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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Jasão

Já contei aqui nos idos do ano que passou - e que ano que passou! - que fui assistir ao espetáculo "Gota d'água" do Chico. Buarque, claro. E a peça - todo mundo sabe? - é uma adaptação do... mito? história?... aquele lance todo da Medéia, que sei lá faz o que no original, mas nesse ela é casada com um cara mais moço que chama Jasão e compõe um samba, aquele "gota d'água" do mesmo genial Chico. "Já estanquei meu sangue quando fervia". "Já lhe dei meu corpo, minha alegria". Ambos tanto, né? Tanto dar quanto estancar, enormes.
"Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa".
Pois lá fui, ver a Medéia-Joana e ela era fenomenal. E os monólogos dela eram fenomenais.
Tanto que a peça ia sair de cartaz logo e eu tive de ir ver de novo. Tentei levar comigo algumas pessoas, mas elas não quiseram/puderam/...eram, então fui sozinha. As duas vezes. E foi fenomenal.
E só o fato do cara chamar Jasão já é de matar. Porque, né? "Jasão!"
Por que mesmo comecei a falar disso?!
Ah, sim, porque me sentei aqui nessa mesma cama, nesse mesmo quarto, para ver um pedacinho da Joana no youtube e ouvir a música, e ouvir a música, e ouvir a música. Tanto tempo, já. E agora, sentada aqui ouvindo outra música, me lembrei dessa. "Já estanquei meu sangue quando fervia".
Aí que hoje eu me sentei com um amigo pra gente meio que resolver qual é a da vida e qual é a das pessoas e eu me dou conta de quanto nosso saber é provisório. Porque eu já sabia, ou melhor, já soube de tudo que ele me disse, mas esqueci. Tão fácil esquecer o que aprendemos e voltar praquela repetição do nosso instinto inicial, pros nossos vícios de sentimentos e interpretação, quando tudo pode ser tão mais simples.
Eu é que ando numa fase complicada, por um lado de saco total cheio das pessoas, por outro, sem ficar satisfeita com as coisas que tenho que fazer e com meu modo de (não) fazê-las. E nessa o bonde vai andando e eu fico aqui, me prometendo, como sempre, que tudo bem no ano que vem.
Mas sim, a Joana. Jasão, sou eu que estou aqui.
Jasão não vê, obviamente. Jasão nunca vê, não é mesmo? Faz parte da natureza de Jasão não ver e da de Medéia, gritar.
Tanto pensei na época, para não deixar de lado velhos hábitos, que I wish (Jasão) were here, mas Jasão estava lá e não via Joana.
Tanto tempo já se foi e, bem ou mal, tudo bem. Tudo bem no ano que vem.
Sorte de quem viu e ouviu a gota d'água.
Azar de quem é cego e não vê nada.
Bem na mesma época, talvez, eu fui ver um show do Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado e fiquei tão deslumbrada com aquele homem no palco. A dança dele toda tão esquisita e como pode haver na falta de senso uma beleza tão encantadora. Vi, depois, outro homem num palco, muito diferente, não tão esquisito, muito muito longe dali, mas senti o mesmo encanto. Um dia talvez fale sobre essa noite, uma das mais especiais que já vivi, apesar de que ao contá-la eu provavelmente não vou conseguir narrar os vazios que a tornaram tão deliciosa. Porque nada demais aconteceu, só um homem num palco e uma música alucinante nos ouvidos, mas se eu tenho alguma crença na existência do que chamam de felicidade, ela está ali. Mais uma vez, nada de mais, não mega-sena, não grande-amor-da-minha-vida, não-nada e, ali, tudo.
Mas sim, vi lá o Lirinha e ele fez uma música linda que mostrei pra um mundo de gente e ninguém gostou. Mas eu gostei. E ele diz: "chamei você, mas você não veio. Eu entendi que era normal. Nada pessoal." Ah se não fosse o amor...
Jasão...?

sábado, 22 de setembro de 2012

Do blogger

Ah, sim, eu reli lá a postagem que escrevi trêbada. Lembrava não, o que significa pouco, visto eu normalmente não lembrar mesmo. Fiquei algo surpresa com a quantidade de palavrões, quer dizer, sei que não tenho a boca nada limpa, mas ainda assim... Mas sim, é que eu tava escrevendo, num esforço hercúleo para digitar algo corretamente, tentando domar os dedos perdidos para a ebriedade e consequente descoordenação e no meio do caminho deu algum tipo de pane, o blogger se fazendo de engraçadinho, que despertou a fúria. E daí, né?
Mas sim, de fato o "transa" é um puta disco e "atrás da porta" é uma puta música. Não para qualquer momento, porém, principalmente a última. Há que se estar num certo estado de espírito para apreciá-la e talvez o descolamento da realidade implique numa apreciação mais completa. Isso de ver pela primeira vez, esse deslumbramento que passa tão rápido, quando nos acostumamos e damos de barato. Sorte que há ainda momentos, mesmo poucos, em que é possível redescobrir.
Hoje eu vou de Baleiro, "aonde flores", tem um ar assim de preguiça que me agrada.
Ai, encantamento, que você deixou minha companhia e eu queria tanto que voltasse.

De graça

Tenho tido pouca, ainda que alguma, vontade de escrever. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem ao menos largar uma migalha.
Mas tanta coisa (não) acontecendo, tanto que tenho que escrever, porque mesmo tenho, e a vontade não tem chegado nem ali. Eita ano esquisito, esse vinte-doze. Parece que a primeira metade foi outro e ele na verdade recém começou e eu meio torço pra acabar logo, mas sei que não vai acabar antes de eu trabalhar e trabalhar e trabalhar e eu quero só ficar de bobeira.
Ainda que hoje, pela primeira vez em sei lá quanto tempo, chegou mesmo a fazer frio, nesse sul tão sem regra. E é tão bom, no frio, ficar de bobeira.
No calor também. O problema é que é sempre bom e eu perdi, como perco sempre, o prazer no trabalho. Perdi literalmente, de ter de encontrar em algum lugar que esqueci. Tão difícil isso de achar uma constância na vida, tão instável eu sou, uns dias, poucos, gostando do que faço, outros tantos sonhando gostar. Sempre sempre sonho com bibliotecas, e eu sentada numa mesa e trabalhando concentrada, e o dia acabando e eu com aquela sensação de dever cumprido, e podendo apreciar a noite. Tão raras vezes isso corresponde à realidade, prova mesmo da impossibilidade do sonho. E da minha teimosia, porque sei que não vou fazer. Sei que vou ficar sentada na minha cama, com o computador queimando minhas pernas, e livros espalhados por tudo que é lugar, tentando enlouquecidamente escrever e terminar e achando tudo uma merda, para depois dormir e sonhar com bibliotecas.
E, no caminho, tantas dívidas que vou deixando. Prometo, porém, que as pagarei. Disse que ia responder e vou.
O fato é que eu cheguei aqui e tanta coisa... achei que tinha perdido alguma coisa e de repente ela volta, algo inesperadamente e no meio de uma avalanche, tudo desabando e, ainda, uma alegria de reencontro, enquanto o tempo corre, voa e eu não sei como dar conta de tudo e ainda viver. Tava pensando, ainda agora, ao imaginar as pessoas se encontrando, tomando uma cerveja no fim da tarde, pegando um cinema, que acho que vou ter que deixar isso pra depois, que agora não dá. Mais algumas semanas de hibernação, talvez, com sorte, para depois nova primavera e depois hibernar e assim por diante, até chegar o desespero absoluto da falta de perspectivas e do mundo adulto, mas tudo bem, respira fundo, ainda estamos longe, um dia de cada vez e assim por diante.
Enquanto isso, ouço uma cantilena da sobrinha, que encheu uma jarra de água, colocou numa bolsa uns copos, a bolsa no ombro e saiu andando pela casa, cantarolando baixinho "água... água de graça... quem quer água... água de graça" e eu não consigo alcançar o que é isso que a gente perde com os anos, por que a gente perde com os anos?, de no nada achar satisfação. Andava ela, para cima para baixo, eu bebendo litros de água até doer minha barriga, enquanto ela seguia e não parecia nela faltar nada.
Sei não o que aqui parece andar perdido, mesmo sem rumo, como se eu tivesse perdido um pouco o norte. Será que perdi no norte?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Eita,

e hoje ainda é sexta-feira, 13?!
Nem tinha me ligado, até ver o calendariozinho do blog.
Adouro.

Afe,

acabei de assistir a um filme horrível.
Ele era ótimo até os 45 do segundo tempo, quando tudo muda e o diabo se come pelo rabo.
Meio que nem aquele outro filme - e livro, dez vezes livro - "um dia".
Li num blog sobre esse último, algum comentário dizendo exatamente isso, que era maravilhoso a maior parte do tempo e depois resolvia deixar de ser.
E eu li, logo depois de terminar Grande Sertão, numas de "ah, vou ler um livro bonitinho pra me animar" e eu li em tipo um dia e me ferrei grandão.
Engraçado como Grande Sertão é tão fodástico do início ao fim que o fim meio que não importa, apesar de importar muito, mas Guimarães é tão gênio que o fim e o começo são mesmo a mesma coisa, então meio que não importa. Mas importa muito, de qualquer jeito, porque alguém me explica o que caralhos é aquilo?
Enfim, esse de hoje é um filme turco, cujo título original é "Ask Tesadüfleri Sever". Nem entendo nada de turco, obviamente, mas achei divertido, o nome no original.
Eu gostei bastante, até deixar de gostar e começar a falar comigo mesma "que bosta de filmeeee!!!". Então nem sei o que achei, mas fiquei passada e com vontade de ver alguma outra coisa, pensei no "contra a parede" ou no da Zingarina, que tem aquela cena fantástica com o urso, mas a noite avança e é melhor ir dormir.
Mas puta que me pariu, viu. Eita dia para escolher mal. E mau.
Isso porque tô numa puta maré de azar, com direito a machucado no pé, pisar em abelha e ter que arrancar o ferrão pulando num pé só porque dói pra caralho, ter meu celular pifado do nada e ficar horas e horas tentando resolver e... há mais, sempre há mais, mas há coisas nessa vida que a gente não quer deixar registrada. Melhor mesmo esquecer, se for possível.
Pelo menos o Corinthians ganhou a Libertadores, se pá essa nessa a sorte esgotou.
Mas somos quase lanternas no Brasileiro, o que devia balancear as coisas e garantir que eu durma bem e tranquilamente.
Veremos.

domingo, 17 de junho de 2012

Bloger, enfia na porra!!

PQP de porra de bloger que me vem com frescura nessa porra dessa noite, em que estou tão bêbada pra caralho e quero que o bloger vá pra porra da puta que o pariu.
Juro que não vou nem nunca revisar essa merda de texto e vou mandar eternamente a porra do bloger pra puta que o pariu!!! Porra, bloger, olha na porra daminha cara e vê se dou aporra da mínina pra sua porra de política da puta-que-o-pariu!!!!
Fatos:
1) Muito enchi a cara hoje.
Questão simplesmente de oportunidade: primeiro tava puta, na porra da TPM, na maior "ninguém me ama ninguém me quer" até me chamarem pra uma festa e eu vou nessa né, quem sou eu pra dizer não pra porra de festa? BORA!
2) //engri - CARALHO, digo, enchi a cara meio naquelas, sabendo que a porra da TPM tá aí na porta e sem ter lido - ao menos, com atenção - meu horóscopo hoje, que bem podia dizer que sou uma deusa do sexo, como que era melhor mesmo me esconder debaixo da cama. Who the fuck cares??!?!
3) Bebi cá minha cachaça, depois um vinho, depois cerveja.
4) Estando a porra da mistura feita, fui lá discorrer, em língua estrangeira, como Chico Buarque é a porra do maior gênio de todos os tempos do mundo. Ouvi - e vi, e tentei traduzi a nova galáxia que é o vídeo em preto e branco da Elis cantando "atrás da porta" é  melhor da merda da coisa que existe no mundo. Não melhor "canção de rompimento", nem melhor "Canção", mas a melhor COISA que deus (em sua inexistência) permitiu que essa merda travestida de homem colocasse sobre a face da terra.
5) Falhei, como parece ser meu destino, e portas foram batidas na minha cara - sei lá, se pá é outra vez meu destino, mas né? Estou bêbada aponto de me gabar de ter lido a porra toda do tempo perdido da porra do Proust (que aliás foi citado no filme a que assisti (tô bêbada mas lembro minhas preposições) hoje, sobre a porra de oslo em 31 de agosto) e quero que as  porrras da porta (com três erres) vão todas pra puta-que-o-pariu
6) Já sabemos eu e você que minha boca triplica de sujeira quando estou fora de mim
7) Ouvi ao deus Chico Buarque da porra de Holanda até morrrer, hoje
8) Como eu também não valho nada nessa merda dessa vida, Comecei a querer ouvir a merda do "transa", do mais merdoso ainda Caetano Veloso.
9) Puta cara mala do caralho
10) Como um cara mala desse faz uma merda de um CD como esse "Transa"??? Responde, Jesuiz?
11) Com portas na cara, bebedeira nível, sei lá, 12, começo a ouvir a porra do Transa. E, em vez daquele...
12) Blogger, vai tomar no olho do seu cu, que vc me trava assim e eu acho que perdi a merda desse texto todo!!!!
13) Me gustan os números primos, então avante: sim, ouço o "transa" e em vez da primeira música, que talves caberia agora, com toda aquela história de que você não me conhece (então, consequentemente, vai se fuder) a única música que fala ao meu coração e que o media player me permite ouvir é "it's a long way"  que, convenhamos, é a melhor do disco...
13.1) Porque hoje, ou foi ontem? Ou anteontem?, assisti à Pina, do Wis Wander, e hoje tive uma conversa comigo mesma (que tipo mais existe?) sobre o Wim Wenders e Paris - TExas
13.2) You don't know me, mas it's a long way.... os olho da cobra verde a a puta que pariu, Caetano. Tô bêba e desejo do fundo do coração que você vá pra puta que o pariu.
13.3) "Arrenego de quem diz que o nosso amor se acabou, ele agora está mais firme do que quando começou..." e aporra de eu tenho de estar sozinha pra ouvir essa merda
13.4) COmo faz tempo que eu não ponho aqui, não transcrevo aqui essa vida que me invade, fica e foda-se.
13.5) É TÃO de fuder minha vida, que tenha de ser a merda do Caetano a cantar essa belezura.... Ooooh... woke up this morning singing an old Beetles song, we're not that strong (!!!!!) I hear my voice among others...
16) Quão fodido é que, para mim, que prezo e aprecio a pureza, a verdade e algo de alegria de viver chegue assim, na... como caralhos chama? Aquilo que não é natural, mas inventado??? Plasticidade? Não. Superficialidade? Não. Sei lá como chama, isso que é criado. Esse disco é genial, com nome ou sem, com implicância ou sem
17) (que também é primo) Tristeza é saber que passe o tempo que passar, eu agora o ouvi sozinha.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Manifesto

Exaustão define. Minha situação no momento. Coço-me com vontade de casa, apesar de saber que a jornada continua e pra frente é que se anda. Talvez isso de mudar de ares traga alguma quietude a essa alma que, ao fim e ao cabo, tem andado muito quieta.
Hoje, nos arranjos de partida, resolvi algumas pendências nem tão importante assim, mas coisas que eu queria fazer antes de cair na estrada e camelei que só.Exauri minhas pernas mas encontrei, talvez, consolo para o resto. Melhor coisa, andar, né? Normalmente não sou muito fã, mas tenho percebido os benefícios de só ir e colocar um pé diante do outro nos últimos tempos, em que tenho estado com a macaca.
Pois hoje achei graça, por um acaso - ou não - carregava minha máquina e tirei praí duas ou três fotos do absurdo que é essa cidade vazia. De gente, claro, porque veículos há em demasia. E nas ruas, ninguém se livrando, como eu, da macaca. Se eu fosse boa pessoa, deixava por isso mesmo, mas não me impeço de observar sardonicamente que, dentro de minutos, os motoristas abandonarão os carros para correr. Com shorts ligeiramente curtos demais, pronto, falei. Toda essa cultura de fitness e nenhuma relação com a vida cotidiana e as calçadas seguem vazias.
Afora isso, minha vontade de fotografar tem estado perto de zero. De repente porque eu estive mais preocupada em viver do que registrar, ou a inspiração é que foi pouca, ou a preguiça muita. Viver, não registrar. Como dizia mesmo o Cortázar, não "lembrar", mas esquecer um pouco menos? Eu tudo esqueço, talvez por enfadonho mecanismo psicológico, talvez por séria debilidade neurológica, mas tão mais bonito pensar na poesia. Viver e acabou.
Sim, sim, era sobre isso que queria escrever e me fugia. Já escrevi, será? Pensava esses dias, quando descia a rua chegando ao Outback. Lembro o cenário, da avenida à frente, da descida, dos poucos carros e menos pessoas, lembro-me do cenário, um dia claro de sol, mas não sei por que pensava que as pessoas, nós-pessoas, perdemos a capacidade de lidar com o efêmero. Tudo e todos a gente pode ir procurar no facebook ou na internet e achar. Achar tudo, sempre, e aqueles momentos que são únicos, que não se repetem nem se reproduzem, criamos essa ilusão de retê-los, achamos que vamos procurar no facebook e mantê-los e sei lá. Continuo, talvez estupidamente, a não acreditar nisso. Os momentos vão, com eles as pessoas, e ficamos só(s) nós.
Acredito piamente nisso, mas hoje fui a um museu e vi uma gravação de um menininho dançando ao lado do pai, uma dança esquisitona, registrada em preto e branco e senti vontade de chorar. Hormônios, ou casa, mas percebi ali como o passado tem essa vocação tão sentimental, provoca reações algo inesperadas à maior distância que existe: a do tempo. Aquelas pessoas morreram, provavelmente, sabe-se lá quem foram ou o que fizeram da vida, mas seus pálidos ecos são suficientes para levar uma garota desconhecida quase às lágrimas em meio a um museu.
Contradição e tudo aquilo. Ou de repente não e o fato é que são simplesmente coisas diferentes.
Ainda ontem, eu fui procurar um vídeo que uma amiga me mandou de uma brincadeira que fizeram com umas crianças no natal - os pais davam aos filhos um presente bem podreira e filmavam as reações dos pentelhos e eu achei muito engraçado não apenas aqueles que esperneiam, mas os que tentam argumentar. Não lembrava o nome do vídeo, sabia só isso, então fui caçar todo o histórico dessa amiga e encontrei não só o link - o assunto do e-mail é "troll noel", caso algum dia eu sinta a necessidade de encontrá-lo de novo - mas uma conversa que tivemos pela mesma época e como é engraçado. Eu reclamava do meu coração levemente partido - e quando estará inteiro?? - e desde então passou um segundo e nada daquilo faz mais sentido. Foi, passou, acabou.
Ficou, no entanto, gravado, mas não com o intuito de recuperar, mudar tudo, reescrever o fim da história, só mesmo de deixar essa linha que forma nossa vida, o caminho que chega ao que somos hoje e somos o conjunto de pegadas na poeira atrás de nós.
E enquanto isso, perdemos a capacidade de aceitar o efêmero, de deixar as coisas serem o que são, de deixar o rio correr e todas as metáfora em que se puder pensar. Claro que vivemos hoje num mundo assim, contra fatos não há argumentos, mas sei lá. Eu queria saber lidar com ele, deixar pra lá e ver o rio correr e, de vez em quando, correr com ele, nele, e seguir adiante e nunca voltar.
Ergo sozinha minha voz e, por enquanto, não me rendo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mosbeando

Sei lá, de repente eu entrei numa máquina do tempo maluca e voltei para 2006. Ou 2007. Ou 2008, 9, 10 ou 11. Voltei para um tempo outro, para um eu que não agora.
Dos alto-falantes sai o som impregnante de um cd do Pink Floyd que nunca me fisgou, até que no fim-de-semana, numa pizzaria "hip" em meio a um monte de gente tatuada e na moda, eu acabada, de tênis, cansada de carregar peso, apreciando uma pizza de queijo de cabra e cogumelos, ouvia ali umas distorções e umas guitarras e uns baixos e pensava "será isso Pink Floyd? Não será? Que diabos será isso?" até que descobri, era o "animals" em versão de Les Claypool e como que viciei. Os instrumentais de Pink Floyd. Mas Pink Floyd foi naquela fase meio 2006. Exceto que, como tudo que vale a pena, as minhas fases vão e voltam e eu no processo vivo de reconhecer os conhecidos e nessa brincadeira o novo... Acho que já foi estabelecido que eu só gosto de novos velhos. E velhos novos?
Muito nessa da viagem no tempo e dos flachbacks, uma das minhas séries favoritas de todos os tempos é How I Met Your Mother. Que adoro e sou ridícula ao ponto de ficar verdadeiramente contente ao encontrar outros fãs e poder fazer referências sem medo de errar. Como aconteceu recentemente, quando eu conheci uma pessoa queridíssima, grande fã, e estamos nessa há meses falando de Ted, Marshal e Barney. Quem já viu a série certamente vai se lembrar do episódio piloto, em que o (imbecil do) Ted conhece a Robin e logo na primeira vez em que eles saem ele vai e diz que a ama. E ela, claro, espana, e daí surge a maior confusão e premissa de não sei quantas temporadas. E quem é fã, pode também lembrar do verbo que a gangue cria baseada nessa peculiaridade do protagonista: mosbear. É quando você conhece uma pessoa e já vai logo amando. Coisa que eu nunca tinha entendido, até entender e aí pronto, é um tal de "mosbear" pra todo lado. Então, não, isso não se faz.
Mas... sei lá, e quando a gente encontra por aí pessoas que são assim especiais, ou diferentes, e você vai e simplesmente as ama? Talvez não no sentido mosbiano, mas nisso da vida ser curta e incerta, dos encontros serem muito raros hoje em dia, de terem valor em si e pronto. Nisso de ser verdade e valer a pena. Aí é armadilha. Cruz e caldeirinha e todo o resto.
Fiquei eu, Pink Floyd, HIMYM, só no flashback e pensando. Sem saída, porque solução é item sempre em falta por essas bandas. Tudo tão já foi, nada novo sob o sol, e ainda assim vivemos a vida sempre nos mesmos dramas, mudando de nome e endereço e nós sendo quem somos e os outros... Ah, os outros, esse inalcançável de tanta gravidade.
Queria eu, Jô Soares, um dia poder entender um outro. Nem me contentava com um "só um pouquinho" ou "por um segundo", que ao pedir o impossível não me contento com migalhas nem esmolas, quero logo tudo, a compreensão total, completa, eterna e final. O pacote todo redondinho e embrulhado para presente, com uma fita roxa em papel verde, numa caixa grande que dá logo vontade de abrir.
Não entenderei, contudo, e sem solução ficamos todos. Mas hoje, só essa noite, as guitarras distorcidas me fazem companhia e me conhecem e somos juntas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poeira

Porque de vez em quando a gente tem que vir tirar, né?
Eu ando numa onda, voluntária ou forçada, tanto faz, da faxina, literal mesmo, mas como tudo na vida o físico transcende e alcança o meta.
Eu que de filosofia não sei nada.
Passei aqui uma hora cozinhando, devia estar estudando tão tão mais do que estou, tenho agora de preparar uma apresentação mas senti uma vontade danada de ouvir Los Hermanos, indicação de uma hermana que tá looonge (ou longe estou eu?!) e pronto. Que apresentação, que estudar, o quê (meio pensando no ritmo do Ney em "inclassificáveis"). Só a comida no fogo é que não pode queimar.
Claro que ela, a comida, não está literalmente no fogo, que isso não existe por essas bandas ~modernas~, mas dá pra entender a idéia geral.
Enquanto ela cozinha lá, eu cozinho aqui e espero visita.
E toda essa história de lua-de-mel e que passa, e vem uma frustração, e passa, depois a gente se acostuma, e passa, e depois passamos nós.
Foi boa, a lua-de-mel, e passou. A angústia que a segue também parece ter sossegado.
Eu, por outro lado, ainda cá estou, mas só por pouco tempo, depois passo também.
Já me lembro de quem sou.

quarta-feira, 14 de março de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Manga

Muito convencida estou de que costuraram meu nome na boca do sapo.
Não sem razão - apesar de não ter cometido crime algum, nem cretinice exagerada, poderia ter feito uma ou duas coisas diferentes. Mas fazer diferente nem sempre é possível, muitas vezes é mesmo difícil e a gente vai-se embora com o fácil e acumula assim toneladas de karma para depois poder se ferrar grandão.
Mas também, agir diferente... nesse mundo em que tudo é tão interconectado, nossas ações estão ligadas às ações de segundos, e terceiros, e quartos, e aí tudo degringola, porque os segundos e terceiros vão fazendo a coisa se enrolar e a gente termina que nem rabo de porco.
Mas é isso a vida, diz meu mesmo amigo recifense: a vida é manga, um dia mango eu, outro dia manga você.
Eita, que às vezes eu acho que o que me falta no mundo é o sotaque.

Nosso crime não compensa...



Pois é, Cazuza. "Já que eu não posso te levar, quero que você me leve".
Gênio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Raimundo

"Nora lembrou-se do hotel em Belgrano, da primeira noite com Lúcio, porém não era lembrar, mas esquecer um pouco menos".
Cortázar, "Os prêmios".
Ali, nas primeiras páginas. Não sei ainda como me sinto a respeito, talvez seja um novo "Jogo da Amarelinha", de que eu não sabia se gostava ou não mas ainda assim ficou. Mas gosto demais dessa idéia. Lembrar-se, porém não ser lembrar, mas esquecer um pouco menos.
Como pode a gente só esquecer um pouco menos?
Minha fama de esquecida já se espalha rapidamente por aqui, conversas que eu tive que não me marcaram e eu apaguei, coisas que eu disse que não me marcaram que já apaguei, mas o mais assustador é uma sensação de estranhamento comigo, como se eu estivesse esquecendo quem sou.
Então ando pelas ruas, sinto a primavera que se aproxima, e penso "lembra quem você é!".
O único problema é que a gente nunca sabe direito quem é. Talvez desconfie vagamente de quem foi, ou quem poderia ser, mas saber e no presente é outra história.
A gente tenta, mas vem a vida e de repente estamos no redemoinho, sem tempo para pensar e saber, o corpo se movimentando algo automaticamente, os olhos focados em frente sem observar o que nos rodeia, nós mesmos olhando para dentro sem ver. E vem a vida, vem e passa, e as horas e os dias e vivê-la consome tanto, desgasta tanto, que parece não sobrar tempo para saber quem somos.
Não gosto muito disso, acho, mas sigamos em frente e tentando, esperando desvendar os sinais deixados pelos caminhos e chegar, algum dia, a uma conclusão.
"Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo... seria uma rima, não seria uma solução." Drummond?
Haverá em algum lugar solução?

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Parabéns, Franny Glass!

Estou em crise e não sei dizer há quanto tempo eu não entrava em crise. Nem ao menos sei se em algum momento já tive uma crise dessas proporções e tendo a achar que não.
Claro que pimenta nos olhos dos outros não arde, então quaisquer crises que eu porventura tenha tido no passado, sendo eu outra, não se compara.
Há já algumas horas que ela dura, com intensidades diferentes mas persistentemente e eu como me desespero por não saber o que fazer agora. Há tanto e tanto tempo eu não sei bem o que é desespero, chega me acostumei com a ausência.
Mas não sei, alguma coisa nessa noite disparou o gatilho, que talvez esteja há meses se armando, talvez mesmo a vida toda e tudo até esse momento, conspirando para uma crise que chega meio sem motivo, sem grandes tristezas, sem grandes dramas, sem grandes desesperos. Só que, sendo tudo isso verdade, também não é, porque as coisas... ok, talvez não todas as coisas, mas essas coisas não acontecem ao acaso. Acontecem por um motivo, ou dois, ou vários, e eu consigo até identificar alguns que me tenham trazido até aqui, mas nenhum me parece suficiente para explicar o tamanho da dor. Não sei dor de quê, exatamente, mas eu nessa noite de domingo dôo como há anos não doía. Talvez jamais, desde que saturno esteve exatamente aqui.
Mas tudo, o ano passado com suas dificuldades e pesos, e a morte, essa... não sei dizer, não mesmo. E o fato de estar aqui e não estar em tantos outros lugares, e estar com algumas pessoas e outras não, talvez tudo fosse diferente se, mas provavelmente não seria, porque eu continuo sendo inexoravelmente eu e não há cenário no mundo que mude isso.
Mas eu, em crise, e ninguém mesmo se importa, tampouco eu, mas o mundo hoje se divide entre as pessoas que estão aqui e as que não estão. Ninguém perde nada com isso e também não ganha, mas o fato, hoje, é esse. Sim e não e o "não" tem uma força algo gigantesca, afirmando com sua voz gutural que estamos todos tanto e tão sós, apenas sós e nada mais do que sós e eu meio que quero que permaneça assim. Sem ilusões de qualquer tipo, a verdade nua e crua e nada mais resta, a não ser meu amor pelo sangue, Diadorim e o diamante louco.
Começa assim o novo ciclo e quem saberá como termina?
Eu, em crise, não quero nada, nem que passe. Fica, crise, e vamos ver aonde isso tudo nos leva, sabendo que temos chão à nossa frente.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Saturno

No fim-de-semana passado, eu fui entrevistada. Nada que vá aparecer um dia num programa de televisão, só uma conversa com uma pessoa que me fazia perguntas específicas - material para um trabalho para ela; disposição de conversar para mim. Além do fato de eu poder simplesmente falar sobre mim mesma durante uma hora sem me sentir egoísta ou egocêntrica, só exercendo meu egocentrismo de maneira velada, enquanto empolgadamente respondia às perguntas.
Hoje, acho que pela terceira vez nas últimas semanas, me deram parabéns adiantado pelo meu aniversário. Tenho tido de mostrar minha identidade bastante por aí. E as pessoas de fato olham, fazem as contas, vêem que está chegando e dizem "feliz aniversário adiantado". Eu agradeço e conto para todo mundo, para as outras pessoas que não precisam ver minha identidade, que meu aniversário vem aí.
Essa noite, fui ler meu horóscopo, porque leio mesmo quando ele chega no meu e-mail, e fiz uma dessas mini-previsões da revolução solar. Sou mão-de-vaca e não vou pagar quarenta reals num mapa desse, mas fiz ali a prévia gratuita. E não dá pra entender nada, como não dá para entender nada da versão completa e nem da vida, afinal de contas, que é tanto uma viagem sem mapa. E sem destino? Só fim a gente sabe que tem, inevitável e talvez terrível.
Pois eu senti, como venho sentido, essa vontade enorme de ouvir falar sobre mim. Ler sobre mim, falar sobre mim e de repente isso vem acontecendo há vinte e tantos anos, ou de repente está mais exacerbado agora.
Nunca fui muito de ligar para aniversário, nem de ficar chateada por esquecerem, mas acho que fui construindo na minha cabeça que esse era diferente, pelo próprio número e o retorno de saturno e ser o último dos vinte, e primo, e fui achando que ele é mais importante do que os outros. Mas essa noite, lendo ali o horóscopo, comecei a perceber que daqui a pouco ele vai chegar, passar, o mundo vai continuar a girar e eu vou ter de encontrar outra coisa para esperar. Ou ansiar. Ou me preocupar.
Mas eu realmente não queria que passasse em branco. Queria que alguma coisa acontecesse, que alguma resposta chegasse, que a luz se fizesse, que eu entendesse e o mundo amanhecesse outro na segunda-feira de carnaval. Que eu me transformasse em outra, ainda permanecendo a mesma. Tenho tanto percebido como estou chegando àquele lugar em que não quero ser ninguém mais além de mim, em que posso ser feliz sendo quem sou e só, mas isso não me impede de querer ser eu de todas as maneiras e em todas as versões possíveis.
Não sei, meu velho amigo, mas não queria que passasse em branco. Sei que depende apenas de mim jogar as cores, mas só agora comecei a pensar em como fazê-lo e talvez seja meio tarde. Talvez dê apenas tempo de mudar o resto da minha vida, depois de domingo e para sempre.
Mudar o quê, não sei exatamente, mas tenho a impressão de que é preciso, antes de seguir adiante, lembrar.
E perguntar, abismado: como pode a gente esquecer?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Morgou, visse?

Aqui na caretolândia tudo é, além de muito careta, muito complicado.
Pode parecer fácil, já que não é um mundo totalmente desconhecido, mas as pessoas se movem e se comportam informadas por códigos desconhecidos e que, portanto, não entendo.
E estou mesmo tentando entender. Só que não dá.
A verdade é que o mais fácil é a gente viver na bolha, do nosso lugar ou de nós mesmos. Às vezes parece até melhor; então deveríamos ficar sentados em casa assistindo ao jogo de futebol do sofá da sala no domingo à tarde. Mas não, a gente quer ser aventureiro e "viajar" e pronto. Quer "conhecer lugares novos" e, mais importante, se conhecer em lugares novos, mas ao fim e ao cabo a gente passa essa vida toda tentando e não conhece nada, não. Nem sabe, nem descobre.
O fato é que a caretolândia é careta pra caralho. E olha que eu não sou a pessoa mais doida que já andou por essa terra. Até me considero normalmente bastante quadrada, mas estou descobrindo o quão redonda eu sou.
Mas vamos lá, viver a vida e nos meter em enrascadas, não hipotéticas mas com nome e sobrenome e esperar depois poder rir disso tudo. Exceto que ontem fui jantar com os amigos e entre eles há um recifense, ou melhor, dois - porque sempre há de haver Recife na minha vida! -, ambos muito legais e engraçados, e um deles, o primeiro, me solta um: "j., morgô, visse? Beijo" e eu ri tanto que tanto que não quero esquecer o "morgô, visse?" nunca mais.
Porque às vezes a vida é simples assim, simplesmente foi lá e morgou.
Visse?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

On drugs

São poucos os momentos dessa vida em que eu me arrependo, ainda que levemente, de não estar nas redes do momento, tipo facebook e twitter. Normalmente estou plenamente convencida de que não sinto a menor vontade de estar, todo esse lance de fazer propaganda da própria vida e depois ficar perseguindo pessoas aleatoriamente me cansa sobremaneira. E, sei lá, quem se importa? Para me expressar virtualmente já tenho essa birosca, que já não vende muito bem; quem nessa porra de mundo tá minimamente interessado no que eu possa escrever no twitter? Nem falta de auto-estima, consciência mesmo da minha mediocridade na mais pura acepção da palavra. Galera às vezes alega que o povo se expõe demais, mas eu acho que tem trocentos zenzilhões de pessoas se expondo tanto ou quanto, se um louco encanar com você pela internet, sei lá, você foi lá e deu azar. O mesmo pode acontecer na rua, a qualquer momento, porque o fato é que nessa vida não existe segurança alguma e vamos todos morrer mesmo.
E morrendo ou vivendo, não quero fazer vitrine, não sinto o menor desejo de participar da ilusão de uma proximidade que não existe, brincar de ser casual, quero é vontade e intenção e esforço. Às vezes é difícil, eu sei, mas ?, essa porcaria aqui não foi feita pra facilitar a vida de ninguém. E de repente há um pote de ouro no fim do arco-íris, ou uma luz no fim do túnel, ou só mesmo uma cachoeira gelada esperando no fim da estrada, mas você só vai apreciar se gastar a energia para chegar lá.
Eu tava com um manifesto anti-facebook todinho na cabeça, acho que desde o ano passado, mas fui esperando e ele se perdeu. Tenho noção de quanto eu perco com minha recusa, mas estou mesmo disposta a pagar pra ver.
Só que tem momentos, como esse, em que posso estar simplesmente cansada e surtada e no pico do chocolate para me manter acordada, mas bem agora eu penso que tenho algo a compartilhar com o mundo que é importante, enquanto simultaneamente me dou conta que ninguém no mundo vai rir como eu ri agora, porque a verdade final e absoluta é que não importa.
Eu tenho, porém, esse espaço e venho relatar que estou eu aqui, mergulhada para variar no século XIX, tentando desvendar a letra de um puto de um escrivão, quando o cara vai registrar a qualificação de um escravo que matou a mulher, e começa a dizer que o cara é "natural de Portugal, digo, do Rio Grande do Norte". Meu, essa pessoa tá muito on drugs. Aí, ok, não tem a menor graça, mas eu começo a imaginar a cena, o pessoal numa salinha meio suja, de parede caiada se tanto, um bando de gente e a porra do Juiz, e o curador, e o diabo do escravo que matou a mulher começando a contar como e por quê e de onde tirou essa idéia genial, e o doido do escrivão no mundo da lua, pensando na morte da bezerra, completamente surtado e fora da caixinha, por que da onde uma pessoa confunde Portugal e Rio Grande do Norte? Pra um escravo?
Tanta coisa nessa vida que a gente vive e morre sem saber e sonha ter a chance de um dia encontrar um deus inexistente e perguntar, ou encontrar a pessoa em questão e perguntar, tantos "por que você fez isso comigo?", "por que você não fez isso comigo?", as dúvidas mais angustiantes e desesperadas, talvez mesmo cruciais, exceto que nada é, mas juro mesmo que se eu tivesse a chance de fazer uma pergunta, provavelmente amanhã me arrependeria, mas essa noite seria: "amigo, onde diabos você tava com a cabeça?"

PS: Gente, o rapaz tava bem não. Duas linhas depois, ele pergunta "qual sua profissão? respondeu chamar-se, digo, respondeu ser trabalhador de roça"!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Welcome to Tijuana

Nada de novo sobre a terra, mesmo nada. Tudo muito velho na verdade e eu continuo não exatamente me surpreendendo, mas confirmando quase diariamente como estamos tão absolutamente sozinhos nesse mundo. A idéia já me causou, talvez há meses ou anos, profundos desesperos, hoje a lição só se repete a cada dia e vai se fixando em mim, ao ponto de conseguir lidar melhor com a idéia e aceitar que as pessoas são livres pra fazer o que diabos quiserem das próprias vidas. Mas o mundo continua, cada vez mais cão e, talvez recalcadamente, eu semi acredito que as pessoas perdem com isso. Porque né, mesmo cão e na total solidão, a vida é mais que isso. Ou a minha é, ou deveria ser, ou eu tento fazer, mas enfim, começo de novo a me achar ligeiramente superior à maioria das pessoas à minha volta e isso é sempre mal sinal.
Só mesmo pra dizer e ficar alguns minutos sem pensar que eu preciso trabalhar no meu relatório.
Sim, Jack e Neal e o outro cara cujo nome esqueci estão curtindo todas no México e no fim da estrada e começo a pensar se a seguir vou pra Salinger, Borges ou Cortázar.
Ou se largo tudo e vou eu também para Tijuana.
Com os coiotes não há aduana.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Je ne t'aime plus

Tava aqui na onda com a amiga colombiana ouvindo Manu Chao. Ficamos curtindo o som e tentando lembrar de onde diabos o cabra é, filho de quê ou de quem e de onde tirou essas misturebas todas que faz.
Tenho ensaiado voltar a ele muito, nos últimos tempos, e ficava procurando nos pen-drives e hd's externos onde estavam os álbuns e nunca que encontrava, até finalmente chegar à conclusão de que perdi. Mas, na onda, comecei a ouvir de novo o Clandestino e voltaram algumas músicas de que tinha me esquecido completamente, como essa em francês e me bateu uma saudade do tempo em que eu meio que conseguia falar francês. Estudei até que bastante, talvez se tivesse viajado na época, se não tivesse parado, se...
Tenho percebido, ultimamente, que gosto demais de estudar línguas, mas obviamente não consigo fazê-lo se não for obrigada - e acho que obrigação para mim é do tipo "tenho que tirar nota nessa disciplina ou então perco todos os créditos e o mundo explode" ou coisa assim. Meio que passou do tempo, então. Mas gosto e fico achando que curto todo o lance do instinto, de ficar ouvindo e meio que sair falando - tudo errado e talz, mas a sonoridade e as consoantes malucas e tudo isso.
Não sei a quem eu dizia esses dias que acho que falar francês é achar o sotaque certo em português, engatar a segunda, terceira ou quinta e simplesmente ir embora. Não tenho certeza se é exatamente assim e estou longe há tempo o bastante para criar uma memória absolutamente deturpada, mas seria tão legal se fosse. Como o portunhol, que preciso demais desenvolver.
Tenho estado também nessa onda do espanhol, quem sabe nos próximos meses ele nasce. Fui falar esses dias prum pessoal sobre a Mafalda e ninguém conhecia. Tudo bem, era um pessoal, como direi?, jovem; mas , como assim não conhecer a Mafalda? Tão uma instituição, na minha bolha! E fui me dar conta, novamente, de que ainda não pus os pés na Argentina e a cada dia isso me soa mais criminoso. Quem sabe esse é o ano, mas são tantas coisas pra fazer e lugares para ir e eu dizendo que vou encontrar tanta gente e não tenho tempo e dinheiro e dramin suficiente para tudo, ou metade, agora. Mas estou pensando em fazer uma viagem camicase dentro de algumas semanas, algo como vinte horas dentro de um ônibus, lance todo cachorro cinza e etc., me sentindo o próprio Jack Kerouac experimentando as estradas e as paisagens, mas de maneira só um pouco mais comedida.
E, em algum momento do caminho, sinto uma taquicardia tão intensa que parece que vai me explodir, de repente o som subindo e tudo que posso ouvir no mundo é meu coração e literalmente ouço e sinto o peito ficar pequeno para ele, como se ele lutasse para se livrar de amarras ou sei lá o quê, mas o que ele não percebia, ou eu não percebia, é que ele estava de fato solto. É só que é algo apavorante, isso. Eu sou tosca e me pego pensando: o coração da gente dispara assim numas de defesa, de situação de perigo e se preparar para lutar ou fugir, mas nós somos seres tão fodidos nessa vida que a pessoa sente isso confortavelmente sentada, entre quatro paredes, num dia de sol e céu azul, sem perigo algum rondando nas imediações. E ainda, na segurança mais absoluta, nosso corpo reage sem saber bem a quê e a força da reação é tanta que parece nos prostar, chega mesmo a doer de medo de o músculo simplesmente parar ou, quem sabe, de não parar. Não é difícil perceber que a verdade é que não estamos seguros nunca, nem dentro de casa, nem sozinhos, porque a vida... Ai, Diadorim, a vida é perigosa. Precisa mais nada além de estar vivo.
Há tempos, percebo agora, não pensava eu em Diadorim. Nem tanto tempo, talvez um mês ou menos, mas é surpreendente que se tenha passado tanto tempo quando eu imaginei que ele agora já estava dentro e sempre.
Je ne t'aimes plus tous les jours e me pergunto: cuándo llegaré?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Depois de viver um século

Opa, que lembrei mas muito vagamente que comecei a cantarolar, já deitada pra dormir, aquela música tão bonita da Violeta Parra. Volver a los diecisiete.
Sei não de onde ela surgiu, a não ser que de vez em quando essas coisas voltam.
Não liguei o computador, mas procurei no meu novo celular high tech um vídeo dela no youtube e achei com a Mercedes Sosa e entrei numa viagem, daí para Gracias a la vida e a Alfonsina. Chega encontrei uma versão da primeira com a Joan Baez, o que tem toda uma simbologia que não vem agora ao caso, mas o fato é que prefiro com a Violeta. Ou com a Mecedes. E eu muito não sabia que a tal Alfonsina foi uma poetisa que de fato se lançou ao mar e lá se quedou.
Não sei, as duas, ou as três, me trazem essa sensação de pertencimento que é tão engraçada, tão recorrente e de que falo tanto, da idéia de América e de Sul, de alguma coisa que é nossa, mesmo sem que saibamos o que ou quem é nós, mas que nos pertence e a mais ninguém. Porque infelizmente eu ainda estou nesse estágio em que preciso ser melhor do que os outros, mas acho que apesar disso, é nosso e de ninguém mais. Eles lá, ou aqui, ou aí, tem outras coisas, talvez melhores coisas, talvez coisas que nos despertam inveja e vontade de ganhar e que derrubem aqui e ali nossa auto-estima, mas dentre tudo que eles tem ou não, que eles são ou não, não são América e nem Sul. E é engraçado, porque eu muito não conheço a América. Vi um pedacinho minúsculo, quase nada, como sei também quase nada do Brasil. Nem à Argentina ainda não consegui ir. Mas quando as pessoas me perguntam se sou latino-americana, não concebo outra resposta que não um sonoro "sim".
Não era isso, afinal, que eu pensava à noite e sobre o que queria escrever, mas é isso que penso sempre, que está já incorporado em mim. Tenho visto e refletido muito sobre essa questão do ufanismo, por tantas e tantas razões, e o fato é que se me quiserem acusar de ufanista, creio ser obrigada a aceitar, apesar de não pensar em mim dessa maneira. Nem sou patriota a ponto de pensar que venho do melhor lugar do mundo, nem ao contrário, de afirmar o tempo todo como "lá fora" tudo é melhor do que no Brasil; é só que gosto tanto dessa idéia de pertencer a um lugar, não por ser melhor ou pior, mas simplesmente por vir dali, estarem ali minhas memórias e referências, por serem aquelas as cores com que me acostumei a ver o mundo e a gente sabe, ou eu sei, que as cores mudam de acordo com o lugar em que você está. São os sons que minha língua aprendeu a produzir, a música que sai da minha boca quando falo, que pode fazer um menininho de casaco laranja se contorcer na mesa ao lado para ouvir. Não amo-o ou deixo-o, não salve nada, só e simplesmente pertencer a um lugar - e um lugar que são tantos, que podem se expandir até formar um "Brasil" que desconheço ou uma "América" que adoro.
Muito não sei, mas tanto gosto de fingir que sim - e bem pode ser que esse fingimento se prove mais real do que muitas verdades alardeadas aos quatro ventos.



Aqui com Mercedes Sosa e Milton Nascimento. Gosto da levada mais melancólica.

Cuento Chino

Aconteceu outra vez, na noite passada, de eu estar pensando em alguma coisa legal e importante para dizer, depois de um longo tempo, algo que valia a pena, mas, cansada, não quis ligar o computador, despertar totalmente na noite que já ia avançada, e pensei em dizer depois, mas quantas vezes nessa vida a gente precisa aprender que depois não existe?
Depois é igual a nunca. Sempre só agora, nada mais.
As coisas por aqui andam iguais, apesar das diferenças. Eu continuo a ser eu, o que quer que isso signifique, independente de endereço ou de qualquer outra coisa. Deveria estar estudando e trabalhando muito mais do que estou, mas isso é praxe.
O fato é que andava ontem na universidade e comecei a ouvir uma campainha bastante chata; hipocondríaca que sou comecei a pensar que estava seriamente doente e era a única a ouvi-la, visto ninguém ao meu redor parecer incomodado com o barulho irritante. Imediatamente depois, após confirmar que não tinha problema algum e outras pessoas podiam ouvi-la, comecei a cogitar a possibilidade de ser, sei lá, um alarme de aproximação de um tornado ou alguma coisa assim. Sempre me lembro de um programa que vi no GNT há muitos anos, em que os caras estudavam diversos comportamentos humanos e um episódio em específico me marcou muito. Colocaram uma pessoa qualquer junto de um bando de atores numa sala, pra fazer um teste ou sei lá, e aí começaram a tocar fumaça pra dentro da sala, pelas frestas das portas e a observar a reação da pessoa. Os atores ficavam impassíveis, enquanto o pobre do inocente se mostrava nervoso, percebendo que algo ia errado, mas ao olhar a seu redor e perceber que o grupo permanecia calmo, a maioria das pessoas meio que não fazia nada. O lance é que, se fosse uma situação real, o tempo que elas demoraram para fazer alguma coisa teria sido suficiente para elas se encrencarem grandão. Só uns poucos - obviamente não me lembro das estatísticas - viam a fumaça, olhavam ao redor, diziam "galera, essa joça tá queimando" e, mesmo os panacas dos atores continuando sem fazer nada, levantavam e saíam. O x da questão é que somos animais sociais e balizamos muito dos nossos comportamento pelos do grupo.
Pois estava eu no meio dessa reflexão toda, sirene tocando, galera ao redor com cara de tacho, até entrar no prédio da biblioteca e uma mulher dizer "vocês ouviram o alerta de tornado?!'.
Queixo caído e tudo o mais a que tenho direito. Visualização de manchete de jornal anunciando que fui levada por ventos avassaladores, enquanto pensava no documentário do GNT, de vacas passando voando ao meu redor e etc.
No fim das contas, era mesmo um alarme falso - ou acho que as pessoas prefeririam chamar de excesso de precaução. Alguma chance mínima de rolar um tornado numa área relativamente próxima, então bora ficar atento pra evitar desgraça maior.
Mas é verdade é que ventou como os diabos, chega choveu um pouco, mas não o suficiente para matar minha saudade das tempestades tropicais.
Não chega a ser exatamente o conto chinês, mas ainda assim.