Há quinze ou vinte, não sei quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia um enorme sucesso com uma música chamada "Mila". Só agora me dou conta de que "Mila" nada tem a ver com essa história, porque tentando recuperar a música na minha mente, ela vem agitadinha e o google me confirma que a música à qual me refiro, uma balada em que ele conta a história de uma paixão ou sei lá o que por uma garota que ele conheceu quando ela era muito pequena, se chama "menina". Cerveja 1 X 0 eu.
Pois, sim, "menina". Há quinze, ou vinte, ou sei lá quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia enorme sucesso com uma música chamada "menina". Não sei por quê, mas eu gostava muito dessa música. Era eu então, também, muito pequena e isso aconteceu antes do avanço inexpugnável da internet.
Aí um dia, eu gostando muito da música e do Netinho, vi num programa de televisão a história de umas fãs que mandaram pra ele uma carta gigantesca, dessas com folhas de papel sulfite coladas umas nas outras e que formavam um imenso tapete, todo cheio de beijos de batom ou de eu-te-amos, que as fãs colaram e beijaram e escreveram e mandaram pra ele e o programa de tevê gravou e transmitiu.
E eu vi.
Lembro ainda, com grande clareza, apesar dos quinze ou vinte ou sei lá quantos anos passados, da sensação de estranheza que experimentei vendo aquilo. Pela tevê. E, pensava eu: mas vocês, fãs, que colaram e beijaram, conhecem o Netinho, mas ele não conhece vocês. Eu sentia no meu coração, então, que eu gostava dele tanto quanto elas, mas sendo tão desconhecida para ele quanto elas eram, percebi uma coisa fundamental que marcou, talvez, o resto da minha existência: ele não me conhecia. Eu podia saber tudo da vida dele e adorá-lo, mas se eu mandasse uma carta de quilômetros para ele, ainda assim ele não me conheceria. Podia até achar graça, quiçá me encontrar num programa de tevê e me dar um abraço sorridente, mas ele não me conhecia, essa eu que vivia por dentro, que lhe escapava e o adorava vivia a léguas e léguas de distância inalcançável dele, cantor baiano, distância essa muito intransponível.
Pois assim cresci, sem ídolos e adorações, até gostando muito, mas sem jamais esquecer que eles não me conhecem. Talvez, então, Freud explique a consequência imediata desse simples fato em toda a minha vida: gostei muito de muitas coisas e pessoas, mas eis que uma barreira se ergue e eu não posso amar o que não me conhece. Cúmulo do egocentrismo, sim. Sem mas. E sem mais.
Esquizofrênica que sou, amo muitas coisas, mesmo de verdade, ouço uma música ou um verso ou um som, vejo uma luz e sou sinceramente capaz de amá-las, desde que eu saiba aqui dentro que as amo, independente do que elas sentem por mim. Eu as amo apesar de elas me desconhecerem e eu desenvolvi assim, outro tipo de amor.
Hoje, por exemplo, caminhava eu em direção ao metrô e vi, na calçada esburacada e bloqueada por um poste adiante, um cego. Deficiente visual talvez seja o termo correto, mas cego é mais curto e direto ao ponto. Ele atravessava os obstáculos segurando pelo braço uma mulher que parecia algo desconfortável. Depois de vencidas as barreiras, ele seguiu sozinho pela galeria e eu atrás, nem por nada, mas porque ele estava à minha frente distância suficiente para que eu não pudesse ultrapassá-lo segura e confortavelmente. Segui, portanto, atrás. E ele, à frente, chegou às escadas rolantes, subiu, localizou-se e dirigiu-se ao lance seguinte, subiu e eu pensando "caralho, mas o cara não enxerga, tá com uma daquelas bengalas, e anda como se o mundo não representasse para ele desafio maior do que representa para mim". Chegando às catracas do metrô, aproxima-se uma funcionária, oferece ajuda e ele, muito simpaticamente, aceita e diz: PSE. A moça não entende e ele explica: praça da sé.
Corta, atravessamos ambos o metrô separados, eu estou numa rua em que há um desses artistas pintados de branco em pose de estátua e que só se mexem se alguém depositar algum dinheiro na caixinha. Perto dos prédios que limitam a calçada, uma menina e uma mulher em aparente discussão, nada violento, mas quando me aproximo percebo que a menina quer dar dinheiro à estátua e a avó - avó, porque a ouço chamá-la assim - lhe dá umas moedas, mas a menina não quer colocar na caixinha e diz "mas eu não sei como faz!". Com alguma impaciência, a avó diz: olha, coloca lá ou então vamos embora. Sem ter realmente muita pressa, mas para ensinar a neta, de seus 8 ou 10 anos, a colocar o dinheiro na caixinha. Segue lá a menina, nesse ponto eu sigo parada num corredor a observar o desenrolar da história, e coloca o dinheiro e a estátua se mexe e ela, a menina, fica tão fora de si que logo vira as costas e não vê o movimento da artista, embora a avó tente chamar-lhe a atenção, para que ela observe o gesto de gratidão e o beijo lançado pela estátua. Sigo eu pelo corredor, quase (porque não choro em público se puder evitar) com lágrimas aos olhos, pela menina, a avó e a estátua.
Pois sim, nem o cego nem a menina nem a estátua nem a avó me conhecem e eu os amo. Mas eu também não os conheço e por isso talvez os ame.
Quando eu entendi, ainda pequena, que o cantor baiano não me podia conhecer, achei que tinha resolvido essa questão para sempre.
É só que para sempre não existe.
E eu, aos plenos trinta anos, me esqueci. Porque os tempos são outros, eu sou outra e o mundo não é mais o mesmo e você não é um cantor baiano. Mas eu, nesse mundo, senti por um segundo que podia conhecê-lo e, conhecendo-o, o amei. Esqueci que você não me conhecia, nem eu o conhecia para além desse filtro irreparável da distância e achei que eu, sendo quem sou, seria suficiente. Para quê, não sei, mas certamente para alguma coisa. Porque, para mim, o valor dessa brincadeira é o apaixonar-se, por um cego ou uma neta ou uma estátua, mas permitir que os elementos que nos cercam nos encantem, simplesmente pelo que são e pelo que somos. Isso é uma certeza, já observei em diversos momentos da minha vida e é algo que valorizo e pretendo que continue assim.
Assim, iludida, te amei. Mas você não me conhece e nem quer conhecer. Nem um segundo olhar, nem uma interrogação ou um levantar de sobrancelhas indicando curiosidade. Eu nada à sua frente, eis o que sou, tal como os metros e metros de carta escritas ao cantor baiano. Você não me vê, você sequer me olha, fundida que estou com o cenário à sua frente.
E é tão engraçado perceber isso, porque enquanto me dou conta e penso, enquanto caminho pela avenida deserta sozinha e penso isso, exatamente isso, que deveria me doer como um ferro em brasa, penso apenas: tudo bem.
Há um ano, eu choraria e me descabelaria, ainda que por uma noite, ainda que por poucas horas, porque incapaz de despertar um mínimo de curiosidade. Sabendo, talvez, perfeitamente bem o tanto de egocentrismo que permeia a frase e a sensação. E daí?, ou "so what?", como diria o Coli num curso sobre cinema que fiz em outra vida? Quem sou eu na ordem do dia para ser perscrutada? Sigo plenamente consciente da minha insignificância. Não por qualquer complexo de inferioridade, apenas por saber que o mundo está cheio de pessoas e eu sou apenas uma delas.
Mas, mais do que uma delas, eu sou eu e sou a única coisa que (quase) conheço nesse mundo. Assim, me acho fascinante e tão interessante que, em parte, me surpreendo pelo branco que ocupo em determinados lugares. Sim, me importo, mas não me descabelo. Me surpreendo e acho uma pena. De repente o lance é que ando com o ego muito inflado, mas acho que tenho algo a oferecer e acho que ninguém mais além de mim pode dar o que só eu tenho, porque sendo apenas uma pessoa como você e qualquer outra, sou eu, esse mistério que se aprofunda para dentro, esse infinito interior que pode ser vislumbrado e jamais desvendado e aqui cabe o mundo. E você não vê. Não arqueia as sobrancelhas nem se pergunta, nem surge no seu olhar a mais leve interrogação. Eu, para você, sou o vazio e eu, em mim, sinto pena de nós dois.
As pessoas talvez dissessem que, uai, azar o seu. Eu digo, com total convicção: azar o nosso.
Porque eu e você podíamos ser tanto e não somos, porque eu e você não existimos e eu sinto pena, porque ainda acho que, bem ou mal, as oportunidades nessa vida são sempre escassas demais e acho que sou uma oportunidade que não se deve desperdiçar.
Eu, porém, aos trinta anos, não me descabelo nem me debato, não urro nem gemo nem me destruo, nem sequer choro, nem sequer te digo.
Escrevo esse texto a ser lido por fantasmas e permaneço eternamente ignorada por você.
E sigo adiante comigo, porque eu, a mim, não desperdiço.
2 comentários:
Sabe de uma coisa, Karma? Senti saudades de visitar seu blog! Amei esse texto em tantos aspectos que nem vou comentar muito, só que estou feliz de voltar a entrar aqui!
Bjos
Ju, o que seria da vida sem reencontros, não?
E a gente não é karma à toa, aqui fluem histórias e proximidades.
Fico feliz por vc estar de volta e saiba-se muito bem-vinda!
Postar um comentário