- Tia, meu pé tá em carne viva.
- Nossa, o que aconteceu?
- Quer ver?
- Quero.
Ela mostra o pé; no dedão um vermelhaço, não exatamente em carne viva, mas que parece dolorido.
- Mas o que aconteceu?
- Então, sabe aquela rua que treme?
- Como assim, rua que treme? - pensando em terremotos, que não acontecem aqui, nem eu ouvi falar de nenhum que, estranhamente, tenha ocorrido nos últimos dias.
- Aquela rua que faz assim - fazendo com a mão aquele gesto de ondulação, imitando o mar ou montanhas. - Mas não é lombada.
Eu pensando: nossa, o quê?! Uma serra? Uma estrada em Minas que sobe e desce?
- Mas isso aconteceu quando?
- Ontem.
- Então, mas como você machucou?
- Eu tava andando naquela rua que treme e bati.
- Mas você tava descalça?
- Tava.
- E tá doendo?
- Tá. Amanhã eu não vou de tênis pra escola, vou de sandália. - a escola chata não deixa usar nada fora do uniforme, mas acho que em casos assim pode-se abrir uma exceção.
- E como você foi hoje? Não foi de tênis?
Careta de dor.
- Fui, e ficou machucando meu pé, eu até falei pra professora e ela me disse pra tirar o tênis.
- Eu você tirou?
- Tirei.
- É, se tá machucado, é melhor ir de sandália, mesmo, mas aí amanhã a gente vê como tá.
...
- Não tô entendendo o que é rua que treme.
- Sabe? Igual à do Giracéu (antiga escolinha em que ela estudava).
- Igual à do Giracéu?
- É, assim - repete o gesto com as mãos.
...
- Ah, de paralelepípedo!
- Isso, de paralelepípedo. Eu tava correndo e bati o dedo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário