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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Abril

Ano passado, na feira de livros da Usp, finalmente a Companhia das Letras finalmente resolveu dar as caras e, para nosso desespero, apareceu com sua coleção enlouquecedora oferecendo 50% de desconto.
Eu, pra variar, surtei e torrei os tubos, comprando coisa que até hoje não abri e, sinto informar, vez ou outra até esqueço que comprei. Só que, dessa vez, imaginando o tamanho do estrago, fiz uma lista do que ia querer, para não me perder no mar de livros e acabar soterrada.
Pois então tinha marcado lá um monte de coisas, algumas que achei, outras não - como o livro daquele cara cujo nome me foge, lavoura arcaica, mas eu não lembro se vi o filme (aliás, do caralho, com todas as maiúsculas e necessários palavrões em profusão) antes ou depois. Até pode rolar, um dia desses, um post sobre o filme, porque ando mesmo querendo rever e entrei numas de ler comentários sobre, ultimamente. Mas o lance é que não tinha lá na feira, mas tinha o abril despedaçado, de um cara cujo nome acho que nunca vou saber. Dessas palavras que você não tanto aprende a ler letra por letra, quanto reconhece como um desenho.
Pois o livro ficou perdido numa prateleira, junto de outros renegados, até que tive de remexer neles para fazer um trabalho e deparei com o abril, selecionando-o para companheiro de páscoa.
Comecei a ler e a primeira coisa que pensei foi: "erro".
Sei lá, meio esquisito e a história opressora. Me fez lembrar os demônios, o que não sei se é uma coisa boa. Mas insisti, porque tava viajando e não tinha muita opção, ou isso de dar uma chance e ver no que vai dar.
Não, ainda não sei onde vai dar, mas agora gosto mais. E sei exatamente o porquê, apesar de talvez não conseguir explicar. Tem a ver com ver uma pessoa pelo olhos de outra, olhos encantados e, por conseguinte, encantadores. Que revelam uma atração dela, mas que se transmite e se torna nossa. E aí de repente a opressão, embora ainda algo aterradora, mostra seu lado sedutor.
Pensei em falar do erro antes, depois resolvi terminar o livro primeiro, mas tenho a impressão de que ele vai me dar uma rasteira logo logo e eu vou ter de escondê-lo no freezer, então achei melhor dizer aqui que estou gostando.
Mesmo despedaçado.

PS: Terminei de ler, meio em pânico apesar de conhecer o fim, esperando o impossível apesar de sabê-lo impossível, depois meio que não consegui dormir e lutei pra enfiar o livro no esquecimento, sem saber se um dia voltarei ali, nem se é bom ou ruim. Pensei por um momento que parecia com os demônios, mas acho que não. Dostoiévski e talz, nada pessoal. A idéia que me seduzia ali em cima permanece, porém. Só não sei a que ela leva.

Faxina

Eu trabalhando na mesa da sala de jantar enquanto a sobrinha ao meu lado brinca de escolinha. Com uma lousa branca, canetas coloridas, mesa e, claro, uma aluninha.
Eu.
Morro de rir com ela me explicando alguma coisa que eu absolutamente não entendo. Um tal de imimi, ou inimi, não sei o que lá racional, ou alguma coisa assim.
Antes disso ela estava na vizinha, se matando de brincar, sem querer vir para casa, muito embora o adiantado da hora. Em um dado momento, ela tocou a campainha aqui de casa, mas de zuera. Fui atender, mas ela disse que nao queria vir ainda, que tava limpando o chão.
Até aí ok, né. Eu imaginando a zona que ela fazia na casa da mulher, pretensamente limpando.
Aí eu pergunto:
- Você e a Aninha tavam limpando, é?
- É.
- Mas tavam limpando o quê?
- O chão. A gente tava brincando de limpar com a vassoura.
Pausa. Eu ainda imaginando as duas botando a casa de pernar pro ar.
- Eu era a vassoura. - depois de fazer tal afirmação com o tom mais indiferente, vai lá ela e faz uma demonstração da brincadeira, se jogando no chão e contando como a amiga puxava ela pra lá e pra cá, limpando o chão.
Quem aguenta?

PS: Agora ela quer me vender um adesivo então começou a recitar os preços de todos da cartelinha, com números absurdos, indo de 1, 2, 4, 5 até 30 mil ou assim.
Aí ela fala:
- Esse é 20 paus - fazendo cara de quem disse alguma coisa muito esperta. Depois, com cara de malandra: - você sabe quanto é 20 paus?
O bom é que se eu comprar dois, ela me dá um desconto.
Mas só depois que a gente achar a calculadora.

PPS: Putz, sobrinha acaba de me contar que esqueceu o estojo em casa: "aí tive que contar pra minha pro e os outros tiveram que ficar me emprestando as cores".
Tão melhor emprestar as cores que os lápis, né?

terça-feira, 26 de abril de 2011

A simple kind of man

Não sei.
Estou absolutamente esgotada, nesse fim de noite de terça-feira, cansada mental e fisicamente e ainda com aquela preguiça ou resistência, velha conhecida, que me impede de me enfiar imediatamente debaixo dos cobertores - porque sim, finalmente chegam por essas paragens vestígios de frio que pedem meias, agasalhos e cobertores.
Hoje vim ouvindo Lynyrd Skynyrd e, me lembrando das poucas músicas que conheceço deles, me deparei (de novo e eternamente) com o tanto tanto de coisa que desconheço. Aí que essa é uma realidade também velha conhecida, talvez mais do que qualquer coisa é o princípio de tudo, a essência, a idéia original que molda o meu mundo. É só que acontece da gente esquecer. Ou de eu esquecer. Quando não estou pensando no assunto, quando me distraio, ou me concentro nas atividades imediatas, resolvendo o que há a ser resolvido, quando vou mesmo vivendo, em vez de ir pensando, eu esqueço.
Talvez seja isso a mais pura hipocrisia, mas eu tenho a cara-de-pau de declarar que isso meio que não é um problema pra mim. Eu não sei porra nenhuma, mesmo, e beleza. Não acho que tenho que saber. E acho que até sei bastante, considerando... será que há o que considerar? Como pode, né?, uma pessoa arrogante como eu sou conciliar isso com a percepção cristalina da própria ignorância? Porque eu tendo a achar mesmo que sei mais que os outros.
No fim do dia, a verdade mesmo é que somos todos um monte de bosta.
Mas o que eu vinha pensando, não essa tarde, mas agorinha, quando vinha dizer que não conheço Lynyrd Skynyrd (e logo seguem, sei lá, dez outras bandas de que eu só ouvi falar), é que... sabe aquela impressão que a gente tem de vez em quando de que as outras pessoas, ou algumas das outras pessoas com que cruzamos por aí, a impressão de que elas acham que sabem pra onde estão indo?A reflexão que essa impressão me provoca não é de inveja, nem de raiva de mim por ser tão perdida. Fico meio naquelas de que elas, como eu, não fazem a menor idéia. Só não saem por aí dizendo. E de boa, cada um que viva a própria vida como quiser ou puder.
O que me intriga é perceber que, supondo que essa diferença seja mesmo real... quer dizer, essas pessoas não me conhecem e, se eu não lhes disser que não faço idéia, elas podem até ficar com a impressão de que eu sei aonde estou indo. E o fato é que eu, que em tese aceito a idéia da minha falta de noção, não digo. Por n motivos, todos plenamente legítimos e compreensiveis. Um deles, e o menor, é que elas não me perguntaram. E eu tenho combatido o meu egocentrismo crônico com o hábito de contar de mim apenas o que me perguntarem. Quando não vêm questões, procuro me contentar com o silêncio. Enquanto imagino as possíveis questões e suas respostas, na privacidade da minha mente. Sei lá, de repente eu escolhi viver minha vida em insanidade.
E, sendo louca, acho graça demais na idéia de que tem gente por aí que acha que eu sei. E mais do que isso - acho que o ponto central é esse -: que é normal saber. Esperado e tudo. Meio que nada mais que a obrigação e essas merdas todas.
Pobres de nós.
Misericórdia e tudo aquilo.
Ainda se alguém me dissesse para não me preocupar, que ainda vou me encontrar.

sábado, 16 de abril de 2011

Do sifão?


Será que isso lembra alguma coisa a mais alguém, ou só a mim?
Engraçado que eu já pensei nisso essa semana, porque fui a um café e vi a garçonete servindo água com gás de um sifão.

Daqui: http://luxo.ig.com.br/maquinas/voando+sobre+a+agua/n1596844991923.html#0

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Viagem de ventania

Há já muito, muito tempo que as coisas por aqui não andavam em turbilhão. Elas ora andavam, ora corriam, às vezes paravam, mas há muito que não se revolviam. De repente eu estou mesmo ficando velha, mas acho que prefiro não. Não sei se um dia a gente chega a desacostumar de angústias e apertos e infelicidades, mas a verdade pura e simples é que é melhor viver sem elas. O problema é que não dá, né? Dá só pra apaziguar, contornar aqui e ali, fazer hora num quarto escuro, esperando passar. Viver sem é que não existe, apesar de toda vontade em contrário. Fiquei pensando sobre isso hoje, porque peguei estrada e sentia ali uma dor no peito que já não é mais minha amiga. Pensei no quanto tenho vindo aqui, talvez desde sempre, buscando e trazendo um jeito melhor de ver as coisas, em oposição a vindas anteriores em que despejava desespero; explodia em desespero porque não havia nada mais a fazer se não deixar sair. É engraçado perceber como, hoje, o desabafo sai arrancado, querendo desaparecer em silêncio, quando tantas vezes ele não conseguia calar. Fico pensando no que se perde no caminho e é tanto, tanto, não sei mesmo se ao final sobra alguma coisa. E a gente vai vivendo e deixando tudo pra trás, todos pra trás, tanto atrás que ficamos nós, partidos, meio lá, meio cá. Os sacrifícios que a gente tem que fazer. Eu por um momento pensei mesmo que tinha tido a minha cota - talvez não pra vida toda, mas ao menos praí uma década de viver sem ter que sacrificar porra nenhuma. E não dessas coisas bobas de que a gente tem que abrir mão todos os dias e que nos abandonam sem deixar vestígios. Sacrifício mesmo, que rasga as entranhas e tira o sono e invade o sonho e dói o peito. E o drama, eterno drama, que torna tudo tão pior. Ainda hoje, nesse curto-longo espaço que separa um amanhecer de outro, constatei com alguma simplicidade que os fantasmas são piores que os monstros. Quer dizer, a gente fica imaginando uma situação e pira nossa cabeça nela e quando vai ver, a diaba da situação era muito menor do que a nossa criação. Meio que como aqueles loucos navegadores que se lançaram ao mar, centenas de anos atrás, imaginando encontrar monstros enormes e cachoeiras gigantescas que levavam ao fim do mundo. Aí eles vão descobrir que nem é nada disso. Só tormentas e calmarias tão letais quanto os monstros.