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sábado, 16 de maio de 2015

Ode a Animals

Eu sempre digo - desconfio que sempre direi - que tenho resistência em conhecer, sou mais de reconhecer. Coisas da vida e tudo aquilo.
Aí eu há muitos anos gosto demais de Pink Floyd, que fui (re)conhecer mais velha, ali pelos 20 anos talvez. Coisas da vida e tudo isso.
E eu nunca dei bola nenhuma pro Animals. Ouvi, tenho quase certeza, na vida, mas nunca dei a menor bola, nunca me entrou, até que um dia, numa pizzaria em Chicago, comecei a ouvir um som familiar e pensei: saporra é PF!
Fui e perguntei pra garçonete - porque naquela altura eu já estava apaixonada e precisava ouvir mais e não tinha como, naquele exato momento, descobrir o álbum. A mina foi mega simpática, disse que ia descobrir e depois veio me dizer que aquilo era um pendrive de alguém do restaurante que tava tocando uma versão do Les Claypool do Animals.
Nem precisa dizer que cheguei em casa (ou no hotel, não lembro bem porque, né?, Chicago!) e fui diretaço procurar. Comecei com a versão remake, mas não demorei para cair no original e dali nunca saí.
Isso já faz alguns anos e eu sou dessas pessoas que fica anos ouvindo o mesmo disco.
É só que hoje, eu andando pela casa comecei a cantarolar um dãiom dãium e pensei: opa, Animals!
Que é um disco fodástico, mas tem ali aquela prova da existência de Deus que é o momento exato em que entra a guitarra.
Soubesse eu um milímetro de música, não passaria vexame e saberia exatamente o que significa o dãiom, mas fato é que pra mim é isso mesmo. É a guitarra que vem chegando (mesmo que ela já estivesse por ali) e é um momento sublime.
E Animals é foda demais, e Dogs part 1 é foda demais, mas o dãiom...
Apenas fazendo mais uma declaração de amor.

domingo, 10 de maio de 2015

Sem querer





Tava aqui cantarolando comigo mesma, repetidas vezes, e tive que correr a letra quase toda pra saber que música era.

Que mecanismo esse que torna lembrar e esquecer coisas assim tão mescladas.

Gostava lá, décadas atrás e sigo gostando.

E não sei, acho que esse é o momento em que estou. Só que não exatamente.

Suassuna

Diz aí: suassuna.
Não tem magia? Um lance assim voluptuoso e sedutor, som que rola da boca sem amarras, todo suave e solto.
Nem falo dele em primeira mão, mas esses dias tava assistindo a um programa que chama calada noite, só sobre isso de ser notívago e dos encantos e loucuras que só despertam com o pôr do sol. Aí rola uma trilha sonora sobre a noite e tocou essa, que conheço por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede e fazia tanto tempo que eu não ouvia.
Taí outro projeto: regravar essas músicas que há tempos não ouço, pra tocar no carro ou no celular. No computador não tenho muito saco, ao menos não agora, que ele tem sido o lugar da escrita, doída, aliviada, cansada, empolgada, mas isso. Quero um pouco de distância da máquina, ao mesmo tempo em que sei que tenho cá um vício difícil de superar.É que neles, para mim, estão as palavras e acho que essa é a maior paixão da minha vida, o sentido da minha existência.
Tão bom esse álbum, tanta música boa e essa música magistral. Tudo nela, tudo dela, todos eles são geniais nestes poucos minutos.
Sigo sem entender as referências; sigo acreditando que elas pouco importam.
Importa o resto, importa a noite e a janela assim acesa.


E é claro que a música é de Lula Queiroga. Talvez eu já tenha sabido, mas sei de novo agora e penso: claro.
E, mais uma vez e sempre: o que é esse homem? Como pode uma figura ser tão expressiva, tão ostentosa sem espalhafato, tão espalhafatosa sem esforço, exagerada sem exagero, fascinante o Ney. Aí eu penso: ok, ele está ali paramentado, nem tanto neste vídeo como em outros, mas ele se torna o centro do mundo na hora do show, é impossível desviar os olhos dele. Lembro de uma vez, na turnê do Inclassificáveis, em que eu fui assisti-lo e ele brilhava. Mas ele não tá fazendo nada, não tem dancinha coreografada nem trezentos bailarinos o abanando, nem luzes escalafobéticas nem coisas caindo do céu, nem indo pro céu, não tem nada, apenas ele que é o centro do mundo, porque não sei se há nesse mundo artista que lhe alcance.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Silencio

Chega a seca, depois de tempestade, granizo, neblina e garoa.
Chega o silêncio, depois de gritos, murmúrios, sussurros, depois do canto do vento e dos aviões e dos choros, depois do ônibus e do trem que me visita quase diariamente, dos passarinhos que cantam à janela, do liquidificador e dos latinos e da sinfonia de uivos que nunca mais será.
Chega o fim, oito anos depois, sangue - pouco - mas suor e lágrimas rechearam esse período que não foi apenas ruim, apesar de tê-lo sido muitas vezes. Foi também de descobertas e encontros e desencontros e tantas perdas, dias e noites cheios, sono e insônia, risadas e madrugadas, mas sempre alguma coisa.
Tudo aquilo que vem antes do fim. Antes do fim, tudo.
Oito anos atrás, houve silêncio, mas curto e cheio de ideias e planos; oito anos atrás a vida era qualquer coisa de diferente do que é agora.
Agora, quando talvez eu devesse saber melhor o que ela é, e quando sei melhor muita coisa, me vejo à beira desse precipício, ou diante dessa encruzilhada que não faço idéia para onde vai me levar.
E sinto cá dentro alguma coisa que não é alegria nem tristeza e, se tivesse muito de ser alguma coisa, seria mais próximo da primeira que da segunda; mas sinto cá um quê de samba, uma tristeza que balança.
O que eu chamo de melancolia, que não é só triste nem mórbida, como diz o Aurélio, ou então é uma tristeza cheia que tem de ser outra coisa, porque o que é tristeza se não vazio?
Sinto aqui um mar me chegando aos olhos e não sei bem explicar de onde ele vem.
Vem da tempestade e da garoa e dos gritos e murmúrios, vem da saudade e da gratidão, vem do que nunca foi e do que virá, vem da arte que dá cor à vida e da vida que anda sem arte.
Alguma coisa falta, mas não há buraco.
Tudo parece pleno e translúcido.
Busco alegrías, mas só me agrada o silencio. Ouço o silencio infinitamente e há magia no corpo que se contrai e só. Que sucumbe, desiste por menos de um segundo, depois segue em frente, mas naquele segundo o peso do mundo foi demais.
Tão pouco, o corpo que se contrai e nele o mundo e todos os mistérios e todas as perguntas e respostas.
Não sei se o que sinto é esperança ou apenas a certeza da existência de uma beleza insuportável, que não basta nem nada resolve, que talvez apenas eu veja e que a poucos fascina.
Talvez sinta somente uma noite de luar ou o céu estrelado que nunca vi, talvez sinta somente os trovões estremecendo céu e terra, talvez sinta a mim, sem saber quem sou.