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terça-feira, 4 de junho de 2013

Cálice

Talvez fosse mais simples e menos desgastante para mim não entrar nesse debate, mas resolvi me utilizar do meu direito inalienável de dizer e decidi (tenho esse poder) não me calar. Resolvi também responder aqui, e não em privado, porque escreveste em público, não em privado.
Em primeiro lugar, quero registrar minha surpresa ao ler o que você teve a pachorra de escrever. Você, que eu sempre considerei uma pessoa inteligente, sensível e antenada, ser capaz de pensar, escrever e publicar tais palavras, de fato me chocou. Licença poética alguma é desculpa para tamanha escrotice.  Saberá já você a que palavras estou me referindo?
“Ela calou-se dentro de um colonialismo de fêmea” é das coisas mais nojentas que já tive o desprazer de ler. É errado e desprezível de tantas maneiras que acho deveras difícil tentar te explicar – porque pelo visto você precisa de explicação – o tamanho do seu equívoco, da sua insensibilidade, do seu falocentrismo, do seu machismo, da sua indelicadeza, da sua arrogância, do seu eurocentrismo, da sua inadvertida crueldade, da sua condescendência, do seu narcisismo, do seu egocentrismo e, afinal, da sua cegueira.
Sim, eu escolhi usar todos esses substantivos para descrever sua frase. Deveria, talvez, ser suficiente, mas não é. Terá você a capacidade de, ser humano que erra, olhar no espelho, ver a sujeira e tentar limpá-la?
Que absurdo precisar eu, mulher sul-americana, vir te dizer que não somos fêmeas. Que você atribuir um silêncio – cujos motivos te escaparam e escaparão sempre – ao fato de se tratar de uma “fêmea” é de uma misoginia absurda. É atribuir à mulher, ser biológico, social e relacional, a característica inerente da submissão pelo simples fato de ter ela uma vagina, no lugar de um pau. Em que década estaremos? Em que século? Será mesmo 2013, pós-modernismo, pós-colonialismo, alguns mesmo dirão pós-feminismo? Será mesmo uma pessoa que sempre julguei inteligente quem vem dizer de “calar-se por ser fêmea”? Eu, mulher sul-americana, sinto pena de você, homem europeu que ainda está pensando o mundo nesses termos. Sinto pena maior das pobres meninas com quem você se relaciona, que são expostas talvez cotidianamente ao seu machismo, ainda mais pérfido porque mascarado sob uma mentirosa aparência de sensibilidade.
Dirá você, talvez, que, veja bem, não foi isso que eu quis dizer. Pode bem ser que não. Mas foi isso que você disse e, muitas vezes, nas coisas que falamos inadvertidamente revelamos as profundezas dos nossos pensamentos e convicções, os quais, em outras ocasiões, refreamos porque socialmente inaceitáveis.
Eu acho inaceitável o que você disse. Me pergunto dos seus leitores, o que terão pensado; por que ninguém mais terá se manifestado para além da cretina pergunta se se tratavam de prostitutas e… qual era mesmo, o termo preconceituoso usado para se referir a homossexuais? Você terá se incomodado com o questionamento, sem perceber que suas palavras foram ainda mais cretinas. Minha indignação vai muito além da pessoalidade das ofensas que você escreveu; é uma indignação que abarca todas as mulheres que você ofendeu através de mim, todos os habitantes dos países hoje independentes que tiveram a má sorte de terem sido um dia dominados por essa merda a que se dá o nome de Europa, e que você ofendeu através de mim.
Quem é essa fêmea colonizada que vieste encontrar nos sertões americanos? Que país é esse ao qual você se orgulha tanto de pertencer? Sempre imaginei que você teria a sensibilidade e a sofisticação de perceber que, se foi sim um grande feito um país tão pequeno se apropriar de meio mundo, há já quinhentos anos, esse feito foi alcançado à custa de violência, sangue e estupro. De usurpação, de morte, de extermínio. Da convicção medonha de ser o homem branco europeu superior a quaisquer outras criaturas que habitavam esse planeta. Da crença de que o mundo deveria mesmo ser explorado para seu benefício, que as pessoas, crenças, culturas, costumes outros eram personificações de barbárie e bestialidade e por isso não importavam, a não ser como propriedade e mão-de-obra a ser explorada. Eu, particularmente, teria vergonha desse passado, porque as nódoas ultrapassam em muito as glórias.
Outra questão que se me aflora é o porquê de querer vir você, macho europeu, emporcalhar-se na sujeira americana, se daqui não consegue ver nada para além disso. Melhor não seria permanecer eternamente na limpeza? Que olhos são esses que você viu e que não anunciavam solidariedade ibero-americana? Que mundo é esse em que você vive?! Acaso serão vocês, ibéricos, esse poço de bondade e ternura infinitos, que não se violentam nem abusam? Talvez essa candura celestial vocês reservem somente para si, porque nós, americanos, sentimos na pele a sua podridão, baixeza e crueldade.
É interessante o momento em que você produziu esse escrito. Tenho lido, eu, mulher sul-americana, nos últimos meses, diversos relatos de europeus que vieram ao Brasil no século XIX e não deixo de me surpreender com os preconceitos com que eles descrevem suas aventuras. Aqui, reina a barbárie, em contraposição à civilização europeia. Refletia eu: esses homens do século XIX pensavam mesmo assim. Era assim que então se pensava, o que não os torna menos nojentos. E eis você aqui, em 2013, pensando e dizendo o mesmo. Eu, mulher sul-americana, te pergunto: de que te valeu essa civilização? Estarão vocês, evoluídos homens brancos, a viver no éden depois de conquistar o mundo?
Eu, brasileira e mulher, não sou colonizada.
Você é. Pela mesquinhez das tuas opiniões e pela estreiteza da tua mente, tão pequena quanto seu glorioso Portugal. Se eu fosse você, me esconderia debaixo da cama por algumas semanas, de pura vergonha. Aproveitaria esse tempo para fazer uma profunda reflexão sobre a minha pessoa e meus conceitos sobre tudo aquilo que está do lado de lá da minha pele e do meu pênis branco. Eu, se fosse você, pensaria muito bem pensado numa retratação, pública como foi a ofensa.
Mas não sei se na tua cara sobra ainda alguma vergonha.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Timoneiro

Fiquei praí um ano me preparando para me tornar uma mulher de trinta anos. Sem referências a autores que, eu já disse, não li. Porque todo mundo tem essa neura e eu mais que todos, com minhas manias com números. Então pensei, refleti, digeri e fiz trinta.
Tem sido ótimo e lindo. Quando qualquer coisa me enche o saco sobremaneira, eu penso: “tenho trinta anos, não tenho que aturar essa merda”, ou “não tenho mais idade pra me preocupar com isso” e afins. O que eu sinto, que tenho buscado por toda minha vida, é liberdade. Eu posso ser quem eu sou, quem eu quiser e puder ser, e pouquíssimas são as coisas que me prendem. Sem essa merda toda de self-made-man, porque eu não sou man nem me faço sozinha e porque tenho dentro da cabeça um cérebro que me permite entender que o mundo em que vivo limita extraordinariamente o espaço da minha liberdade. Ainda assim, dentro desse meu espaço, sou livre.
Não acho que tenha nascido assim, tanto quanto que decidi me tornar assim e fiz por onde cumprir esse anseio. Fui séria nas minhas escolhas, fui responsável por minhas decisões, optei por uma carreira que me satisfaz e que acho de crucial importância e, apesar das minhas muitas limitações, avanço pelo caminho que escolhi.
Ao longo dessa jornada, companheiros e companheiras vieram, foram, voltaram. Deles, guardo boas e más lembranças, afeto, mágoas, saudades e, mais do que tudo, lições. Sobre o que vale a pena nessa vida, sobre o que não vale, sobre o que as pessoas são e sobre o que elas podem ser e sobre quem eu sou e quem eu posso ser.
E o que eu posso ser é isso. Mulher, 30 anos, livre.
Posso ser isso e além: feminista, historiadora, esquerdista, sul-americana, americana, de nome indígena, alma brasileira, alvinegra, à flor da pele, na flor da idade.
Posso fazer mais: trazer à tona e discutir questões de gênero, de raça, de classe, de história e de pessoas, posso falar e, mais, escrever, publicar, ser ou não lida, mas produzir. Posso ensinar e aprender, posso dar carteirada e posso silenciar, porque sei que não preciso me provar para ninguém.
Posso ainda ter compaixão, por eu criança, por nós que não sabemos bem quem somos até a metade do show, pelos meus erros e enganos, pelas cegueiras e desenganos, pelo que foi e deixou de ser.
Eu, porém, fiz e faço todos os dias uma opção. Não é você quem me navega.

É o mar.

p. 1 - Agradecimentos

Eu às vezes me pergunto se será ridículo, emocionante ou um pouco de cada isso da gente se achar nos agradecimentos dos outros.
Sei lá se isso é normal ou particular aos academicismos dessa vida, mas o fato é que, sabendo onde procurar, há por aí uma ou duas citações ao meu nome, entre amigos, apoiadores, colegas e demais pessoas que fazem parte dos meios pelos quais circulamos.
Obviamente que caçá-los chega ao cúmulo do egocentrismo. Mas, pergunto, quem não os caçaria?
Uma amiga costumava dizer que sua parte preferida nesses nossos livros eram os agradecimentos. Não sei bem dizer por que - quando saberemos explicar qualquer coisa, nossa ou de terceiros? -, mas desconfio que por aquele setorzinho no começo da obra nos revelar tanto sobre quem a escreveu, sobre como foi o processo, quem estava ali para dar aquele ombro, chocolate quente, porre de vinho ou sabe-se lá o que mais pode ser necessário para terminar nossos trabalhos hercúleos.
Eu, quando tive de agradecer, cheguei aos limiares da catarse. De repente foi só um momento de loucura, desequilíbrio ou piração, mas algo aqui saiu do eixo. Pode ser só excesso de drama, ou o alívio profundo do fim, mas independente das razões que levam àquelas palavras, eu ainda gosto de ir lá ver se elas também me dizem.
A impressão das letras, afina, não dá sentido à vida - e sentido é das coisas que eu mais procuro nessa bendita -, mas pode ser que o que as levou até ali dê.
E um dia, ou hoje ou amanhã, poderei dizer: fui agradecida por tantas pessoas. Não vale nada, né? E é ridículo. Mas também é verdade.
Só porque me deu na telha procurar e achei.