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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quereres



Eu juro mesmo não entender como há gente no mundo que não gosta dessa mulher.
Ela é e tem e mostra tanto e passa um calor que nem sei.
Nem é minha favorita dela e eu poderia em cinco minutos achar outras várias que amo mais, mas é fato que, apesar de mim mesma, gosto da música e quando ela começa...
Me pego aqui pensando no mistério, dessa coisa a que a gente tenta dar sentido e vai inventando e sei lá se tem. Eu fui criada para acreditar que há, sentido, e quando penso nisso não sei se acredito de verdade ou se só quero acreditar, porque viver no caos é muito aterrorizador. De dar pânico, desses que paralisam mesmo, então pronto, a saída é a calma algo artificial da fé. Mas fé em quê? Eis a questão.
O fato é que a gente passa uma vida sem nos acontecer nada digno de nota e de repente... continua sem acontecer nada, mas parece que a gente aprende alguma coisa. Nasce assim cá dentro do peito uma semente que sabe e xinga com voz empolada. E ao lado dela, bate um coração sem dor, ainda que só por essa noite - sabemos lá que terrores trará o sol.
Ai, o quereres.
Tão desigual.
Mas a vida é real e de viés. Tem que ser muito filho-da-puta pra dizer uma coisa dessas.

sábado, 22 de outubro de 2011

Viajo porque preciso

Desses dias em que a gente acorda assim com um aperto no peito, sem saber exatamente por quê - será que em algum momento nos é dado saber exatamente alguma coisa?
E hoje tudo bem, dói mas não muito, vamos lá cuidar da vida, para o ensaio, para casa, para o banho, para o almoço, para o descanso e tudo bem. No meio do caminho o incômodo se perde, depois volta para visitar, vai embora de novo, e sei lá.
De vez em quando a gente entra a fazer umas viagens... não sei bem para onde e por quê, mas seguimos e é difícil saber o que encontramos.
O que procurávamos? O que perdemos? O que nunca tivemos nem teremos?
Ou será que a brincadeira é essa, a gente segue em frente e a única coisa ao nosso alcance, tudo que podemos ser e ter somos nós mesmos?
Eu me encontro agora meio que numa encruzilhada, ou nem tanto. É só que não sei o que quero e isso é estranho. Talvez isso signifique simplesmente que eu não quero nada. Não que eu esteja vivendo de luz, perdida no éter, quero sim muitas coisas, mas nada que esteja fora da minha realidade e isso pode ser o mais estranho. Das possibilidades não só existirem, como estarem perto. A gente se acostuma tanto a querer o impossível, vira mesmo um hábito e é difícil voltar atrás e achar satisfação no que está ao nosso redor.
Eu encontrei, há coisa de um ano, uma felicidade indizível de não querer estar em nenhum lugar, além daquele onde eu estava. Devo ter discorrido imensamente sobre isso, repeti por todo lado, anunciei aos quatro ventos.
O triste da vida é que também os bons momentos passam. O bom, é que os maus também se vão, mas no equilíbrio das coisas é isso, ganha-se aqui, perde-se ali. E os bons momentos passam e esse meu momento passou. Depois disso, dias tempestuosos, de dúvidas e angústias e culpa - ah, a culpa... - e a esperança de que a montanha russa voltasse a subir.
Um ano depois... e aí? Não sei. A tempestade passou, por enquanto. Aquela mesma sensação não voltou, como não poderia voltar. Não existe volta, embora às vezes eu me esqueça e deseje ardentemente. Mas chegou alguma outra coisa, eu só não sei dizer o quê. Há aqui alguma tranquilidade, há risos e sorrisos, cansaço, trabalho.
O que me causa ainda algum incômodo é que eu não sei bem onde estou e aonde vou. Onde quero estar. Pergunto-me se há algum outro lugar em que eu gostaria de estar que não aqui e não sei responder.
Realmente não sei - e embora essas duas palavrinhas sejam favoritas e a dúvida minha bandeira, há algo em mim que anseia por saber.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Será?

Ai, a Osesp liberou a programação da próxima temporada e eles vão tocar Brahms... Várias, todas, sei lá, mas a 3a. vai ser em junho, 21, 22, e 23 de junho. E agora? Muss es sein?
Quero tanto ir; será que vai importar daqui a oito meses? Difícil é decidir agora sobre o que vamos sentir dentro de quase um ano.
E decidir, decidir, decidir.

domingo, 9 de outubro de 2011

Breathe

Em outra vida, outro corpo, outra pessoa que não essa que agora existe em mim, foi outra que ouviu essa música e esqueceu. Há o quê, quatro anos? Mais?
Cheguei hoje por caminhos tortuosos a campos que, meus, não visitava havia muito tempo. Trazida por impulso e acaso, navegando em rios vermelho-sangue, de cabeça leve e coração livre aqui estou e puta-que-o-pariu. Como pode uma pessoa viver sem ouvir isso? Ser isso. Depois daqueles sons iniciais, quando a melodia começa... não sei o que em mim que estava perdido e se encontrou, não sei o que dormia e despertou, algo que morria voltou à vida. São as batidas do meu coração que me alcançam e eu vivo. Toda.



Breathe, breathe in the air,
don't be afraid to care.
Leave, don't leave me.
Look around, choose your own ground.

Long you live and high you fly,
smiles you'll give and tears you'll cry
all you touch and all you see
is all your life will ever be.

Run, rabit run,
dig that hole, forget the sun.
When at last the work is done
dont't sit down is time to dig another one.

For long you live and high you fly,
but only if you ride the tide
and balanced on the bigest wave
you race towards an early grave.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nova Granada

Quando eu assisti ao acústico do Legião Urbana pela primeira vez, fiquei apaixonada por uma música que então me era desconhecida, tocava bem no final do programa, quando subiam os letreiros, e falava de uma praia e um encontro e eu adorei de um tanto enorme, mas antes da internet (pelo menos eu não estava ainda nela) era bastante impossível para mim persegui-la.
Lembro claramente quando, algum tempo depois, a ouvi pela primeira vez no rádio. Era um dia de manhã, em 1999, eu me arrumava para ir para a escola, estava no segundo colegial, sentada na cama para colocar uma meia e de repente ouvi. Já não sei porque me lembrei disso há pouco tempo e levei outro susto hoje quando, parcialmente mergulhada no XIX, ela de novo chegou até mim, sem querer, numa dessas ondas aleatórias e inexplicáveis que por vezes nos trazem aquilo que queremos.
Fiquei ali, sorrindo bobamente. E depois tocou corsário, do João Bosco. Numa versão de que não gostei, com uma mulher, enquanto eu gosto mesmo é dele. Gosto tanto dessa música, das lembranças e ela associadas, do Calabouço numa noite fria de Minas e creme de abóbora, mas gosto mesmo é dela, toda. Gosto tanto, tanto de "meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve: mar". Meu coração tropical. Meu coração é tropical, como toda eu. Sempre que eu penso nisso alcanço uma felicidade que vem só daí. Sim, eu sei que já estive aqui, mas qual o problema de voltar? Se eu tivesse de ser alguma coisa, queria era ser isso: tropical.
Fiquei pensando nisso dia desses, quando vi na rua um carro com um adesivo de maçã. Tentando imaginar quem coloca um adesivo de maçã num carro e por quê. O pressuposto (pelo menos o meu) é de que existe uma ligação, uma identificação, sei lá, entre a pessoa e a maçã. E, porra, sério, se você tiver de ser uma coisa, vai ser uma maçã? Se tem de dizer ao mundo algo sobre você, é isso? Tenho consciência de estar completamente na contra-mão do sentido atual do universo, mas se tem uma coisa que não me atrai em absoluto são as etiquetas. Aliás, literalmente; a primeira coisa que faço quando compro uma peça de roupa, qualquer que seja, é arrancar tudo fora. Tipo quando a pessoa compra um carro e a loja cola um adesivo na traseira do dito cujo; fico profundamente irritada. Eu conheço, apesar de não poder afirmar entender, o desejo de demonstrar alguma coisa através dos objetos que se tem, poder, dinheiro, gosto, contatos, exclusividade, sei lá. Só não acredito que funcione, ou melhor, são coisas que não tenho desejo algum de demostrar, não com esses sentidos, e quando as vejo estampadas em algum lugar, não me dizem muita coisa. É uma lógica permeada por valores que não compartilho. Claro que tenho cá meus consumismos, mas não são esses. Não me interessa mostrar ao mundo que tenho esse tênis ou aquele vestido, que custaram uma fortuna. Acho triste, como aquele programa, um globo repórter da vida, que mostrava um rapaz em Cuba que, não podendo comprar o tênis, tatuou no peito o símbolo da nike. Só penso em triste.
Se eu tivesse de ter um adesivo, ou uma tatuagem, ou me definir em poucas palavras, não usaria jamais uma maçã. Ia quebrar demais a cabeça para descobrir o que pode me representar, não só o que eu sou, mas o que gostaria de ser, o que é importante pra mim, e a única coisa em que consigo pensar é em abstratos, o lugar de onde eu vim, o lugar que sou, os lugares que amo. Penso em lugares e não muito mais. Sem preço, sem comércio, sem propriedade, nas coisas que são fora de mim, independentes de mim, que eu não fiz nem ninguém fez, que não me conhecem nem me sabem, mas a que faço questão de pertencer.
Penso em corsário, no coração tropical e na mão que escreve mar.