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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carolina?

Tava hoje passando ali perto do Centro de Convivência, aí vi uma molecada conversando com uns motoristas, não entendi direito o que eles estavam fazendo, até ver um grupo maior, um tanto mais à frente, todo pintado. Trote.
Queria era ter seguido em frente, mas fui impedida pelo vermelho que coloriu o farol bem na minha vez de passar. Chegou então do meu lado um rapazinho, semi-pintado só, dizendo "tem uma moedinha? é trote da Etecap!", bem no exato momento em que o programador da rádio que eu ouvia resolveu tocar Last kiss, do Pearl Jam. Fiquei um tanto embananada, porque não tinha mesmo muita moedinha, ando há dias sem um puto no bolso, mas o fato de ser um calouro da Etecap, e não de nenhuma universidade, legal ou chata, me causou uma vontade meio súbita de querer contribuir com a brincadeira. E a música, que eu e a Ju cantávamos pelos corredores e cuja letra estudávamos numa folha de papel de caderno, escrita à mão, tirada de ouvido, porque isso foi antes dessa facilidade toda de digitar, achar, imprimir, esquecer.
Achei perdidos no carro dez centavos e falei "só tenho uma moedinha, mesmo", entreguei pra ele e ouvi, como resposta de uma das colegas do menino, esta bastante pintada, um "valeu, tia!". E eu pensei "meu, tia não, né?!", e até ia dizer isso pra ela, mas, depois de receber a moedinha da tia, ela já tinha logo se escafedido.
Nem deu tempo de eu protestar nem dizer mais nada, porque logo o farol abriu e eu segui em frente, ainda ouvindo a música e tentando lembrar se eu fiz pedágio quando entrei na escola. Não consigo mesmo saber, porque acho que de alguma maneira eu compartimentei muito a minha vida em um antes e um depois da Etecap, e a divisão entre os dois lados ficou meio turva. Sei que entrei lá sem conhecer ninguém, além de uns colegas de cursinho, uma das quais eu não suportava e se tornou, meses mais tarde, minha melhor amiga. Nem da Ju não lembro antes da gente ser amiga e se meter em explosões laboratoriais, roubadas vampirescas e afins.
Aí hoje eu penso muito menos nesse ambiente do que no da faculdade, talvez pelo fato de o último ser mais recente, ou marcante em termos cotidianos, mesmo, de ser minha área de atuação e a de tanta gente com quem convivo. Mas ainda assim, acho que foi mais marcante a entrada no colégio técnico, no sentido de dividir mesmo minha vida, ou talvez isso seja só porque o que aconteceu antes disso já foi há tempo demais e é difícil demais recuperar, assim, rapidamente.
Não sei, mas me peguei ali, avançando por entre o trânsito, com uma vontade de chorar que eu não sabia bem de onde vinha, sem sentir uma tristeza nem um peso, nem uma alegria fulminante, de olhos marejados, mas sem derramar lágrimas. Talvez apenas a lembrança que chegou forte demais, do tempo que passou, das pessoas que passaram, mas mais do tempo. Ter de novo catorze ou quinze anos e chegar num lugar tão desconhecido, sem saber bem como seria, acho que é muito diferente de passar por algo semelhante com dezoito ou dezenove ou vinte e três ou vinte e oito. Ter catorze anos e conseguir chegar a um lugar muito desejado.
Ouvi a música e vi os meninos e me lembrei, talvez, de como também já fui tão menina, de um tanto que hoje, apesar de toda a minha ingenuidade e inocência e desconhecimento, já não posso mais ser.
Aí hoje eu sou "tia", não importa o quê de proximidade que eu sinta com os garotos. Porque é só um quê, e já estamos mesmo muito distantes.
Mas não distantes demais.