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segunda-feira, 25 de março de 2013

Revisão

Há alguns momentos em que eu me acho linda.
Simples assim.
Da eu de fora, eu gosto quando acordo.
Da eu de dentro, eu gosto quando leio.
Há uma semana eu recebi um elogio bacana, pode bem ser que descabido, e pode mais ainda ser que em cinco minutos ele evapore, que eu sou escaldada, mas há uma semana eu ouvi que estou madura.
Pobre de mim, da minha estrada que segue tanto adiante.
Nem tão pobre de mim, que já desperdicei tantas oportunidades. Que estudei menos do que deveria. Que falei menos do que deveria. Que escrevi menos do que deveria. Tudo, bem ou mal, escolhas minhas. Eu, criança, que tanto adio.
E se, ainda assim, eu estiver mais madura?
Assim, pronta pra colher, eu tenho a consciência de não estar. Mas também não sei se alguém algum dia está. Mesmo assim, dias atrás, eu sentei com outra pessoa e falei. A meu ver, com propriedade e critério; imaginem, eu sabia o que falar! Tinha algo com que contribuir! Sigo com a nítida impressão de que isso aconteceu de repente, que uma semana antes eu estaria fadada ao silêncio mais ensurdecedor. E, repentinamente: olha, acho que isso é assim, aquilo é assado e, meu, nunca diga tal coisa.
Sim, a jornada é longa e segue adiante a perder de vista, mas já não falta tudo.
Eu gosto de mim quando leio.
Nessa brincadeira, já escrevi muito.

O Passado

É um título do Alan Pauls que eu li, já há alguns anos, e achei bastante perturbador.
Nada assim, de terror, mesmo só o drama do personagem que doeu em mim.
É o título de um filme, baseado no Romance de Alan Pauls, com, acho, Gael García Bernal.
A que não assisti.
Também é de onde eu venho, agora, sem saber exatamente como me sinto.
Não é possível visitar o passado e voltar sem peso nenhum. Não tem uma história assim, da Apolo não-sei-que-número, que...? Ah, sim, do filme, Apollo 13, em que os caras têm que voltar pra Terra porque a missão de parar na Lua miou e eles tem que refazer um monte de cálculo porque as coordenadas que eles tinham antes previa que eles iniciassem a viagem de volta carregando as pedrinhas e sei lá mais o que da Lua, mas eles não pararam na Lua, então não tinha pedrinhas e tudo o mais.
Uma pequena divagação, mas faz parte do pacote.
Então, "o passado".
Eu tenho três blogs. Esse em que vos falo. O primeiro que criei e no qual escrevi alucinadamente por, talvez, dois anos. E um terceiro, que fiz porque achei um nome, ou achei na época que tinha achado um nome e está lá. Aí que o blogger me avisou que alguém visitou um dos outros e só pode ser o terceiro, porque o primeiro está super bloqueado para terceiros. Confuso?
Bem, mas o blogger me avisando, senti aqui um quê de curiosidade para descobrir que segredos escondem esses baús. Entrei, pois, muitos anos depois, no "Idiotia Coletiva". Porque esse era o nome dele, o primeiro, porque era uma coisa na qual eu acreditei muito. Ali estão registradas partes importantes da minha vida, apesar de já bastante apagadas dos meus registros internos. Eu sempre me surpreendo com a minha capacidade de descobrir meus textos, como se escritos por outra pessoa. Já falei disso antes, aqui ou lá, mas é uma surpresa que persiste, porque não reconheço as palavras e frases e construções, apesar de aqui e ali lembrar de uma idéia ou de uma imagem. A dos garotos no aeroporto, por exemplo, me causa déjà vu.
Déjà vu maior, porém é o encontro comigo mesma. Imagina, há cinco anos! Eu tinha meros vinte-e-cinco; tão jovem e inocente. Já falava as mesmas coisas que até hoje repito. Sempre escrevo sobre a mesma coisa,  o que tem um quê de esquisito, mas mais esquisito é haver tanta coisa ainda por dizer.
E há ali um peso, das coisas que eu disse, mas mais do que deixei por dizer, das referências feitas para mim mesma, dificilmente compreensíveis por outros olhos. Muito há ali de transparente e óbvio, mas há também mistérios e alguns deles já se encontram perdidos inclusive para os meus.
Uma das coisas em que pensei, enquanto lia alguns textos, foi num seriado que tenho acompanhado, criado por uma moça chamada Lena Dunham e de nome "Girls".
Porque a segunda temporada acabou esses dias e uma galera tava dizendo que não curtiu e não fez o menos sentido e tudo o mais e eu tava na dúvida sobre a minha opinião. Na verdade, eu tinha a impressão de ter gostado, mas não sabia exatamente por que.
Até que li uma passagem escrita por mim aos 25, ou 24, anos, mesma idade da protagonista na série, em que discuto a mesma coisa que ela diz na finale. Assim um desejo de que alguém apareça pra resolver nossa vida, limpar nossa sujeira, trazer coisas legais, resolva, enfim, tudo aquilo que nos sentimos incapazes de resolver.
E um sentimento de alcançar objetivos há muito desejados e não saber bem o que fazer com eles. Aquela conversa mole de que ter tudo que a gente quer pode ser a maior merda. Talvez nem porque a gente vai achar outra coisa para querer, o que também é verdade, mas porque a gente acreditou que aquilo, aquele patamar, aquele pacote, ia nos trazer tudo de que necessitávamos para sermos felizes.
Aí chegamos lá, suando como porcas ou ganhando de presente dos céus, e é torta na cara. Porque, queridas garotas, tem isso não. Ninguém resolve, não, nem seremos felizes, não.
A parada da vida é outra. Também não sei bem qual é, afinal tenho apenas trinta; mas descobri nesses cinco ou seis anos que nos separam que a parada é outra. Quem sabe daqui a mais dez anos, com quarenta, eu possa dizer qual é, e olhar para trás e chamar a nós todas de queridas garotas.
O lance é que a história que a Lena criou não é nada nonsense. Não era para mim, na idade dela, nem é para mim hoje, que ainda guardo a recordação dessas sensações. Tudo era muito angustiante e há um certo conforto em olhar para essas angústias e elas estarem em algum lugar para trás.
Hoje as angústias são outras.
Ainda essa semana, eu conversava com uma amiga mais velha, casada há quase vinte anos, e via os olhos dela se encherem inesperadamente de lágrimas porque esse parceiro, no papel tão perfeito, não sabe mais se quer ficar com ela.
E a angústia é outra.
Eu não sou casada há quase vinte anos, nem há quase vinte minutos, mas a angústia é outra.
Ai, Bernardo Soares, que vais me acompanhar agora para sempre. Eu sou essa agora, e sou aquela antes, e já era então o que sou, apesar de me transformar no que eu era.
Penso que penso e a verdade é que desde o início eu vim aqui dizer uma coisa.
Não quero transformar o passado em tabu.
Quero dizer, como meus amigos do Recife, que não sou baú.
Solto, então, as amarras e o deixo correr livre. Aqui comigo, porque sempre vai estar, mas também distante de mim, porque, como diria Cazuza, o tempo não para.
Tem ali uma menina, querida, que iria apreciar a visita.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A rua que treme

- Tia, meu pé tá em carne viva.
- Nossa, o que aconteceu?
- Quer ver?
- Quero.
Ela mostra o pé; no dedão um vermelhaço, não exatamente em carne viva, mas que parece dolorido.
- Mas o que aconteceu?
- Então, sabe aquela rua que treme?
- Como assim, rua que treme? - pensando em terremotos, que não acontecem aqui, nem eu ouvi falar de nenhum que, estranhamente, tenha ocorrido nos últimos dias.
- Aquela rua que faz assim - fazendo com a mão aquele gesto de ondulação, imitando o mar ou montanhas. - Mas não é lombada.
Eu pensando: nossa, o quê?! Uma serra? Uma estrada em Minas que sobe e desce?
- Mas isso aconteceu quando?
- Ontem.
- Então, mas como você machucou?
- Eu tava andando naquela rua que treme e bati.
- Mas você tava descalça?
- Tava.
- E tá doendo?
- Tá. Amanhã eu não vou de tênis pra escola, vou de sandália. - a escola chata não deixa usar nada fora do uniforme, mas acho que em casos assim pode-se abrir uma exceção.
- E como você foi hoje? Não foi de tênis?
Careta de dor.
- Fui, e ficou machucando meu pé, eu até falei pra professora e ela me disse pra tirar o tênis.
- Eu você tirou?
- Tirei.
- É, se tá machucado, é melhor ir de sandália, mesmo, mas aí amanhã a gente vê como tá.
...
- Não tô entendendo o que é rua que treme.
- Sabe? Igual à do Giracéu (antiga escolinha em que ela estudava).
- Igual à do Giracéu?
- É, assim - repete o gesto com as mãos.
...
- Ah, de paralelepípedo!
- Isso, de paralelepípedo. Eu tava correndo e bati o dedo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Heróis

Estava eu aqui, relativamente bem apesar de tudo que deveria estar fazendo e não estou.
Em meio a planos e risadas, até que confortável com a minha vida e a minha pessoa e as que me cercam.
De repente, comecei a ouvir essa música e algo meio que despertou.
Podemos nós ser heróis por um dia?
E quem somos nós, cara-pálida?
Sinto aqui essa curiosidade insuportável de saber quem eu sou e continuo me escapando. Reflito, sim, ouço, leio, assisto, vez em quando quase sempre recorro a recursos dos quais duvido, como o céu ou as cartas, suplicando-lhes que me ajudem a responder.
Juntando pedacinhos do quebra-cabeça, pode me acontecer de saber. Ou melhor, de desconfiar. Fazer assim uma vaga idéia. É só que ela se desfaz tão rapidamente, evapora como as bolhas de sabão que saem da boca do palhaço.
Todo o nosso saber tem mesmo de ser assim tão efêmero.
Com alguma ansiedade, procurei uma resposta nessa bendita-maldita rede, em um programa que sorteia uma carta e diz que tem a ver comigo. Às vezes calha de ter, porque tudo que é humano e tudo o mais. Hoje não calhou.
No silêncio que sobreveio, uma manchete tenta responder se é mais fácil ou mais difícil fazer amizades depois dos trinta.
E foda-se, né? Se é mais fácil, mais difícil, afinal o que é amizade e tudo aquilo.
Mas li ali e pronto, despertou aqui outra coisa. Um quê de saudade de amizades adolescentes que eu já tive, de intensidade tremenda e proximidade total, beirando a promiscuidade, em que um se mistura no outro e aí é que a gente não sabe mesmo quem é.
Em meio a planos e risadas, é impossível não perceber que me relaciono com as pessoas de outra maneira. Depois dos trinta, ou dos vinte-e-nove, ou dos vinte-e-sete. Sei lá depois do quê, depois de alguma coisa que se partiu, ou alguma coisa que se construiu, que tornou mais importante saber quem eu sou e quem o outro é. Somos, ainda, nós, mas talvez menos perdíveis.
Fiquei tão feliz, esses tempos, porque encontrei um amigo. Não era um amigo novo, era até bem velho, mas entre as cagadas dele e as minhas a gente se perdeu e do meio do turbilhão se encontrou. Foi bom, lembrar porque ficamos amigos pra começo de conversa. Tantos filmes vistos juntos, numa sala de cinema de cheiro estranho. Tantas noites passadas entre palavras e músicas. Lembro da gente ouvindo "Wish you were here" e ele falando de como esse disco era fodástico. Ele me enchia demais o saco e eu mandava ele se danar e agora parece que crescemos. Ele costumava me chamar de Mrs. Right, porque eu tinha essa mania de achar que estava sempre certa.
Ainda tenho, admito, mas ela se manifesta, hoje, mais raramente. Eu agora penso que consigo vislumbrar o outro, ainda que não o alcance, mas tenho noção de que existe ali uma pessoa e não um servo criado para me servir e afirmar. Acredito que pode ser possível aceitar o diferente.
E, mais que tudo, duvido. Principalmente de mim, mas também de todo o resto.Não sei se eu mudei, não sei se hoje posso ver, não sei bem quem eu sou nessa noite que se aprofunda.
Não sei se há ajuda possível e nem, se houver, se serviria de alguma coisa. Pergunto à carta, mas ela não pode responder. E se respondesse, eu duvidaria das certezas que ela ousasse proferir.
Hoje eu só sei da voz do Bowie, "bumba meu bowie", e de um pedaço aqui que tá faltando.
Um pedaço que eu sei qual é mas não entendo, não sei por que saiu, nem para onde foi, nem ouso esperar que um dia retorne. Estilo, aqui, falta.
Eu sobro.

terça-feira, 19 de março de 2013

Porque

Os últimos dias foram nublados no verão tropical e hoje o dia amanheceu ventoso e frio, precipitadamente outonal.
Por isso ou pela leitura difícil que vinha fazendo desde ontem ou pelo tanto de trabalho que se acumula à minha frente e eu não sei como dar conta, passei as horas meio em desânimo. Acordei cedo e comecei a trabalhar, diminuí o ritmo e fui para a universidade, acompanhar o curso de que sou monitora.
O tema da aula era algo alheio aos meus interesses imediatos e, pra ser bastante sincera, à minha plena compreensão. Política. Macro. Governantes e Partidos e Ministérios, muitas maiúsculas e muitos nomes a mim desconhecidos e muitas datas que eu talvez até já tenha conhecido, mas que me fugiram da memória junto de tantas outras coisas que daqui partiram.
No entanto, pela qualidade da política discutida, ou pela ênfase social a ela dada, ali, em meio ao enfado e à confusão, está a história.
Que eu escolhi e por quem sou apaixonada, quando lembro.
Não sempre, porque reina aqui a inconstância, mas às vezes acontece de eu saber o porquê de eu fazer o que faço.
Ela é relevante, discutimos ali temas que eu acho relevantes, que dizem respeito a quem somos e como chegamos aqui. E, principalmente, aos tropeços do caminho. Ao tanto de coisa que eu acho absurdamente erradas que me rodeiam e eu me sinto um pouco melhor porque olho pra elas, hoje mas principalmente ontem, e também eu faço a história.
De gente miúda e desimportante, aos olhos das maiúsculas anteriormente citadas. E gente, Gente, que viveu ali sua vida como eu vivo a minha, com toneladas de peso sobre o ombro, que eu desconheço.
Não as resgato, que elas não são resgatáveis, nem sou eu pescadora para fisgá-las, nem sou eu quase nada para dizer delas qualquer coisa. Eu, porém, as procuro, as encontro através de janelas com camadas e camadas de cortinas que turvejam minha visão, enquanto eu aperto os olhos e tento ver.
Gosto do que isso diz sobre mim, egoísta que sou.
E tento dar o melhor de mim para contar da melhor forma possível o que entrevejo.
Porque miúdos e desimportantes, afinal, todos somos.

domingo, 17 de março de 2013

Querido diário...?

Eu parei de dizer que sou hipocondríaca porque minha tia queridissíssima de fato tinha um problema com remédios. Nem sei se era hipocondria, mas eu diagnostiquei assim. Sim, eu diagnóstico, sigamos adiante.
O problema maior dela, eu acho, é que lá há zilhões de anos ela começou a tomar calmante e nunca mais parou. Minha tia queridissíssima era uma pessoa adorável e adorada, até agora é difícil falar sobre ela sem meus olhos encherem de lágrimas, porque ela fez tanto parte da minha vida; ela era quem cuidava de mim e da minha irmã quando minha mãe viajava, e depois passou anos me contando da vez que, estando sós, ela tentou me mandar tomar banho e eu até tirei a roupa, mas não queria entrar no chuveiro e saí fugindo pelada e me escondi debaixo da cama, e ela ria contando "e eu olhava debaixo da cama aquela bundona branca e morria de rir" e morríamos de rir juntas.
Aí quando eu brincava de casinha naquele canteirinho que havia na frente da casa dela, antes de ela reformar, eu escavava a terra pra fazer bolinhos e sei lá mais o quê e de repente achava uma minhoca e, escandalosa e criança que era, saía correndo e gritando; ela ia lá, com o maior ar de simpatia me socorrer, pegava a minhoca entre os dedos e corria atrás de mim e morria de rir e morríamos de rir juntas.
Pois que, afora isso, ela tinha lá uma dessas dores de viver dessas algo insuportáveis, principalmente quando não havia por perto uma bunda branca e uma minhoca e um morrer de rir juntas. Como solução, ou remédio, ou paliativo, ela tomava lá seus calmantes e, quando já bastante doente, sentia muitas dores, não soubemos nem saberemos nunca se reais ou imaginárias. Tudo, então, lhe doía.
Eu, observando-a, pensei: ok, vou parar com essa história de que sou hipocondríaca.
Porque, apesar de sê-lo um pouco (até fiz uma vez um desses testes pela internet que confirmou meu diagnóstico), sou apenas um pouco e até que bastante sob controle. Nos últimos anos, por exemplo, para com uma certa mania que tinha com remédios, nada demais, apenas aquele analgésico ao primeiro sinal de dor de cabeça, ou anti-inflamatório ao primeiro sinal de dor de garganta. Hoje, espero, tento identificar a causa da dor, avaliar se é mais ou menos sério e então decido o que fazer. Nunca na vida, por exemplo, tomei antibiótico sem indicação médica.
Mas eis que, devido ao estresse paralisante por que passei no último ano, a pressão de ter que escrever e não saber o quê, ou saber o quê e não saber como (percebo que, afinal, escrever é também minha profissão!), menos a tia queridíssima, mais uma temporada fora, percebi nos últimos meses que ando cometendo uns lapsos que achei preocupante. Do tipo de pedir para me passarem um objeto laranja qualquer e no fim o objeto em questão ser roxo. Dizer "filme" em vez de "filho". Trocar palavras por outras pertencentes ao mesmo universo da que eu queria dizer, esquecer o nome das coisas e assim por diante. Galera geral dizendo que é normal, do estresse e tudo o mais, mas eu ainda tenho aqui meu leve grau de preocupação exacerbada e fui ver um médico de confiança da nossa família.
Que disse, em resumo, que eu não tenho nada não, que andei nervosa e com muita coisa pra fazer e vivendo em lugares diferentes e pra eu manter uma agenda e fazer um diário. E o diário, mocinha, escrito à mão, mesmo que sua letra seja horrorosa e você tenha preguiça de desenhar letras, porque isso de escrever no computador não é a mesma coisa.
Aí o médico que mandou, né, vamos fazer.
Ainda não fiz.
Isso de diário, sei lá, escrever o que aconteceu, o que era pra acontecer, o que deu certo e errado, confesso que me cansa. Prefiro lançar aqui algumas palavras enigmáticas, contar meia história, fazer referências que só eu entendo, preocupar-me aqui e ali, algo raramente, com estilo e forma e beleza.
Não narrar, que acho que não é essa a minha onda. Nem inventar, que ficção é outra praia que não frequento. Lançar, como gosto de pensar, sementes ao ar e imaginar que, quem sabe, algum dia, elas caiam em terreno fértil e germinem.
Mas agora eu tenho de fazer um diário? Ter, tenho, como me é perceptível ao relancear os olhos pelas linhas acima e perceber as palavras que intentei dizer e ficaram pelo caminho, mas fazer?
Nessas coincidências da vida, estou agora lendo viajantes. Europeus, quase todos (ou todos?), que vieram para o Brasil no século XIX e, como comentava uma amiga minha, apesar de os caras serem mega preconceituosos e racistas e o escambau, que puta loucura os caras, tipo um príncipe alemão, saírem de suas casinhas e se meterem num barco e se enfiarem pelas estradas enlameadas desse Brasil afora. É muito espírito aventureiro, desses que em tempo de avião, internet e smartphone é difícil sequer imaginar.
O ponto é que os caras contaram, aí em livros de trezentas ou quinhentas ou mil páginas, tudo que viram. Às vezes de maneira muito enfadonha, eu pelo menos estou pouco me fudendo pras formigas que eles encontraram pelo caminho, muito menos pras baratas e ratos, mas ainda assim, têm ali um registro (por vezes em demasia) pormenorizado de tudo que viram e fizeram.
Eu tenho o quê? Não sou, claro, um viajante do século XIX, mas andei já umas duas léguas desse mundo e tenho o quê? Imagens desbotadas de lugares que já não sei se visitei ou por onde passei correndo. Impressões tênues que se marcam em mim e formam quem eu sou, sim, mas que não consigo reproduzir nem explicar minimamente para ninguém de fora, porque nunca elaborei.
E elaborar é escrever. Nem é preciso publicar, nem é preciso ninguém ler, mas imagino que saber que há em algum lugar, num caderno concreto, algumas dessas memórias guardadas, imagino que dê muito alento.
Planejo, então, começar a anotar. Quem sabe adquiro o hábito e quando alguém me perguntar se estive em tal ou tal cidade, eu possa responder "sim" ou "não", no lugar de um vago "não sei... talvez..."
Mas por que mesmo estou eu falando disso? Ah, sim, porque a internet me levou a um desses blogs "querido diário", em que a última anotação era que a pessoa comprou todos os livros do Harry Potter e queria ler antes de o último filme ser lançado e ela estar no meio do terceiro e não saber se vai conseguir. Nós não sabemos, porque ela não disse, mas, né? E daí? Será que um diário consiste nessas bobagens? Vou ter que anotar que ainda não terminei de ler Anna Kariênina porque absolutamente não deu tempo!?
Ai, ainda se minha letra fosse menos feia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Lado a Lado

Acho que a primeira novela a que assisti foi... Dona Beija?
Ah, sim, eu já me debati sobre toda a questão de falar perguntando, quando deveria estar afirmando, à parte toda a questão de eu dificilmente afirmar muitas coisas, uma porque posso estar errada, outra porque aceitei há muito tempo a idéia de que tudo bem expor (pelo menos um pouco) minhas inseguranças em público. Pois sim, além de me questionar o tempo todo, internamente, e de às vezes essas dúvidas transparecerem no discurso, tenho ainda o hábito, sabe-se lá se bom ou mau, de falar perguntandinho. Até tive uma conversa sobre isso com um professor, um dia, queridaço, chamado Jim, e a interpretação dele sobre minha fala é que eu pergunto quando ainda não terminei de falar, e isso é normal. Tipo antes de vírgulas. Depois ele me mandou uma matéria debatendo o assunto, sobre como mulheres tendem a ser menos... agressivas talvez seja o termo, ao exporem suas idéias do que homens. Vai saber e não entrarei nesse mérito agora, mas sim, eu não tenho certeza (daí a interrogação) se a primeira novela a que assisti foi Dona Beija, numa televisão p&b que ficava no alto de uma estante de ferro cheia de livro no quarto dos meus pais.
Na minha casa nunca houve muito isso de censura, então eu via novelas da Manchete na maior. Vi depois Kananga do Japão, de que gostei muito, e Pantanal e diversas outras. Nos últimos anos, no entanto, dei uma desencanada do formato, principalmente porque é tudo tão a mesma coisa e eu comecei a achar um saco. Gostei, por último, talvez de O Cravo e a Rosa, das seis, e depois disso de Chocolate com Pimenta, que eu me atrasava toda vez pra aula de dança porque queria ver o fim. O apelo dessa última pra mim tem nome e sobrenome: Drica Morais. Genial, ela.
Aí não sei o que andou acontecendo em casa, minha mãe por algum motivo começou a assistir uma das seis bem bobinha e o lance todo mudou. Porque a curtição não era ver a trama besta, mas estar ali, vendo a novela juntas. Nessa, tempo vai, tempo vem, começou em finais do ano passado uma novela de época, chamada Lado a Lado, a ser protagonizada por duas mulheres. O ambiente - histórico, portanto potencial e concretamente irritante em diversos aspectos - era o Rio de Janeiro no começo do século XX e um dos temas centrais da história era o pós-abolição. Assim, bem pós, meio que olhando pro que aconteceu com a sociedade depois desse pepino ser "resolvido". Com aspas, e explico: resolvido mesmo nada foi, além da questão formal de não haver mais escravos; ou melhor, resolvido mesmo tudo foi e muito bem, porque apesar da Lei Áurea (que ainda é muita coisa) os egressos da escravidão continuaram a ser marginalizados, mesmo que de outras formas. Sim, a meu ver, as cotas entram nesse balaio, mas não é sobre isso que eu queria falar.
Pois sim, a novela enfrentou uma polêmica raramente vista na nossa televisão: discutir o racismo que existe na sociedade brasileira e de quebra, ou mais importante, o papel das mulheres naquela e, consequentemente nessa, sociedade. Eis que surgiu uma novela feminista.
Eu no segundo semestre de 2010 fui feliz. Sem adjetivações, feliz. Pelo lugar em que eu estava, pelo que já tinha feito, pelo que queria fazer e pelas pessoas que me rodeavam. Um dia, numa conversa regada a cerveja na saída da universidade, um amigo perguntou, não lembro por que motivo: mas então, você é feminista?
E eu não soube responder.
Era? Nunca tinha sentido - talvez muito parvamente - necessidade de me rotular assim. Fiquei algo incomodada, não com a pergunta, mas com a minha resposta. Eu nunca havia me perguntado isso, não fazia parte do meu universo de questionamentos e de definições sobre mim mesma.
Desde então foram-se quase três anos e, apesar de não estar tão feliz quanto fui, tenho ao menos uma resposta pronta. Sim.
Em meio a essa descoberta, passei a me dar conta de que essa não pode ser uma afirmação feita levianamente. Nem descomprometidamente. Existe aí uma necessidade de luta e de afirmação e de discussão, mais do que tudo de educação, porque é muito difícil isso de nadar contra a corrente.
Confesso que ainda sinto dificuldades em me assumir feminista, pois me sinto tão virtualmente ignorante de teorias sobre o assunto. Coisa que posso remediar num futuro próximo, mas o caso não é esse. O caso, acho eu, é que a gente não precisa ser especialista em nada para ser feminista. Tem por aí uns questionariozinhos que elucidam a questão, com pontos como: você acha que um homem e uma mulher devem receber o mesmo salário para desempenharem o mesmo trabalho?, e etc. Isso é feminismo.
Pois que, desde aquela primeira confusão, me vi cercada de (mais) mulheres maravilhosas, que pensaram comigo essa questão e me ajudam a formulá-la, me ajudam inclusive a me livrar de preconceitos e conivências dos quais é trabalhoso nos livrarmos. Mas é um processo e uma luta contínuos. Conheci até um (um, hein!) homem que, em meio a uma aula lotada, foi o único a levantar a mão quando uma professora perguntou se alguém ali era feminista. Entrei até numa polêmica com uma colega que debatia pornografia e achava que toda a história de exploração do corpo feminino e cagação de regra sobre como corpo deve ser não eram assuntos relevantes e eram "feministinhas". Ela não usou esse termo, nem poderia por não falar português, mas quis dizer algo nesse sentido. Descobri até um amigo que andava perdido, tão perdido e que, reencontrado, pensa como eu.
Ainda semana passada, falava eu com uma amiga não tão ligada nessas questões e ela contava como no trabalho dela o chefe (um escroto) dizia que ela era toda feminista, querendo, obviamente, depreciá-la. Ao que eu argumentei: meu, isso não é ofensa e eu acho que você devia comprar o rótulo, usar umas camisas lilases e com o símbolo e tudo o mais e quando o cara vier fazendo graça, chegar logo na voadora e dizer "sou feminista sim, meu amigo, e aí, vai encarar?!"
Não, esse não é um post sobre o dia internacional da mulher, para o qual estou meio que cagando. Para toda a história das flores e chocolates, que se fodam, e para todas as propagandas escrotas que aparecem na minha frente. Estou muito aí para o significado histórico da data e o que ele me diz é que sim, alcançamos muito, mas ainda há um mundo a ser conquistado.
Esse post é sobre uma novela que, com erros e acertos, ousou debater um tema deixado de lado por um número enorme de pessoas. Que ousou colocar à frente duas mulheres, uma branca e uma negra, uma de origens humildes e uma de origens aristocráticas, duas lutadores que se tornaram amigas. Que ousou terminar a trama não com os casais (heterossexuais, sim, mas vá lá) felizes, mas com as duas protagonistas reconhecendo a importância que tiveram nas vidas uma da outra.
Porque mulheres podem ser amigas.
E eu acho isso lindo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Mila

Há quinze ou vinte, não sei quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia um enorme sucesso com uma música chamada "Mila". Só agora me dou conta de que "Mila" nada tem a ver com essa história, porque tentando recuperar a música na minha mente, ela vem agitadinha e o google me confirma que a música à qual me refiro, uma balada em que ele conta a história de uma paixão ou sei lá o que por uma garota que ele conheceu quando ela era muito pequena, se chama "menina". Cerveja 1 X 0 eu.
Pois, sim, "menina". Há quinze, ou vinte, ou sei lá quantos, anos, um cantor baiano chamado Netinho fazia enorme sucesso com uma música chamada "menina". Não sei por quê, mas eu gostava muito dessa música. Era eu então, também, muito pequena e isso aconteceu antes do avanço inexpugnável da internet.
Aí um dia, eu gostando muito da música e do Netinho, vi num programa de televisão a história de umas fãs que mandaram pra ele uma carta gigantesca, dessas com folhas de papel sulfite coladas umas nas outras e que formavam um imenso tapete, todo cheio de beijos de batom ou de eu-te-amos, que as fãs colaram e beijaram e escreveram e mandaram pra ele e o programa de tevê gravou e transmitiu.
E eu vi.
Lembro ainda, com grande clareza, apesar dos quinze ou vinte ou sei lá quantos anos passados, da sensação de estranheza que experimentei vendo aquilo. Pela tevê. E, pensava eu: mas vocês, fãs, que colaram e beijaram, conhecem o Netinho, mas ele não conhece vocês. Eu sentia no meu coração, então, que eu gostava dele tanto quanto elas, mas sendo tão desconhecida para ele quanto elas eram, percebi uma coisa fundamental que marcou, talvez, o resto da minha existência: ele não me conhecia. Eu podia saber tudo da vida dele e adorá-lo, mas se eu mandasse uma carta de quilômetros para ele, ainda assim ele não me conheceria. Podia até achar graça, quiçá me encontrar num programa de tevê e me dar um abraço sorridente, mas ele não me conhecia, essa eu que vivia por dentro, que lhe escapava e o adorava vivia a léguas e léguas de distância inalcançável dele, cantor baiano, distância essa muito intransponível.
Pois assim cresci, sem ídolos e adorações, até gostando muito, mas sem jamais esquecer que eles não me conhecem. Talvez, então, Freud explique a consequência imediata desse simples fato em toda a minha vida: gostei muito de muitas coisas e pessoas, mas eis que uma barreira se ergue e eu não posso amar o que não me conhece. Cúmulo do egocentrismo, sim. Sem mas. E sem mais.
Esquizofrênica que sou, amo muitas coisas, mesmo de verdade, ouço uma música ou um verso ou um som, vejo uma luz e sou sinceramente capaz de amá-las, desde que eu saiba aqui dentro que as amo, independente do que elas sentem por mim. Eu as amo apesar de elas me desconhecerem e eu desenvolvi assim, outro tipo de amor.
Hoje, por exemplo, caminhava eu em direção ao metrô e vi, na calçada esburacada e bloqueada por um poste adiante, um cego. Deficiente visual talvez seja o termo correto, mas cego é mais curto e direto ao ponto. Ele atravessava os obstáculos segurando pelo braço uma mulher que parecia algo desconfortável. Depois de vencidas as barreiras, ele seguiu sozinho pela galeria e eu atrás, nem por nada, mas porque ele estava à minha frente distância suficiente para que eu não pudesse ultrapassá-lo segura e confortavelmente. Segui, portanto, atrás. E ele, à frente, chegou às escadas rolantes, subiu, localizou-se e dirigiu-se ao lance seguinte, subiu e eu pensando "caralho, mas o cara não enxerga, tá com uma daquelas bengalas, e anda como se o mundo não representasse para ele desafio maior do que representa para mim". Chegando às catracas do metrô, aproxima-se uma funcionária, oferece ajuda e ele, muito simpaticamente, aceita e diz: PSE. A moça não entende e ele explica: praça da sé.
Corta, atravessamos ambos o metrô separados, eu estou numa rua em que há um desses artistas pintados de branco em pose de estátua e que só se mexem se alguém depositar algum dinheiro na caixinha. Perto dos prédios que limitam a calçada, uma menina e uma mulher em aparente discussão, nada violento, mas quando me aproximo percebo que a menina quer dar dinheiro à estátua e a avó - avó, porque a ouço chamá-la assim - lhe dá umas moedas, mas a menina não quer colocar na caixinha e diz "mas eu não sei como faz!". Com alguma impaciência, a avó diz: olha, coloca lá ou então vamos embora. Sem ter realmente muita pressa, mas para ensinar a neta, de seus 8 ou 10 anos, a colocar o dinheiro na caixinha. Segue lá a menina, nesse ponto eu sigo parada num corredor a observar o desenrolar da história, e coloca o dinheiro e a estátua se mexe e ela, a menina, fica tão fora de si que logo vira as costas e não vê o movimento da artista, embora a avó tente chamar-lhe a atenção, para que ela observe o gesto de gratidão e o beijo lançado pela estátua. Sigo eu pelo corredor, quase (porque não choro em público se puder evitar) com lágrimas aos olhos, pela menina, a avó e a estátua.
Pois sim, nem o cego nem a menina nem a estátua nem a avó me conhecem e eu os amo. Mas eu também não os conheço e por isso talvez os ame.
Quando eu entendi, ainda pequena, que o cantor baiano não me podia conhecer, achei que tinha resolvido essa questão para sempre.
É só que para sempre não existe.
E eu, aos plenos trinta anos, me esqueci. Porque os tempos são outros, eu sou outra e o mundo não é mais o mesmo e você não é um cantor baiano. Mas eu, nesse mundo, senti por um segundo que podia conhecê-lo e, conhecendo-o, o amei. Esqueci que você não me conhecia, nem eu o conhecia para além desse filtro irreparável da distância e achei que eu, sendo quem sou, seria suficiente. Para quê, não sei, mas certamente para alguma coisa. Porque, para mim, o valor dessa brincadeira é o apaixonar-se, por um cego ou uma neta ou uma estátua, mas permitir que os elementos que nos cercam nos encantem, simplesmente pelo que são e pelo que somos. Isso é uma certeza, já observei em diversos momentos da minha vida e é algo que valorizo e pretendo que continue assim.
Assim, iludida, te amei. Mas você não me conhece e nem quer conhecer. Nem um segundo olhar, nem uma interrogação ou um levantar de sobrancelhas indicando curiosidade. Eu nada à sua frente, eis o que sou, tal como os metros e metros de carta escritas ao cantor baiano. Você não me vê, você sequer me olha, fundida que estou com o cenário à sua frente.
E é tão engraçado perceber isso, porque enquanto me dou conta e penso, enquanto caminho pela avenida deserta sozinha e penso isso, exatamente isso, que deveria me doer como um ferro em brasa, penso apenas: tudo bem.
Há um ano, eu choraria e me descabelaria, ainda que por uma noite, ainda que por poucas horas, porque incapaz de despertar um mínimo de curiosidade. Sabendo, talvez, perfeitamente bem o tanto de egocentrismo que permeia a frase e a sensação. E daí?, ou "so what?", como diria o Coli num curso sobre cinema que fiz em outra vida? Quem sou eu na ordem do dia para ser perscrutada? Sigo plenamente consciente da minha insignificância. Não por qualquer complexo de inferioridade, apenas por saber que o mundo está cheio de pessoas e eu sou apenas uma delas.
Mas, mais do que uma delas, eu sou eu e sou a única coisa que (quase) conheço nesse mundo. Assim, me acho fascinante e tão interessante que, em parte, me surpreendo pelo branco que ocupo em determinados lugares. Sim, me importo, mas não me descabelo. Me surpreendo e acho uma pena. De repente o lance é que ando com o ego muito inflado, mas acho que tenho algo a oferecer e acho que ninguém mais além de mim pode dar o que só eu tenho, porque sendo apenas uma pessoa como você e qualquer outra, sou eu, esse mistério que se aprofunda para dentro, esse infinito interior que pode ser vislumbrado e jamais desvendado e aqui cabe o mundo. E você não vê. Não arqueia as sobrancelhas nem se pergunta, nem surge no seu olhar a mais leve interrogação. Eu, para você, sou o vazio e eu, em mim, sinto pena de nós dois.
As pessoas talvez dissessem que, uai, azar o seu. Eu digo, com total convicção: azar o nosso.
Porque eu e você podíamos ser tanto e não somos, porque eu e você não existimos e eu sinto pena, porque ainda acho que, bem ou mal, as oportunidades nessa vida são sempre escassas demais e acho que sou uma oportunidade que não se deve desperdiçar.
Eu, porém, aos trinta anos, não me descabelo nem me debato, não urro nem gemo nem me destruo, nem sequer choro, nem sequer te digo.
Escrevo esse texto a ser lido por fantasmas e permaneço eternamente ignorada por você.
E sigo adiante comigo, porque eu, a mim, não desperdiço.