Ai, voltar. Será mesmo possível? Tanta e tanta água já correu e tanta já estagnou.
Estranhíssimo esse 2012 que acabou sem fogos de artifício e sem roupa nova e sem champanhe. Nunca gostei de champanhe, na verdade; faz tudo parte do mesmo princípio das bolhas que me fazem desgostar de refrigerantes e água com gás.
A verdade é que eu ando a cada ano mais desencantada com essa história do novo que começa. Aliás, nem bem do novo, mas do começo, aquela hora igual a todas as outras em que as pessoas se desesperam para alcançar uma felicidade que a qualquer hora parece tão inatingível.
E o Natal?! Nem vou começar a falar a irritação que essa história toda me provoca - mesmo agnóstica-quase-atéia tenho cá minhas superstições e não quero falar mal do jesus. Aí algumas pessoas queridíssimas de verdade, no melhor espírito do querer, me mandam uma mensagem de feliz natal e eu penso: pessoas queridas, eu até amo vocês, mas natal não dá.
Então que, de um certo ponto de vista, meu ano começou agora. Porque até há poucas horas, eu estava presa ao que já terminou, por todas as minhas inseguranças e vagabundices e enrolações e procrastinações, pela minha culpa e pela festa desenfreada em que começou. Depois veio o penar e, de repente... não sei, de repente eu preciso pensar que tudo começa de novo e que eu posso ser diferente e preciso ser diferente. E que o ano passado acabou e que esse já é outro.
Tão estranho pensar que janeiro de 2013 já se esvai, assim. Onde estava eu, um ano atrás?
Feliz, eu estava. Lembro-me de olhar para o teto, deitada na minha cama, as paredes amarelas e as duas janelas que deixavam entrar o sol e eu pensar: estou feliz. Porque eu achei, há um tempo, minha definição de felicidade: são aqueles momentos em que não quero estar em nenhum outro lugar além daquele em que estou. Eu me debato em ficar satisfeita com essa idéia, nos momentos em que ela me ocorre, e em procurá-la desesperadamente, quando me foge. Tão raro, mas assim eu me senti até mais ou menos meu aniversário, que eu vou demorar talvez um tempo para entender. Acho que bateu ali a dor da perda e da distância e esse buraco que existe em mim, quiçá em todos nós, que de vez em quando cisma de doer apesar de todo o resto.
Pois cá estou eu, às vésperas de outro natalício e ainda aquele importantão. Tenho importunado as pessoas, perguntando como é, e às vezes sou mal interpretada como se estivesse insatisfeita ou com medo ou achando ruim. O fato é que eu nem acho nada, só me sinto curiosa para saber, o que nem vai demorar.
Por isso, nessa noite que vai se encaminhando para o fim, em que me sobreveio esse quê de liberdade por tanto tempo ansiado, achei por bem tentar voltar. Tentar, sim, porque me pergunto até que ponto é possível.
Tanta gente diz que a gente vai ficando mais velho e aprendendo e eu quase consigo acreditar - não fosse pelo fato de permanecer tão inescapavelmente eu. Mas aqui e ali, uma resposta engolida, uma palavra de conciliação, uma decisão tomada e eu quase pareço adulta.
Se para crescer eu não sei, mas tenho certeza de que, se em algum momento eu resolver me visitar e voltar ali nas estações passadas, vou perceber que muita coisa mudou. Se nada mais, aquela urgência em dizer parece ter se acalmado. A vontade indomável de falar e ser ouvida, a ponto de gritar e berrar, pelo menos por ora, não me acomete. Será o silêncio menos triste? Ou melhor posto, menos melancólico?
Terei eu contado aqui do dia em que perguntei a um grupo de pessoas que mal me conhecia se me acreditavam melancólica, e a resposta surpreendente foi um tipo de negação, algo como "não, não tem nada errado com você" ou assim. Pelo menos assim eu senti, enquanto me surpreendia em silêncio e pensava que ninguém sabe nada de ninguém nessa vida, mesmo.
Ainda a mania de escrever "eu" o tempo todo. E tenho cometido uns erros de escrita nada naturais, pergunto-me mesmo, hipocondríaca que sou, se não há aí algo de realmente errado. Bem, se houver, saberemos a seu tempo.
Eu por aqui volto a ler Anna Kariênina, aquela mulher adúltera sobre a qual não sei o que sinto.
PS: Ah, sim, do título, da música do Martinho da Vila que ouço um pedaço na novela e ficou na minha mente e eu fui procurar agora e começou um samba e eu achei tão lindo.