No fim-de-semana passado, eu fui entrevistada. Nada que vá aparecer um dia num programa de televisão, só uma conversa com uma pessoa que me fazia perguntas específicas - material para um trabalho para ela; disposição de conversar para mim. Além do fato de eu poder simplesmente falar sobre mim mesma durante uma hora sem me sentir egoísta ou egocêntrica, só exercendo meu egocentrismo de maneira velada, enquanto empolgadamente respondia às perguntas.
Hoje, acho que pela terceira vez nas últimas semanas, me deram parabéns adiantado pelo meu aniversário. Tenho tido de mostrar minha identidade bastante por aí. E as pessoas de fato olham, fazem as contas, vêem que está chegando e dizem "feliz aniversário adiantado". Eu agradeço e conto para todo mundo, para as outras pessoas que não precisam ver minha identidade, que meu aniversário vem aí.
Essa noite, fui ler meu horóscopo, porque leio mesmo quando ele chega no meu e-mail, e fiz uma dessas mini-previsões da revolução solar. Sou mão-de-vaca e não vou pagar quarenta reals num mapa desse, mas fiz ali a prévia gratuita. E não dá pra entender nada, como não dá para entender nada da versão completa e nem da vida, afinal de contas, que é tanto uma viagem sem mapa. E sem destino? Só fim a gente sabe que tem, inevitável e talvez terrível.
Pois eu senti, como venho sentido, essa vontade enorme de ouvir falar sobre mim. Ler sobre mim, falar sobre mim e de repente isso vem acontecendo há vinte e tantos anos, ou de repente está mais exacerbado agora.
Nunca fui muito de ligar para aniversário, nem de ficar chateada por esquecerem, mas acho que fui construindo na minha cabeça que esse era diferente, pelo próprio número e o retorno de saturno e ser o último dos vinte, e primo, e fui achando que ele é mais importante do que os outros. Mas essa noite, lendo ali o horóscopo, comecei a perceber que daqui a pouco ele vai chegar, passar, o mundo vai continuar a girar e eu vou ter de encontrar outra coisa para esperar. Ou ansiar. Ou me preocupar.
Mas eu realmente não queria que passasse em branco. Queria que alguma coisa acontecesse, que alguma resposta chegasse, que a luz se fizesse, que eu entendesse e o mundo amanhecesse outro na segunda-feira de carnaval. Que eu me transformasse em outra, ainda permanecendo a mesma. Tenho tanto percebido como estou chegando àquele lugar em que não quero ser ninguém mais além de mim, em que posso ser feliz sendo quem sou e só, mas isso não me impede de querer ser eu de todas as maneiras e em todas as versões possíveis.
Não sei, meu velho amigo, mas não queria que passasse em branco. Sei que depende apenas de mim jogar as cores, mas só agora comecei a pensar em como fazê-lo e talvez seja meio tarde. Talvez dê apenas tempo de mudar o resto da minha vida, depois de domingo e para sempre.
Mudar o quê, não sei exatamente, mas tenho a impressão de que é preciso, antes de seguir adiante, lembrar.
E perguntar, abismado: como pode a gente esquecer?
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