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domingo, 29 de maio de 2011

Ainda do sifão

Então que o domingo se passou entre arrumações. Eu e a irmã , num cinco minutos bastante atípico, resolvemos limpar e organizar o cômodo por nós conhecido como "lá-atrás", mas que pode ser chamado "escritório", "salinha" ou "biblioteca". Tudo entre aspas, porque o dito-cujo não é exatamente nada disso, mas enfim. Aí que eu assumi a função de arrumar os livros - tirá-los todos das prateleiras, tirar o pó (que era muito) e organizar.
Até que os resultados foram bastante positivos - desde que montamos "a salinha" a gente nunca tinha rearrumado tudo nessa proporção; os livros que se amontoaram por anos sem ordem alguma agora estão alinhados e (relativamente) limpos. Claro que minhas costas doem, minha bunda dói e meu ombro nem sei - porque é claro que eu me pendurei num banco alto e dei um jeito de fazê-lo cair, enquanto me pendurava na prateleira. Mas entre mortos e feridos salvaram-se todos - ou quase, porque identificamos três livros ali que são absurdamente ruins e ou vão dormir no lixo, se a impaciência imperar, ou serão retransmitidos para espalhar seu mau-gosto em outras casas.
A melhor notícia de todas, porém, é que eu finalmente encontrei o meu Toda Mafalda. Que eu comprei em Florianópolis com uns 30% de desconto, na SBPC, nos idos de 2006. Né, não, Lettícia? Quando fomos a pretexto de apresentar nossos painéis de Iniciação Científica e
aproveitamos para conhecer aquelas praias bonitas da porra? E ainda mais no inverno. Eu não gosto particularmente de praia no inverno, porque tendo a ser friorenta, mas uma que nosso inverno ainda permite mergulhos, outra que acho que é a única época do ano em que aquelas praias são habitáveis. Pelo menos por mim, que detesto multidões. Aí que foi ótimo - dava pra entrar no mar até umas três da tarde, enquanto o sol ainda ia alto, e depois era o tempo de sair, tirar o sal, secar e começar o processo de encebolamento, vestindo as várias camadas de roupas para encarar a volta pra casa.
Sim, foi muito boa aquela viagem. Engraçado perceber que foi num período de intensa crise pessoal, ou talvez a véspera imediata dele, e mesmo sabendo disso dá a impressão, ao olhar pra trás, de que as coisas eram mais simples.
Mas sim, o fato era a Mafalda.
Encontrando-a, encontrei as tirinhas que quis colocar aqui há um tempo. Fiquei na dúvida sobre qual colocar, então decidir mandar ver e postar todas.
Tão boa, a Mafalda. Qualquer hora volto a ela.
Essas daí etão nas páginas 8 e 9, da edição das Martins Fontes, de 1993.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abril, 2010

Ai que estou desde ontem com a garganta querendo doer e a piração querendo começar. Parte da hipocondria e da neurose, nada de novo mas ainda assim.
E desde ontem fui pega por um desses apertos que chegam e não querem mais sair; por decisões erradas que tomei e por decisões erradas que meio que não tomei, mas também não deixei de tomar. Afe, que o erro, principalmente o meu, ainda é desafio gigantesco que se coloca na minha frente.
Nessas de tentar consertá-lo, ou só aceitá-lo, achei essa coisinha que escrevi há mais de um ano; nem sei se mandei pra alguém ou se era pra alguém ou se era praqui. Nem sei do que falava, porque conservo ainda esses dois pilares da ignorância: o texto trincado e a falta seletiva de memória. Mas achei bonito e quis colar, portanto:

"E esse mundo véi sem portera?
Tem coisas que a gente sabe tanto sem saber, né?
Ou sabe mesmo sabendo, só que não faz a menor diferença.
Como isso da solidão. Eu há muito tempo sou do partido da solidão perfeita e incorruptível, inalienável, inabalável e mais um monte de vel e véu que eu não sei mais dizer.
Há tanto e tanto tempo, o tal partido. E tanta, a solidão. Insolúvel.
E é malandra, essa, porque não tem saída; não há outro que possa espantá-la, nem nós, superá-la.
E o que podemos tentar fazer com ela depende tanto do momento. Acho que ciclos, mesmo, ou fases da vida.
Eu já tentei despejá-la e ouvi-la desmoronar num eco que eu sabia ilusório. Para me conceder acreditar, por um instante, que era mentira.
Depois nem sei, talvez tenha entrado nela, ou sido por ela atraída, como um buraco negro, e ali, nada.
Aí, semana passada, acho, eu tive um desses momentos de querer explodir. Literalmente, mesmo, como se o que eu sentisse fosse demais pra suportar e quisesse sair, sem ter por onde, portanto explodir. Desfazer-se e depois, qual esponja, refazer-se. Sem objetivo além do desafogo.
E bem agora, indo bem por esse caminho, sem ter palavras pra contar, fiquei foi pensando nisso, da solidão. E quase acho que ela nem é tão dramática assim, acho que é como é, original. E quase não dói, depois de um tempo.
Ou dói, mas é da vida."

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Baden, talvez

Eu preciso.
De uma bebida, uma música, um abraço. Talvez.
Baden?
Uma noite daquelas, em que fica no ar essa coisa do necessário, aquilo que é ou que nem tanto, talvez principalmente do que não é.
E um aperto no peito, um aperto no peito, um aperto.
Sim, Baden.
Chora comigo.
Pensei tanto, nessa semana que vai ao meio. Eu sempre penso muito, acho que como todo mundo, mas às vezes parece que têm um sentido. Os pensamentos. Que não vão a esmo, que seguem uma ordem vital, chegam a um lugar a que é preciso chegar, porque tem ali um segredo ou, melhor, uma lição. E não há novidade sob o sol, há?
Pois a idéia que me era e é recorrente é que essa porra aqui só te dá uma chance. A gente até se ilude, pensando que vai ter outras ou que ainda tem tempo. A gente sempre acha que tem tempo, ainda, e isso é de uma contradição tão gritante. A gente acha que tem tempo e que o amanhã não importa. E é um ou outro. Ou nenhum. Ou é um, e a gente tem todo o tempo do mundo e vai ter todas as oportunidades necessárias para desperdiçar. Ou é outro e o amanhã não importa, portanto temos é que fazer o que há de ser feito agora.
Ou nenhum, porque o que importa, só o que importa, é fazer certo. Sabendo que é uma chance só e acabou a brincadeira; que se a gente andar torto a qualquer momento, vai cair no buraco e o buraco não tem saída. É atenção constante e ininterrupta, a lição que eu pensei aprender. É que não adianta de um centímetro enfiar a sujeira pra debaixo do tapete, nem guardar o esqueleto no armário, porque ele vai sair um dia e te pegar. O problema maior é que, hoje, a gente talvez pudesse dar uma bicuda na porra do esqueleto e ver ele desmontar. Mas se a gente esconder no armário, quando ele sair pode nos encontrar já fracos demais e então os pontapés serão impossíveis e restarão apenas lamentos.
E eu sou tão tão jovem e tão ignorante, mas só no que eu consigo pensar é que não preciso de bebida, nem de música, nem de abraço. Consigo só eu abraçar a dor, embalada por Baden, não porque seja necessário, mas porque... não sei, como se fôssemos amigos, os três. Queridos, sim, mas não necessários.
E eu consigo, ironia das ironias, me sentir viva e talvez feliz. Porque é essa a brincadeira, né? Pra isso que nós viemos.
Ai, vida que eu sinto, tão suave e delicada, tão inteira, sobra ainda algo de desafio que espera que você me arrebate.
Falta alguma coisa e não falta coisa alguma.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nature Boy

A merda do velhinho me traz lágrimas aos olhos.
Pergunto-me por quê.



E a conversinha no começo é qualquer coisa.

Se

Que seria de nós se não fosse essa palavrinha?
Tão pequena, tão simples, passa quase batido e define tanto do que somos e fazemos.
Acho que a mais básica mágica que ela nos faz é aquela besteira sem tamanho do "se (preencha como aprouver) eu vou ser feliz!". Mesmo com exclamação.
Claro que normalmente a gente tem vergonha de falar isso em voz alta, ou mesmo de pensar em baixa, mas né? Tanta coisa que a gente faz, achando que essa porra de felicidade está logo ali, ao fim de uma curva, debaixo de uma árvore e ela vai que nem o arco-íris, andando sempre pra mais longe.
É só que é tão difícil não cair na armadilha.
Eu, por exemplo, sempre me imagino estudando numa biblioteca daquelas de cenário, com as estantes de madeira mostrando os milhares de livros e a escrivaninha com abajur, e a cadeira confortável e a luz agradável, querendo só estar ali, sem me levantar a cada dois minutos para beber água ou ir ao banheiro ou tomar café ou falar com um amigo ou ficar olhando as pessoas passando sem pensar em nada. Toda a imagem romântica do lugar e, principalmente, eu nele. O engraçado é que, apesar de reconhecer o absurdo, ainda ele me inspira. E enquanto isso eu sigo no meu meio-sim-meio-não-estudo, nas bibliotecas sem mágica ou na minha casa sem mágica, parando a cada dois minutos.
E depois tem as ilusões que se perdem. Eu percebi muito claramento assistindo a um filme, do mesmo diretor do Brilho eterno de uma mente sem lembranças, que se passa em Paris. O protagonista é o Gael García Bernal e ele faz um cara que vai do México para Paris, onde mora a mãe, acho que depois que o pai morre ou assim. Sei lá, perdi o comecinho do filme e nunca mais descobri. Mas aí tem umas cenas em que ele tá dormindo, lá em Paris, e aquela história toda e ele dorme numa cama sob a janela e... eu de alguma forma já estive ali, talvez não exatamente como o rapaz do filme, mas já dormi numa cama sob a janela e já estive em Paris e me lembro do cheiro. Nem um cheiro particularmente ruim, nem particularmente bom, só um cheiro que é diferente da imagem. Então a mágica desprende e se aloja em outros lugares.
Hoje, por exemplo, ela assenta no jazz. Nem conheço nada, absolutamente nada, mas a idéia de um bar com jazz tocando, talvez uma bebida quase intocada na mesa, o resto em silêncio. E bem pode ser, ou provavelmente seja, que em podendo ir ao bar, ouvir jazz, eu fique em casa de pijama assistindo televisão. Pode ser muito que o bar de verdade não chegue aos pés desse que eu mais intuo do que visualizo. Não sei se eu seria feliz ali, mas parece que eu chego um pouco mais perto do arco-íris ao imaginar.
Mas eu sinto vontade e sabe-se lá aonde essa monstra pode nos levar.