendeu através de mim.
Quem é essa fêmea colonizada que vieste encontrar nos sertões americanos? Que país é esse ao qual você se orgulha tanto de pertencer? Sempre imaginei que você teria a sensibilidade e a sofisticação de perceber que, se foi sim um grande feito um país tão pequeno se apropriar de meio mundo, há já quinhentos anos, esse feito foi alcançado à custa de violência, sangue e estupro. De usurpação, de morte, de extermínio. Da convicção medonha de ser o homem branco europeu superior a quaisquer outras criaturas que habitavam esse planeta. Da crença de que o mundo deveria mesmo ser explorado para seu benefício, que as pessoas, crenças, culturas, costumes outros eram personificações de barbárie e bestialidade e por isso não importavam, a não ser como propriedade e mão-de-obra a ser explorada. Eu, particularmente, teria vergonha desse passado, porque as nódoas ultrapassam em muito as glórias.
Outra questão que se me aflora é o porquê de querer vir você, macho europeu, emporcalhar-se na sujeira americana, se daqui não consegue ver nada para além disso. Melhor não seria permanecer eternamente na limpeza? Que olhos são esses que você viu e que não anunciavam solidariedade ibero-americana? Que mundo é esse em que você vive?! Acaso serão vocês, ibéricos, esse poço de bondade e ternura infinitos, que não se violentam nem abusam? Talvez essa candura celestial vocês reservem somente para si, porque nós, americanos, sentimos na pele a sua podridão, baixeza e crueldade.
É interessante o momento em que você produziu esse escrito. Tenho lido, eu, mulher sul-americana, nos últimos meses, diversos relatos de europeus que vieram ao Brasil no século XIX e não deixo de me surpreender com os preconceitos com que eles descrevem suas aventuras. Aqui, reina a barbárie, em contraposição à civilização europeia. Refletia eu: esses homens do século XIX pensavam mesmo assim. Era assim que então se pensava, o que não os torna menos nojentos. E eis você aqui, em 2013, pensando e dizendo o mesmo. Eu, mulher sul-americana, te pergunto: de que te valeu essa civilização? Estarão vocês, evoluídos homens brancos, a viver no éden depois de conquistar o mundo?
Eu, brasileira e mulher, não sou colonizada.
Você é. Pela mesquinhez das tuas opiniões e pela estreiteza da tua mente, tão pequena quanto seu glorioso Portugal. Se eu fosse você, me esconderia debaixo da cama por algumas semanas, de pura vergonha. Aproveitaria esse tempo para fazer uma profunda reflexão sobre a minha pessoa e meus conceitos sobre tudo aquilo que está do lado de lá da minha pele e do meu pênis branco. Eu, se fosse você, pensaria muito bem pensado numa retratação, pública como foi a ofensa.
Mas não sei se na tua cara sobra ainda alguma vergonha.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Timoneiro

Fiquei praí um ano me preparando para me tornar uma mulher de trinta anos. Sem referências a autores que, eu já disse, não li. Porque todo mundo tem essa neura e eu mais que todos, com minhas manias com números. Então pensei, refleti, digeri e fiz trinta.
Tem sido ótimo e lindo. Quando qualquer coisa me enche o saco sobremaneira, eu penso: “tenho trinta anos, não tenho que aturar essa merda”, ou “não tenho mais idade pra me preocupar com isso” e afins. O que eu sinto, que tenho buscado por toda minha vida, é liberdade. Eu posso ser quem eu sou, quem eu quiser e puder ser, e pouquíssimas são as coisas que me prendem. Sem essa merda toda de self-made-man, porque eu não sou man nem me faço sozinha e porque tenho dentro da cabeça um cérebro que me permite entender que o mundo em que vivo limita extraordinariamente o espaço da minha liberdade. Ainda assim, dentro desse meu espaço, sou livre.
Não acho que tenha nascido assim, tanto quanto que decidi me tornar assim e fiz por onde cumprir esse anseio. Fui séria nas minhas escolhas, fui responsável por minhas decisões, optei por uma carreira que me satisfaz e que acho de crucial importância e, apesar das minhas muitas limitações, avanço pelo caminho que escolhi.
Ao longo dessa jornada, companheiros e companheiras vieram, foram, voltaram. Deles, guardo boas e más lembranças, afeto, mágoas, saudades e, mais do que tudo, lições. Sobre o que vale a pena nessa vida, sobre o que não vale, sobre o que as pessoas são e sobre o que elas podem ser e sobre quem eu sou e quem eu posso ser.
E o que eu posso ser é isso. Mulher, 30 anos, livre.
Posso ser isso e além: feminista, historiadora, esquerdista, sul-americana, americana, de nome indígena, alma brasileira, alvinegra, à flor da pele, na flor da idade.
Posso fazer mais: trazer à tona e discutir questões de gênero, de raça, de classe, de história e de pessoas, posso falar e, mais, escrever, publicar, ser ou não lida, mas produzir. Posso ensinar e aprender, posso dar carteirada e posso silenciar, porque sei que não preciso me provar para ninguém.
Posso ainda ter compaixão, por eu criança, por nós que não sabemos bem quem somos até a metade do show, pelos meus erros e enganos, pelas cegueiras e desenganos, pelo que foi e deixou de ser.
Eu, porém, fiz e faço todos os dias uma opção. Não é você quem me navega.

É o mar.

p. 1 - Agradecimentos

Eu às vezes me pergunto se será ridículo, emocionante ou um pouco de cada isso da gente se achar nos agradecimentos dos outros.
Sei lá se isso é normal ou particular aos academicismos dessa vida, mas o fato é que, sabendo onde procurar, há por aí uma ou duas citações ao meu nome, entre amigos, apoiadores, colegas e demais pessoas que fazem parte dos meios pelos quais circulamos.
Obviamente que caçá-los chega ao cúmulo do egocentrismo. Mas, pergunto, quem não os caçaria?
Uma amiga costumava dizer que sua parte preferida nesses nossos livros eram os agradecimentos. Não sei bem dizer por que - quando saberemos explicar qualquer coisa, nossa ou de terceiros? -, mas desconfio que por aquele setorzinho no começo da obra nos revelar tanto sobre quem a escreveu, sobre como foi o processo, quem estava ali para dar aquele ombro, chocolate quente, porre de vinho ou sabe-se lá o que mais pode ser necessário para terminar nossos trabalhos hercúleos.
Eu, quando tive de agradecer, cheguei aos limiares da catarse. De repente foi só um momento de loucura, desequilíbrio ou piração, mas algo aqui saiu do eixo. Pode ser só excesso de drama, ou o alívio profundo do fim, mas independente das razões que levam àquelas palavras, eu ainda gosto de ir lá ver se elas também me dizem.
A impressão das letras, afina, não dá sentido à vida - e sentido é das coisas que eu mais procuro nessa bendita -, mas pode ser que o que as levou até ali dê.
E um dia, ou hoje ou amanhã, poderei dizer: fui agradecida por tantas pessoas. Não vale nada, né? E é ridículo. Mas também é verdade.
Só porque me deu na telha procurar e achei.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Medo do medo que dá

Não sei mesmo explicar o que tem acontecido comigo. Ou o que aconteceu comigo.
Eu sempre fui uma pessoa muito da cagona, dessas master, mesmo; de andar em casa acendendo todas as luzes, de ao dormir ver uma roupa pendurada em algum lugar e achar que tem uma forma estranha e ter de acender a luz para checar e ter certeza de que é apenas uma roupa pendurada com uma forma estranha.
Quando era adolescente, adorava livros policiais, principalmente Agatha Christie, o que, convenhamos, não tem nada de assustador. Mas eu fiquei sem dormir, depois de ler o Assassinato no Expresso do Oriente, simplesmente porque minha imaginação hiperativa confundia as bolas e me dominava: em algum momento do livro, alguém diz ter visto no corredor do trem uma pessoa vestindo um robe com um dragão bordado nas costas. Não sei por que, eu começava a pensar que era um homem, e não uma mulher (porque obviamente só mulheres usam robes com dragão bordado nas costas e todas essas essas merdas de leis de gênero e talz). E pensar em um homem com o tal robe me assustava pacas. Aí eu não conseguia dormir, imaginando que tinha alguém parado na porta do meu quarto com um dragão nas costas e uma faca na mão.
Meu primo, que partilhava da minha fixação pelo gênero, não se conformava. Até eu não me conformava, mas isso não mudava nada.
Eu até sempre assisti um ou outro filme de terror, porque até gosto um tanto, apesar de não ser exatamente minha onda. Engraçado que aqueles terrores mais possíveis, de violências tangíveis e cotidianas, nunca me impressionavam tanto; o que me pegava era o sobrenatural.
Talvez por todas as histórias que correm na família, ou pela casa que foi da minha avó, depois da minha tia, depois de não sei quem; uma casa antiga com chão rangente de madeira e o banheiro localizado nos fundos e a gente, criança, ouvindo o relógio badalar e tendo de fazer xixi e atravessar a casa toda e sem poder acender todas as luzes, porque deveríamos estar dormindo e os adultos são tão incompreensivos e não têm dó da gente.
Quando eu era criança, tinha essa necessidade de dormir toda pra dentro da cama, sem deixar a ponta do pé ou a mão cair pra fora do colchão, porque eu tinha essa pira de que podia haver alguém debaixo da cama com uma faca ou sei lá e que ia passar a bendita nas bordas da cama, como que aparando arestas ou sei lá e que nessa minha mãozinha literalmente ia pro saco. Eu me pergunto agora se isso é normal ou se é atestado de insanidade, mas sei lá, era uma neura que eu tinha. Confesso que até hoje não me sinto muito confortável com isso de dormir vazando da cama, e também prefiro me cobrir, nem que seja com um lençol, no verão, porque o tecido sobre mim me dá uma sensação de segurança.
Então que eu sempre tive medo.
E sempre tive medo de ter medo.
Meu problema mesmo é a hora de dormir, aqueles segundos limítrofes em que a imaginação galopa a rédea solta e todos os monstros vêm à tona.
Por isso, eu nunca assisti ao Iluminado; todo mundo falando como é fodástico e eu me perguntando como diabos poderia eventualmente voltar a dormir, se um dia porventura visse.
Não sei o que aconteceu comigo, porque calhou de eu ver, gostar e dormir perfeitamente bem. Ou perfeitamente mal, como ando dormindo ultimamente, mas nada a ver com o Jack Nicholson. Não sonhei, nem imaginei nada entrando no quarto.
Será que ao escrever essas imprudentes palavras estou me condenando a ser assolada pelo mesmo pavor que afirmo não sentir? Sempre pode ser, em se tratando de mim.
Aí umas semanas atrás um amigo me chamou pra ver um filme que achei bem bostoso, chamado A morte do demônio. Tipos que levei talvez um susto e achei uma fala engraçadinha, de resto fiquei mesmo pensando "nossa, que merda de filme e que dinheiro mal gasto" e me ligando na tosquice da coisa toda.
Depois, dormi, como de hábito.
Será, afinal, que superei essa de ter medo, principalmente de bobagens?
Ressalto que quando eu li algum dos livros do George R. R. Martin senti um certo cagaço d'os outros, bem daquele jeito: ia pegando no sono lendo, aí ia apagando o abajur, quando de repente imaginava que eles estavam se aproximando e reacendia a luz, porque, né?, os outros não curtem fogo, portanto, calor, portanto minha lâmpada de tungstênio muito me protegeria das investidas das suas espadas de gelo. Prova de que até dormindo podemos ser salvos pelo raciocínio lógico. Ou quase lógico, porque lógico mesmo seria pensar que os outros não existem, mas aí já seria querer muito.
Mas isso faz uns bons dois anos, ou quase.
E daí?, pensamos todos, ao chegar até aqui.
E daí nada, acho; e daí que eu posso, talvez, ver filmes de terror e tudo seguir como dantes.
E daí que isso é novo e o novo é sempre melhor.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Cão

Que esse mundo é uma merda e que as pessoas são escrotas estamos cansados de saber.
Eu às vezes esqueço, não sei se porque já não cabe mais aqui saber, ou se porque eu prefiro fingir que não sei, porque isso de merda e escrotice é bem de foder.
Agora, olhe, trinta anos nas costas e eu aqui me surpreendendo com o egoísmo e a falta de noção das pessoas.
Galerinha mimada que se acha o centro do mundo.
Eu sempre fui, e ainda sou, mimada e nunca fiz dessas, não.
Será que fiz e esqueci?
Tem horas, infelizmente mais constantes do que eu gostaria, que dá vontade de brincar, não.
E nem tô afim de ser agora bola-pra-frente e o-que-conta-são-as-coisas-boas-da-vida. É o caralho. A gente se esforça ali pra ser legal e responsável e gente boa, pra ser solidário, pra partilhar e suprir, fazemos o melhor possível, limitados que somos, mas vamos lá, bola-pra-frente e a bucha vem na cara.
Nessa, todo o esforço pra melhorar, pra não guardar rancor e entender e não se destruir vai pro saco. Destruir não vou, mas quero também me permitir a putice.
Eu estou puta da cara.
Já falei, ouvi, repeti e partilhei; há aqui esperança de que amanhã e o sol e etc., mas olha que hoje é palavrão abaixo.
Eu aqui opto por não entender porra nenhuma. Quer ser panaca, vai ser panaca na casa do caralho, pega suas coisas e sai que ninguém tá interessado em te segurar. Não tem nada de bom pra dizer, cala a boca.
Enquanto isso, fico aqui pensando na política. Não essa do Estado que, se hoje faz parte da minha vida, faz, mas é isso aí. Penso é nessas relações cotidianas de poder e na necessidade do bom uso da diplomacia.
Galera saí por aí criando desafetos à toa. Pode até ser infantilidade minha, mas galera sai criando desafetos à toa. Muitas vezes, pensar antes de falar pode fazer muita diferença imensa na vida de uma pessoa. Ou de duas. E aí que o mundo é dos esperto e poucas coisas são mais burras que os desafetos. Principalmente os criados à toa.
Eu os tenho, claro, que tenho cá minhas burrices; mas isso da falta de respeito arbitrária quero crer que nunca fiz.
Aí tem aquele ditado sobre brigas, do boi pra não entrar e da boiada pra não sair e, meu, não. Pensae antes de dar uma merda de um boi.
Eu já há alguns anos fujo de briga, provavelmente porque esgotei minha cota antes dos vinte e cinco. Foi um talento de juventude meu, isso de detonar todas as relações sociais que estabeleci, talento esse que explorei bem explorado. Queimei ponte até não poder mais e olha que algumas ainda se reergueram.
Só para dizer, num texto assim bastante sem sentido e cheio de clichês, que eu fiquei puta, mas de um tanto que fazia tempo não acontecia.
Parabéns aí. Eu diria que espero que lhe renda bons frutos, mas nem na ironia tô podendo te querer bem.
Eu quero mesmo que você vá para o raio que o parta.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Da manhã nebulosa

Não sei por que, mas várias vezes quando estou tomando banho penso nessa música.
Aí faz tempo que não ouço e esqueci da letra, como de todo o resto, e vou indo de verso em verso. Cantarolo o primeiro, o segundo, esqueço o terceiro. Começo de novo, lembro o terceiro e esqueço o quarto. Começo de novo, lembro o quarto e esqueço o quinto e assim por diante indefinidamente.
Acho que o moral da história (a moral?!) é isso: começar de novo.
Na música e na vida.
Só o que não tem remédio nessa vida é a morte - e puta-que-o-pariu que essa não tem mesmo remédio.
Ficamos então nós aqui na função de tapa-buraco.
Eu confesso minha exaustão, de tensão e tristeza e apreensão e medo e algo de pressão, porque acontece de o buraco às vezes ser grande demais para tapar.
As coisas por aqui andam nebulosas, como na minha música-de-banho, porque ninguém sabe o que vai ser amanhã, mas nesse meio tempo há muito trabalho a ser feito e vamos lá fazê-lo.
Supersticiosa que sou, e conhecedora de mim como sou, temo fazer a afirmação que farei agora, mas vou na ousadia e e polyanice e aposto que tudo ficará bem: eu hoje estou mesmo feliz por ter ao meu redor as pessoas que tenho, nesse mundo-cão, mas que parece um pouco menos cão quando há solidariedade e companheirismo entre nós. Porque a competição vem e virá, mas não precisamos nos destruir, podemos competir com justiça e lealdade e que vença o melhor e se o melhor for o outro, paciência.
É assim que, por entre as nuvens, aparece um pedacinho de azul.
No mais, é o Bob:


segunda-feira, 25 de março de 2013

Revisão

Há alguns momentos em que eu me acho linda.
Simples assim.
Da eu de fora, eu gosto quando acordo.
Da eu de dentro, eu gosto quando leio.
Há uma semana eu recebi um elogio bacana, pode bem ser que descabido, e pode mais ainda ser que em cinco minutos ele evapore, que eu sou escaldada, mas há uma semana eu ouvi que estou madura.
Pobre de mim, da minha estrada que segue tanto adiante.
Nem tão pobre de mim, que já desperdicei tantas oportunidades. Que estudei menos do que deveria. Que falei menos do que deveria. Que escrevi menos do que deveria. Tudo, bem ou mal, escolhas minhas. Eu, criança, que tanto adio.
E se, ainda assim, eu estiver mais madura?
Assim, pronta pra colher, eu tenho a consciência de não estar. Mas também não sei se alguém algum dia está. Mesmo assim, dias atrás, eu sentei com outra pessoa e falei. A meu ver, com propriedade e critério; imaginem, eu sabia o que falar! Tinha algo com que contribuir! Sigo com a nítida impressão de que isso aconteceu de repente, que uma semana antes eu estaria fadada ao silêncio mais ensurdecedor. E, repentinamente: olha, acho que isso é assim, aquilo é assado e, meu, nunca diga tal coisa.
Sim, a jornada é longa e segue adiante a perder de vista, mas já não falta tudo.
Eu gosto de mim quando leio.
Nessa brincadeira, já escrevi muito.

O Passado

É um título do Alan Pauls que eu li, já há alguns anos, e achei bastante perturbador.
Nada assim, de terror, mesmo só o drama do personagem que doeu em mim.
É o título de um filme, baseado no Romance de Alan Pauls, com, acho, Gael García Bernal.
A que não assisti.
Também é de onde eu venho, agora, sem saber exatamente como me sinto.
Não é possível visitar o passado e voltar sem peso nenhum. Não tem uma história assim, da Apolo não-sei-que-número, que...? Ah, sim, do filme, Apollo 13, em que os caras têm que voltar pra Terra porque a missão de parar na Lua miou e eles tem que refazer um monte de cálculo porque as coordenadas que eles tinham antes previa que eles iniciassem a viagem de volta carregando as pedrinhas e sei lá mais o que da Lua, mas eles não pararam na Lua, então não tinha pedrinhas e tudo o mais.
Uma pequena divagação, mas faz parte do pacote.
Então, "o passado".
Eu tenho três blogs. Esse em que vos falo. O primeiro que criei e no qual escrevi alucinadamente por, talvez, dois anos. E um terceiro, que fiz porque achei um nome, ou achei na época que tinha achado um nome e está lá. Aí que o blogger me avisou que alguém visitou um dos outros e só pode ser o terceiro, porque o primeiro está super bloqueado para terceiros. Confuso?
Bem, mas o blogger me avisando, senti aqui um quê de curiosidade para descobrir que segredos escondem esses baús. Entrei, pois, muitos anos depois, no "Idiotia Coletiva". Porque esse era o nome dele, o primeiro, porque era uma coisa na qual eu acreditei muito. Ali estão registradas partes importantes da minha vida, apesar de já bastante apagadas dos meus registros internos. Eu sempre me surpreendo com a minha capacidade de descobrir meus textos, como se escritos por outra pessoa. Já falei disso antes, aqui ou lá, mas é uma surpresa que persiste, porque não reconheço as palavras e frases e construções, apesar de aqui e ali lembrar de uma idéia ou de uma imagem. A dos garotos no aeroporto, por exemplo, me causa déjà vu.
Déjà vu maior, porém é o encontro comigo mesma. Imagina, há cinco anos! Eu tinha meros vinte-e-cinco; tão jovem e inocente. Já falava as mesmas coisas que até hoje repito. Sempre escrevo sobre a mesma coisa,  o que tem um quê de esquisito, mas mais esquisito é haver tanta coisa ainda por dizer.
E há ali um peso, das coisas que eu disse, mas mais do que deixei por dizer, das referências feitas para mim mesma, dificilmente compreensíveis por outros olhos. Muito há ali de transparente e óbvio, mas há também mistérios e alguns deles já se encontram perdidos inclusive para os meus.
Uma das coisas em que pensei, enquanto lia alguns textos, foi num seriado que tenho acompanhado, criado por uma moça chamada Lena Dunham e de nome "Girls".
Porque a segunda temporada acabou esses dias e uma galera tava dizendo que não curtiu e não fez o menos sentido e tudo o mais e eu tava na dúvida sobre a minha opinião. Na verdade, eu tinha a impressão de ter gostado, mas não sabia exatamente por que.
Até que li uma passagem escrita por mim aos 25, ou 24, anos, mesma idade da protagonista na série, em que discuto a mesma coisa que ela diz na finale. Assim um desejo de que alguém apareça pra resolver nossa vida, limpar nossa sujeira, trazer coisas legais, resolva, enfim, tudo aquilo que nos sentimos incapazes de resolver.
E um sentimento de alcançar objetivos há muito desejados e não saber bem o que fazer com eles. Aquela conversa mole de que ter tudo que a gente quer pode ser a maior merda. Talvez nem porque a gente vai achar outra coisa para querer, o que também é verdade, mas porque a gente acreditou que aquilo, aquele patamar, aquele pacote, ia nos trazer tudo de que necessitávamos para sermos felizes.
Aí chegamos lá, suando como porcas ou ganhando de presente dos céus, e é torta na cara. Porque, queridas garotas, tem isso não. Ninguém resolve, não, nem seremos felizes, não.
A parada da vida é outra. Também não sei bem qual é, afinal tenho apenas trinta; mas descobri nesses cinco ou seis anos que nos separam que a parada é outra. Quem sabe daqui a mais dez anos, com quarenta, eu possa dizer qual é, e olhar para trás e chamar a nós todas de queridas garotas.
O lance é que a história que a Lena criou não é nada nonsense. Não era para mim, na idade dela, nem é para mim hoje, que ainda guardo a recordação dessas sensações. Tudo era muito angustiante e há um certo conforto em olhar para essas angústias e elas estarem em algum lugar para trás.
Hoje as angústias são outras.
Ainda essa semana, eu conversava com uma amiga mais velha, casada há quase vinte anos, e via os olhos dela se encherem inesperadamente de lágrimas porque esse parceiro, no papel tão perfeito, não sabe mais se quer ficar com ela.
E a angústia é outra.
Eu não sou casada há quase vinte anos, nem há quase vinte minutos, mas a angústia é outra.
Ai, Bernardo Soares, que vais me acompanhar agora para sempre. Eu sou essa agora, e sou aquela antes, e já era então o que sou, apesar de me transformar no que eu era.
Penso que penso e a verdade é que desde o início eu vim aqui dizer uma coisa.
Não quero transformar o passado em tabu.
Quero dizer, como meus amigos do Recife, que não sou baú.
Solto, então, as amarras e o deixo correr livre. Aqui comigo, porque sempre vai estar, mas também distante de mim, porque, como diria Cazuza, o tempo não para.
Tem ali uma menina, querida, que iria apreciar a visita.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A rua que treme

- Tia, meu pé tá em carne viva.
- Nossa, o que aconteceu?
- Quer ver?
- Quero.
Ela mostra o pé; no dedão um vermelhaço, não exatamente em carne viva, mas que parece dolorido.
- Mas o que aconteceu?
- Então, sabe aquela rua que treme?
- Como assim, rua que treme? - pensando em terremotos, que não acontecem aqui, nem eu ouvi falar de nenhum que, estranhamente, tenha ocorrido nos últimos dias.
- Aquela rua que faz assim - fazendo com a mão aquele gesto de ondulação, imitando o mar ou montanhas. - Mas não é lombada.
Eu pensando: nossa, o quê?! Uma serra? Uma estrada em Minas que sobe e desce?
- Mas isso aconteceu quando?
- Ontem.
- Então, mas como você machucou?
- Eu tava andando naquela rua que treme e bati.
- Mas você tava descalça?
- Tava.
- E tá doendo?
- Tá. Amanhã eu não vou de tênis pra escola, vou de sandália. - a escola chata não deixa usar nada fora do uniforme, mas acho que em casos assim pode-se abrir uma exceção.
- E como você foi hoje? Não foi de tênis?
Careta de dor.
- Fui, e ficou machucando meu pé, eu até falei pra professora e ela me disse pra tirar o tênis.
- Eu você tirou?
- Tirei.
- É, se tá machucado, é melhor ir de sandália, mesmo, mas aí amanhã a gente vê como tá.
...
- Não tô entendendo o que é rua que treme.
- Sabe? Igual à do Giracéu (antiga escolinha em que ela estudava).
- Igual à do Giracéu?
- É, assim - repete o gesto com as mãos.
...
- Ah, de paralelepípedo!
- Isso, de paralelepípedo. Eu tava correndo e bati o dedo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Heróis

Estava eu aqui, relativamente bem apesar de tudo que deveria estar fazendo e não estou.
Em meio a planos e risadas, até que confortável com a minha vida e a minha pessoa e as que me cercam.
De repente, comecei a ouvir essa música e algo meio que despertou.
Podemos nós ser heróis por um dia?
E quem somos nós, cara-pálida?
Sinto aqui essa curiosidade insuportável de saber quem eu sou e continuo me escapando. Reflito, sim, ouço, leio, assisto, vez em quando quase sempre recorro a recursos dos quais duvido, como o céu ou as cartas, suplicando-lhes que me ajudem a responder.
Juntando pedacinhos do quebra-cabeça, pode me acontecer de saber. Ou melhor, de desconfiar. Fazer assim uma vaga idéia. É só que ela se desfaz tão rapidamente, evapora como as bolhas de sabão que saem da boca do palhaço.
Todo o nosso saber tem mesmo de ser assim tão efêmero.
Com alguma ansiedade, procurei uma resposta nessa bendita-maldita rede, em um programa que sorteia uma carta e diz que tem a ver comigo. Às vezes calha de ter, porque tudo que é humano e tudo o mais. Hoje não calhou.
No silêncio que sobreveio, uma manchete tenta responder se é mais fácil ou mais difícil fazer amizades depois dos trinta.
E foda-se, né? Se é mais fácil, mais difícil, afinal o que é amizade e tudo aquilo.
Mas li ali e pronto, despertou aqui outra coisa. Um quê de saudade de amizades adolescentes que eu já tive, de intensidade tremenda e proximidade total, beirando a promiscuidade, em que um se mistura no outro e aí é que a gente não sabe mesmo quem é.
Em meio a planos e risadas, é impossível não perceber que me relaciono com as pessoas de outra maneira. Depois dos trinta, ou dos vinte-e-nove, ou dos vinte-e-sete. Sei lá depois do quê, depois de alguma coisa que se partiu, ou alguma coisa que se construiu, que tornou mais importante saber quem eu sou e quem o outro é. Somos, ainda, nós, mas talvez menos perdíveis.
Fiquei tão feliz, esses tempos, porque encontrei um amigo. Não era um amigo novo, era até bem velho, mas entre as cagadas dele e as minhas a gente se perdeu e do meio do turbilhão se encontrou. Foi bom, lembrar porque ficamos amigos pra começo de conversa. Tantos filmes vistos juntos, numa sala de cinema de cheiro estranho. Tantas noites passadas entre palavras e músicas. Lembro da gente ouvindo "Wish you were here" e ele falando de como esse disco era fodástico. Ele me enchia demais o saco e eu mandava ele se danar e agora parece que crescemos. Ele costumava me chamar de Mrs. Right, porque eu tinha essa mania de achar que estava sempre certa.
Ainda tenho, admito, mas ela se manifesta, hoje, mais raramente. Eu agora penso que consigo vislumbrar o outro, ainda que não o alcance, mas tenho noção de que existe ali uma pessoa e não um servo criado para me servir e afirmar. Acredito que pode ser possível aceitar o diferente.
E, mais que tudo, duvido. Principalmente de mim, mas também de todo o resto.Não sei se eu mudei, não sei se hoje posso ver, não sei bem quem eu sou nessa noite que se aprofunda.
Não sei se há ajuda possível e nem, se houver, se serviria de alguma coisa. Pergunto à carta, mas ela não pode responder. E se respondesse, eu duvidaria das certezas que ela ousasse proferir.
Hoje eu só sei da voz do Bowie, "bumba meu bowie", e de um pedaço aqui que tá faltando.
Um pedaço que eu sei qual é mas não entendo, não sei por que saiu, nem para onde foi, nem ouso esperar que um dia retorne. Estilo, aqui, falta.
Eu sobro.

terça-feira, 19 de março de 2013

Porque

Os últimos dias foram nublados no verão tropical e hoje o dia amanheceu ventoso e frio, precipitadamente outonal.
Por isso ou pela leitura difícil que vinha fazendo desde ontem ou pelo tanto de trabalho que se acumula à minha frente e eu não sei como dar conta, passei as horas meio em desânimo. Acordei cedo e comecei a trabalhar, diminuí o ritmo e fui para a universidade, acompanhar o curso de que sou monitora.
O tema da aula era algo alheio aos meus interesses imediatos e, pra ser bastante sincera, à minha plena compreensão. Política. Macro. Governantes e Partidos e Ministérios, muitas maiúsculas e muitos nomes a mim desconhecidos e muitas datas que eu talvez até já tenha conhecido, mas que me fugiram da memória junto de tantas outras coisas que daqui partiram.
No entanto, pela qualidade da política discutida, ou pela ênfase social a ela dada, ali, em meio ao enfado e à confusão, está a história.
Que eu escolhi e por quem sou apaixonada, quando lembro.
Não sempre, porque reina aqui a inconstância, mas às vezes acontece de eu saber o porquê de eu fazer o que faço.
Ela é relevante, discutimos ali temas que eu acho relevantes, que dizem respeito a quem somos e como chegamos aqui. E, principalmente, aos tropeços do caminho. Ao tanto de coisa que eu acho absurdamente erradas que me rodeiam e eu me sinto um pouco melhor porque olho pra elas, hoje mas principalmente ontem, e também eu faço a história.
De gente miúda e desimportante, aos olhos das maiúsculas anteriormente citadas. E gente, Gente, que viveu ali sua vida como eu vivo a minha, com toneladas de peso sobre o ombro, que eu desconheço.
Não as resgato, que elas não são resgatáveis, nem sou eu pescadora para fisgá-las, nem sou eu quase nada para dizer delas qualquer coisa. Eu, porém, as procuro, as encontro através de janelas com camadas e camadas de cortinas que turvejam minha visão, enquanto eu aperto os olhos e tento ver.
Gosto do que isso diz sobre mim, egoísta que sou.
E tento dar o melhor de mim para contar da melhor forma possível o que entrevejo.
Porque miúdos e desimportantes, afinal, todos somos.

domingo, 17 de março de 2013

Querido diário...?

Eu parei de dizer que sou hipocondríaca porque minha tia queridissíssima de fato tinha um problema com remédios. Nem sei se era hipocondria, mas eu diagnostiquei assim. Sim, eu diagnóstico, sigamos adiante.
O problema maior dela, eu acho, é que lá há zilhões de anos ela começou a tomar calmante e nunca mais parou. Minha tia queridissíssima era uma pessoa adorável e adorada, até agora é difícil falar sobre ela sem meus olhos encherem de lágrimas, porque ela fez tanto parte da minha vida; ela era quem cuidava de mim e da minha irmã quando minha mãe viajava, e depois passou anos me contando da vez que, estando sós, ela tentou me mandar tomar banho e eu até tirei a roupa, mas não queria entrar no chuveiro e saí fugindo pelada e me escondi debaixo da cama, e ela ria contando "e eu olhava debaixo da cama aquela bundona branca e morria de rir" e morríamos de rir juntas.
Aí quando eu brincava de casinha naquele canteirinho que havia na frente da casa dela, antes de ela reformar, eu escavava a terra pra fazer bolinhos e sei lá mais o quê e de repente achava uma minhoca e, escandalosa e criança que era, saía correndo e gritando; ela ia lá, com o maior ar de simpatia me socorrer, pegava a minhoca entre os dedos e corria atrás de mim e morria de rir e morríamos de rir juntas.
Pois que, afora isso, ela tinha lá uma dessas dores de viver dessas algo insuportáveis, principalmente quando não havia por perto uma bunda branca e uma minhoca e um morrer de rir juntas. Como solução, ou remédio, ou paliativo, ela tomava lá seus calmantes e, quando já bastante doente, sentia muitas dores, não soubemos nem saberemos nunca se reais ou imaginárias. Tudo, então, lhe doía.
Eu, observando-a, pensei: ok, vou parar com essa história de que sou hipocondríaca.
Porque, apesar de sê-lo um pouco (até fiz uma vez um desses testes pela internet que confirmou meu diagnóstico), sou apenas um pouco e até que bastante sob controle. Nos últimos anos, por exemplo, para com uma certa mania que tinha com remédios, nada demais, apenas aquele analgésico ao primeiro sinal de dor de cabeça, ou anti-inflamatório ao primeiro sinal de dor de garganta. Hoje, espero, tento identificar a causa da dor, avaliar se é mais ou menos sério e então decido o que fazer. Nunca na vida, por exemplo, tomei antibiótico sem indicação médica.
Mas eis que, devido ao estresse paralisante por que passei no último ano, a pressão de ter que escrever e não saber o quê, ou saber o quê e não saber como (percebo que, afinal, escrever é também minha profissão!), menos a tia queridíssima, mais uma temporada fora, percebi nos últimos meses que ando cometendo uns lapsos que achei preocupante. Do tipo de pedir para me passarem um objeto laranja qualquer e no fim o objeto em questão ser roxo. Dizer "filme" em vez de "filho". Trocar palavras por outras pertencentes ao mesmo universo da que eu queria dizer, esquecer o nome das coisas e assim por diante. Galera geral dizendo que é normal, do estresse e tudo o mais, mas eu ainda tenho aqui meu leve grau de preocupação exacerbada e fui ver um médico de confiança da nossa família.
Que disse, em resumo, que eu não tenho nada não, que andei nervosa e com muita coisa pra fazer e vivendo em lugares diferentes e pra eu manter uma agenda e fazer um diário. E o diário, mocinha, escrito à mão, mesmo que sua letra seja horrorosa e você tenha preguiça de desenhar letras, porque isso de escrever no computador não é a mesma coisa.
Aí o médico que mandou, né, vamos fazer.
Ainda não fiz.
Isso de diário, sei lá, escrever o que aconteceu, o que era pra acontecer, o que deu certo e errado, confesso que me cansa. Prefiro lançar aqui algumas palavras enigmáticas, contar meia história, fazer referências que só eu entendo, preocupar-me aqui e ali, algo raramente, com estilo e forma e beleza.
Não narrar, que acho que não é essa a minha onda. Nem inventar, que ficção é outra praia que não frequento. Lançar, como gosto de pensar, sementes ao ar e imaginar que, quem sabe, algum dia, elas caiam em terreno fértil e germinem.
Mas agora eu tenho de fazer um diário? Ter, tenho, como me é perceptível ao relancear os olhos pelas linhas acima e perceber as palavras que intentei dizer e ficaram pelo caminho, mas fazer?
Nessas coincidências da vida, estou agora lendo viajantes. Europeus, quase todos (ou todos?), que vieram para o Brasil no século XIX e, como comentava uma amiga minha, apesar de os caras serem mega preconceituosos e racistas e o escambau, que puta loucura os caras, tipo um príncipe alemão, saírem de suas casinhas e se meterem num barco e se enfiarem pelas estradas enlameadas desse Brasil afora. É muito espírito aventureiro, desses que em tempo de avião, internet e smartphone é difícil sequer imaginar.
O ponto é que os caras contaram, aí em livros de trezentas ou quinhentas ou mil páginas, tudo que viram. Às vezes de maneira muito enfadonha, eu pelo menos estou pouco me fudendo pras formigas que eles encontraram pelo caminho, muito menos pras baratas e ratos, mas ainda assim, têm ali um registro (por vezes em demasia) pormenorizado de tudo que viram e fizeram.
Eu tenho o quê? Não sou, claro, um viajante do século XIX, mas andei já umas duas léguas desse mundo e tenho o quê? Imagens desbotadas de lugares que já não sei se visitei ou por onde passei correndo. Impressões tênues que se marcam em mim e formam quem eu sou, sim, mas que não consigo reproduzir nem explicar minimamente para ninguém de fora, porque nunca elaborei.
E elaborar é escrever. Nem é preciso publicar, nem é preciso ninguém ler, mas imagino que saber que há em algum lugar, num caderno concreto, algumas dessas memórias guardadas, imagino que dê muito alento.
Planejo, então, começar a anotar. Quem sabe adquiro o hábito e quando alguém me perguntar se estive em tal ou tal cidade, eu possa responder "sim" ou "não", no lugar de um vago "não sei... talvez..."
Mas por que mesmo estou eu falando disso? Ah, sim, porque a internet me levou a um desses blogs "querido diário", em que a última anotação era que a pessoa comprou todos os livros do Harry Potter e queria ler antes de o último filme ser lançado e ela estar no meio do terceiro e não saber se vai conseguir. Nós não sabemos, porque ela não disse, mas, né? E daí? Será que um diário consiste nessas bobagens? Vou ter que anotar que ainda não terminei de ler Anna Kariênina porque absolutamente não deu tempo!?
Ai, ainda se minha letra fosse menos feia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Lado a Lado

Acho que a primeira novela a que assisti foi... Dona Beija?
Ah, sim, eu já me debati sobre toda a questão de falar perguntando, quando deveria estar afirmando, à parte toda a questão de eu dificilmente afirmar muitas coisas, uma porque posso estar errada, outra porque aceitei há muito tempo a idéia de que tudo bem expor (pelo menos um pouco) minhas inseguranças em público. Pois sim, além de me questionar o tempo todo, internamente, e de às vezes essas dúvidas transparecerem no discurso, tenho ainda o hábito, sabe-se lá se bom ou mau, de falar perguntandinho. Até tive uma conversa sobre isso com um professor, um dia, queridaço, chamado Jim, e a interpretação dele sobre minha fala é que eu pergunto quando ainda não terminei de falar, e isso é normal. Tipo antes de vírgulas. Depois ele me mandou uma matéria debatendo o assunto, sobre como mulheres tendem a ser menos... agressivas talvez seja o termo, ao exporem suas idéias do que homens. Vai saber e não entrarei nesse mérito agora, mas sim, eu não tenho certeza (daí a interrogação) se a primeira novela a que assisti foi Dona Beija, numa televisão p&b que ficava no alto de uma estante de ferro cheia de livro no quarto dos meus pais.
Na minha casa nunca houve muito isso de censura, então eu via novelas da Manchete na maior. Vi depois Kananga do Japão, de que gostei muito, e Pantanal e diversas outras. Nos últimos anos, no entanto, dei uma desencanada do formato, principalmente porque é tudo tão a mesma coisa e eu comecei a achar um saco. Gostei, por último, talvez de O Cravo e a Rosa, das seis, e depois disso de Chocolate com Pimenta, que eu me atrasava toda vez pra aula de dança porque queria ver o fim. O apelo dessa última pra mim tem nome e sobrenome: Drica Morais. Genial, ela.
Aí não sei o que andou acontecendo em casa, minha mãe por algum motivo começou a assistir uma das seis bem bobinha e o lance todo mudou. Porque a curtição não era ver a trama besta, mas estar ali, vendo a novela juntas. Nessa, tempo vai, tempo vem, começou em finais do ano passado uma novela de época, chamada Lado a Lado, a ser protagonizada por duas mulheres. O ambiente - histórico, portanto potencial e concretamente irritante em diversos aspectos - era o Rio de Janeiro no começo do século XX e um dos temas centrais da história era o pós-abolição. Assim, bem pós, meio que olhando pro que aconteceu com a sociedade depois desse pepino ser "resolvido". Com aspas, e explico: resolvido mesmo nada foi, além da questão formal de não haver mais escravos; ou melhor, resolvido mesmo tudo foi e muito bem, porque apesar da Lei Áurea (que ainda é muita coisa) os egressos da escravidão continuaram a ser marginalizados, mesmo que de outras formas. Sim, a meu ver, as cotas entram nesse balaio, mas não é sobre isso que eu queria falar.
Pois sim, a novela enfrentou uma polêmica raramente vista na nossa televisão: discutir o racismo que existe na sociedade brasileira e de quebra, ou mais importante, o papel das mulheres naquela e, consequentemente nessa, sociedade. Eis que surgiu uma novela feminista.
Eu no segundo semestre de 2010 fui feliz. Sem adjetivações, feliz. Pelo lugar em que eu estava, pelo que já tinha feito, pelo que queria fazer e pelas pessoas que me rodeavam. Um dia, numa conversa regada a cerveja na saída da universidade, um amigo perguntou, não lembro por que motivo: mas então, você é feminista?
E eu não soube responder.
Era? Nunca tinha sentido - talvez muito parvamente - necessidade de me rotular assim. Fiquei algo incomodada, não com a pergunta, mas com a minha resposta. Eu nunca havia me perguntado isso, não fazia parte do meu universo de questionamentos e de definições sobre mim mesma.
Desde então foram-se quase três anos e, apesar de não estar tão feliz quanto fui, tenho ao menos uma resposta pronta. Sim.
Em meio a essa descoberta, passei a me dar conta de que essa não pode ser uma afirmação feita levianamente. Nem descomprometidamente. Existe aí uma necessidade de luta e de afirmação e de discussão, mais do que tudo de educação, porque é muito difícil isso de nadar contra a corrente.
Confesso que ainda sinto dificuldades em me assumir feminista, pois me sinto tão virtualmente ignorante de teorias sobre o assunto. Coisa que posso remediar num futuro próximo, mas o caso não é esse. O caso, acho eu, é que a gente não precisa ser especialista em nada para ser feminista. Tem por aí uns questionariozinhos que elucidam a questão, com pontos como: você acha que um homem e uma mulher devem receber o mesmo salário para desempenharem o mesmo trabalho?, e etc. Isso é feminismo.
Pois que, desde aquela primeira confusão, me vi cercada de (mais) mulheres maravilhosas, que pensaram comigo essa questão e me ajudam a formulá-la, me ajudam inclusive a me livrar de preconceitos e conivências dos quais é trabalhoso nos livrarmos. Mas é um processo e uma luta contínuos. Conheci até um (um, hein!) homem que, em meio a uma aula lotada, foi o único a levantar a mão quando uma professora perguntou se alguém ali era feminista. Entrei até numa polêmica com uma colega que debatia pornografia e achava que toda a história de exploração do corpo feminino e cagação de regra sobre como corpo deve ser não eram assuntos relevantes e eram "feministinhas". Ela não usou esse termo, nem poderia por não falar português, mas quis dizer algo nesse sentido. Descobri até um amigo que andava perdido, tão perdido e que, reencontrado, pensa como eu.
Ainda semana passada, falava eu com uma amiga não tão ligada nessas questões e ela contava como no trabalho dela o chefe (um escroto) dizia que ela era toda feminista, querendo, obviamente, depreciá-la. Ao que eu argumentei: meu, isso não é ofensa e eu acho que você devia comprar o rótulo, usar umas camisas lilases e com o símbolo e tudo o mais e quando o cara vier fazendo graça, chegar logo na voadora e dizer "sou feminista sim, meu amigo, e aí, vai encarar?!"
Não, esse não é um post sobre o dia internacional da mulher, para o qual estou meio que cagando. Para toda a história das flores e chocolates, que se fodam, e para todas as propagandas escrotas que aparecem na minha frente. Estou muito aí para o significado histórico da data e o que ele me diz é que sim, alcançamos muito, mas ainda há um mundo a ser conquistado.
Esse post é sobre uma novela que, com erros e acertos, ousou debater um tema deixado de lado por um número enorme de pessoas. Que ousou colocar à frente duas mulheres, uma branca e uma negra, uma de origens humildes e uma de origens aristocráticas, duas lutadores que se tornaram amigas. Que ousou terminar a trama não com os casais (heterossexuais, sim, mas vá lá) felizes, mas com as duas protagonistas reconhecendo a importância que tiveram nas vidas uma da outra.
Porque mulheres podem ser amigas.
E eu acho isso lindo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Mila

Há quinze ou vinte, não sei quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia um enorme sucesso com uma música chamada "Mila". Só agora me dou conta de que "Mila" nada tem a ver com essa história, porque tentando recuperar a música na minha mente, ela vem agitadinha e o google me confirma que a música à qual me refiro, uma balada em que ele conta a história de uma paixão ou sei lá o que por uma garota que ele conheceu quando ela era muito pequena, se chama "menina". Cerveja 1 X 0 eu.
Pois, sim, "menina". Há quinze, ou vinte, ou sei lá quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia enorme sucesso com uma música chamada "menina". Não sei por quê, mas eu gostava muito dessa música. Era eu então, também, muito pequena e isso aconteceu antes do avanço inexpugnável da internet.
Aí um dia, eu gostando muito da música e do Netinho, vi num programa de televisão a história de umas fãs que mandaram pra ele uma carta gigantesca, dessas com folhas de papel sulfite coladas umas nas outras e que formavam um imenso tapete, todo cheio de beijos de batom ou de eu-te-amos, que as fãs colaram e beijaram e escreveram e mandaram pra ele e o programa de tevê gravou e transmitiu.
E eu vi.
Lembro ainda, com grande clareza, apesar dos quinze ou vinte ou sei lá quantos anos passados, da sensação de estranheza que experimentei vendo aquilo. Pela tevê. E, pensava eu: mas vocês, fãs, que colaram e beijaram, conhecem o Netinho, mas ele não conhece vocês. Eu sentia no meu coração, então, que eu gostava dele tanto quanto elas, mas sendo tão desconhecida para ele quanto elas eram, percebi uma coisa fundamental que marcou, talvez, o resto da minha existência: ele não me conhecia. Eu podia saber tudo da vida dele e adorá-lo, mas se eu mandasse uma carta de quilômetros para ele, ainda assim ele não me conheceria. Podia até achar graça, quiçá me encontrar num programa de tevê e me dar um abraço sorridente, mas ele não me conhecia, essa eu que vivia por dentro, que lhe escapava e o adorava vivia a léguas e léguas de distância inalcançável dele, cantor baiano, distância essa muito intransponível.
Pois assim cresci, sem ídolos e adorações, até gostando muito, mas sem jamais esquecer que eles não me conhecem. Talvez, então, Freud explique a consequência imediata desse simples fato em toda a minha vida: gostei muito de muitas coisas e pessoas, mas eis que uma barreira se ergue e eu não posso amar o que não me conhece. Cúmulo do egocentrismo, sim. Sem mas. E sem mais.
Esquizofrênica que sou, amo muitas coisas, mesmo de verdade, ouço uma música ou um verso ou um som, vejo uma luz e sou sinceramente capaz de amá-las, desde que eu saiba aqui dentro que as amo, independente do que elas sentem por mim. Eu as amo apesar de elas me desconhecerem e eu desenvolvi assim, outro tipo de amor.
Hoje, por exemplo, caminhava eu em direção ao metrô e vi, na calçada esburacada e bloqueada por um poste adiante, um cego. Deficiente visual talvez seja o termo correto, mas cego é mais curto e direto ao ponto. Ele atravessava os obstáculos segurando pelo braço uma mulher que parecia algo desconfortável. Depois de vencidas as barreiras, ele seguiu sozinho pela galeria e eu atrás, nem por nada, mas porque ele estava à minha frente distância suficiente para que eu não pudesse ultrapassá-lo segura e confortavelmente. Segui, portanto, atrás. E ele, à frente, chegou às escadas rolantes, subiu, localizou-se e dirigiu-se ao lance seguinte, subiu e eu pensando "caralho, mas o cara não enxerga, tá com uma daquelas bengalas, e anda como se o mundo não representasse para ele desafio maior do que representa para mim". Chegando às catracas do metrô, aproxima-se uma funcionária, oferece ajuda e ele, muito simpaticamente, aceita e diz: PSE. A moça não entende e ele explica: praça da sé.
Corta, atravessamos ambos o metrô separados, eu estou numa rua em que há um desses artistas pintados de branco em pose de estátua e que só se mexem se alguém depositar algum dinheiro na caixinha. Perto dos prédios que limitam a calçada, uma menina e uma mulher em aparente discussão, nada violento, mas quando me aproximo percebo que a menina quer dar dinheiro à estátua e a avó - avó, porque a ouço chamá-la assim - lhe dá umas moedas, mas a menina não quer colocar na caixinha e diz "mas eu não sei como faz!". Com alguma impaciência, a avó diz: olha, coloca lá ou então vamos embora. Sem ter realmente muita pressa, mas para ensinar a neta, de seus 8 ou 10 anos, a colocar o dinheiro na caixinha. Segue lá a menina, nesse ponto eu sigo parada num corredor a observar o desenrolar da história, e coloca o dinheiro e a estátua se mexe e ela, a menina, fica tão fora de si que logo vira as costas e não vê o movimento da artista, embora a avó tente chamar-lhe a atenção, para que ela observe o gesto de gratidão e o beijo lançado pela estátua. Sigo eu pelo corredor, quase (porque não choro em público se puder evitar) com lágrimas aos olhos, pela menina, a avó e a estátua.
Pois sim, nem o cego nem a menina nem a estátua nem a avó me conhecem e eu os amo. Mas eu também não os conheço e por isso talvez os ame.
Quando eu entendi, ainda pequena, que o cantor baiano não me podia conhecer, achei que tinha resolvido essa questão para sempre.
É só que para sempre não existe.
E eu, aos plenos trinta anos, me esqueci. Porque os tempos são outros, eu sou outra e o mundo não é mais o mesmo e você não é um cantor baiano. Mas eu, nesse mundo, senti por um segundo que podia conhecê-lo e, conhecendo-o, o amei. Esqueci que você não me conhecia, nem eu o conhecia para além desse filtro irreparável da distância e achei que eu, sendo quem sou, seria suficiente. Para quê, não sei, mas certamente para alguma coisa. Porque, para mim, o valor dessa brincadeira é o apaixonar-se, por um cego ou uma neta ou uma estátua, mas permitir que os elementos que nos cercam nos encantem, simplesmente pelo que são e pelo que somos. Isso é uma certeza, já observei em diversos momentos da minha vida e é algo que valorizo e pretendo que continue assim.
Assim, iludida, te amei. Mas você não me conhece e nem quer conhecer. Nem um segundo olhar, nem uma interrogação ou um levantar de sobrancelhas indicando curiosidade. Eu nada à sua frente, eis o que sou, tal como os metros e metros de carta escritas ao cantor baiano. Você não me vê, você sequer me olha, fundida que estou com o cenário à sua frente.
E é tão engraçado perceber isso, porque enquanto me dou conta e penso, enquanto caminho pela avenida deserta sozinha e penso isso, exatamente isso, que deveria me doer como um ferro em brasa, penso apenas: tudo bem.
Há um ano, eu choraria e me descabelaria, ainda que por uma noite, ainda que por poucas horas, porque incapaz de despertar um mínimo de curiosidade. Sabendo, talvez, perfeitamente bem o tanto de egocentrismo que permeia a frase e a sensação. E daí?, ou "so what?", como diria o Coli num curso sobre cinema que fiz em outra vida? Quem sou eu na ordem do dia para ser perscrutada? Sigo plenamente consciente da minha insignificância. Não por qualquer complexo de inferioridade, apenas por saber que o mundo está cheio de pessoas e eu sou apenas uma delas.
Mas, mais do que uma delas, eu sou eu e sou a única coisa que (quase) conheço nesse mundo. Assim, me acho fascinante e tão interessante que, em parte, me surpreendo pelo branco que ocupo em determinados lugares. Sim, me importo, mas não me descabelo. Me surpreendo e acho uma pena. De repente o lance é que ando com o ego muito inflado, mas acho que tenho algo a oferecer e acho que ninguém mais além de mim pode dar o que só eu tenho, porque sendo apenas uma pessoa como você e qualquer outra, sou eu, esse mistério que se aprofunda para dentro, esse infinito interior que pode ser vislumbrado e jamais desvendado e aqui cabe o mundo. E você não vê. Não arqueia as sobrancelhas nem se pergunta, nem surge no seu olhar a mais leve interrogação. Eu, para você, sou o vazio e eu, em mim, sinto pena de nós dois.
As pessoas talvez dissessem que, uai, azar o seu. Eu digo, com total convicção: azar o nosso.
Porque eu e você podíamos ser tanto e não somos, porque eu e você não existimos e eu sinto pena, porque ainda acho que, bem ou mal, as oportunidades nessa vida são sempre escassas demais e acho que sou uma oportunidade que não se deve desperdiçar.
Eu, porém, aos trinta anos, não me descabelo nem me debato, não urro nem gemo nem me destruo, nem sequer choro, nem sequer te digo.
Escrevo esse texto a ser lido por fantasmas e permaneço eternamente ignorada por você.
E sigo adiante comigo, porque eu, a mim, não desperdiço.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Basta um dia

Sim, porque ontem choveu o mundo em São Paulo.
Acabou a luz por horas e horas e eu, sozinha, senti o escuro chegar e se estabelecer.
Antes disso, enquanto do céu caíam pedras, eu pensava que era um presente.
Que haverá em mim ou na chuva que me faz sentir tão alegra só pelo fato de ela cair?
Eu adoro, mesmo, de verdade. Estender a mão pela janela e sentir os pingos e tentar pegar o granizo, totalmente infantil, mas eu gosto muito da tormenta.
Afora as preocupações com quem está fora, se está bem, eu Maga me sinto bem em tempestades.
Vez por outra sinto um quê de medo, mas que é pequeno diante do prazer.
E o escuro?
O silêncio numa cidade como essa em que tudo é ruído?
Fiquei pensando nisso, que é aí que a gente se encontra. Sem subterfúgios, porque eu sempre digo que gosto de ficar sozinha, mas gosto quando posso ver um filme, ler um livro, falar com alguém pelo telefone. E quando não se pode? Não sei se alguém ainda sabe o que é solidão. Na metrópole.
Bem agora, final de tarde, ouço os gritos distantes e tão próximos da garotada no colégio que joga, acho futebol. Não distingo palavras, só o barulho e vez ou outra a bola que bate numa parede. ouço um cachorro que late e o bebê que chorava há pouco agora cala.
Sim, o silêncio não é fácil de se enfrentar.
Mas eu ontem olhei para ele como presente e me senti em paz. Senti até vontade de escrever; faltou bateria e eu gosto é de digitar, mas pensei romanticamente em escrever à mão e depois escanear e postar aqui, mas sobreveio o silêncio.
Acordei no meio do noite assustada com a luz que voltava e eu, no sonho, achava que era um fogo que caía sobre meus olhos. Foi-se também o tempo em que eu dormia como uma pedra e em que luzes e sons não penetravam nos meus sonhos.
Não posso discernir o que ocasionou a mudança, mas ela está aqui e seus efeitos se fazem sentir.
Queria dizer mais, só não sei o quê. Talvez amanhã.
Pois sim, uma tia me ligou hoje.
Só não era a mesma.

Só um dia

Não mais que um dia.
Um meio dia.
Vi esses dias uma entrevista com a Bibi Ferreira e confesso que foi a primeira. Totalmente adorável, aquela senhora dizendo estar convencida de que a gata que ganhou de presente é louca e que não faz academia porque exercício cansa demais o diafragma e quem canta não pode cansar demais o diafragma.
Quase deu vontade de começar a cantar, para poder usar Bibi Ferreira como desculpa.
Então que não a vi como Joana, mas vi a Georgette Fadel e nem tenho palavras.
Nem vou de novo ao "Gota d'água", talvez porque foi-se o tempo ou porque já fui muito, mas bem agora tava pensando: só um dia...
E que mais pensava eu?
"Em cada esquina uma ameaça"? 
"Sei que há  um céu sobre essa chuva e um grito parado no ar".
Não sei mesmo, devia nem estar então escrevendo, mas já que já foi, foi, e fica então ela:


Não sou ruim, embora viva de trapaça...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mária

O Mário não cai.
Não foi ele quem me contou, eu já há muito tempo não o vejo e, ainda quando via, nunca estabelecemos uma conversa em que fizesse sentido me contar. Na verdade, duvido que ele saiba quem eu sou, se alguém algum dia porventura mencionar meu nome. Eu sei quem ele é porque todo mundo sabe. E uma vez ou duas parei no arquivo que não era o meu para falar com ele. Quando minhas visitas se tornaram mais assíduas, ele já não estava.
Quem me contou que o Mário não cai foi um conhecido das antigas, antiquíssimas, tantas que mal me recordo. Eu mal lembrar, aliás, é fato corriqueiro como todos sabemos bem sabido. Ainda há pouco tomei outra chapuletada (sim, é com "p", diz o Aurélio aqui ao lado, mas eu sempre sempre disse com "b") ao conversar com uma amiga, essa sim de tempos longínquos, e ela me contou uma história que vivemos juntas, ainda adolescentes, quando em uma praia na Bahia sentimos não sei que comoção e choramos juntas e sozinhas por razões que não sabíamos explicar. Para ela, a lembrança clara como cristal, ou talvez como fotografia algo apagadinha mas em que tudo ainda é perfeitamente reconhecível. Para mim, silêncio. Não foi comigo que aconteceu, apesar de ser absolutamente plausível que aconteça, porque eu transbordo sempre pelos olhos. Com as coisas mais banais.
E ainda assim, aparentemente foi comigo que aconteceu. Eu me pergunto como pode alguém viver de memória perdê-las tão completamente e perder-se. Esse eu adolescente, na praia da Bahia chorando, se foi  sem deixar rastros, a não ser aquilo que somos, tão irrastreável quanto qualquer outro com quem já me deparei nessas andanças.
Então a amiga longínqua e o conhecido antiquíssimo me contam do que eu fui e do que nós fomos e eu só posso acreditar ou duvidar.
Então o conhecido me conta que o Mário não cai, porque o Mário não faz nada banal e cair é coisa de quem não presta atenção no que faz ou faz coisas sem importância como, quem sabe, perambular à toa por aí, com os pés aqui e a cabeça nas estrelas.
O Mário não faz nada banal e eu rio, primeiro porque só a idéia tem sua imensa graça, segundo porque eu faço muito pouco além do banal. Inclusive rir do Mário que não cai.
Além de graça, a idéia tem um quê de instigante, assim como essas coisas que podem despertar admiração, ou pelo menos assombro, mas pensar nisso, numa vida com propósito, as ações com propósito e as palavras com propósito e saber, imagine saber o que tem propósito e o que não tem. Não viver mergulhado em dúvidas constantes e incertezas paralisantes, no nada que te puxa para todos os lados e não leva a lugar algum. Ir apenas aonde é necessário, há aí uma atração, na falta de desperdício. Sim, em suma é isso: não desperdiçar. Tempo, energia, pessoas e o coração batendo enlouquecidamente, lágrimas e sorrisos, tudo a seu lugar e a seu tempo.
Se tudo que vemos do outro é o espelho invertido do que vemos de nós, fica evidente como o sol dos trópicos que o Mário não cai e eu me estabaco. Estabanada ando, em desequilíbrio constante, caio sem motivo e com, busco apoio e o levo comigo para o chão. Levanto-me apenas por um minuto, para acreditar  que vai durar, até perceber que não. Eu sei tudo por acaso, tudo por atraso, mera distração.
Ainda bem que Lenine também.

Djavan

Só porque de repente, não sei o que acontecia, veio à minha mente uma palavra: milagreiro.
Ei-lo.



Agora vamos ter os girassóis
do fim do ano
e o calor vem desumano.
Tudo irá se expandir
crescer com as águas
quiçá, amores nos corações.
E um santeiro,
milagreiro,
prevê a dor
de terceiros
e diz que a vida
é feita de ilusão.
Aquela que um dia o fez sonhar
se foi com outro
no dia em que os dois
se casariam por amor.
Ele aluou,
hoje o seu pesar
cintila nos varais,
usou as sete vidas
e não foi feliz jamais.
Toda a imensidão
passou pela vida
e foi cair na solidão.
Mais um santo pra esculpir é o que lhe vale
para evitar que o rancor suas ervas espalhe.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

There's still time to change the road you're on

O Pablo Villaça postou uns vídeos do Led Zeppelin, já faz um tempo, tocando Stairway to Heaven em 1973 e de uma homenagem feita a eles, ano passado.
Eu sempre gostei muito dessa música, acho que foi o primeiro cd da minha irmã, quando compramos nosso primeiro cd player, nos idos de  muito tempo atrás. Tão isso, né, lembro de quando compramos o primeiro cd. O meu foi um mix do que chamávamos de "dance music" e tinha uma música da chuva de que não consigo lembrar agora.
E aí que eu não manjo lhufas de música e minha péssima memória me impede de manjar qualquer coisa de bandas, mas vendo ali os caras assistindo à apresentação e visivelmente emocionados, a questão que me veio à mente é até que ponto eles têm noção de que se tornaram imortais. Será daí que vem a emoção?
Provavelmente não, mas o fato é esse: imortais.
Reconheço minha profunda ignorância sobre tudo, mas lia um texto da Márcia Tiburi sobre isso, há umas semanas, sobre o que é arte e o que não é. Ela falava sobre um fenômeno chamado de literário que tem tomado o mundo, ultimamente, e sobre a diferença entre livro e literatura; sobre como é claro que um livro é uma mercadoria, produzida, reproduzida, vendida e comprada, mas ao mesmo tempo o que ele contém é maior do que o preço de capa. Quando é literatura e não apenas mercadoria.
E afinal de contas é isso, que a arte tem, esse excesso de valor, esse valor incontável e que, ao fim e ao cabo, traz em si algo que transcende a mortalidade. Permanece depois do fim e de tal modo que acreditamos que permanecerá sempre.
Estou a milhões de quilômetros de entender o que significaria isso, o cara ser um Led Zeppelin na vida e cantar uma Stairway to Heaven perante dezenas de milhares de pessoas. Sei apenas da forma como me atinge a mim, na minha insignificância e finitude, saber que existem por aí pessoas que entendem. E são.
Talvez o grande barato dessa nossa humanidade seja isso, da gente conseguir se apropriar desse excesso alheio e torná-lo um pouquinho nosso, de conseguir se encher um tantinho disso que transborda do outro, sem ser apropriação indébita, porque o outro nessa história já dançou e o que ele deixou é arte.
Divago, sim, divago.
Tenho uma sobrinha, por isso fui/sou exposta/me expus a diversos tipos de músicas infantis, desde as fenomenais até as mais impróprias, mas que a direção da escola achou apropriadas para serem cantadas e dançadas na festa junina. Sendo perfeitamente claro a qualquer ser com uma cabeça em cima do pescoço que existem tantas músicas lindinhas de festa junina, que falam sobre a gente, de onde viemos, o que fazíamos, quem somos, mas não, a direção acha que festa junina é meteoro da paixão.
Mas divago.
Próxima, assim, de músicas infantis e ainda muito ignorante, caí há alguns anos no Palavra Cantada, esse grupo maravilhoso que faz música pra criança sem ser imbecil e sendo lindo e emocionante. No final do ano passado, ou no meio, já não sei, viajei com a sobrinha e colocamos num pendrive, para ouvir na longa estrada, todas as músicas que tínhamos do grupo, e uma me emocionou em particular. Nem sei bem por quê, se é que alguém sabe alguma vez, ou se é que alguém alguma vez ignora.
É Beleza, né? Assim com maiúscula, até porque tem aí algo de ridículo, mas só porque ela pura beira o insuportável.
Deixa aqui pra vocês e pra mim, quando eu voltar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Vai saber

Suavidade em forma de som, tinha de ser Marisa cantando e Adriana compondo...


Não vá pensando que determinou
sobre o que só o amor pode saber
só porque disse que não me quer
não quer dizer que não vá querer
pois tudo que se sabe do amor
é que ele gosta muito de mudar
e pode aparecer onde ninguém ousaria supor
só porque disse que de mim não pode gostar
não quer dizer que não tenha do que duvidar
pensando bem pode mesmo chegar a se arrepender
e pode ser então que seja tarde demais
vai saber?


Não vá pensando que determinou
sobre o que só o amor pode saber
só porque disse que não me quer
não quer dizer que não vá querer
pois tudo que se sabe do amor
é que ele gosta muito de se dar
e pode aparecer onde ninguém ousaria se por
só porque disse que de mim não pode gostar
não quer dizer que não tenha o que considerar
pensando bem pode mesmo chegar a se arrepender
e pode ser então que seja tarde demais
vai saber?


Não vá pensando que determinou
sobre o que só o amor pode saber
só porque disse que não me quer
não quer dizer que não vá querer
pois tudo que se sabe do amor
é que ele gosta muito de jogar
e pode aparecer onde ninguém ousaria supor
só porque disse que de mim não pode gostar
não quer dizer que não venha a reconsiderar
pensando bem pode mesmo chegar a se arrepender
e pode ser então que seja tarde demais...

Clandestino

Estou me sentindo meio desconfortável na minha pele.
Podem ser hormônios, a lua, o sol ou saturno de novo, pode ser doideira minha ou só a vida que segue seu curso, mas ainda é ruim. Tive uma série de estranhamentos ultimamente, com as pessoas ao meu redor crescendo e eu me sentindo um tanto estagnada, em parte por minhas escolhas, em parte não.
Aí estava aqui conversando com uma amiga bem resolvida, se é que alguém o é, e achei tão curioso que ela também está na maior crise. Numa vida completamente diferente da minha, morando num lugar totalmente diferente do meu, com encanações totalmente outras, e ainda em crise.
O foda é perceber isso, as crises não passam; se transformam aqui e ali, mas sempre existem. E cansa tanto, perceber isso todos os dias de novo; a gente sabe, mas esquece, aí uma vem e passa e a gente suspira e diz "ufa, essa já foi" e ali na esquina tem outra se formando. Por uma coisa ou outra ou ambas.
E tava cozinhando antes, em silêncio à princípio, depois cacei um Manu Chao há meses esquecido e cheguei a essa conclusão, totalmente alheia, eu acho, ao que ele quis dizer, mas desse sentimento de ser clandestino na vida.
Sei lá.
E o buraco que não enche, não importa o quê?
A verdade é que nós todos viemos pra vida sem papel, meu caro.
Esses dias levei a sobrinha para tomar sorvete com uma amiga minha. Ela ali sentadinha, tomando o sorvete azul, e eu e a amiga conversando ao lado, na mesa. Boca suja que sou, não seguro um palavrão, um filho-da-puta qualquer, mas como a sobrinha cresce e acho inconveniente ela começar a falar tantos palavrões tão cedo, contornei, ou melhor, corrigi, para "filho-da-mãe". Eis que a sobrinha dá uma pausa no sorvete azul, olha para mim pensativa e rebate: mas todo mundo é filho da mãe. Elementar, minha cara. Eu bem olhei pra ela e respondi da única forma que me ocorreu: é, você tem razão... mas uns são mais que outros.
Achei tanta graça nessa minha imbecilidade, o que provavelmente não revela de mim mais do que eu ser uma tremenda imbecil.
Então é isso; ninguém leva papel, mas uns levam menos que outros. Muito menos, no caso.
E eis que ressurge em mim a vontade de sair, outra língua, outra geografia, ser em outro lugar alguma outra coisa que é a mesma.
A rima, Drummond, a rima, que diabos, e onde caralhos está a solução?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Desafio

Chega de tentar dissimular
e disfarçar e esconder
o que não dá mais pra ocultar,
e eu não posso mais calar
já que o brilho desse olhar foi traidor
e entregou o que você tentou conter
o que você não quis desabafar
e me cortou.
Chega de temer, chorar, sofrer
sorrir, se dar
e se perder e se achar
e tudo aquilo que é viver.
Eu quero mais é me abrir
e que essa vida entre assim
como se fosse o sol
desvirginando a madrugada
quero sentir a dor dessa manhã
nascendo, rompendo, rasgando,
tomando meu corpo e então
eu chorando, sofrendo,
gostando, adorando, gritando
feito louca, alucinada e criança
sentindo meu amor se derramando
não dá mais pra segurar

Choquei

Fui ali atualizar a lista de livros que venho lendo e, nossa, tem ali menos de sessenta. Em cinco anos (nossa-tô-velha!), dá menos de um por mês. Ok que li mais que isso, porque alguns esqueci de colocar, outros censurei (galera, juro por deus, eu não li crepúsculo!) e tem todos aqueles de trabalho que não vêm ao caso da lista. E alguns da própria lista eu reli, mas fiquei com vergonha de dizer, porque né, tanta coisa pra ler e eu aqui, voltando pra trás. Mas um por mês, se a minha coisa é literatura?! Se eu simplesmente não durmo sem um livro, se me sinto vazia, como estive nesses últimos meses, por estar sem a companhia de um?! E ainda assim, com a corda no pescoço, comprei o diabo do McEwan e não consegui largar.
Tudo bem que só os de gelo e fogo têm oitocentos cenzilhões de páginas, mas o que é isso?! E toda minha vida social prejudicada porque eu simplesmente tinha que saber o que ia acontecer e não queria curtir a noite adoidado?!
Muito pouco, dona Maga, muito pouco.
Tratar de melhorar esses números.

Afe, afe, afe

E o Corinthians campeão do Mundial, hein?!
Eu, mamãe e Juca ficamos muito felizes e olha que foi duro, mas de repente nem tanto assim.
Eu que sonhei uns dias antes que a gente perdia e acordei assustada. Não passou de pesadelo.
Aí a Claro, acho, fez uma propaganda de natal ou uma merda qualquer, cujo mote era as pessoas darem umas às outras momentos especiais. E um cara chega pro outro, no escritório, com um pacote embrulhado e com fita e diz "os gols da final do campeonato" e toda minha inocência se revela.
Porque eu me emociono pensando como seria bom, reviver momentos especiais, poder voltar e sentir de novo aquilo que só pode ser efêmero, porque afinal esse é o meu Vinteuil, é onde eu sempre volto, e não posso voltar, como ninguém mais pode, mas eu acho bonito, um cara dar pro outro um embrulho com os gols da final do campeonato. Acho poético.
Mas então volta o ser pensante e minha inocência falece, porque a propaganda... bem, na propaganda, o cara "os gols da final do campeonato" porque ele tem um Claro e gravou. Risos.
E aí, o mundo acaba hoje ou semana que vem?

Sempre tem...

Ai, voltar. Será mesmo possível? Tanta e tanta água já correu e tanta já estagnou.
Estranhíssimo esse 2012 que acabou sem fogos de artifício e sem roupa nova e sem champanhe. Nunca gostei de champanhe, na verdade; faz tudo parte do mesmo princípio das bolhas que me fazem desgostar de refrigerantes e água com gás.
A verdade é que eu ando a cada ano mais desencantada com essa história do novo que começa. Aliás, nem bem do novo, mas do começo, aquela hora igual a todas as outras em que as pessoas se desesperam para alcançar uma felicidade que a qualquer hora parece tão inatingível.
E o Natal?! Nem vou começar a falar a irritação que essa história toda me provoca - mesmo agnóstica-quase-atéia tenho cá minhas superstições e não quero falar mal do jesus. Aí algumas pessoas queridíssimas de verdade, no melhor espírito do querer, me mandam uma mensagem de feliz natal e eu penso: pessoas queridas, eu até amo vocês, mas natal não dá.
Então que, de um certo ponto de vista, meu ano começou agora. Porque até há poucas horas, eu estava presa ao que já terminou, por todas as minhas inseguranças e vagabundices e enrolações e procrastinações, pela minha culpa e pela festa desenfreada em que começou. Depois veio o penar e, de repente... não sei, de repente eu preciso pensar que tudo começa de novo e que eu posso ser diferente e preciso ser diferente.  E que o ano passado acabou e que esse já é outro.
Tão estranho pensar que janeiro de 2013 já se esvai, assim. Onde estava eu, um ano atrás?
Feliz, eu estava. Lembro-me de olhar para o teto, deitada na minha cama, as paredes amarelas e as duas janelas que deixavam entrar o sol e eu pensar: estou feliz. Porque eu achei, há um tempo, minha definição de felicidade: são aqueles momentos em que não quero estar em nenhum outro lugar além daquele em que estou. Eu me debato em ficar satisfeita com essa idéia, nos momentos em que ela me ocorre, e em procurá-la desesperadamente, quando me foge. Tão raro, mas assim eu me senti até mais ou menos meu aniversário, que eu vou demorar talvez um tempo para entender. Acho que bateu ali a dor da perda e da distância e esse buraco que existe em mim, quiçá em todos nós, que de vez em quando cisma de doer apesar de todo o resto.
Pois cá estou eu, às vésperas de outro natalício e ainda aquele importantão. Tenho importunado as pessoas, perguntando como é, e às vezes sou mal interpretada como se estivesse insatisfeita ou com medo ou achando ruim. O fato é que eu nem acho nada, só me sinto curiosa para saber, o que nem vai demorar.
Por isso, nessa noite que vai se encaminhando para o fim, em que me sobreveio esse quê de liberdade por tanto tempo ansiado, achei por bem tentar voltar. Tentar, sim, porque me pergunto até que ponto é possível.
Tanta gente diz que a gente vai ficando mais velho e aprendendo e eu quase consigo acreditar - não fosse pelo fato de permanecer tão inescapavelmente eu. Mas aqui e ali, uma resposta engolida, uma palavra de conciliação, uma decisão tomada e eu quase pareço adulta.
Se para crescer eu não sei, mas tenho certeza de que, se em algum momento eu resolver me visitar e voltar ali nas estações passadas, vou perceber que muita coisa mudou. Se nada mais, aquela urgência em dizer parece ter se acalmado. A vontade indomável de falar e ser ouvida, a ponto de gritar e berrar, pelo menos por ora, não me acomete. Será o silêncio menos triste? Ou melhor posto, menos melancólico?
Terei eu contado aqui do dia em que perguntei a um grupo de pessoas que mal me conhecia se me acreditavam melancólica, e a resposta surpreendente foi um tipo de negação, algo como "não, não tem nada errado com você" ou assim. Pelo menos assim eu senti, enquanto me surpreendia em silêncio e pensava que ninguém sabe nada de ninguém nessa vida, mesmo.
Ainda a mania de escrever "eu" o tempo todo. E tenho cometido uns erros de escrita nada naturais, pergunto-me mesmo, hipocondríaca que sou, se não há aí algo de realmente errado. Bem, se houver, saberemos a seu tempo.
Eu por aqui volto a ler Anna Kariênina, aquela mulher adúltera sobre a qual não sei o que sinto.
PS: Ah, sim, do título, da música do Martinho da Vila que ouço um pedaço na novela e ficou na minha mente e eu fui procurar agora e começou um samba e eu achei tão lindo.