Fiquei praí um ano me preparando para me tornar uma mulher
de trinta anos. Sem referências a autores que, eu já disse, não li. Porque todo
mundo tem essa neura e eu mais que todos, com minhas manias com números. Então
pensei, refleti, digeri e fiz trinta.
Tem sido ótimo e lindo. Quando qualquer coisa me enche o
saco sobremaneira, eu penso: “tenho trinta anos, não tenho que aturar essa
merda”, ou “não tenho mais idade pra me preocupar com isso” e afins. O que eu
sinto, que tenho buscado por toda minha vida, é liberdade. Eu posso ser quem eu
sou, quem eu quiser e puder ser, e pouquíssimas são as coisas que me prendem.
Sem essa merda toda de self-made-man, porque eu não sou man nem me faço sozinha
e porque tenho dentro da cabeça um cérebro que me permite entender que o mundo
em que vivo limita extraordinariamente o espaço da minha liberdade. Ainda
assim, dentro desse meu espaço, sou livre.
Não acho que tenha nascido assim, tanto quanto que decidi me
tornar assim e fiz por onde cumprir esse anseio. Fui séria nas minhas escolhas,
fui responsável por minhas decisões, optei por uma carreira que me satisfaz e
que acho de crucial importância e, apesar das minhas muitas limitações, avanço pelo caminho
que escolhi.
Ao longo dessa jornada, companheiros e companheiras vieram,
foram, voltaram. Deles, guardo boas e más lembranças, afeto, mágoas, saudades
e, mais do que tudo, lições. Sobre o que vale a pena nessa vida, sobre o que não
vale, sobre o que as pessoas são e sobre o que elas podem ser e sobre quem eu
sou e quem eu posso ser.
E o que eu posso ser é isso. Mulher, 30 anos, livre.
Posso ser isso e além: feminista, historiadora, esquerdista,
sul-americana, americana, de nome indígena, alma brasileira, alvinegra, à flor
da pele, na flor da idade.
Posso fazer mais: trazer à tona e discutir questões de
gênero, de raça, de classe, de história e de pessoas, posso falar e, mais,
escrever, publicar, ser ou não lida, mas produzir. Posso ensinar e aprender,
posso dar carteirada e posso silenciar, porque sei que não preciso me provar
para ninguém.
Posso ainda ter compaixão, por eu criança, por nós que não
sabemos bem quem somos até a metade do show, pelos meus erros e enganos, pelas cegueiras
e desenganos, pelo que foi e deixou de ser.
Eu, porém, fiz e faço todos os dias uma opção. Não é você
quem me navega.
É o mar.
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