Tava aqui cantarolando a música do Gil, repetindo à exaustão um verso, como normalmente acontece quando uma música gruda na nossa cabeça.
"A Bahia já me deu régua e compasso".
Eu cantava, adolescente, tão embevecida esse verso, em específico, pensando "pô, é mesmo, né? Na vida a gente não precisa mais que régua e compasso pra ir em frente", numas hippie-lesado ou Luciano-Huck-insuportável "saúde-é-que-importa-o-resto-a-gente-corre-atrás".
Aí numa onda autodepreciativa - como sempre, mas eu tenho um quê por essa coisa mau humorada e já dizia a Fernanda Young, ou um de seus personagens, que pessoas de bom senso não podem ter boa auto estima - eu pensava: "porra, mas que régua e compasso, eu tenho mais é um toquinho torto e um lápis preso numa cordinha - sabem como é, que a gente aprende a fazer na escola pra desenhar um círculo toscão? -, precisava mais era de um astrolábio - instrumento que eu não faço idéia de como é nem como funciona, pra que serve também me é um tanto quanto nebuloso, acho que no fundo ninguém sabe mas todo mundo finge pra deixar o professor de história pesudo-contente - de bússola, gps (com manual de instruções e personal-ensinador-de-gps, como tem agora pra celular hightech, embutidos). E de repente nascer de novo pra ver se incorporo de série um senso básico de direção, conseguindo então fazer alguma idéia de como achar pontos cardeais e o que fazer com eles, se tenho a sorte de me cair um mapa nas mãos e, caindo, portanto, saber o que diabos fazer com ele."
Páginas
quinta-feira, 31 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Inspiração
Porque ela não me sai da cabeça. E pra gente saber.
Que há mulheres que se pintam de caulim na Costa do Marfim para o deus louvar.
Eu também me pinto para o luar, em mim, a prata derramar.
Oh, musa da inspiração!
Caia sobre mim este céu sem fim.
Que há mulheres que se pintam de caulim na Costa do Marfim para o deus louvar.
Eu também me pinto para o luar, em mim, a prata derramar.
Oh, musa da inspiração!
Caia sobre mim este céu sem fim.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Epifania
Terminei, na última madrugada, o Proust. A última página é incrível, como toda metade do último livro. Fico pensando se, quando eu for reler, serei capaz de reter essa coisa que ele deixa, no final, que acho que faz uma puta diferença saber ao começar a ler. Sim, eu recomendo. E, além de ser bom, é um excelente livro para releitura, exatamente por isso, ir crescendo e, no final, depois de chegar nas revelações, parece que as coisas se fundem, começo e fim, fim e começo e, afinal, talvez ele não tenha final.
Não sei em que momento, entre o ir me deitar e o dormir, tive uma epifania. Antes de tudo isso, revisitei alguns lugares, eu gosto de me ler, talvez não puramente por vaidade, mas porque eu consigo, comigo, recuperar coisas que eu vivi, senti e pensei; além da conexão ser direta, simples, essas coisas ficaram marcadas, registradas, se bem ou mal ou poderia ser melhor não importa, porque elas estão ali, para sempre, me dizendo do que fui e foi. Mas então, o momento: eu pensei (à Cebolinha, com seus planos infalíveis) que há uma chance deu poder reler Cem anos de solidão. Lendo, oras bolas, em espanhol! Será que não é, então, um novo livro? Pode ser que não, mas a idéia me consola. E eu vou alimentá-la carinhosamente, mantê-la aquecida por um bom tempo, aprender a língua, com paciência e, um dia, tentar ler em espanhol, daqui a muitos anos porque não se desperdiça uma possível última chance com ansiedade e precipitação. Eu pensei nisso e pensei hoje.
Depois eu dormi e sonhei que aquela mulher Brasil reformava um flat em que moravam três caras. O apartamento era bacanérrimo e a área social do prédio também. No entanto, permanece a questão do porquê a merda do meu inconsciente não acha que eu posso voar.
Não sei em que momento, entre o ir me deitar e o dormir, tive uma epifania. Antes de tudo isso, revisitei alguns lugares, eu gosto de me ler, talvez não puramente por vaidade, mas porque eu consigo, comigo, recuperar coisas que eu vivi, senti e pensei; além da conexão ser direta, simples, essas coisas ficaram marcadas, registradas, se bem ou mal ou poderia ser melhor não importa, porque elas estão ali, para sempre, me dizendo do que fui e foi. Mas então, o momento: eu pensei (à Cebolinha, com seus planos infalíveis) que há uma chance deu poder reler Cem anos de solidão. Lendo, oras bolas, em espanhol! Será que não é, então, um novo livro? Pode ser que não, mas a idéia me consola. E eu vou alimentá-la carinhosamente, mantê-la aquecida por um bom tempo, aprender a língua, com paciência e, um dia, tentar ler em espanhol, daqui a muitos anos porque não se desperdiça uma possível última chance com ansiedade e precipitação. Eu pensei nisso e pensei hoje.
Depois eu dormi e sonhei que aquela mulher Brasil reformava um flat em que moravam três caras. O apartamento era bacanérrimo e a área social do prédio também. No entanto, permanece a questão do porquê a merda do meu inconsciente não acha que eu posso voar.
Teoria
Terceiro ano de faculdade. Talvez segundo. Era um curso desses de nos deixar de cabeça fervendo. Minha irmã, carro azul, ao lado da cantina, garoando, eu entro e falo que estou com dor de cabeça. Era fim de tarde.
Eu que não sei nada de mim.
Um esforço fenomenal para aceitar o limite. No curso. Sempre pontas soltas, não importa a sua genialidade ou dedicação. Eis uma certeza, única.
Não sei aonde me levou essa estrada, mas eu comecei, com uma dor de cabeça, e até hoje sigo. Sempre. Não importa.
Mas eu não entendo por que continuo perguntando "por quê?".
Espero o curso que me traga dor de cabeça e a compreensão de que sempre. Não importa.
Eu que não sei nada de mim.
Um esforço fenomenal para aceitar o limite. No curso. Sempre pontas soltas, não importa a sua genialidade ou dedicação. Eis uma certeza, única.
Não sei aonde me levou essa estrada, mas eu comecei, com uma dor de cabeça, e até hoje sigo. Sempre. Não importa.
Mas eu não entendo por que continuo perguntando "por quê?".
Espero o curso que me traga dor de cabeça e a compreensão de que sempre. Não importa.
Parfum
Claro que eu devia estar estudando, mas, como efeito da concentração negativa, fui foi ver um filme. O Perfume. Me deixou num estado absolutamente estranho, não sei se em leveza ou peso. Como cheio e vazio; enquanto me preparava para escrever esse texto pensei "insustentável leveza do ser".
Isso da vida e das coisas que ela ensina. Será possível simplesmente saber, por ao menos um segundo? Menos, um centésimo, em que se sabe o indizível. Ou que se sabe um centésimo.
Eu já, por um segundo, não temi a morte.
Uma vez eu fiz um pacto. Quando ele se cumpriu eu, imbecil, porque tenho - alguma - palavra, cumpri, por minha vez, a minha parte.
Eu sinto já não sei o que e não sei por quem.
Isso que a vida ensina, a gente tem que fazer prova pra saber se aprendeu?
Isso da vida e das coisas que ela ensina. Será possível simplesmente saber, por ao menos um segundo? Menos, um centésimo, em que se sabe o indizível. Ou que se sabe um centésimo.
Eu já, por um segundo, não temi a morte.
Uma vez eu fiz um pacto. Quando ele se cumpriu eu, imbecil, porque tenho - alguma - palavra, cumpri, por minha vez, a minha parte.
Eu sinto já não sei o que e não sei por quem.
Isso que a vida ensina, a gente tem que fazer prova pra saber se aprendeu?
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Pachorra
Tarde de inverno, nubladinha, eu ainda sem conseguir trabalhar, concentração negativa, umidade do ar mais elevada. Venho ver, inocentemente, meus e-mails e, voando através do monitor, enquanto eu espero distraída que a página seja carregada, olhando para o lado, para a televisão talvez, vem, voando através do monitor, um carimbo como o que acabei de ver, na sala, em que sujei minha mão de tinta, vem um carimbo e me carimba na testa: "imbecil!". Assim, sem nem a consideração de colocar em maiúscula, dizer meu nome, pra eu me sentir, ao menos, uma imbecil única, diferente de todos os outros imbecis do mundo.
Um grande amigo, há muito anos, antes de ser um grande amigo, sendo só dessas paixões nascentes, para me provocar, me chamava de Ms. Right. Lembro da cena e da voz e da luz, ali, na escada, indo para o estacionamento, anoitecia.
Já dizem eles, que hoje, sendo bons, me decepcionaram: "no good deed goes inpunished".
Veja e aprenda, Maíra, veja e aprenda.
Um grande amigo, há muito anos, antes de ser um grande amigo, sendo só dessas paixões nascentes, para me provocar, me chamava de Ms. Right. Lembro da cena e da voz e da luz, ali, na escada, indo para o estacionamento, anoitecia.
Já dizem eles, que hoje, sendo bons, me decepcionaram: "no good deed goes inpunished".
Veja e aprenda, Maíra, veja e aprenda.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
A próxima
Há pouco, falando com a Deborah, sei lá por que ela falou do Rogério. Sorte que ela foi logo explicando, "de Ouro Preto", então não deu tempo antes do branco se estabelecer para depois a lembrança ressurgir, com aquela intensidade de doer.
Depois de muito caçar na internet, não encontrei o disco do Baden Powell que, afinal, encontrei nos escombros do computador.
Baden.
A luz de Ouro Preto.
A comida.
O vinho.
A música.
Baden.
Aquela saudade e saber que não adianta, o tempo não para nem volta. Aquilo foi ali, naquele momento.
Ainda na viagem anterior, ficamos com vontade de entrar num restaurante com música ao vivo, mas não deu, sei lá por quais motivos, mas dessa entramos e nos apaixonamos. O Rogério foi quem tocou pra gente, assumiu o violão e o cara é um músico fantástico. Tocou muito Baden, ficamos mais ou menos amigos, nos encontramos outras vezes durante a nossa estadia.
Vêm saudade e nostalgia, agora, ouvindo, lembrando da luz. E o tempo não volta, isso pode ser uma verdade tão dolorosa, como corte de papel no dedo, é superficial mas arde muito. Às vezes a gente é só um dedo.
Foste o que tinha de ser?
Na segunda viagem a Ouro Preto.
Engraçado que eu vivo dizendo isso, olhando para trás, na minha vida, acho que todas as coisas bacanas que me aconteceram, aconteceram na segunda vez, com a segunda opção. Escola, vestibular, mestrado, correção, até amigos. Até Ouro Preto.
O que tinha de ser?
Nunca é, né? A gente pode até aceitar que foste, mas nunca o que tinha de ser e, indo, já não importa. O passado pode ser imperativo. Foste.
Chão de estrelas.
Depois de muito caçar na internet, não encontrei o disco do Baden Powell que, afinal, encontrei nos escombros do computador.
Baden.
A luz de Ouro Preto.
A comida.
O vinho.
A música.
Baden.
Aquela saudade e saber que não adianta, o tempo não para nem volta. Aquilo foi ali, naquele momento.
Ainda na viagem anterior, ficamos com vontade de entrar num restaurante com música ao vivo, mas não deu, sei lá por quais motivos, mas dessa entramos e nos apaixonamos. O Rogério foi quem tocou pra gente, assumiu o violão e o cara é um músico fantástico. Tocou muito Baden, ficamos mais ou menos amigos, nos encontramos outras vezes durante a nossa estadia.
Vêm saudade e nostalgia, agora, ouvindo, lembrando da luz. E o tempo não volta, isso pode ser uma verdade tão dolorosa, como corte de papel no dedo, é superficial mas arde muito. Às vezes a gente é só um dedo.
Foste o que tinha de ser?
Na segunda viagem a Ouro Preto.
Engraçado que eu vivo dizendo isso, olhando para trás, na minha vida, acho que todas as coisas bacanas que me aconteceram, aconteceram na segunda vez, com a segunda opção. Escola, vestibular, mestrado, correção, até amigos. Até Ouro Preto.
O que tinha de ser?
Nunca é, né? A gente pode até aceitar que foste, mas nunca o que tinha de ser e, indo, já não importa. O passado pode ser imperativo. Foste.
Chão de estrelas.
In the air
A gente é muito besta.
Eu assistia à primeira fase da liga mundial de vôlei, Brasil e Sérvia, no terceiro set o juiz roubou o time sérvio e eu comecei a torcer por eles, pra reverterem o resultado, porque o que é justo é justo. Eles viraram e venceram o jogo, eu até ficaria chateadinha, mas era primeira fase do campeonato e isso não afetava a permanência do Brasil na competição.
Eu adoro vôlei. Minha mãe também.
A coisa é que nós duas sempre ficamos tristes no final de cada jogo, porque sentimos alguma pena do time adversário, que sempre angaria alguma - ou muita- simpatia de nossos bondosos corações.
Nesse jogo em particular, eu me lembrava vagamente - com a memória de elefante que me é característica - da estrela do time sérvio. Miljkovic. O cara é lindo e quadrado. Ombros largos muito largos.
É tão estúpido isso, mas às vezes a gente não simplesmente se apaixona por pessoas ou coisas que acontecem ou aparecem na nossa vida, assim, sem maior motivo, sem maior profundidade, mas, pegos de surpresa, caímos nessa rede que, diferente de paixões mais sérias, não prende nem machuca?
Aí, nesse jogo, eis que o Miljkovic vai pro banco e entra um outro jogador, novinho, também mega fofo, mas ele volta, em determinado momento, a Sérvia faz um ponto e ele é quem vai sacar, aí na hora da comemoração, que os caras se abraçam no meio da quadra, ele dá um puta sorriso, desses que vêm mesmo do fundo, satisfeito, completo, e vai sacar. Não sei, achei bonito e me apaixonei.
Hoje, dda que sou, assisti a outro jogo da seleção e uma hora o narrador me solta uma dessas: o Miljkovic gosta de música dance, dos anos 70. Lembrei na hora de um post secret dessa semana, uma pessoa dizendo "I fear that my unnatural affinity for Abba will prevent me for ever fiding a man". De novo, fiquei rindo sozinha.
Pra completar, ele deu de cara no poste, aquele que segura a rede.
Só porque é muito legal quando essas coisinhas conseguem nos trazer uma felicidadezinha assim, que dura um sorriso.
Eu queria também falar do Baden e do Calabouço e das saudades, mas fica pra próxima.
Eu assistia à primeira fase da liga mundial de vôlei, Brasil e Sérvia, no terceiro set o juiz roubou o time sérvio e eu comecei a torcer por eles, pra reverterem o resultado, porque o que é justo é justo. Eles viraram e venceram o jogo, eu até ficaria chateadinha, mas era primeira fase do campeonato e isso não afetava a permanência do Brasil na competição.
Eu adoro vôlei. Minha mãe também.
A coisa é que nós duas sempre ficamos tristes no final de cada jogo, porque sentimos alguma pena do time adversário, que sempre angaria alguma - ou muita- simpatia de nossos bondosos corações.
Nesse jogo em particular, eu me lembrava vagamente - com a memória de elefante que me é característica - da estrela do time sérvio. Miljkovic. O cara é lindo e quadrado. Ombros largos muito largos.
É tão estúpido isso, mas às vezes a gente não simplesmente se apaixona por pessoas ou coisas que acontecem ou aparecem na nossa vida, assim, sem maior motivo, sem maior profundidade, mas, pegos de surpresa, caímos nessa rede que, diferente de paixões mais sérias, não prende nem machuca?
Aí, nesse jogo, eis que o Miljkovic vai pro banco e entra um outro jogador, novinho, também mega fofo, mas ele volta, em determinado momento, a Sérvia faz um ponto e ele é quem vai sacar, aí na hora da comemoração, que os caras se abraçam no meio da quadra, ele dá um puta sorriso, desses que vêm mesmo do fundo, satisfeito, completo, e vai sacar. Não sei, achei bonito e me apaixonei.
Hoje, dda que sou, assisti a outro jogo da seleção e uma hora o narrador me solta uma dessas: o Miljkovic gosta de música dance, dos anos 70. Lembrei na hora de um post secret dessa semana, uma pessoa dizendo "I fear that my unnatural affinity for Abba will prevent me for ever fiding a man". De novo, fiquei rindo sozinha.
Pra completar, ele deu de cara no poste, aquele que segura a rede.
Só porque é muito legal quando essas coisinhas conseguem nos trazer uma felicidadezinha assim, que dura um sorriso.
Eu queria também falar do Baden e do Calabouço e das saudades, mas fica pra próxima.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Branco
Todas as vezes que eu resolvo escrever qualquer coisa tenho que começar com um mea culpa. Certamente Freud explica, mas é fato e contra fatos não há argumentos.
O de hoje é sobre os clichês. Não sobre a... clichezice deles, mas sobre como eles são verdadeiros, apesar dela. E o clichê da vez é a liberdade.
Todo mundo vive falando em liberdade isso, aquilo, é direito, tem que ser assim ou assado, mas eu agora me pego pensando nas vezes em que vi/ouvi/li alguém sendo, verdadeiramente livre. Não absolutamente, porque eu passei da fase - ou ela saiu de férias - dos absolutos, mas assim, um momento que seja de total liberdade. Sem amarras, portanto feliz, leve.
Eu hoje, mais cedo, pensava que eu preciso - atenção, o verbo está colocado corretamente - chorar, digamos, ao menos uma vez a cada duas semanas. Hoje, mais cedo, eu pensava: ih, faz tempo que eu não choro, acho que tá na hora. Porque senão fica que nem açude em época de cheia, uma hora tem que sangrar. Aí vai, sangra e fica tudo bem. Atingir o limite e transbordar. No meu caso, como eu concluí há pouco que sou uma pessoa melancólica, não preciso ter os motivos mais fortes para abrir o berreiro - já que os travessões estão em alta, vale dizer que eu não abro berreiro, mas choro em silêncio. É só que eu preciso chorar a cada duas semanas, no máximo.
Hoje, mais cedo, eu sentia uma tristeza, cuja principal razão de ser, a meu ver, era a necessidade de chorar. Por tudo e nada, e o mundo e o vácuo.
Mas eis que acontece o quê? Venho eu, de novo, no carro, mudando as estações de rádio e sou acometida por liberdade. Eu como historiadora ouso dizer que a ausência de história às vezes é crucial, necessária, imprescindível. Ouço rádio e toca "loosing my religion" e eu posso cantar, com direito a caretas expressivas e tapinhas no peito, sem me recordar de nada, nenhuma conversa, nenhuma audição conjunta, nenhuma referência, só eu e a música e ela dizendo o que eu quero dizer. É nesse ponto que acaba a tristeza e dá pra ser feliz, assim em dose homeopática, mas ainda assim feliz.
Liberdade pode ser tanta coisa, né? Tão diferente para cada pessoa, em cada lugar e em cada momento, mas pra mim, hoje, é só um vazio, como o caderno que eu ouvia o Chico cantar ontem, ou anteontem.
O de hoje é sobre os clichês. Não sobre a... clichezice deles, mas sobre como eles são verdadeiros, apesar dela. E o clichê da vez é a liberdade.
Todo mundo vive falando em liberdade isso, aquilo, é direito, tem que ser assim ou assado, mas eu agora me pego pensando nas vezes em que vi/ouvi/li alguém sendo, verdadeiramente livre. Não absolutamente, porque eu passei da fase - ou ela saiu de férias - dos absolutos, mas assim, um momento que seja de total liberdade. Sem amarras, portanto feliz, leve.
Eu hoje, mais cedo, pensava que eu preciso - atenção, o verbo está colocado corretamente - chorar, digamos, ao menos uma vez a cada duas semanas. Hoje, mais cedo, eu pensava: ih, faz tempo que eu não choro, acho que tá na hora. Porque senão fica que nem açude em época de cheia, uma hora tem que sangrar. Aí vai, sangra e fica tudo bem. Atingir o limite e transbordar. No meu caso, como eu concluí há pouco que sou uma pessoa melancólica, não preciso ter os motivos mais fortes para abrir o berreiro - já que os travessões estão em alta, vale dizer que eu não abro berreiro, mas choro em silêncio. É só que eu preciso chorar a cada duas semanas, no máximo.
Hoje, mais cedo, eu sentia uma tristeza, cuja principal razão de ser, a meu ver, era a necessidade de chorar. Por tudo e nada, e o mundo e o vácuo.
Mas eis que acontece o quê? Venho eu, de novo, no carro, mudando as estações de rádio e sou acometida por liberdade. Eu como historiadora ouso dizer que a ausência de história às vezes é crucial, necessária, imprescindível. Ouço rádio e toca "loosing my religion" e eu posso cantar, com direito a caretas expressivas e tapinhas no peito, sem me recordar de nada, nenhuma conversa, nenhuma audição conjunta, nenhuma referência, só eu e a música e ela dizendo o que eu quero dizer. É nesse ponto que acaba a tristeza e dá pra ser feliz, assim em dose homeopática, mas ainda assim feliz.
Liberdade pode ser tanta coisa, né? Tão diferente para cada pessoa, em cada lugar e em cada momento, mas pra mim, hoje, é só um vazio, como o caderno que eu ouvia o Chico cantar ontem, ou anteontem.
domingo, 20 de julho de 2008
Exceção
Onde estão as palavras que me escapam
Onde estão os versos verdadeiros
Contando baixinho o sentido da vida
Onde vou para conhecer a mim mesmo
O amor insensato à humanidade
A corrida para ganhar o que se perde
O trabalho inseguro que é cansaço
Onde está o gosto bom da infância
As cores coloridas do arco-íris
A luz que ilumina um dia de verão
Onde estão as palavras que me escapam...
Do Gera, daqui.
Onde estão os versos verdadeiros
Contando baixinho o sentido da vida
Onde vou para conhecer a mim mesmo
O amor insensato à humanidade
A corrida para ganhar o que se perde
O trabalho inseguro que é cansaço
Onde está o gosto bom da infância
As cores coloridas do arco-íris
A luz que ilumina um dia de verão
Onde estão as palavras que me escapam...
Do Gera, daqui.
Querer
Diz o Gera:
"Eu queria ser Bertold Brecht
escrever poemas feios
e todo mundo achar bonito."
Eu diria que queria escrever poemas, apesar de não gostar deles.
"Eu queria ser Bertold Brecht
escrever poemas feios
e todo mundo achar bonito."
Eu diria que queria escrever poemas, apesar de não gostar deles.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Ainda uma
Só antes de dormir que eu ia começar a cantarolar e lembrei: Não é que aquela música "poema" é do Cazuza? Eu confesso que não sabia, vi na MTV, ele escreveu para a vó aos 17 anos e o Frejat foi quem musicou.
Eu acho isso muito foda, porque a música é toda linda, inclusive a voz do Ney, na minha versão favorita, mas isso já não é culpa do Cazuza.
Eu acho isso muito foda, porque a música é toda linda, inclusive a voz do Ney, na minha versão favorita, mas isso já não é culpa do Cazuza.
Saco
Fato: eu não gosto nem tenho o costume de comentar notícias. Mas como eu hoje fiquei com vontade, abri uma exceção.
Foi quando eu tava passando ao lado da tv e vi uma chamada de um cara de 28 anos que morreu baleado; tava trabalhando no Rio e rolou um tiroreio, polícia e bandido, e ele foi proteger a filha e morreu e a menina, 3 anos, ainda tomou bala na perna. Lembrei na hora do Crash e lembrei também que a gente não vive em filme, apesar daquela cena ser uma das mais maravilhosas que eu já vi. E ok, violência, absurdo, blá blá blá, mas eu não consigo deixar de me perguntar se as coisas sempre foram assim e eu que só agora comecei a acompanhar as notícias. De qualquer modo, esses últimos dias tão que tão.
Eu acho que tinha chegado a alguma conclusão a esse respeito, o mundo, mas esqueci. E no fundo é isso, não é? Tem gente vivendo e morrendo o tempo todo, só que às vezes é melhor simplesmente não pensar nisso.
Eu sou adepta e defensora da política do pensar seletivo. Também aceito que chamem isso de preguiça, mas a questão é que a coisa não tá fácil e eu ainda não tive o prazer de conhecer alguém que consegue manter a sanidade no meio desse saco de gatos se ficar o tempo todo de olho aberto.
Foi quando eu tava passando ao lado da tv e vi uma chamada de um cara de 28 anos que morreu baleado; tava trabalhando no Rio e rolou um tiroreio, polícia e bandido, e ele foi proteger a filha e morreu e a menina, 3 anos, ainda tomou bala na perna. Lembrei na hora do Crash e lembrei também que a gente não vive em filme, apesar daquela cena ser uma das mais maravilhosas que eu já vi. E ok, violência, absurdo, blá blá blá, mas eu não consigo deixar de me perguntar se as coisas sempre foram assim e eu que só agora comecei a acompanhar as notícias. De qualquer modo, esses últimos dias tão que tão.
Eu acho que tinha chegado a alguma conclusão a esse respeito, o mundo, mas esqueci. E no fundo é isso, não é? Tem gente vivendo e morrendo o tempo todo, só que às vezes é melhor simplesmente não pensar nisso.
Eu sou adepta e defensora da política do pensar seletivo. Também aceito que chamem isso de preguiça, mas a questão é que a coisa não tá fácil e eu ainda não tive o prazer de conhecer alguém que consegue manter a sanidade no meio desse saco de gatos se ficar o tempo todo de olho aberto.
Não, mesmo
Bem, caro leitor, você pode não saber que intervalo entre a criação do post anterior e sua respectiva publicação, meu computador querido resolveu travar, como tem feito desde ontem, depois de voltar do conserto, antes do qual ele não travava nunca.
Eu não tive uma mega crise de ódio profundo porque acho que já esgotei por hoje, e também porque eu tive um quê de confiança no santo blogger que salva rascunhos automatiamente, então o trabalho não foi em vão. Ok, nem tão bom trabalho assim, mas é sempre um suorzinho que escorre da nossa face.
Enquanto persistia a dúvida e o suspense - salvou? Não salvou? Salvou?! - eu pensava em escrever assim, como retalho ao post perdido: you can't always get what you want, mesmo, nem que o que você queira seja simples e lógico, como uma coisa consertada funcionando melhor do que uma... não consertada.
Entre mortos e feridos salvaram-se todos, no entanto, e eu paro de reclamar aqui antes que o bicho pegue de verdade.
Eu não tive uma mega crise de ódio profundo porque acho que já esgotei por hoje, e também porque eu tive um quê de confiança no santo blogger que salva rascunhos automatiamente, então o trabalho não foi em vão. Ok, nem tão bom trabalho assim, mas é sempre um suorzinho que escorre da nossa face.
Enquanto persistia a dúvida e o suspense - salvou? Não salvou? Salvou?! - eu pensava em escrever assim, como retalho ao post perdido: you can't always get what you want, mesmo, nem que o que você queira seja simples e lógico, como uma coisa consertada funcionando melhor do que uma... não consertada.
Entre mortos e feridos salvaram-se todos, no entanto, e eu paro de reclamar aqui antes que o bicho pegue de verdade.
You can't always get what you want
Daí que eu agora viciei no House.
Esses dias, vendo junto do meu pai, ele vira e diz: "esse cara parece o Raimundo Alves". Meu avô. Engraçado que parece, mesmo, alguma coisa no queixo e nos olhos.
O House é muito mau. Pode até ser muitas outras coisas além disso, mas ele também é muito mau.
Eu, como todo hipocondríaco, nunca que devia ver essas séries médicas, porque claro que a gente fica maluco e pensa que qualquer coisa é uma doença muito séria não diagnosticada corretamente que vai nos matar. Há umas três ou quatro semanas, eu tava com uma gripe feia e, depois que ela passou, fiquei um dia inteiro com o rosto vazando do lado direito. Sabem como é? Nariz escorrendo e olho lacrimejando nonstop. Eu tinha consulta marcada com o oftalmologista dali a dois dias e resolvi não entrar em pânico - disse o médico que isso era uma conjuntivite - mas eu tenho que confessar que achei que aquilo era líquido espinhal saindo pelo nariz (tipo um... líquido... que fica... na espinha... ou no cérebro... e que com certeza tem algum nome diferente desse, que foi o que eu guardei de algum episódio de GA) e que, enfim, eu ia morrer.
Mas a sorte do ser hipocondríaca é que eu sei que sou, portanto, sabendo da minha tendência ao drama, tenho algum controle sobre minhas reações.
Tudo isso pra dizer que eu viciei no House e que ele gosta muito dessa música.
E que, pensando bem, ela até que faz sentido. Principalmente na conclusão.
Esses dias, vendo junto do meu pai, ele vira e diz: "esse cara parece o Raimundo Alves". Meu avô. Engraçado que parece, mesmo, alguma coisa no queixo e nos olhos.
O House é muito mau. Pode até ser muitas outras coisas além disso, mas ele também é muito mau.
Eu, como todo hipocondríaco, nunca que devia ver essas séries médicas, porque claro que a gente fica maluco e pensa que qualquer coisa é uma doença muito séria não diagnosticada corretamente que vai nos matar. Há umas três ou quatro semanas, eu tava com uma gripe feia e, depois que ela passou, fiquei um dia inteiro com o rosto vazando do lado direito. Sabem como é? Nariz escorrendo e olho lacrimejando nonstop. Eu tinha consulta marcada com o oftalmologista dali a dois dias e resolvi não entrar em pânico - disse o médico que isso era uma conjuntivite - mas eu tenho que confessar que achei que aquilo era líquido espinhal saindo pelo nariz (tipo um... líquido... que fica... na espinha... ou no cérebro... e que com certeza tem algum nome diferente desse, que foi o que eu guardei de algum episódio de GA) e que, enfim, eu ia morrer.
Mas a sorte do ser hipocondríaca é que eu sei que sou, portanto, sabendo da minha tendência ao drama, tenho algum controle sobre minhas reações.
Tudo isso pra dizer que eu viciei no House e que ele gosta muito dessa música.
E que, pensando bem, ela até que faz sentido. Principalmente na conclusão.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Bittersweet
É sempre uma coisa dolorosa a gente perceber o quanto é brega. Mas, ao mesmo tempo, se a gente é, por que não assumir?
Eu sou brega, porque queria dizer o seguinte:
Eu gosto do sol de inverno.
Não sou nada garota de praia, nem verã-curtição, mas esse sol de inverno tem a capacidade de me deixar feliz. Acho que o sol sem o calor insuportável, ou a luz, eu não sei o que é, principalmente quando eu saio de carro e acontece de tocar uma música bacana no rádio.
Tem um tempo eu vi uma entrevista com um psiquiatra italiano radicado (eita, é a primeira vez ever que eu escrevo essa palavra!) no Brasil e ele contava um pouco da infância dele, ele fugiu de casa com tipo 14 anos pra ficar com uma mulher (garota? sei lá!), e contava também que, ainda na Itália, ele tinha essa coisa de às vezes ver uma família pela janela, à noite, e desejar aquilo, aquela cena de conforto e aconchego. Eu falo muito disso, tenho essa sensação principalmente na hora de dormir. Lembro sempre daquele filme com a Michelle Pfeiffer e o George Clooney, que a casa dela é mega fofa e no final a câmera sai pela janela e vai mostrando os outros apartamentos, vazios ou com pessoas ali fazendo sei lá o que elas fazem na vida.
Quando eu tava no Rio, na rua do hotel, dava pra ver num apartamento de primeiro andar uma biblioteca. Aí vem aquela sensação, tão familiar já, de que as pessoas que vivem ali têm uma vida diferente da minha, se sentem mais confortáveis ou qualquer outra coisa e, apesar de saber que isso é uma mentira ou uma ilusão, eu não consigo me impedir de sentir um estranhamento quando deito na minha cama e não é um filme ou uma janela alheia.
Mas quando é inverno e tem sol e eu estou no carro e toca uma música legal - nem precisa ser maravilhosa - eu esqueço um pouco disso tudo e pronto: tá ali um momento... de filme.
Ontem, quando eu estava no carro e com sol e inverno e música, eu me dei conta de que, definitivamente eu sou uma pessoa melancólica. Não que eu já não soubesse disso, ou que ninguém nunca tenha me dito, mas saber é diferente de saber. E, ontem, música, inverno, carro, sol, eu soube e senti, e uma tristeza alegre ou alegria triste, ou uma melancolia, chegou e eu percebi, assim, bittersweet, bom e ruim, e eu soube.
Eu não me lembro de nenhum momento da minha vida em que eu não tive uma tristeza. Angústia e aperto e ansiedade eu passo, não faço a menor questão, apesar de elas estarem constantemente ali ao lado, puxando meu cabelo. Mas ok, essa melancolia eu aceito e abraço, porque ela, de alguma maneira que eu não sei explicar, preenche.
Eu continuo pensando "ah, mas se tal coisa acontecer eu vou ser feliz!" enquanto sei que isso não é verdade, que não vai acontecer nada nem ninguém vai me salvar e que depois não existe e a gente tem que achar um jeito de ser feliz agora, mas saber é diferente de saber.
Exceto quando tem sol, carro, música e inverno.
Eu sou brega, porque queria dizer o seguinte:
Eu gosto do sol de inverno.
Não sou nada garota de praia, nem verã-curtição, mas esse sol de inverno tem a capacidade de me deixar feliz. Acho que o sol sem o calor insuportável, ou a luz, eu não sei o que é, principalmente quando eu saio de carro e acontece de tocar uma música bacana no rádio.
Tem um tempo eu vi uma entrevista com um psiquiatra italiano radicado (eita, é a primeira vez ever que eu escrevo essa palavra!) no Brasil e ele contava um pouco da infância dele, ele fugiu de casa com tipo 14 anos pra ficar com uma mulher (garota? sei lá!), e contava também que, ainda na Itália, ele tinha essa coisa de às vezes ver uma família pela janela, à noite, e desejar aquilo, aquela cena de conforto e aconchego. Eu falo muito disso, tenho essa sensação principalmente na hora de dormir. Lembro sempre daquele filme com a Michelle Pfeiffer e o George Clooney, que a casa dela é mega fofa e no final a câmera sai pela janela e vai mostrando os outros apartamentos, vazios ou com pessoas ali fazendo sei lá o que elas fazem na vida.
Quando eu tava no Rio, na rua do hotel, dava pra ver num apartamento de primeiro andar uma biblioteca. Aí vem aquela sensação, tão familiar já, de que as pessoas que vivem ali têm uma vida diferente da minha, se sentem mais confortáveis ou qualquer outra coisa e, apesar de saber que isso é uma mentira ou uma ilusão, eu não consigo me impedir de sentir um estranhamento quando deito na minha cama e não é um filme ou uma janela alheia.
Mas quando é inverno e tem sol e eu estou no carro e toca uma música legal - nem precisa ser maravilhosa - eu esqueço um pouco disso tudo e pronto: tá ali um momento... de filme.
Ontem, quando eu estava no carro e com sol e inverno e música, eu me dei conta de que, definitivamente eu sou uma pessoa melancólica. Não que eu já não soubesse disso, ou que ninguém nunca tenha me dito, mas saber é diferente de saber. E, ontem, música, inverno, carro, sol, eu soube e senti, e uma tristeza alegre ou alegria triste, ou uma melancolia, chegou e eu percebi, assim, bittersweet, bom e ruim, e eu soube.
Eu não me lembro de nenhum momento da minha vida em que eu não tive uma tristeza. Angústia e aperto e ansiedade eu passo, não faço a menor questão, apesar de elas estarem constantemente ali ao lado, puxando meu cabelo. Mas ok, essa melancolia eu aceito e abraço, porque ela, de alguma maneira que eu não sei explicar, preenche.
Eu continuo pensando "ah, mas se tal coisa acontecer eu vou ser feliz!" enquanto sei que isso não é verdade, que não vai acontecer nada nem ninguém vai me salvar e que depois não existe e a gente tem que achar um jeito de ser feliz agora, mas saber é diferente de saber.
Exceto quando tem sol, carro, música e inverno.
sábado, 12 de julho de 2008
Blablalbalbalbalblablabla
Bem, que eu sou uma pessoa irritadiça já é ponto.. pacífico ou passivo? Isso é que nem o círculo vicioso, que durante muitos anos eu achei que fosse um circo. Ou as águas de março, que eram de mar, sufechando o verão, e eu nunca entendia que diabo de verbo era sufechar. Mas, se Tom dizia, devia existir.
Enfim, claro que pensei em muitas coisas pra dizer e elas se foram, como as tais águas, não importa quais.
Sim, uma coisa que eu pensava, ainda agora, era sobre as coisas que a gente perde e acha. Eu fico muito irritada sempre que não encontro alguma coisa, sempre, aí vou perdendo a força de procurar e acabo no limbo.
Mas será que não tem coisas que a gente nem viu que perdeu ou, se viu, não liga, aí encontra e é muito legal? Tipo dinheiro em bolso de calça.
Aí o oposto disso são pessoas que colocam trilha sonora em blog. Ok, o princípio é até divertido, partilhas com as pessoas as músicas que você gosta, quem sabe apresentar algo novo a alguém, etc, mas eu não consigo não achar isso muito invasivo. Porque se eu quiser conhecer as músicas de que você gosta, sei lá, vou te perguntar, ou você escreve sobre elas; mas me deixa subindo pelas paredes eu estar aqui, no meu silêncio e ele ser repentinamente invadido pela merda que alguém resolveu arbitrariamente que eu deveria ouvir naquele instante. Ou eu estar curtindo o meu sonzinho e começar a ouvir um barulho estranho e depois ficar caçando qual das páginas abertas deixa entrar o intruso. Sei lá, acho falta de respeito.
Mas, minha pergunta favorita, que fazer?
Que nem o imbecil que joga caminhão em cima da gente na estrada, ou o infeliz que não dá seta na rua, ou tantas outras coisas que a gente não pode mudar, umas piores outras nem tanto, umas mais pessoais que outras.
Eu não posso fazer nada, aceito, mas isso não me impede de soltar uns belos palavrões no decorrer do processo.
Hoje ainda, assistindo a jogos de vôlei do Brasil, minha mãe comentava: Olha, Maíra, você já reparou que, no masculino, quando eles erram, mandam se foder, ao caralho e mais um monte, e as mulheres nada? Acho que xingar é super saudável e nada disso de não ser feminino. Se é ou não é, foda-se, é a única maneira que eu conheço de aliviar um pouco da raiva causada por essas cagadas que acontecem todos os dias.
Enfim, claro que pensei em muitas coisas pra dizer e elas se foram, como as tais águas, não importa quais.
Sim, uma coisa que eu pensava, ainda agora, era sobre as coisas que a gente perde e acha. Eu fico muito irritada sempre que não encontro alguma coisa, sempre, aí vou perdendo a força de procurar e acabo no limbo.
Mas será que não tem coisas que a gente nem viu que perdeu ou, se viu, não liga, aí encontra e é muito legal? Tipo dinheiro em bolso de calça.
Aí o oposto disso são pessoas que colocam trilha sonora em blog. Ok, o princípio é até divertido, partilhas com as pessoas as músicas que você gosta, quem sabe apresentar algo novo a alguém, etc, mas eu não consigo não achar isso muito invasivo. Porque se eu quiser conhecer as músicas de que você gosta, sei lá, vou te perguntar, ou você escreve sobre elas; mas me deixa subindo pelas paredes eu estar aqui, no meu silêncio e ele ser repentinamente invadido pela merda que alguém resolveu arbitrariamente que eu deveria ouvir naquele instante. Ou eu estar curtindo o meu sonzinho e começar a ouvir um barulho estranho e depois ficar caçando qual das páginas abertas deixa entrar o intruso. Sei lá, acho falta de respeito.
Mas, minha pergunta favorita, que fazer?
Que nem o imbecil que joga caminhão em cima da gente na estrada, ou o infeliz que não dá seta na rua, ou tantas outras coisas que a gente não pode mudar, umas piores outras nem tanto, umas mais pessoais que outras.
Eu não posso fazer nada, aceito, mas isso não me impede de soltar uns belos palavrões no decorrer do processo.
Hoje ainda, assistindo a jogos de vôlei do Brasil, minha mãe comentava: Olha, Maíra, você já reparou que, no masculino, quando eles erram, mandam se foder, ao caralho e mais um monte, e as mulheres nada? Acho que xingar é super saudável e nada disso de não ser feminino. Se é ou não é, foda-se, é a única maneira que eu conheço de aliviar um pouco da raiva causada por essas cagadas que acontecem todos os dias.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
O tempo redescoberto
Há um ditado, não, há?, que diz "Deus está nos detalhes".
É como saber qual é a língua materna de uma pessoa num momento de descontrole, em que ela não consegue acionar uma segunda ou terceira língua, por mais que as conheça, porque ela volta.
Não sei se isso é verdade, nunca passei por isso nem vi ninguém passar. Mas, na noite passada, eu pensei sobre outro detalhe revelador: não a língua em que reagimos, mas se reagimos dizendo "sensacional!", "bravo!", "estupendo!".
Ontem eu fui nadar. A piscina não é daquelas, mas, ontem, já acostumada com o ambiente, quando passei pela porta senti um cheiro tão familiar, o mesmo da escola em que eu aprendi a nadar, ou onde frequentei aulas pela primeira vez, Onodera, em frente ao Parque da Aclimação. Eu ficava na mesma turma da minha irmã, não sei por decisão de quem, e a única coisa que eu conseguia fazer direito, como os outros, ou melhor do que eles, era encostar a bunda no chão - não sei o motivo, talvez treinar ficar debaixo d'água, até hoje tem quem nos mande fazer isso. O professor (ou a professora, realmente não me recordo) estimulava umas corridas e eu sempre ficava muito pra trás, lembro bem disso. Pensando melhor, eu nem devia ser a melhor encostadora-de-bunda-no-chão, muito provavelmente os outros alunos me davam o prêmio de consolação pra eu sair me gabando, esquecendo do meu fracasso em todas as outras atividades propostas.
Então, ano passado, eu me propus uma tarefa: ler Em busca do tempo perdido, do Proust. Deu na veneta, um dia eu fui no meu sebo preferido, achei o primeiro livro e mandei ver. Era uma letra pequena numa folha quase sem margens, lembro de ler, em São Paulo, de noite, junto da minha prima, lembro de não avançar e achar difícil a linguagem. Nós duas vasculhamos, lá, diversas lojas procurando os volumes seguintes, voltei com mais dois.
Aí eu confesso minha ignorância, humildemente, e venho fazer este texto pra um dia reler e relembrar. Todo mundo fala do diabo da madeleine, porque a memória em Proust isso e aquilo. Eu vi lá, nos idos do Caminho de Swann, o diabo da descrição e mega boiei. Nem achei genial. Segui adiante. Para à sombra das raparigas em flor. Fiquei apaixonada, o livro todo colorido, rabiscado, com pedacinhos copiados distribuídos por aí. Também segui adiante, até o começo desse ano de 2008, quando, depois de muitos calços e percalços, me senti cansada, desanimada, já não entendia nem me identificava com o que lia e deixei de lado o último livro até que, essa semana, resolvi tentar de novo; achei uma pena desistir faltando tão pouco, talvez o livro crescesse em mim depois de terminado, ficasse marcado pra eu reler aos quarenta anos, idade que já ouvi dizer ser a apropriada para fazê-lo.
Até que, ontem à noite, deitada na minha cama, não "bravo!", "estupendo!" ou o diabo, soltei uma série de "caralho!" e "filho da puta!". Porque a minha língua materna é de baixo calão.
A madeleine não é aquela merda que aparece no primeiro livro. Caralho! Filho da puta!
Acompanhando um site que comenta essa obra, tantas pessoas dizendo como pouquíssimos são o que terminam a jornada, e que o final dela só é compreensível para quem a fez, um passo depois do outro. E eu ainda não terminei, mas nem sei se precisa. Eu realmente não sei como alguém tem a coragem de soltar um:
"Sim, se, graças ao esquecimento não pôde estabelecer nenhum laço, tecer malha alguma entre si e o momento presente, se ficou em seu lugar, em seu tempo, se conservou sua distância, seu isolamento no côncavo de um vale ou no cimo de uma montanha, a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar outrora respirado, o ar mais puro que os poetas tentaram em vão fazer reinar no Paraíso, e que não determinaria essa sensação profunda de renovação se já não houvesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são o que perdemos."
Os verdadeiros paraísos são os que perdemos!! Não é pra mandar se fuder? E emenda:
"Deslizei célere sobre tudo isso, mais imperiosamente solicitado como estava a procurar a causa dessa felicidade, do caráter de certeza com que se impunha, busca outrora adiada. Ora, essa causa, eu a adivinhava confrontando entre si as diversas impressões bem aventuradas, que tinham em comum a facilidade de serem sentidas simultaneamente no momento atual e no pretérito, o ruído da colher no prato, a desigualdade das pedras, o sabor da Madeleine fazendo o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois em encontrava; na verdade, o ser que em mim então gozava dessa impressão e lhe desfrutava o conteúdo extratemporal, repartido entre o dia antigo e o atual, era um ser que só surgia quando, por uma dessas identificações entre o passado e o presente, se conseguia situar no único meio onde poderia viver, gozar a essência das coisas, isto é, fora do tempo."
"Muitas vezes, no decurso da existência, a realidade me decepcionara porque, ao vislumbrá-la, minha imaginação, meu único órgão para sentir a beleza, não se lhe podia aplicar, devido à lei inevitável em virtude da qual só é possível imaginar-se o ausente."
"Era uma remota impressão, onde se misturavam reminiscências de infância e de família, e que eu não reconhecera de pronto. Indagara com raiva que estranho me vinha perturbar, e o estranho era eu mesmo, a criança que fora, logo suscitada pelo livro que só dela tomava em mim tomava conhecimento, só a ela invocava, não querendo ser visto senão por seus olhos, amado senão por seu coração, ouvido senão por seus ouvidos."
E a discussão sobre arte verdadeira, chega a gente, que não consegue parar de olhar pro próprio umbigo, se sente um lixo.
Como é boa essa sensação de fechar um ciclo. Um final, ou quase, e um propósito, entender.
Aí, depois de um ano e tal, tantas centenas de páginas, tantos raciocínios perdidos e espantos de identificação, dá pra dizer que esse livro é do caralho. Não sei que elogio é esse, se é benquisto ou não, mas ele é. Nem dá pra dizer de quando eu crescer, porque não vou. Fica a admiração e a promessa de volta.
É como saber qual é a língua materna de uma pessoa num momento de descontrole, em que ela não consegue acionar uma segunda ou terceira língua, por mais que as conheça, porque ela volta.
Não sei se isso é verdade, nunca passei por isso nem vi ninguém passar. Mas, na noite passada, eu pensei sobre outro detalhe revelador: não a língua em que reagimos, mas se reagimos dizendo "sensacional!", "bravo!", "estupendo!".
Ontem eu fui nadar. A piscina não é daquelas, mas, ontem, já acostumada com o ambiente, quando passei pela porta senti um cheiro tão familiar, o mesmo da escola em que eu aprendi a nadar, ou onde frequentei aulas pela primeira vez, Onodera, em frente ao Parque da Aclimação. Eu ficava na mesma turma da minha irmã, não sei por decisão de quem, e a única coisa que eu conseguia fazer direito, como os outros, ou melhor do que eles, era encostar a bunda no chão - não sei o motivo, talvez treinar ficar debaixo d'água, até hoje tem quem nos mande fazer isso. O professor (ou a professora, realmente não me recordo) estimulava umas corridas e eu sempre ficava muito pra trás, lembro bem disso. Pensando melhor, eu nem devia ser a melhor encostadora-de-bunda-no-chão, muito provavelmente os outros alunos me davam o prêmio de consolação pra eu sair me gabando, esquecendo do meu fracasso em todas as outras atividades propostas.
Então, ano passado, eu me propus uma tarefa: ler Em busca do tempo perdido, do Proust. Deu na veneta, um dia eu fui no meu sebo preferido, achei o primeiro livro e mandei ver. Era uma letra pequena numa folha quase sem margens, lembro de ler, em São Paulo, de noite, junto da minha prima, lembro de não avançar e achar difícil a linguagem. Nós duas vasculhamos, lá, diversas lojas procurando os volumes seguintes, voltei com mais dois.
Aí eu confesso minha ignorância, humildemente, e venho fazer este texto pra um dia reler e relembrar. Todo mundo fala do diabo da madeleine, porque a memória em Proust isso e aquilo. Eu vi lá, nos idos do Caminho de Swann, o diabo da descrição e mega boiei. Nem achei genial. Segui adiante. Para à sombra das raparigas em flor. Fiquei apaixonada, o livro todo colorido, rabiscado, com pedacinhos copiados distribuídos por aí. Também segui adiante, até o começo desse ano de 2008, quando, depois de muitos calços e percalços, me senti cansada, desanimada, já não entendia nem me identificava com o que lia e deixei de lado o último livro até que, essa semana, resolvi tentar de novo; achei uma pena desistir faltando tão pouco, talvez o livro crescesse em mim depois de terminado, ficasse marcado pra eu reler aos quarenta anos, idade que já ouvi dizer ser a apropriada para fazê-lo.
Até que, ontem à noite, deitada na minha cama, não "bravo!", "estupendo!" ou o diabo, soltei uma série de "caralho!" e "filho da puta!". Porque a minha língua materna é de baixo calão.
A madeleine não é aquela merda que aparece no primeiro livro. Caralho! Filho da puta!
Acompanhando um site que comenta essa obra, tantas pessoas dizendo como pouquíssimos são o que terminam a jornada, e que o final dela só é compreensível para quem a fez, um passo depois do outro. E eu ainda não terminei, mas nem sei se precisa. Eu realmente não sei como alguém tem a coragem de soltar um:
"Sim, se, graças ao esquecimento não pôde estabelecer nenhum laço, tecer malha alguma entre si e o momento presente, se ficou em seu lugar, em seu tempo, se conservou sua distância, seu isolamento no côncavo de um vale ou no cimo de uma montanha, a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar outrora respirado, o ar mais puro que os poetas tentaram em vão fazer reinar no Paraíso, e que não determinaria essa sensação profunda de renovação se já não houvesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são o que perdemos."
Os verdadeiros paraísos são os que perdemos!! Não é pra mandar se fuder? E emenda:
"Deslizei célere sobre tudo isso, mais imperiosamente solicitado como estava a procurar a causa dessa felicidade, do caráter de certeza com que se impunha, busca outrora adiada. Ora, essa causa, eu a adivinhava confrontando entre si as diversas impressões bem aventuradas, que tinham em comum a facilidade de serem sentidas simultaneamente no momento atual e no pretérito, o ruído da colher no prato, a desigualdade das pedras, o sabor da Madeleine fazendo o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois em encontrava; na verdade, o ser que em mim então gozava dessa impressão e lhe desfrutava o conteúdo extratemporal, repartido entre o dia antigo e o atual, era um ser que só surgia quando, por uma dessas identificações entre o passado e o presente, se conseguia situar no único meio onde poderia viver, gozar a essência das coisas, isto é, fora do tempo."
"Muitas vezes, no decurso da existência, a realidade me decepcionara porque, ao vislumbrá-la, minha imaginação, meu único órgão para sentir a beleza, não se lhe podia aplicar, devido à lei inevitável em virtude da qual só é possível imaginar-se o ausente."
"Era uma remota impressão, onde se misturavam reminiscências de infância e de família, e que eu não reconhecera de pronto. Indagara com raiva que estranho me vinha perturbar, e o estranho era eu mesmo, a criança que fora, logo suscitada pelo livro que só dela tomava em mim tomava conhecimento, só a ela invocava, não querendo ser visto senão por seus olhos, amado senão por seu coração, ouvido senão por seus ouvidos."
E a discussão sobre arte verdadeira, chega a gente, que não consegue parar de olhar pro próprio umbigo, se sente um lixo.
Como é boa essa sensação de fechar um ciclo. Um final, ou quase, e um propósito, entender.
Aí, depois de um ano e tal, tantas centenas de páginas, tantos raciocínios perdidos e espantos de identificação, dá pra dizer que esse livro é do caralho. Não sei que elogio é esse, se é benquisto ou não, mas ele é. Nem dá pra dizer de quando eu crescer, porque não vou. Fica a admiração e a promessa de volta.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Chamado
Já dizia a Morgana: cuidado com o que pede, pois pode lhe ser concedido.
Não sei de onde, dia desses, senti uma vontade incontrolável de falar "chorumelas". Assim, do nada, ia eu no carro e sem nenhum motivo razoável soltei um "não-me-venha-com-" e desde então a expressão insiste em me escapar da boca.
Com alguma satisfação, cabe dizer. Porque na vida a gente tem que aproveitar qualquer oportunidade pra ser um pouco mais feliz.
Olha, eu não sei muito bem o que dizer e a verdade é que eu acho que perdi definitivamente a mão pra essa história de blog. Dia desses, também... é, tenho que me estender sobre os pedidos.
Eu me pego, vez ou outra, pensando em como é difícil a gente deixar algumas coisas pra trás. E também tem aquela coisa da idade do ouro, ou a grama do vizinho ser mais verde, o que nos causa comichão mesmo quando o vizinho somos o nós de ontem. O fato é que eu ainda não superei o réveillon. Não é absurdo? Começamos julho, o que significa que estamos mais perto de 2009 do que de 2007, mas eu ainda não entrei nessa sintonia. E eu dizia, para quem quisesse ouvir, que, ano passado, todos os meus desejos foram atendidos. Assim, do jeito deles e não do meu, mas todos. E aí, como a gente convive com isso?
Então como o tempo não existe, alguns deles foram se desenrolar recentemente, como a vinda, finalmente, de alguma empolgação com o trabalho.
Aí tem toda essa coisa metropolitana. Cosmopolita. Houve momentos, nas últimas semanas, em que eu tive aquele desejo de escrever aqui. Um deles, vendo as crianças dançarem. Não sei exatamente por que, mas meus olhos se enchem de lágrimas. Só ali, de ver o esforço, tantas coisas que nos são tão simples, pra eles é um esforço tão tremendo. Minha sobrinha falou, esses dias, que só ela que não sabe falar, e ela só sabe falar não. Aí dá uma dor, um medo, porque o que vem aí é esse nosso mundo e muitas vezes ele é difícil e triste e cruel, e tantas coisas que a gente quer evitar. Mas não sei, aí ela vai cantar e dançar, de repente é o que todos devíamos fazer.
Uma imagem, já há coisa de duas semanas, estrada pra São Paulo, eu realmente gosto da Bandeirantes, de manhãzinha, e a neblina. O sol subindo, a neblina e as árvores, negras, e a neblina branca. Aquilo de por um instante a gente se sentir ao mesmo tempo completo e vazio.
Mas sim, eu dizia que dia desses, conversando com um cara sobre essa história de ter blog ou isso já ser ultrapassado ou ser um recurso adolescente. Eu defendia o espaço e a forma como ele é ocupado por um tanto de gente bacana que tem por aí. Eu acho que é uma forma de expressão legítima, mesmo que seja tosca. Mas não sei, já me fez tanto sentido e tanta falta, e agora nem tanto. Eu gostava, do desabafo e do exercício. Pensava, já ontem ou anteontem, em tentar escrever mais, assim pra mim, tentar contar histórias, mas a verdade é que eu não tenho histórias para contar. O que eu tenho é isso, uns flashes e eu neles, por eles ou para eles.
Fica aqui, então, uma resposta ao chamado. Porque uma das minhas mais antigas lembranças é de chegar atrasada ao colégio e torcer pra ter alguém também atrasado para entrar comigo. Porque o que vale na vida é a gente não se ferrar sozinho.
Não sei de onde, dia desses, senti uma vontade incontrolável de falar "chorumelas". Assim, do nada, ia eu no carro e sem nenhum motivo razoável soltei um "não-me-venha-com-" e desde então a expressão insiste em me escapar da boca.
Com alguma satisfação, cabe dizer. Porque na vida a gente tem que aproveitar qualquer oportunidade pra ser um pouco mais feliz.
Olha, eu não sei muito bem o que dizer e a verdade é que eu acho que perdi definitivamente a mão pra essa história de blog. Dia desses, também... é, tenho que me estender sobre os pedidos.
Eu me pego, vez ou outra, pensando em como é difícil a gente deixar algumas coisas pra trás. E também tem aquela coisa da idade do ouro, ou a grama do vizinho ser mais verde, o que nos causa comichão mesmo quando o vizinho somos o nós de ontem. O fato é que eu ainda não superei o réveillon. Não é absurdo? Começamos julho, o que significa que estamos mais perto de 2009 do que de 2007, mas eu ainda não entrei nessa sintonia. E eu dizia, para quem quisesse ouvir, que, ano passado, todos os meus desejos foram atendidos. Assim, do jeito deles e não do meu, mas todos. E aí, como a gente convive com isso?
Então como o tempo não existe, alguns deles foram se desenrolar recentemente, como a vinda, finalmente, de alguma empolgação com o trabalho.
Aí tem toda essa coisa metropolitana. Cosmopolita. Houve momentos, nas últimas semanas, em que eu tive aquele desejo de escrever aqui. Um deles, vendo as crianças dançarem. Não sei exatamente por que, mas meus olhos se enchem de lágrimas. Só ali, de ver o esforço, tantas coisas que nos são tão simples, pra eles é um esforço tão tremendo. Minha sobrinha falou, esses dias, que só ela que não sabe falar, e ela só sabe falar não. Aí dá uma dor, um medo, porque o que vem aí é esse nosso mundo e muitas vezes ele é difícil e triste e cruel, e tantas coisas que a gente quer evitar. Mas não sei, aí ela vai cantar e dançar, de repente é o que todos devíamos fazer.
Uma imagem, já há coisa de duas semanas, estrada pra São Paulo, eu realmente gosto da Bandeirantes, de manhãzinha, e a neblina. O sol subindo, a neblina e as árvores, negras, e a neblina branca. Aquilo de por um instante a gente se sentir ao mesmo tempo completo e vazio.
Mas sim, eu dizia que dia desses, conversando com um cara sobre essa história de ter blog ou isso já ser ultrapassado ou ser um recurso adolescente. Eu defendia o espaço e a forma como ele é ocupado por um tanto de gente bacana que tem por aí. Eu acho que é uma forma de expressão legítima, mesmo que seja tosca. Mas não sei, já me fez tanto sentido e tanta falta, e agora nem tanto. Eu gostava, do desabafo e do exercício. Pensava, já ontem ou anteontem, em tentar escrever mais, assim pra mim, tentar contar histórias, mas a verdade é que eu não tenho histórias para contar. O que eu tenho é isso, uns flashes e eu neles, por eles ou para eles.
Fica aqui, então, uma resposta ao chamado. Porque uma das minhas mais antigas lembranças é de chegar atrasada ao colégio e torcer pra ter alguém também atrasado para entrar comigo. Porque o que vale na vida é a gente não se ferrar sozinho.
Assinar:
Postagens (Atom)