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quarta-feira, 5 de agosto de 2015
sábado, 16 de maio de 2015
Ode a Animals
Eu sempre digo - desconfio que sempre direi - que tenho resistência em conhecer, sou mais de reconhecer. Coisas da vida e tudo aquilo.
Aí eu há muitos anos gosto demais de Pink Floyd, que fui (re)conhecer mais velha, ali pelos 20 anos talvez. Coisas da vida e tudo isso.
E eu nunca dei bola nenhuma pro Animals. Ouvi, tenho quase certeza, na vida, mas nunca dei a menor bola, nunca me entrou, até que um dia, numa pizzaria em Chicago, comecei a ouvir um som familiar e pensei: saporra é PF!
Fui e perguntei pra garçonete - porque naquela altura eu já estava apaixonada e precisava ouvir mais e não tinha como, naquele exato momento, descobrir o álbum. A mina foi mega simpática, disse que ia descobrir e depois veio me dizer que aquilo era um pendrive de alguém do restaurante que tava tocando uma versão do Les Claypool do Animals.
Nem precisa dizer que cheguei em casa (ou no hotel, não lembro bem porque, né?, Chicago!) e fui diretaço procurar. Comecei com a versão remake, mas não demorei para cair no original e dali nunca saí.
Isso já faz alguns anos e eu sou dessas pessoas que fica anos ouvindo o mesmo disco.
É só que hoje, eu andando pela casa comecei a cantarolar um dãiom dãium e pensei: opa, Animals!
Que é um disco fodástico, mas tem ali aquela prova da existência de Deus que é o momento exato em que entra a guitarra.
Soubesse eu um milímetro de música, não passaria vexame e saberia exatamente o que significa o dãiom, mas fato é que pra mim é isso mesmo. É a guitarra que vem chegando (mesmo que ela já estivesse por ali) e é um momento sublime.
E Animals é foda demais, e Dogs part 1 é foda demais, mas o dãiom...
Apenas fazendo mais uma declaração de amor.
Aí eu há muitos anos gosto demais de Pink Floyd, que fui (re)conhecer mais velha, ali pelos 20 anos talvez. Coisas da vida e tudo isso.
E eu nunca dei bola nenhuma pro Animals. Ouvi, tenho quase certeza, na vida, mas nunca dei a menor bola, nunca me entrou, até que um dia, numa pizzaria em Chicago, comecei a ouvir um som familiar e pensei: saporra é PF!
Fui e perguntei pra garçonete - porque naquela altura eu já estava apaixonada e precisava ouvir mais e não tinha como, naquele exato momento, descobrir o álbum. A mina foi mega simpática, disse que ia descobrir e depois veio me dizer que aquilo era um pendrive de alguém do restaurante que tava tocando uma versão do Les Claypool do Animals.
Nem precisa dizer que cheguei em casa (ou no hotel, não lembro bem porque, né?, Chicago!) e fui diretaço procurar. Comecei com a versão remake, mas não demorei para cair no original e dali nunca saí.
Isso já faz alguns anos e eu sou dessas pessoas que fica anos ouvindo o mesmo disco.
É só que hoje, eu andando pela casa comecei a cantarolar um dãiom dãium e pensei: opa, Animals!
Que é um disco fodástico, mas tem ali aquela prova da existência de Deus que é o momento exato em que entra a guitarra.
Soubesse eu um milímetro de música, não passaria vexame e saberia exatamente o que significa o dãiom, mas fato é que pra mim é isso mesmo. É a guitarra que vem chegando (mesmo que ela já estivesse por ali) e é um momento sublime.
E Animals é foda demais, e Dogs part 1 é foda demais, mas o dãiom...
Apenas fazendo mais uma declaração de amor.
domingo, 10 de maio de 2015
Sem querer
Tava aqui cantarolando comigo mesma, repetidas vezes, e tive que correr a letra quase toda pra saber que música era.
Que mecanismo esse que torna lembrar e esquecer coisas assim tão mescladas.
Gostava lá, décadas atrás e sigo gostando.
E não sei, acho que esse é o momento em que estou. Só que não exatamente.
Suassuna
Diz aí: suassuna.
Não tem magia? Um lance assim voluptuoso e sedutor, som que rola da boca sem amarras, todo suave e solto.
Nem falo dele em primeira mão, mas esses dias tava assistindo a um programa que chama calada noite, só sobre isso de ser notívago e dos encantos e loucuras que só despertam com o pôr do sol. Aí rola uma trilha sonora sobre a noite e tocou essa, que conheço por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede e fazia tanto tempo que eu não ouvia.
Taí outro projeto: regravar essas músicas que há tempos não ouço, pra tocar no carro ou no celular. No computador não tenho muito saco, ao menos não agora, que ele tem sido o lugar da escrita, doída, aliviada, cansada, empolgada, mas isso. Quero um pouco de distância da máquina, ao mesmo tempo em que sei que tenho cá um vício difícil de superar.É que neles, para mim, estão as palavras e acho que essa é a maior paixão da minha vida, o sentido da minha existência.
Tão bom esse álbum, tanta música boa e essa música magistral. Tudo nela, tudo dela, todos eles são geniais nestes poucos minutos.
Sigo sem entender as referências; sigo acreditando que elas pouco importam.
Importa o resto, importa a noite e a janela assim acesa.
E é claro que a música é de Lula Queiroga. Talvez eu já tenha sabido, mas sei de novo agora e penso: claro.
E, mais uma vez e sempre: o que é esse homem? Como pode uma figura ser tão expressiva, tão ostentosa sem espalhafato, tão espalhafatosa sem esforço, exagerada sem exagero, fascinante o Ney. Aí eu penso: ok, ele está ali paramentado, nem tanto neste vídeo como em outros, mas ele se torna o centro do mundo na hora do show, é impossível desviar os olhos dele. Lembro de uma vez, na turnê do Inclassificáveis, em que eu fui assisti-lo e ele brilhava. Mas ele não tá fazendo nada, não tem dancinha coreografada nem trezentos bailarinos o abanando, nem luzes escalafobéticas nem coisas caindo do céu, nem indo pro céu, não tem nada, apenas ele que é o centro do mundo, porque não sei se há nesse mundo artista que lhe alcance.
Não tem magia? Um lance assim voluptuoso e sedutor, som que rola da boca sem amarras, todo suave e solto.
Nem falo dele em primeira mão, mas esses dias tava assistindo a um programa que chama calada noite, só sobre isso de ser notívago e dos encantos e loucuras que só despertam com o pôr do sol. Aí rola uma trilha sonora sobre a noite e tocou essa, que conheço por Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede e fazia tanto tempo que eu não ouvia.
Taí outro projeto: regravar essas músicas que há tempos não ouço, pra tocar no carro ou no celular. No computador não tenho muito saco, ao menos não agora, que ele tem sido o lugar da escrita, doída, aliviada, cansada, empolgada, mas isso. Quero um pouco de distância da máquina, ao mesmo tempo em que sei que tenho cá um vício difícil de superar.É que neles, para mim, estão as palavras e acho que essa é a maior paixão da minha vida, o sentido da minha existência.
Tão bom esse álbum, tanta música boa e essa música magistral. Tudo nela, tudo dela, todos eles são geniais nestes poucos minutos.
Sigo sem entender as referências; sigo acreditando que elas pouco importam.
Importa o resto, importa a noite e a janela assim acesa.
E é claro que a música é de Lula Queiroga. Talvez eu já tenha sabido, mas sei de novo agora e penso: claro.
E, mais uma vez e sempre: o que é esse homem? Como pode uma figura ser tão expressiva, tão ostentosa sem espalhafato, tão espalhafatosa sem esforço, exagerada sem exagero, fascinante o Ney. Aí eu penso: ok, ele está ali paramentado, nem tanto neste vídeo como em outros, mas ele se torna o centro do mundo na hora do show, é impossível desviar os olhos dele. Lembro de uma vez, na turnê do Inclassificáveis, em que eu fui assisti-lo e ele brilhava. Mas ele não tá fazendo nada, não tem dancinha coreografada nem trezentos bailarinos o abanando, nem luzes escalafobéticas nem coisas caindo do céu, nem indo pro céu, não tem nada, apenas ele que é o centro do mundo, porque não sei se há nesse mundo artista que lhe alcance.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Silencio
Chega a seca, depois de tempestade, granizo, neblina e garoa.
Chega o silêncio, depois de gritos, murmúrios, sussurros, depois do canto do vento e dos aviões e dos choros, depois do ônibus e do trem que me visita quase diariamente, dos passarinhos que cantam à janela, do liquidificador e dos latinos e da sinfonia de uivos que nunca mais será.
Chega o fim, oito anos depois, sangue - pouco - mas suor e lágrimas rechearam esse período que não foi apenas ruim, apesar de tê-lo sido muitas vezes. Foi também de descobertas e encontros e desencontros e tantas perdas, dias e noites cheios, sono e insônia, risadas e madrugadas, mas sempre alguma coisa.
Tudo aquilo que vem antes do fim. Antes do fim, tudo.
Oito anos atrás, houve silêncio, mas curto e cheio de ideias e planos; oito anos atrás a vida era qualquer coisa de diferente do que é agora.
Agora, quando talvez eu devesse saber melhor o que ela é, e quando sei melhor muita coisa, me vejo à beira desse precipício, ou diante dessa encruzilhada que não faço idéia para onde vai me levar.
E sinto cá dentro alguma coisa que não é alegria nem tristeza e, se tivesse muito de ser alguma coisa, seria mais próximo da primeira que da segunda; mas sinto cá um quê de samba, uma tristeza que balança.
O que eu chamo de melancolia, que não é só triste nem mórbida, como diz o Aurélio, ou então é uma tristeza cheia que tem de ser outra coisa, porque o que é tristeza se não vazio?
Sinto aqui um mar me chegando aos olhos e não sei bem explicar de onde ele vem.
Vem da tempestade e da garoa e dos gritos e murmúrios, vem da saudade e da gratidão, vem do que nunca foi e do que virá, vem da arte que dá cor à vida e da vida que anda sem arte.
Alguma coisa falta, mas não há buraco.
Tudo parece pleno e translúcido.
Busco alegrías, mas só me agrada o silencio. Ouço o silencio infinitamente e há magia no corpo que se contrai e só. Que sucumbe, desiste por menos de um segundo, depois segue em frente, mas naquele segundo o peso do mundo foi demais.
Tão pouco, o corpo que se contrai e nele o mundo e todos os mistérios e todas as perguntas e respostas.
Não sei se o que sinto é esperança ou apenas a certeza da existência de uma beleza insuportável, que não basta nem nada resolve, que talvez apenas eu veja e que a poucos fascina.
Talvez sinta somente uma noite de luar ou o céu estrelado que nunca vi, talvez sinta somente os trovões estremecendo céu e terra, talvez sinta a mim, sem saber quem sou.
Chega o silêncio, depois de gritos, murmúrios, sussurros, depois do canto do vento e dos aviões e dos choros, depois do ônibus e do trem que me visita quase diariamente, dos passarinhos que cantam à janela, do liquidificador e dos latinos e da sinfonia de uivos que nunca mais será.
Chega o fim, oito anos depois, sangue - pouco - mas suor e lágrimas rechearam esse período que não foi apenas ruim, apesar de tê-lo sido muitas vezes. Foi também de descobertas e encontros e desencontros e tantas perdas, dias e noites cheios, sono e insônia, risadas e madrugadas, mas sempre alguma coisa.
Tudo aquilo que vem antes do fim. Antes do fim, tudo.
Oito anos atrás, houve silêncio, mas curto e cheio de ideias e planos; oito anos atrás a vida era qualquer coisa de diferente do que é agora.
Agora, quando talvez eu devesse saber melhor o que ela é, e quando sei melhor muita coisa, me vejo à beira desse precipício, ou diante dessa encruzilhada que não faço idéia para onde vai me levar.
E sinto cá dentro alguma coisa que não é alegria nem tristeza e, se tivesse muito de ser alguma coisa, seria mais próximo da primeira que da segunda; mas sinto cá um quê de samba, uma tristeza que balança.
O que eu chamo de melancolia, que não é só triste nem mórbida, como diz o Aurélio, ou então é uma tristeza cheia que tem de ser outra coisa, porque o que é tristeza se não vazio?
Sinto aqui um mar me chegando aos olhos e não sei bem explicar de onde ele vem.
Vem da tempestade e da garoa e dos gritos e murmúrios, vem da saudade e da gratidão, vem do que nunca foi e do que virá, vem da arte que dá cor à vida e da vida que anda sem arte.
Alguma coisa falta, mas não há buraco.
Tudo parece pleno e translúcido.
Busco alegrías, mas só me agrada o silencio. Ouço o silencio infinitamente e há magia no corpo que se contrai e só. Que sucumbe, desiste por menos de um segundo, depois segue em frente, mas naquele segundo o peso do mundo foi demais.
Tão pouco, o corpo que se contrai e nele o mundo e todos os mistérios e todas as perguntas e respostas.
Não sei se o que sinto é esperança ou apenas a certeza da existência de uma beleza insuportável, que não basta nem nada resolve, que talvez apenas eu veja e que a poucos fascina.
Talvez sinta somente uma noite de luar ou o céu estrelado que nunca vi, talvez sinta somente os trovões estremecendo céu e terra, talvez sinta a mim, sem saber quem sou.
quinta-feira, 26 de março de 2015
A vida e a arte
Há anos - anos!!! - deixei de ler o Livro do Desassossego, interminado.
Nunca deixei de pensar naquele excerto do transformar-se em si. Vez ou outra vou tentar explicá-lo a alguém, alguma outra alma perdida por aqui, fazendo todas as ressalvas de que o lance é ler o Bernardo falando e que eu, M., não sou capaz de expressar o que ele diz ali mas, nessas ironias que a vida aprecia tanto pôr à nossa frente, sigo tentando explicar.
Aí que deixei lá, o Bernardo, na solidão de uma prateleira qualquer, ou na multidão de uma prateleira qualquer, com um marca-páginas em seu âmago e milhares de páginas marcadas, dobradinhas na ponta, traçando um mapa de uma leitura que jamais voltará. Por que aquele caminho já passou e aquela pessoa que leu já não é mais, mas é ainda, né Bernardo, a mesma. Transforma-se, transmuta-se para ser tornar o que já era.
Nem nada disso importa; é só que o que eu queria vir dizer, num momento de reflexão original, provavelmente já disse à exaustão.
E quem se importa?
Eu assistia dia desses, ou daqueles, a um programa em que as apresentadoras perguntavam se elas se casariam consigo mesmas. Lembrei de uma discussão antiga - que agora as coisas todas já são muito antigas - em que eu dizia reiteradamente o quanto gostaria de tirar férias de mim mesma. Claro que eu não me casaria comigo, se já me canso de mim sendo só uma. É só que ali, naqueles tempos idos que não voltam, esse cansaço era mais. Mais cansado, mais angustiante, talvez mais vivo, enquanto hoje, sei lá, tá tudo certo.
Não é meio desesperador isso de estar tudo certo? Tudo bem, óquêi, se não deu, paciência, tudo passa, a vida passa, tudo certo.
Não acho que eu trocaria esse quê de pasmaceiras por tempestades passadas, mas também... sei lá.
Tenho sentido muito isso, que me distanciei dessa vida que se transborda em arte. Vi ali pela televisão umas pessoas cantando e foi assim quase como ler pela primeira vez Cem Anos de Solidão, quase descobrir uma coisa nova pensar: nossa, é mesmo, música. Não que eu não ouça música constantemente, no rádio do carro, da cozinha, na aula de dança; mas o fato é que tenho andado assim impaciente, mudo logo para uma estação de notícias porque o fato é que, para mim, poucas são as coisas que têm me tocado.
Aí lembro que é óbvio que estou mentindo, porque dia desses mesmo encanei com a Bethânia dizendo da coisa feita, da mandinga, da maleita. E ouvi Caymmi, aquele mesmo disco com que minha mãe me acordava há já algumas décadas, nas manhãs de domingo, em último volume. E o mar de Caymmi, que, também ele, sempre volta. E há pouco tempo ouvi aí algo do Vinícius e, ainda antes, uma parada num samba do... meu deus, como ele chama? O mega sambista de São Paulo... Adoniran! Ufa... Bem tenho dito que as palavras se me evadem. E, ao longo de tudo, Bethânia de novo, cantando do navio negreiro, primeiro à capela, aí entra ali, acho, um violão e depois um pandeiro.
Eu nova de hoje me transformo no que era e fico obcecada por ali um segundo, ou meio, numa música qualquer e repito o trecho ad infinitum.
Mas, afinal, o que era mesmo que eu vinha dizer?
Sim, vinha dizer que, revisitando o passado achei ali uma referência a Vinícius e a arte do encontro.
Pensei ali no que eu sou, que sei da arte do encontro e do Vinícius e que, mesmo estando tudo certo, ando cansada.
Assim, algo meio presa e não apenas em mim mesma. Ou tão somente em mim mesma, que afinal esta é mesmo a maior prisão.
Mas pensei nisso, e lembrei disso, e me lembrei de quando era tão grande a ânsia por dizer, de quando havia sempre mais a dizer, por vezes a gritar e, infelizmente, espernear; mas hoje está tudo certo.
Ou quase certo, afinal cá estou eu a dizer.
Dizer o que, como se percebe, também não sei exatamente.
Me dizer a mim, talvez; me dizer para mim, que voltarei um dia e pensarei que não está assim tão mau.
Ou dizer, apenas, que estou aqui, como sempre estive e estarei, porque é impossível estar em outro lugar. E, diferente do desespero que a ideia me causava há alguns anos, para o bem e para o mal, está tudo certo.
Nem é, acho, o pior lugar para se estar.
Talvez sobre aqui uma melancolia por aqueles que saíram antes do apito final.
Mas tudo bem.
Nunca deixei de pensar naquele excerto do transformar-se em si. Vez ou outra vou tentar explicá-lo a alguém, alguma outra alma perdida por aqui, fazendo todas as ressalvas de que o lance é ler o Bernardo falando e que eu, M., não sou capaz de expressar o que ele diz ali mas, nessas ironias que a vida aprecia tanto pôr à nossa frente, sigo tentando explicar.
Aí que deixei lá, o Bernardo, na solidão de uma prateleira qualquer, ou na multidão de uma prateleira qualquer, com um marca-páginas em seu âmago e milhares de páginas marcadas, dobradinhas na ponta, traçando um mapa de uma leitura que jamais voltará. Por que aquele caminho já passou e aquela pessoa que leu já não é mais, mas é ainda, né Bernardo, a mesma. Transforma-se, transmuta-se para ser tornar o que já era.
Nem nada disso importa; é só que o que eu queria vir dizer, num momento de reflexão original, provavelmente já disse à exaustão.
E quem se importa?
Eu assistia dia desses, ou daqueles, a um programa em que as apresentadoras perguntavam se elas se casariam consigo mesmas. Lembrei de uma discussão antiga - que agora as coisas todas já são muito antigas - em que eu dizia reiteradamente o quanto gostaria de tirar férias de mim mesma. Claro que eu não me casaria comigo, se já me canso de mim sendo só uma. É só que ali, naqueles tempos idos que não voltam, esse cansaço era mais. Mais cansado, mais angustiante, talvez mais vivo, enquanto hoje, sei lá, tá tudo certo.
Não é meio desesperador isso de estar tudo certo? Tudo bem, óquêi, se não deu, paciência, tudo passa, a vida passa, tudo certo.
Não acho que eu trocaria esse quê de pasmaceiras por tempestades passadas, mas também... sei lá.
Tenho sentido muito isso, que me distanciei dessa vida que se transborda em arte. Vi ali pela televisão umas pessoas cantando e foi assim quase como ler pela primeira vez Cem Anos de Solidão, quase descobrir uma coisa nova pensar: nossa, é mesmo, música. Não que eu não ouça música constantemente, no rádio do carro, da cozinha, na aula de dança; mas o fato é que tenho andado assim impaciente, mudo logo para uma estação de notícias porque o fato é que, para mim, poucas são as coisas que têm me tocado.
Aí lembro que é óbvio que estou mentindo, porque dia desses mesmo encanei com a Bethânia dizendo da coisa feita, da mandinga, da maleita. E ouvi Caymmi, aquele mesmo disco com que minha mãe me acordava há já algumas décadas, nas manhãs de domingo, em último volume. E o mar de Caymmi, que, também ele, sempre volta. E há pouco tempo ouvi aí algo do Vinícius e, ainda antes, uma parada num samba do... meu deus, como ele chama? O mega sambista de São Paulo... Adoniran! Ufa... Bem tenho dito que as palavras se me evadem. E, ao longo de tudo, Bethânia de novo, cantando do navio negreiro, primeiro à capela, aí entra ali, acho, um violão e depois um pandeiro.
Eu nova de hoje me transformo no que era e fico obcecada por ali um segundo, ou meio, numa música qualquer e repito o trecho ad infinitum.
Mas, afinal, o que era mesmo que eu vinha dizer?
Sim, vinha dizer que, revisitando o passado achei ali uma referência a Vinícius e a arte do encontro.
Pensei ali no que eu sou, que sei da arte do encontro e do Vinícius e que, mesmo estando tudo certo, ando cansada.
Assim, algo meio presa e não apenas em mim mesma. Ou tão somente em mim mesma, que afinal esta é mesmo a maior prisão.
Mas pensei nisso, e lembrei disso, e me lembrei de quando era tão grande a ânsia por dizer, de quando havia sempre mais a dizer, por vezes a gritar e, infelizmente, espernear; mas hoje está tudo certo.
Ou quase certo, afinal cá estou eu a dizer.
Dizer o que, como se percebe, também não sei exatamente.
Me dizer a mim, talvez; me dizer para mim, que voltarei um dia e pensarei que não está assim tão mau.
Ou dizer, apenas, que estou aqui, como sempre estive e estarei, porque é impossível estar em outro lugar. E, diferente do desespero que a ideia me causava há alguns anos, para o bem e para o mal, está tudo certo.
Nem é, acho, o pior lugar para se estar.
Talvez sobre aqui uma melancolia por aqueles que saíram antes do apito final.
Mas tudo bem.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Não exatamente
Nesses tempos de seca venho só registrar minha frustração.
Faz, acredito, parte do contexto todo da seca, o silêncio que aqui se estabeleceu há tanto e tanto tempo.
Mas a realidade é, talvez, ainda mais cruel.
As palavras me fogem.
Eu tento alcançá-las, mas elas ficam bem ali, no limiar entre luz e sombra e do lado escuro onde não posso vê-las, quase ao alcance, sei que estão ali, mas não consigo chegar.
Pode ser algo do hábito de lê-las em vernáculo adotado, pode ser do esquecimento total e amplo que agora chega a elas.
Mas elas fogem e a frustração é imensa e a sensação de que tudo que escrevo chega a ser quase o que eu queria dizer, mas não exatamente.
Aí eu me pergunto eu, da idiotia coletiva, qual o valor real de ser exatamente o que quis dizer, se um outro vai ler e entender a partir do léxico pessoal dele, interpretando e adotando talvez meu vernáculo, mas sem jamais se apropriar dele completamente.
Aí respondo eu que não sei e continuando a história da cobra que come o próprio rabo, talvez me interesse só a mim, que não só me escrevo como me leio.
Assisti esses dias na televisão um programa sobre o Gabo e um curso que ele deu uma vez no Brasil, não me lembro em que universidade, em que conversava com jovens escritores e a aluna, hoje publicada mas cujo nome obviamente me escapa, dizia que ele tinha um conselho, ou uma lei, ou sei lá o quê: sempre comece uma história sabendo como ela vai acabar.
E eu não sei.
Não exatamente.
Nem sei nem exatamente como começa-la, nem mediá-la, quando tudo o que tenho é a sombra que quer clarear, mas permanece breu.
Melhor então o silêncio?
Faz, acredito, parte do contexto todo da seca, o silêncio que aqui se estabeleceu há tanto e tanto tempo.
Mas a realidade é, talvez, ainda mais cruel.
As palavras me fogem.
Eu tento alcançá-las, mas elas ficam bem ali, no limiar entre luz e sombra e do lado escuro onde não posso vê-las, quase ao alcance, sei que estão ali, mas não consigo chegar.
Pode ser algo do hábito de lê-las em vernáculo adotado, pode ser do esquecimento total e amplo que agora chega a elas.
Mas elas fogem e a frustração é imensa e a sensação de que tudo que escrevo chega a ser quase o que eu queria dizer, mas não exatamente.
Aí eu me pergunto eu, da idiotia coletiva, qual o valor real de ser exatamente o que quis dizer, se um outro vai ler e entender a partir do léxico pessoal dele, interpretando e adotando talvez meu vernáculo, mas sem jamais se apropriar dele completamente.
Aí respondo eu que não sei e continuando a história da cobra que come o próprio rabo, talvez me interesse só a mim, que não só me escrevo como me leio.
Assisti esses dias na televisão um programa sobre o Gabo e um curso que ele deu uma vez no Brasil, não me lembro em que universidade, em que conversava com jovens escritores e a aluna, hoje publicada mas cujo nome obviamente me escapa, dizia que ele tinha um conselho, ou uma lei, ou sei lá o quê: sempre comece uma história sabendo como ela vai acabar.
E eu não sei.
Não exatamente.
Nem sei nem exatamente como começa-la, nem mediá-la, quando tudo o que tenho é a sombra que quer clarear, mas permanece breu.
Melhor então o silêncio?
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