É um título do Alan Pauls que eu li, já há alguns anos, e achei bastante perturbador.
Nada assim, de terror, mesmo só o drama do personagem que doeu em mim.
É o título de um filme, baseado no Romance de Alan Pauls, com, acho, Gael García Bernal.
A que não assisti.
Também é de onde eu venho, agora, sem saber exatamente como me sinto.
Não é possível visitar o passado e voltar sem peso nenhum. Não tem uma história assim, da Apolo não-sei-que-número, que...? Ah, sim, do filme, Apollo 13, em que os caras têm que voltar pra Terra porque a missão de parar na Lua miou e eles tem que refazer um monte de cálculo porque as coordenadas que eles tinham antes previa que eles iniciassem a viagem de volta carregando as pedrinhas e sei lá mais o que da Lua, mas eles não pararam na Lua, então não tinha pedrinhas e tudo o mais.
Uma pequena divagação, mas faz parte do pacote.
Então, "o passado".
Eu tenho três blogs. Esse em que vos falo. O primeiro que criei e no qual escrevi alucinadamente por, talvez, dois anos. E um terceiro, que fiz porque achei um nome, ou achei na época que tinha achado um nome e está lá. Aí que o blogger me avisou que alguém visitou um dos outros e só pode ser o terceiro, porque o primeiro está super bloqueado para terceiros. Confuso?
Bem, mas o blogger me avisando, senti aqui um quê de curiosidade para descobrir que segredos escondem esses baús. Entrei, pois, muitos anos depois, no "Idiotia Coletiva". Porque esse era o nome dele, o primeiro, porque era uma coisa na qual eu acreditei muito. Ali estão registradas partes importantes da minha vida, apesar de já bastante apagadas dos meus registros internos. Eu sempre me surpreendo com a minha capacidade de descobrir meus textos, como se escritos por outra pessoa. Já falei disso antes, aqui ou lá, mas é uma surpresa que persiste, porque não reconheço as palavras e frases e construções, apesar de aqui e ali lembrar de uma idéia ou de uma imagem. A dos garotos no aeroporto, por exemplo, me causa déjà vu.
Déjà vu maior, porém é o encontro comigo mesma. Imagina, há cinco anos! Eu tinha meros vinte-e-cinco; tão jovem e inocente. Já falava as mesmas coisas que até hoje repito. Sempre escrevo sobre a mesma coisa, o que tem um quê de esquisito, mas mais esquisito é haver tanta coisa ainda por dizer.
E há ali um peso, das coisas que eu disse, mas mais do que deixei por dizer, das referências feitas para mim mesma, dificilmente compreensíveis por outros olhos. Muito há ali de transparente e óbvio, mas há também mistérios e alguns deles já se encontram perdidos inclusive para os meus.
Uma das coisas em que pensei, enquanto lia alguns textos, foi num seriado que tenho acompanhado, criado por uma moça chamada Lena Dunham e de nome "Girls".
Porque a segunda temporada acabou esses dias e uma galera tava dizendo que não curtiu e não fez o menos sentido e tudo o mais e eu tava na dúvida sobre a minha opinião. Na verdade, eu tinha a impressão de ter gostado, mas não sabia exatamente por que.
Até que li uma passagem escrita por mim aos 25, ou 24, anos, mesma idade da protagonista na série, em que discuto a mesma coisa que ela diz na finale. Assim um desejo de que alguém apareça pra resolver nossa vida, limpar nossa sujeira, trazer coisas legais, resolva, enfim, tudo aquilo que nos sentimos incapazes de resolver.
E um sentimento de alcançar objetivos há muito desejados e não saber bem o que fazer com eles. Aquela conversa mole de que ter tudo que a gente quer pode ser a maior merda. Talvez nem porque a gente vai achar outra coisa para querer, o que também é verdade, mas porque a gente acreditou que aquilo, aquele patamar, aquele pacote, ia nos trazer tudo de que necessitávamos para sermos felizes.
Aí chegamos lá, suando como porcas ou ganhando de presente dos céus, e é torta na cara. Porque, queridas garotas, tem isso não. Ninguém resolve, não, nem seremos felizes, não.
A parada da vida é outra. Também não sei bem qual é, afinal tenho apenas trinta; mas descobri nesses cinco ou seis anos que nos separam que a parada é outra. Quem sabe daqui a mais dez anos, com quarenta, eu possa dizer qual é, e olhar para trás e chamar a nós todas de queridas garotas.
O lance é que a história que a Lena criou não é nada nonsense. Não era para mim, na idade dela, nem é para mim hoje, que ainda guardo a recordação dessas sensações. Tudo era muito angustiante e há um certo conforto em olhar para essas angústias e elas estarem em algum lugar para trás.
Hoje as angústias são outras.
Ainda essa semana, eu conversava com uma amiga mais velha, casada há quase vinte anos, e via os olhos dela se encherem inesperadamente de lágrimas porque esse parceiro, no papel tão perfeito, não sabe mais se quer ficar com ela.
E a angústia é outra.
Eu não sou casada há quase vinte anos, nem há quase vinte minutos, mas a angústia é outra.
Ai, Bernardo Soares, que vais me acompanhar agora para sempre. Eu sou essa agora, e sou aquela antes, e já era então o que sou, apesar de me transformar no que eu era.
Penso que penso e a verdade é que desde o início eu vim aqui dizer uma coisa.
Não quero transformar o passado em tabu.
Quero dizer, como meus amigos do Recife, que não sou baú.
Solto, então, as amarras e o deixo correr livre. Aqui comigo, porque sempre vai estar, mas também distante de mim, porque, como diria Cazuza, o tempo não para.
Tem ali uma menina, querida, que iria apreciar a visita.
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