Talvez fosse mais simples e menos desgastante para
mim não entrar nesse debate, mas resolvi me utilizar do meu direito inalienável
de dizer e decidi (tenho esse poder) não me calar. Resolvi também responder
aqui, e não em privado, porque escreveste em público, não em privado.
Em primeiro lugar, quero registrar minha surpresa ao
ler o que você teve a pachorra de escrever. Você, que eu sempre considerei uma
pessoa inteligente, sensível e antenada, ser capaz de pensar, escrever e
publicar tais palavras, de fato me chocou. Licença poética alguma é desculpa
para tamanha escrotice. Saberá já você a
que palavras estou me referindo?
“Ela calou-se dentro de um colonialismo de fêmea” é
das coisas mais nojentas que já tive o desprazer de ler. É errado e desprezível
de tantas maneiras que acho deveras difícil tentar te explicar – porque pelo
visto você precisa de explicação – o tamanho do seu equívoco, da sua
insensibilidade, do seu falocentrismo, do seu machismo, da sua indelicadeza, da
sua arrogância, do seu eurocentrismo, da sua inadvertida crueldade, da sua
condescendência, do seu narcisismo, do seu egocentrismo e, afinal, da sua
cegueira.
Sim, eu escolhi usar todos esses substantivos para
descrever sua frase. Deveria, talvez, ser suficiente, mas não é. Terá você a
capacidade de, ser humano que erra, olhar no espelho, ver a sujeira e tentar
limpá-la?
Que absurdo precisar eu, mulher sul-americana, vir te
dizer que não somos fêmeas. Que você atribuir um silêncio – cujos motivos te
escaparam e escaparão sempre – ao fato de se tratar de uma “fêmea” é de uma
misoginia absurda. É atribuir à mulher, ser biológico, social e relacional, a
característica inerente da submissão pelo simples fato de ter ela uma vagina,
no lugar de um pau. Em que década estaremos? Em que século? Será mesmo 2013,
pós-modernismo, pós-colonialismo, alguns mesmo dirão pós-feminismo? Será mesmo
uma pessoa que sempre julguei inteligente quem vem dizer de “calar-se por ser
fêmea”? Eu, mulher sul-americana, sinto pena de você, homem europeu que ainda
está pensando o mundo nesses termos. Sinto pena maior das pobres meninas com
quem você se relaciona, que são expostas talvez cotidianamente ao seu machismo,
ainda mais pérfido porque mascarado sob uma mentirosa aparência de
sensibilidade.
Dirá você, talvez, que, veja bem, não foi isso que eu
quis dizer. Pode bem ser que não. Mas foi isso que você disse e, muitas vezes, nas
coisas que falamos inadvertidamente revelamos as profundezas dos nossos
pensamentos e convicções, os quais, em outras ocasiões, refreamos porque
socialmente inaceitáveis.
Eu acho inaceitável o que você disse. Me pergunto
dos seus leitores, o que terão pensado; por que ninguém mais terá se
manifestado para além da cretina pergunta se se tratavam de prostitutas e… qual
era mesmo, o termo preconceituoso usado para se referir a homossexuais? Você
terá se incomodado com o questionamento, sem perceber que suas palavras foram
ainda mais cretinas. Minha indignação vai muito além da pessoalidade das
ofensas que você escreveu; é uma indignação que abarca todas as mulheres que
você ofendeu através de mim, todos os habitantes dos países hoje independentes
que tiveram a má sorte de terem sido um dia dominados por essa merda a que se
dá o nome de Europa, e que você ofendeu através de mim.
Quem é essa fêmea colonizada que vieste encontrar
nos sertões americanos? Que país é esse ao qual você se orgulha tanto de
pertencer? Sempre imaginei que você teria a sensibilidade e a sofisticação de
perceber que, se foi sim um grande feito um país tão pequeno se apropriar de
meio mundo, há já quinhentos anos, esse feito foi alcançado à custa de
violência, sangue e estupro. De usurpação, de morte, de extermínio. Da convicção medonha
de ser o homem branco europeu superior a quaisquer outras criaturas que
habitavam esse planeta. Da crença de que o mundo deveria mesmo ser explorado
para seu benefício, que as pessoas, crenças, culturas, costumes outros eram
personificações de barbárie e bestialidade e por isso não importavam, a não ser como
propriedade e mão-de-obra a ser explorada. Eu, particularmente, teria vergonha
desse passado, porque as nódoas ultrapassam em muito as glórias.
Outra questão que se me aflora é o porquê de querer
vir você, macho europeu, emporcalhar-se na sujeira americana, se daqui não consegue
ver nada para além disso. Melhor não seria permanecer eternamente na limpeza? Que
olhos são esses que você viu e que não anunciavam solidariedade
ibero-americana? Que mundo é esse em que você vive?! Acaso serão vocês,
ibéricos, esse poço de bondade e ternura infinitos, que não se violentam nem
abusam? Talvez essa candura celestial vocês reservem somente para si, porque
nós, americanos, sentimos na pele a sua podridão, baixeza e crueldade.
É interessante o momento em que você produziu esse escrito.
Tenho lido, eu, mulher sul-americana, nos últimos meses, diversos relatos de europeus
que vieram ao Brasil no século XIX e não deixo de me surpreender com os
preconceitos com que eles descrevem suas aventuras. Aqui, reina a barbárie, em
contraposição à civilização europeia. Refletia eu: esses homens do século XIX
pensavam mesmo assim. Era assim que então se pensava, o que não os torna menos
nojentos. E eis você aqui, em 2013, pensando e dizendo o mesmo. Eu, mulher
sul-americana, te pergunto: de que te valeu essa civilização? Estarão vocês,
evoluídos homens brancos, a viver no éden depois de conquistar o mundo?
Eu, brasileira e mulher, não sou colonizada.
Você é. Pela mesquinhez das tuas opiniões e pela
estreiteza da tua mente, tão pequena quanto seu glorioso Portugal. Se eu fosse
você, me esconderia debaixo da cama por algumas semanas, de pura vergonha.
Aproveitaria esse tempo para fazer uma profunda reflexão sobre a minha pessoa e
meus conceitos sobre tudo aquilo que está do lado de lá da minha pele e do meu
pênis branco. Eu, se fosse você, pensaria muito bem pensado numa retratação,
pública como foi a ofensa.
Mas não sei se na tua cara sobra ainda alguma
vergonha.