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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Céu velho onde as estrelas recomeçam

O aniversário veio e passou e a parte mais dramática foi o telefonema que não recebi, e agora não receberei jamais. A emenda, ao contrário do que diz o ditado, não saiu pior do que o soneto, mas também não foi muito melhor. Foi outro, enquanto eu queria aquilo.
Ainda agora dói, isso, o telefonema que não foi, mais do que muitas outras coisas, que também já não são.
Ficam, então, saudades muitas.

Aí estou, ao contrário de todas as expectativas, persistindo no Pessoa. Nem mais persistindo, na verdade, totalmente seduzida. Me habituei aos trechos, mas não ainda a querer grifá-los todos.
Gostei foi muito desse daqui:

"100.
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular - jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradadaos pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam."

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Nota

Pra mim, a Alzira é a Maga.

Por um amor por Recife

Não sei exatamente o motivo, mas os momentos na minha vida em que sou mais feliz são aqueles não relacionados a mim.
Quando nos acontece uma coisa bacana, quando conseguimos algo que quisemos muito, é tão esperado que a gente fique, e seja, naqueles instantes, feliz, que acho que a obrigação diminui um pouco o brilho da minha alegria.
Eu, ao menos, não aprendi ainda a desejar sem peso algum, sem ansiedade na espera e uma inevitável frustração na materialização.
Mas aí tem esses momentos, os outros, não meus, que me completam de uma maneira um tanto inusitada, mas não menos profunda. Acontece, às vezes, ao ouvir uma música de que gosto, ou ver uma pessoa que acho particularmente bonita. Acontece, vez em quando, quando gosto muito de alguém e fico ali, só gostando, sabendo que nunca vou poder dizer quanto gosto, nem o outro vai poder saber, por essa impossibilidade crucial das relações, mas ainda assim ficar ali, só gostando cheio.
Aconteceu, comigo, nessa cidade do caralho, que eu conhecia de amores e sonhos; que cheguei a ver, antes, e que antes confirmou o carinho, mas pela qual só me apaixonei agora.
Talvez eu transfira a ela tanto do afeto que tenho pelos amigos de lá, mas de qualquer modo eu venho dizer que Recife é foda.
Perdoem-me os sensíveis, mas eu sou assim: quando gosto muito, xingo.
Nem por gostar tanto da folia, que sou mais pacata que isso, mas que coisa linda de se ver as ruas absolutamente tomadas e, talvez contando com uma sorte tremenda, não ver nem sentir ali nada além da alegria da festa. As pessoas curtindo e se curtindo, respeitando um tanto, bem grande, os espaços alheios, se divertindo por si, não sei nem explicar.
Que coisa maluca não é a democracia, né? Não sei o quanto desse olhar não é o do turista que vê de fora, mas, vejam bem, mesmo sendo uma ilusão de estrangeiro, que ilusão para se ter. E construir. E ao menos no carnaval, a cidade a constrói bem.
Tive cá meus momentos de grande emoção, dos quais não sei dizer. Não sei contar das incontáveis crianças fantasiadas, nem do homem, já talvez de meia idade, bastante moreno, com um bigode - fruto da minha imaginação ou da dele -, vestido de preto, bermuda e tênis, sentado com um grupo de amigos ou familiares ou, até, desconhecidos, que se levanta e começa a dançar, ali, miudinho, repetindo os passos mas sem nunca perder o compasso, despretensiosamente, porque lhe agrada.
Repito: talvez ilusão, mas são poucas as paisagens que dão margem a ilusões deste tipo.
E eu ainda vou ter que viajar muito, conhecer muito e bem outros povos, para um dia descartar minha impressão e paixão por esse, que também é meu, que permite que isso aconteça. Não sei mesmo onde mais isso é possível.
Como me completam cenas como essa de homem dançando.
Elas me fazem feliz de ser, como ele, daqui e gente.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carolina?

Tava hoje passando ali perto do Centro de Convivência, aí vi uma molecada conversando com uns motoristas, não entendi direito o que eles estavam fazendo, até ver um grupo maior, um tanto mais à frente, todo pintado. Trote.
Queria era ter seguido em frente, mas fui impedida pelo vermelho que coloriu o farol bem na minha vez de passar. Chegou então do meu lado um rapazinho, semi-pintado só, dizendo "tem uma moedinha? é trote da Etecap!", bem no exato momento em que o programador da rádio que eu ouvia resolveu tocar Last kiss, do Pearl Jam. Fiquei um tanto embananada, porque não tinha mesmo muita moedinha, ando há dias sem um puto no bolso, mas o fato de ser um calouro da Etecap, e não de nenhuma universidade, legal ou chata, me causou uma vontade meio súbita de querer contribuir com a brincadeira. E a música, que eu e a Ju cantávamos pelos corredores e cuja letra estudávamos numa folha de papel de caderno, escrita à mão, tirada de ouvido, porque isso foi antes dessa facilidade toda de digitar, achar, imprimir, esquecer.
Achei perdidos no carro dez centavos e falei "só tenho uma moedinha, mesmo", entreguei pra ele e ouvi, como resposta de uma das colegas do menino, esta bastante pintada, um "valeu, tia!". E eu pensei "meu, tia não, né?!", e até ia dizer isso pra ela, mas, depois de receber a moedinha da tia, ela já tinha logo se escafedido.
Nem deu tempo de eu protestar nem dizer mais nada, porque logo o farol abriu e eu segui em frente, ainda ouvindo a música e tentando lembrar se eu fiz pedágio quando entrei na escola. Não consigo mesmo saber, porque acho que de alguma maneira eu compartimentei muito a minha vida em um antes e um depois da Etecap, e a divisão entre os dois lados ficou meio turva. Sei que entrei lá sem conhecer ninguém, além de uns colegas de cursinho, uma das quais eu não suportava e se tornou, meses mais tarde, minha melhor amiga. Nem da Ju não lembro antes da gente ser amiga e se meter em explosões laboratoriais, roubadas vampirescas e afins.
Aí hoje eu penso muito menos nesse ambiente do que no da faculdade, talvez pelo fato de o último ser mais recente, ou marcante em termos cotidianos, mesmo, de ser minha área de atuação e a de tanta gente com quem convivo. Mas ainda assim, acho que foi mais marcante a entrada no colégio técnico, no sentido de dividir mesmo minha vida, ou talvez isso seja só porque o que aconteceu antes disso já foi há tempo demais e é difícil demais recuperar, assim, rapidamente.
Não sei, mas me peguei ali, avançando por entre o trânsito, com uma vontade de chorar que eu não sabia bem de onde vinha, sem sentir uma tristeza nem um peso, nem uma alegria fulminante, de olhos marejados, mas sem derramar lágrimas. Talvez apenas a lembrança que chegou forte demais, do tempo que passou, das pessoas que passaram, mas mais do tempo. Ter de novo catorze ou quinze anos e chegar num lugar tão desconhecido, sem saber bem como seria, acho que é muito diferente de passar por algo semelhante com dezoito ou dezenove ou vinte e três ou vinte e oito. Ter catorze anos e conseguir chegar a um lugar muito desejado.
Ouvi a música e vi os meninos e me lembrei, talvez, de como também já fui tão menina, de um tanto que hoje, apesar de toda a minha ingenuidade e inocência e desconhecimento, já não posso mais ser.
Aí hoje eu sou "tia", não importa o quê de proximidade que eu sinta com os garotos. Porque é só um quê, e já estamos mesmo muito distantes.
Mas não distantes demais.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Das paixões

Aí esses dias a Mônica Waldvogel dizia que não valia a pena viver por causa da Educação Sentimental do Flaubert. Tinha lá um contexto: ela citava o Manhattan, do Woody Allen, e, aparentemente, num dado momento, ele lista coisas pelas quais vale a pena viver e, dentre elas, está o livro do Flaubert.
Que eu, aliás, nunca li.
Mas estava eu aqui, nessa noite de quarta-feira, pensando. Primeiro me entreguei ao livro do desassossego (não há s's demais nessa palavra, minha gente?). Aí vim ouvir umas músicas youtubianas, não a de ontem, mas caí nuns vídeos de que gosto muito.
Muito, mas muito. Demasiadamente.
E hoje mesmo, percorrendo um caminho familiar para um destino não usual, pensando em mim e nas minhas coisas e na minha vida, me perguntava quando me tornei tão estranha. De repente consigo isolar aí um ou dois anos da minha existência que determinaram tudo. Ou estaria tudo determinado já muito antes disso? E apesar de gostar de ser algo estranha, não tenho a menor vontade de revelar as coisas que me fizeram - e fazem - estranha.
O que seria a vida além de um grande jogo de esconde-esconde? Numa hora revela, em outra oculta, numa aleatoriedade suprema.
Mas não, nem fora de mim sinto o menor ímpeto de revelar os pequenos segredos que me trouxeram até aqui. Os quais, muito provavelmente, ninguém acharia nada de mais.
Mas, sendo a que pude ser, até aqui, e sem ter nunca lido o livro, me regozijo por não ser educada, sentimentalmente.
Porque a minha xucrice me permite tanto viver além do que seria possível, educadamente. E experimentar, cá dentro da minha concha, um tanto de coisas, talvez só reveláveis a uma companheira do sexo feminino, que infelizmente não há presente na minha lista, a essas horas.
Não peço, no entanto, desculpas.
Ah, do que se perde em silêncios intermináveis...
Nesse meio tempo, vou levando meu jogo solitário.
Mas, feliz ou infelizmente, eu encho um estádio.

Utopia?

Não seria o mundo muito mais legal se as nossas expectativas se concretizassem, assim, pura e simples e exatamente?

3

Aí no Telecine tá passando um casal quase perfeito 3.
Nem é tipo uma continuação, como Matrix, ou sei lá, Senhor dos Anéis, que são mesmo três filmes, é só exatamente a mesma historinha contada de novo pela terceira vez. Com novos atores e tals.
Sem querer tirar o ganha pão da galera (com todos os meus super poderes para mudar o mundo), mas por que diabos não assistir de novo ao 1? Três vezes em seguida, se a pessoa quiser?
Mesmo sabendo que nem todo o mundo é como eu, que tem essa capacidade quase ilimitada de repetição, não vejo muito sentido nisso, mas ok, né?
Fazer o quê?

PS: Tou assistindo não, que reviciei no Adam...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mais uma madrugada

Aí ontem eu ia encontrar a galera (galera, hein, galera?) pra tomar um suco/sorvete/açaí, e no caminho ouvi no rádio uma dessas músicas dos anos oitenta meio breguinhas, mas pela qual senti uma afeição profunda e imediata, apesar de algo culpada. Pensei "quando chegar em casa procuro, mas corro o risco de esquecer". Torci pra não esquecer e não esqueci, apesar de ter entendido tudo errado e sofrido um tanto pra achar, mas Santo Google não é de brincadeira, nem a nossa ilimitada fé em seu poder.
Pra resumir a história, achei e estou há... muitas horas ouvindo ininterruptamente, via youtube. Sei lá, dá uma vergonha de baixar, né?
Mas enfim, isso pra dizer que, pela primeira vez em muito tempo, pelo menos desde a semana passada, quando fui atacada pela culpa crônica e inclemente, sento aqui, nesse espaço abafado, depois de assistir muita tv e estou no que se poderia chamar de boa onda.
Algum relaxante corporal, algumas conversinhas bacanas, a música que, apesar de brega, ornou, e as expectativas de sair daqui por um tempinho, pouco, deveras, mas ainda sair, trazem alguma felicidadezinha, dessas que passam logo, rápido demais, ops, já passou.
E agora, corro atrás ou sento aqui, curtindo a tristeza e o vazio da ausência? Se correr, pego? Desconfio que não, mas tava tão bom o sorriso fixo aqui na minha cara que ameaço levantar.
De repente, se eu olhar no espelho ele ainda está aqui, mas já partido, porque a natureza das coisas é mudar.
Detesto gente que fica falando das naturezas, das coisas ou pessoas.
Espasmos na pálpebra direita.
Posso tentar dormir, que é o sentido, segundo o Pessoa, que eu resolvi atacar novamente.
Será?