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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Antenas

Tem uns dias em que parece que o mundo conspira a nosso favor.
Tantas e tantas vezes a gente brincava que o universo ria nas nossas caras, pelas ironias e merdas que jogava na nossa cara, mas é isso, a roda da fortuna, não é? Um dia alto, outro baixo e assim eternamente.
Pois hoje, ou melhor, essa última hora, foi toda de alto.
Demorei mais de uma hora para chegar em casa, por um caminho que deveria tomar metade disso, porque fui fazendo paradas e mais paradas. E o fantástico - ou trivial, a depender do humor da pessoa - é que ouvi uma baita trilha sonora. Estou há dias em busca de uma estação de rádio que faça minha felicidade, ainda ontem peguei a estrada querendo tanto ouvir boas surpresas, mas nada. E agora, sei lá, engataram, um monte de sons agradáveis, uns mais que outros, mas ainda todos queridos.
E a cereja do bolo: há, digamos, seis meses, eu ouvi uma música na rádio. Fiquei com a bendita na cabeça, mas não peguei muito da letra para propriamente cantar e o locutor, ao dar lá as informações sobre ela, embolou a língua que eu entendi uma coisa totalmente nada a ver. Fiquei, naquela noite, no hotel ao lado da Catedral, horas pesquisando de todas as maneiras que consegui imaginar, tentando cantarolar para não esquecer a melodia, mas tudo inútil. Com dor no coração, deixei pra lá. Que tem, ?, tanta coisa séria acontecendo por aí e nem era assim a melhor música do mundo, eu só tinha ficado bolada. E pronto, eis que hoje ela vem lindinha, pelas ondas de uma estação que não pegou o dia todo, e eu o dia todo insistindo em ver se daquele mato saía coelho, e nada, e nada, e cereja.
Surpresas, surpresas e eu estou exatamente no lugar de ficar feliz só com isso.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Minha neblina

Sinto um aperto desconhecido no peito, que se parece desconfortavelmente com medo. Tenho essa coisa, entre tantas outras, de sentir medo das coisas que, acredito, a maioria das pessoas não teme. Ou a maioria das pessoas também partilha isso e, mais uma vez, eu não sou de longe tão diferente como gostaria?
A tentação de correr, no entanto, é grande. Tem que rolar um auto-controle firme e uma repetição, como mantra, dizendo: calma, paciência, não há nada a temer.
Só a vida, ela toda, responde o aperto.
Semana passada eu fui assaltada, depois de muito tempo. Percebo com clareza a estranheza da construção, indicando que vivemos num mundo em que isso deveria acontecer mais vezes, em que é normal, corriqueiro, cotidiano. É só que não é, ? A maioria das pessoas não é assaltada todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses. Acontece de vez em quando e há fases negras, mas quando acontece a gente sente esse desamparo, ao mesmo tempo em que o percebe, o desamparo, como totalmente descartável. Bem ou mal, é normal e não tem grande importância; não houve violência além do ato em si. Acho que o cara nem armado tava, mas a gente fica tão condicionado naquela coisa de não resistir, sei lá se é seguir o conselho de quem entende ou o reflexo numa situação de perigo ou se é pura e simples covardia. No entanto, a Shirley se foi e nunca mais voltará, até a chegada de uma nova Shirley. Parece até algo como castigo, pelas enrascadas, leves, em que ela me meteu e pelas outras, mais pesadas, de que consegui escapar.
Vivemos, porém, num mundo violento. Num país violento. Mas dentro da bolha, as luzes são mais rosadas. Também não dá pra viver com medo o tempo todo ou, se dá, não sei o quanto isso é vida. Então a gente esquece que tá o tempo todo em perigo, mais leve, de levarem a Shirley, e os outros que é melhor não explorar. Esquecemos que essa é a imagem do Brasil, ou de São Paulo, ou do mundo contemporâneo e vamos em frente.
Depois eu fiquei pensando nisso da imagem do Brasil. Tanta curiosidade que gera na gente, tão difícil ver um estrangeiro aqui e não tentar absorver com sofreguidão suas impressões sobre essa terra enorme que dizemos ser nossa. Também me angustia a idéia de que parte da sofreguidão vem de um sentimento de inferioridade, principalmente ao mundo dito desenvolvido, com especial ênfase aos colonizadores. Como se eles pudessem nos explicar, nos justificar, como se a opinião deles tivesse mais importância, ou alguma importância; como uma necessidade de afirmação que a gente mesmo não consegue suprir e tem que vir de cima. Desde a minha fatídica experiência com o "colonizador" fiquei encucada com isso. Nem preciso dizer que tenho problemas sérios com o "colonizador", se não por mais nada, pela estreiteza da visão. É limitador demais ser o dominador. Nós aqui de baixo temos de pensar em soluções, de sobreviver, de lidar com a dominação do outro, com o ego do outro, e ainda tratar da nossa vida. Parece-me tão mais rico, com opressão e tudo; ainda fico bolada com a idéia de que esse é um complexo de inferioridade às avessas, mas a mim faz tanto sentido. É concreto, dá pra ver e pegar e sentir.
Resta, no entanto, a sofreguidão, que eu ainda não entendo totalmente.
Egocêntrica que sou, sinto também avidez por descobrir o que o outro vê em mim. O que desse tanto que há e é aqui consegue sair, sob que luzes, que cores, sabores, o que de mim se mostra e o que engana, o que esconde e quanto. Nem sei com que objetivo, além de saber.
E, talvez, sabendo, mude alguma coisa cá dentro, talvez tape um buraco, talvez dê um sentido ao que não tem sentido, ou signifique que nem tudo é solidão. Sei que quero saber e muito. Sofregamente. Ao mesmo tempo, não quero, não preciso e tenho medo.
Não somos, afinal, todos estrangeiros uns aos outros? As pessoas, como as terras, tão difíceis de alcançar? E, num improvável acaso, se alcançadas, que fazer com elas? Como sabê-las e não dominá-las, não dizer que são nossas? Como não destruí-las, a elas e a nós?
Tão difícil, a vida. E perigosa.
Tudo aqui se aperta, de pavor e saudades de Diadorim.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sussurro.

Esse ano, ganhei de presente de meu pai uma assinatura para a sinfônica.
Gosto da assinatura porque ela traz consigo esse compromisso, nos obriga a estar ali naqueles dias determinados, e isso deveria ser (ou mesmo é) uma coisa ruim, porque a gente devia ir à sinfônica quando quer ir à sinfônica, mas ao menos no meu caso não é assim que funciona a vida. Quero talvez ir, mas tenho preguiça, esqueço, vou fazer outra coisa, então o compromisso funciona para eu fazer uma coisa que gosto de fazer, mas que não faria, ou não tanto, se fosse deixada ao acaso.
E, esse ano, a abertura foi a nona do Beethoven, que é uma coisa de outro mundo. Desde então tenho sentido vontade de tê-la comigo, para ouvir em fones a qualquer momento.
Por um motivo ou outro, por falta de obrigação, até hoje não fui atrás de baixá-la. E, agora que me lembrei e quis, não encontro uma versão legal e fiquei com vontade de comprar o cd da sinfônica, quando for da próxima vez. E também o do Brahms, gravado comigo na platéia, nos idos de muitos anos atrás.
Mas o Brahms eu tenho em mp3 e fiquei também com vontade de ouvir num ônibus da vida e eu ia pensando que se um dia eu tivesse de ter uma trilha sonora, essa música teria de estar nela. E me lembra tanto o Proust e, ouvindo, tentei pescar na memória o compositor da música de que o Swann tanto gostava e nem precisei ir longe, veio flutuando até mim um sussurro que dizia, leve como o vento, "vinteuil..."
O Proust, da busca do tempo perdido. Ainda essa semana, lendo sobre Machado de Assis, fazia o crítico algum paralelo entre a busca do Proust e alguma coisa do Machado que não entendi bem, mas apontava para a genialidade.
Nisso do gênio, pulei de Machado a Guimarães e ontem me lembrei tanto do Grande Sertão, numa dessas associações meio aleatórias, ouvindo um amigo querido dizer de atravessar o São Francisco e eu tendo um déjà vu, tentando decifrar naonde nessa vida eu cruzei o São Francisco até perceber que não fui eu, foi Diadorim. E Riobaldo. Nem falei nada ali, no momento, apesar de querer falar, mas passou. E eu não disse, como não digo tantas coisas sobre mim, ultimamente, e isso acaba levando as pessoas, de um jeito ou de outro, a me conhecerem menos. E o engraçado é que ainda assim elas me conhecem; mesmo ontem ouvi três pessoas tentando me descrever, coisa de que gosto muito. Mas elas me falavam de alguém que sou hoje e não conhecem o caminho que me trouxe aqui e isso tem algo de extremamente sedutor. Da gente meio que poder ser qualquer coisa e eu não estou interessada em ser muito diferente do que sou, mas me agrada demais a idéia de ser eu diferente.
Acho que tem isso, a vida, e a sinfonia que a gente vai compondo como colocava o Kundera. Kundera que também me visitou, depois de muito tempo, enquanto eu perguntava "muss es sein?" e a resposta infelizmente era "não".
Fato é que minha música já vai avançada e tem traços de Brahms e Vinteuil que são difíceis de explicar. Como conciliar isso do que passou e do que é, eis uma grande questão. E será que tem que conciliar? Será que não é tudo assim mesmo e tudo bem? A vida vai em frente e nem sempre podemos - queremos? - estar na companhia daqueles que cresceram conosco. É só que tem conforto nesse conhecimento profundo, fácil, que o tempo trás às amizades. Como há prazer em estar em branco e mostrar o que se quer; mas a gente nunca tá em branco e mostra tanta coisa, que quer e não quer, e esconde tanto que queria mostrar.
Como escondi Diadorim e Riobaldo cruzando o rio. Eles, que para mim cruzam em silêncio, sem orquestra ao fundo, só a água correndo ao redor e vida acontecendo ao redor.
Terminei já faz um tempo o Grande Sertão. Até escrevi sobre isso, mas deixei por aí, não por aqui. Tive ali uma síncope, ou uma catarse, sei só que sofri de um tanto que não dá pra descrever. Hoje é o melhor livro que já li. Tem tanto nele e em mim, sentimentos e pensamentos que passam e passeiam e eu não organizo mas sei. Do meu jeito torto, sei.
Essa noite, o vento canta. O viajante não chegou ao seu destino.