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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Erro

Erro, erro, errar.
É esse o nome desse blog, mas num sentido diferente. Já teve uma idéia mais de duplo sentido, mas com o tempo foi se afastando do significado de equívoco em direção ao outro, do vagar sem destino. Claro que ambas as acepções andam não apenas de mãos dadas, mas entrelaçadas e, se possível, coladas com superbonder.
Agora, no entanto, eu percebo um erro magistral que cometi, já há alguns meses.
Fenomenal. Não sei mais qual palavra usar para descrevê-lo.
E eu sei que discordo totalmente disso, sei que acho ridículo e é looser, condenável em todos os aspectos, mas sou obrigada a me render a uma verdade terrível e inquestionável: estou sozinha.
Total e perdidamente sozinha.
E obviamente é tudo minha culpa.
Porque, vejam bem, há uns meses, sei lá o que eu tava fazendo, provavelmente vagabundeando na internet, e ouvi alguém comentar alguma coisa sobre a merda do Dexter.
Aí, em vez de estudar, fazer aulas de inglês, espanhol ou francês, em vez de começar a fazer academia, ou um regime, ou procurar pessoas para namorar na internet, ou aprender a cozinhar, ou costurar, ou consertar eletrodomésticos, em vez de fazer uma viagem de carro, de trabalhar num bar, de telefonar para os amigos, encher a cara, fazer qualquer coisa de minimamente útil, ou inútil, qualquer outra coisa, decidi começar a assistir a bosta do Dexter.
Aí vi a primeira temporada, fiquei com um certo medo e tive sonhos meio maus, mas superei.
Vi a segunda e fiquei numa baita ansiedade, mas tudo bem.
A terceira causou aqui algumas palpitações e eu sobrevivi.
A quarta. Pela primeira vez, acompanhei em tempo real; ela começou meio mais ou menos, interessante mas não tinha me causado efeitos colaterais. Parei no meio, porque tive seriamente de fazer as minhas coisas e recomecei... ontem.
Tive umas dicas, inoportunas, que indicavam que algo de muito sério ia acontecer, mas segui em frente.
Fiquei ontem à noite me entretendo assim, comecei a sentir uns calafrios mas achei em mim força de vontade pra parar de ver. Deixar os dois episódios finais para hoje.
Aí o erro.
Terminou a quarta temporada da porra do Dexter e eu estou aqui sentada nessa porcaria de sala, olhando ao meu redor com os olhos mais arregalados do mundo, sentindo um aperto incômodo no peito, assolada pelo terror do que os caras me inventaram de fazer, e não há aqui vivalma pra quem eu possa olhar com cara de "WTF?!?!". O pobre do meu primo entrou no msn e está sendo obrigado a aturar meu assombro; como válvula de escape eu tive de vir aqui escrever essa merda desse texto, porque meus olhos se esbugalham para o nada e assim não pode ser.
Tá certo que minha opinião é constante como o vento, mas ouso dizer aqui e agora: melhor série da história.
O que foi esse final de temporada?
Alguém me ajuda, pelo amor de deus?!
E eu sei que é minha máxima culpa, mas eu não sabia que ia precisar de companhia pra digerir isso.
Como eu já me fodi e não há nada a fazer, peço encaracidamente aos parcos leitores desse blog, que provavelmente têm muito mais o que fazer da vida do que ficar acompanhando o diabo do Dexter, mas se por acaso, numa tediosa tarde de domingo, vocês se pegarem tentados a fazê-lo, por favor, sigam meu conselho e não o façam sozinhos. Encontrem alguém para viciar juntos com vocês. Eu, desde quando era criança e me atrasava pra escola e ficava feliz quando via que tinha um coleguinha entrando correndo pelos portões ao mesmo tempo que eu, sei o valor da gente não se dar mal sozinho nesse mundo.
Putaqueopariu. Que que foi isso?! Não anotei nem a placa.
Fato: Dexter é do caralho!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Perigo na esquina

Tava aqui, vendo um filme com o Adam Sandler, aí ele acabou e começou um show de rock. Quando ouvi os primeiros acordes, senti aquela vontade antiga e já quase irreconhecível de ouvir Pink Floyd.
Há anos já que eles andam no armário, vez ou outra vêem à tona, como no dia em que me despedi dos meninos em Leiden, em que na alta madrugada, se bem me lembro, Daniel colocou um Dark Side. Confere, Mila? Lembro meio mal dos detalhes daquela noite.
Já nem os tenho facilmente acessíveis no computador, tenho que fazer uma busca nos arquivos. Já nem lembro direito das letras, mas isso eu nunca soube.
Confesso ter aqui algum medo de ser levada a viagens ruins.
Acho que isso, o desejo e o medo, se encaixam em outra tentação que tem brincado comigo há algus dias: reler o pior livro da minha vida.
Nem me lembrava direito dele, até que conversando com um amigo ele me lembrou de detalhes que eu tinha esquecido. Na verdade, lembro quase nada da história, só as sensações terríveis que me assolavam e oprimiam, e uma negritude que cobria tudo num verão tropical ensolarado. Acho que foi em 2005-2006. Ou 2006-2007? O livro é "Os Demônios" do Dostoiévski e eu prometi a mim mesma, depois dele, ficar um bom tempo sem voltar ao autor. Achei pior que o "Angústia" do Graciliano, que li, acho, na época do vestibular.
Pior, fique claro, no sentido de despertar sentimentos negativos. Acho que qualquer coisa capaz de despertar sentimentos tão profundos e perenes, mesmo que soturnos, é nada menos que genial.
Aí olhei ali na minha pilha de recém-adquiridos, e os há muitos, e fiquei na dúvida. Voltar ou seguir em frente? A primeira opção significa, talvez, enfrentar períodos muitos sombrios em mais um fim de ano, mas também pode ser uma oportunidade única, porque não sei se em algum outro momento vou me dispor a empreender a viagem novamente.
A segunda é a porta para novas experiências e, quem sabe?, novos amores. Tenho aqui, novinho em folha e imaculado, os "Irmãos Karamázov". Diz o Gera que é monumental e pode, talvez, curar minha ressaca proustiana.
Existem sempre outras opções, talvez mais leves que o velho russo, mas, espiando-as pela janela, não me apeteceram. Há uma semana, talvez, eu me transportasse alegremente para a Argentina contemporânea, mas perdi o trem.
Rússia, então. E meu querido século XIX.
Nesse meio tempo, chegaram as músicas que me lembram tanto um tempo que já foi e não sei bem como me fazem sentir. Não foram as arrasadoras, como Shine On, ou Echos, mas ainda assim.
Seria isso um sinal de uma melancolia que volta? Mas como pode voltar uma coisa que nunca foi?
Será que posso ter esperanças de ser salva por A Great Day for Freedom?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sul e Norte

Aí a Mercedes Sosa morreu e eu vi por aí umas manifestações, mas me abstive.
Até que um dia, no carro, tava lá no rádio um CD que eu achei que era outro e começou uma música que soou familiar e eu achei que era ela, a Mercedes, e era. E a música, que ficou eras na minha mente e no repeat, era a da Alfonsina.
Aí, ouvindo e tentando desembrulhar o espanhol que é, ainda, para mim um grande desconhecido, ou melhor, é como aquela pessoa que a gente já viu antes mas não sabe onde e fica forçando a lembrança pra localizar, percebi mais uma vez, como tem ocorrido tanto nos últimos meses, como eu gosto desse lugar.
América.
Pra mim, hoje, o lugar mais interessante do mundo.
Lembrei disso hoje e ontem, com a música do Arnaldo Antunes. Tava aqui hoje ouvindo e senti uma felicidade por ele ter feito essa música, com essa letra. Nem sou mega fã dele, apesar de achá-lo interessante, mas fiquei feliz.
E senti isso um dia, andando ouvindo a Mercedes, como um orgulho dessa terra imensa, de que faço parte, como sempre, sem fazer.
Lembrei de mim, perguntando pra minha mãe há muito e muito tempo, de onde ela achava que vinham as músicas do Caymmi. As marinhas do Caymmi, que são das coisas que mais gosto nesse mundo. Fiquei pensando se ele tinha algum dia sido pescador, ou se era só artista, e ela respondeu que achava que era só artista, mesmo. Só artista, o Caymmi.
E pescador.
Gosto demais desse pedacinho de terra que fica pro Sul. América do Sul. O Sul.
Que eu não conheço, quase não vislumbro, mas a que, de algum jeito maluco, pertenço.
Mas a gente ainda se encontra.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Inclassificar

Há anos, já, vi uma entrevista do Yamandu Costa em que ele contava que foi tocar num festival nos EUA. Chegou lá e, acho, ia tocar um blues ou sei lá, e encontrou aqueles caras que tocavam muito e pensou "meu, não vou vir aqui pra tocar blues - ou sei lá - vou tocar um Baden que esses caras vão ficar doidos".
Sei não se era assim mesmo a história, se não era alguma coisa bem parecida.
Foi-me perguntado, há pouquíssimo tempo, quem eu era. Com uma proposta um tanto mais profunda do que sou Fulana, amiga de Sicrana, estudei ali, trabalhei aqui, moro acolá e conheci esse e aquele lugares.
Pergunta difícil, né? Por um motivo muito particular, meu: tenho o - talvez mau - hábito de pensar demais em mim. Imagino que a intenção do questionador, ali, fosse despertar uma curiosidade pela própria existência que, em mim, acordou há já muito tempo. Seria essa mais uma triste demonstração da minha arrogância? Acreditar que é possível uma pessoa ser sem se perguntar o tempo todo quem é?
Eu como quero ser diferente do resto do mundo acho que, como eu faço isso, consequentemente o resto do mundo não faz, mas posso só estar sendo burra.
Quem, afinal, sou eu? Tantas e tantas coisas, todas elas, talvez. Eu sou esse corpo, que vez em quando me agrada, vez em quando não. Sou essas torrentes de pensamento que me escapam da cabeça. Sou os pés que se agitam ao som de uma música, mais ou menos adorada. Sou a voz que canta e os ouvidos que ouvem; sou também esse lugar de onde vim e vou me ajuntando também aos outros, por onde passei. Tanto e tanto. Sou, agora, e não serei, em cinco minutos.
Hoje acordei aqui com uma coisa estranha, pode ser a TPM dizendo oi, pode ser a tristeza porque um dos nossos cachorros sumiu e, todas as vezes que abro o portão, fico procurando por ele, que sempre saía à rua enlouquecido para logo voltar e ficar preso pra fora e chorar insuportavelmente até alguém acudi-lo.
Uma dorzinha que me come por dentro porque sou, agora, e não serei em cinco minutos, como todas as outras coisas que são comigo.
Cheguei aqui porque estou há dias ensaiando de escrever, porque ia repreender uma amiga pela ausência de escritos e percebi que eles por aqui também andam escassos.
Constantes, porém, meus escritos, que me permitem chegar aqui e começar a me encontrar, nos ditos e desditos de algumas linhas, nas lembranças trazidas por algumas imagens, nas palavras de alguns amigos.
Não há, afinal, resposta.

"Não tem um, tem dois.
não tem dois, tem três.
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses.

não há sol a sós".

domingo, 29 de novembro de 2009

Dos nomes vãos

Tava aqui bem ouvindo o Geraldo Azevedo e pensando.
Nem sei se pensando, acho que só estando.
Metade lutando contra o cansaço, metade curtindo a idéia do descanso.
Sempre acho um porre as pessoas dizendo que não têm muito a dizer, apesar de eu mesma fazer isso com certa frequência. Sei lá, então não diz, né não? Silêncio foi inventado por um motivo. Mas nessa vida a gente se pega tendo umas compulsões meio difíceis de controlar.
Outra musiquinha que me faz feliz, essa do Geraldo.
Tava semana passada conversando com uma amiga, ela me perguntou se eu tinha dificuldade pra escrever e eu tava respondendo que tinha um blog e, apesar de ele não ser assim tão ativo, desenvolvi o hábito de sentar e escrever, então, apesar de travar, acho que não tenho tanta.
E fui contando pra ela desse blog e do outro que eu tinha e explicar a teoria - quase esquecida - da idiotia. Engraçado voltar a pensar nessas questões, tanto tempo depois. Mais de três anos.
Estou agora muito distante das concepções que ditavam minha vida então, mas me dei conta de que, se elas se transformaram, foi pra alguma coisa muito parecida com a forma original.
Sentei dia desses numa mesa de bar com pessoas razoavelmente interessantes e, sentada ali, sentindo em mim alguma tranquilidade, consegui perceber como aquelas pessoas nunca iriam me conhecer, talvez não por ser impossível, mas porque existia ali uma barreira. Intransponível talvez, criada por mim ou por elas ou por uma abelha que passou numa tarde de verão.
Que será que nos faz ser minimamente conhecidos por alguém, ou impede o conhecimento?
Eu sentada ali, sendo, não conseguia mostrar a nenhum deles quem eu era. Quase volto no tempo e me vejo sentada, em outros bares, com outras companhias, falando quase exatamente as mesmas coisas. Que a gente vem e vai sozinho e ninguém nunca se vê, mesmo, só talvez uma manchinha no horizonte que pode ser o outro ou um leão visto de muito longe, como naquela tira da Mafalda.
Pensei isso, na mesa, e não senti uma vontade irresistível de fugir dali. Queria era ouvir as histórias que eu talvez conhecesse, se fosse outra, e dar com elas algumas risadas fugazes.
Se eu fosse outra, não ligaria a mínima pra nada disso.
Eu que sou, no entanto, fico contente de me sentar um tempo e ser desconhecida.
Eu que sou sinto vez ou outra um comichão aqui por dentro que se contenta em ser.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Das pontas

Primeiro, eu ia contar dos meninos que encontrei num pseudo-restaurante, um maiorzinho, outro menorzinho. Ia dizer do estranhamento disso de meninos, e que o maior jogava bafo e eu há milênios não via ninguém jogar bafo. Ia falar que acho engraçado que ainda penso em mim como criança, até imaginar que, vista pelos olhos delas, sou qualquer coisa menos isso. Senti aqui algum comichão de ir jogar bafo com ele e me lembrei que nunca soube jogar, não sei se por ser menina ou estabanada ou a fatal combinação dos dois. Uma pena, de qualquer modo. Ia contar desses outros que eu só vejo pela janela e nunca entendo direito.
Depois, ia falar do apagão. Do incômodo que isso de energia causa na gente; que eu comecei a ficar neurótica com a segurança da casa depois da instalação da cerca elétrica; que senti uma vontade de sentar na varanda e apreciar a escuridão, mas não deu tempo, porque eu não podia simplesmente sentar na varanda e apreciar a escuridão, em primeiro lugar, porque não tenho varanda. Vivo me questionando sobre os malefícios que essa idéia de varanda traz à minha vida. Mas aí que vi que o problema tinha sido geral e tava todo mundo falando nisso e achei foi um saco.
Depois ainda ia falar disso das segundas vezes que são uma constante na minha vida e acabam dando certo. Dessas coisas que são nossas e só nossas e nem ninguém nos tira nem a gente não dá, porque são nossas e só. E das outras que, tiradas ou dadas, não eram e não são. E, não sendo, vão.
Mas aí comecei aqui a ver historinhas de terror e percebi que vou ter problemas pra dormir. Apesar que algum controle tem habitado esse corpo, porque ontem eu fiquei vendo as cenas de criancinhas fantasmas num lago e pensei "putz, vou pensar nisso logo quando for dormir..." e não deu outra, quando cansei de (re)ler o HP e apaguei a luz comecei logo a pensar no lago e etc. Mas aí eu falei comigo mesma: "meu, não vou ficar pensando nisso" e capotei logo em seguida e acho que nem tive pesadelo. Força do pensamento e tudo mais.
Tenho minhas dúvidas sobre se isso funciona sempre ou só quando a gente tá muito cansado. Coisa que, aliás, não estava ontem, nem estou hoje, porque esta semana estou adepta dos cochilinhos vespertinos. Mas também não preciso de muito para me exaurir e dormir, que essa sempre foi uma qualidade minha.
Enfim, só deixando aqui pontas soltas que minha intuição diz que não serão jamais amarradas. Mas vai que um dia cai por aqui um tecelão.

domingo, 8 de novembro de 2009

Um dia, mais provavelmente uma noite, eu vou me encontrar e me apaixonar.

Etecap

Tava aqui ouvindo o Dr. Horrible e antecipando o momento em que vou passar a odiá-lo, depois da overdose. Tão triste, isso, né, que todas as coisas tenham de ter um fim.
Lembrei hoje do colégio em que estudei, em que os alunos tinham armários e eu dividia o meu com uma amiga, que não lembro se era a Tati ou a Ju ou ambas. Lembrei que quando era a Tati (acho) a gente ia no depósito de doces que tinha perto da escola e comprava um sacão de doce de leite, aquele de chupar, e guardava no armário, aí na hora do almoço a gente pegava um lençol amarelo e estendia debaixo de umas árvores com o doce e ficava ali morgando um pouco, antes de voltar às intermináveis aulas de química. Química de tudo que era jeito, quali, quanti, físico-, orgânica, inor, laboratórios e mais laboratórios.
Hoje, quando passei em frente a um depósito de doces, me peguei lembrando do armário e senti uma vontade não usual de voltar e tentar aproveitar mais o que tinha de bom naquela época. Estranho, porque eu não sou muito do tipo que se arrepende e, apesar de viver com eternas saudades, não sinto o desejo de voltar e passar de novo pelo que já foi. Acho que aceito um pouco demais aquela história de cada coisa em seu lugar, etc. Foi o que deu pra ser; sempre podia ter sido melhor, mas sempre podia ter sido pior. Mas senti essa saudade do armário que deve ser uma metáfora pra alguma outra coisa que, agora, não identifico. Acho que, então, eu era muito mais ativa do que sou agora, passava o dia na escola, aquele cotidiano quadradinho tão diferente do atual, em que quem manda em mim sou eu e não me sinto pronta pra essa responsabilidade. Dos lados ruins da vida na academia que é, de fato, extremamente solitária.
Mas eu era também o cúmulo do caxias e ninguém pode ser muito feliz sendo tão rígido como eu era. Eu dou risada, hoje, das coisas que fiz e disse, mas faz parte, né? Fui uma adolescente excentricamente pouco rebelde.
Tava hoje arrumando meu quarto e encontrei uma latinha que minha tia me deu, pra guardar brincos e colares ou sei lá o que, e ela fez uma pequena dedicatória a lápis, como ela costumava fazer, e a data era 99 e eu fiquei tentando calcular, estupidamente, quantos anos eu tinha então e tentando lembrar de quando ela me deu e de como eu era e já não era possível. Ai, o tempo, que feliz ou infelizmente leva tudo embora.
Tenho sentido, nos últimos dias, uma espécie de frustração, ou talvez um vazio, uma não vontade de fazer as coisas que costumo gostar de fazer e acho que, quando a gente quer muito muito uma coisa, quando a consegue vem de brinde isso. E agora, o que eu vou querer? Como se a vida fosse uma sucessão de desejos inalcançáveis, que quando a gente acha que pegou um, percebe que ele se transformou e seguiu viagem, está ali na frente e a gente tem logo que se levantar e recomeçar a busca. A eterna insatisfação.
Não gosto da idéia, nem do sentimento, porque acho que seria justo vez em quando a gente só ficar feliz por conseguir, sem começar a girar a cabeça procurando um novo objetivo.
Talvez não seja nada disso, talvez seja só o cansaço falando alto e me confundindo.
Talvez seja o Dr. Horrible começando a cansar, mas espero que não. Prefiro odiá-lo depois, não agora.
Pelo menos o calor deu uma trégua.
Mas hoje eu não me deitei embaixo de nenhuma árvore.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Touro

Ultimamente, meu sono tem sido pior do que costumava ser.
Estou um tanto sem inspiração pra literatura, o que não deixa de ser estranho. Aí as leituras noturnas são aquelas do trabalho, que não inspiram bons sonhos. Tive seriamente de parar de fazer isso uma época em que era pesadelo toda noite, galera se matando na maior.
Como alternativa, vez em quando recorro à música, o playerzinho que tem a mesma lista há séculos, de que eu às vezes canso, às vezes não.
Foi nessas que eu comecei a ouvir tudo que tinha de instrumental no aparelhinho, desde os poucos Yamandus até o Brahms que me fascinou tanto, há já tanto tempo. Engraçado como associei essa música ao Proust e já não consigo ouvir sem pensar no Vinteuil.
Brinco, mesmo, de associação livre.
Enquanto ouvia os violinos de que gosto tanto, comecei a me incomodar com os barulhos da minha mente. Meio que já sabia, mas ficou tão claro pra mim que eu não consigo me impedir de ficar o tempo todo pensando e o modo como essa característica me irrita. Sem "ah, sou inteligente demais, super penso o mundo e tudo que me dizem" bla-bla-bla, mas eu fico mesmo o tempo todo cantarolando a música, ao invés de simplesmente deixá-la ser percebida pelos sentidos. É o normal, isso?
Tive então uma epifania: é esse o motivo de eu nunca gostar de nada que ouço pela primeira vez. É nunca, mesmo, com todo o peso da certeza. Porque não consigo cantarolar junto e é esse o meu jeito de ouvir.
Eu só gosto do que conheço. Acho que o que expande um tanto meus limites e me salva da perdição absoluta, é que, vez por outra, eu me permito conhecer as coisas, para daí gostá-las. Começo na quase indiferença, enquanto faço outras coisas, sem prestar muita atenção, só pra ir amaciando, registrando para depois reconhecer e, talvez, me apaixonar.
Isso foi numa noite de pseudo-insônia destas.
Aí hoje fiquei pensando no quanto gosto da estrada. Nem tenho aquela super paixão por dirigir o tempo todo, mas gosto da estrada. Minha paixão é inconstante. Mas aí, hoje, enquanto o sol arrasador detonava minha pele e ia chegando ao limite do suportável, me dei conta de outra coisa: eu não gosto do que não conheço por causa do diabo da lua em touro.
Não é fantástico?
Não entendo nada de astrologia, apesar de sempre querer saber. Sou, aí, muito da egocêntrica e quero saber tudo sobre meu mapa; falta espaço pra aprender sobre os dos outros.
Se é verdade ou não, não sei dizer e nem me importa. Acho é muito libertador poder explicar essas pequenas partes do que somos, atribuí-las a qualquer outra coisa que não à gente e ter, quem sabe, um pouco de paz. Eu, quando ouvi sobre o meu, confesso que fiquei um tanto pasma em perceber como algumas coisas encaixavam muito bem, e o processo todo me ajudou a entender algumas coisas sobre mim. É algo bizarro uma pessoa totalmente estranha te explicar comportamentos seus que, por vezes, não são tão legais, mas dá também como que um alívio, esse ver-se por outros olhos. Olhos lunáticos.
Enfim, porque eu pensei que devia contar e contei.
Finalmente começou a chover e chegou um vento fresco, pra embalar a noite.
Hora boa é sempre hora de voltar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Está computado nos dados oficiais

Eu tenho a capacidade de concentração de uma ostra.
É meia hora trabalhando e de repente preciso beber água, ou checar uma citação, ou pegar um clipe (é, disse o Aurélio que é assim que escreve, daqueles de papel!), ou ouvir uma música, ou comer uma tortinha de limão, ou falar alguma coisa rapidinho com alguém.
Ou fazer xixi, lavar a mão, coçar a cabeça, alguma coisa, qualquer coisa que não o que tenho que fazer.
Vim - dessa vez pelo clipe, que tinha levado um monte para a mesa mas perdi, aí a culpa é deles e dos seres superiores que os fazem desaparecer, né não? - e comecei a divagar e pensar na música do Chico que fala "está registrado nos dados oficiais", que achei que era "eternos amantes". Comentários, ou nem precisa?
Faz já um tempo que não o ouço, ao Chico, se não por acaso, num rádio ligado deixado esquecido num canto da casa. Ou na minha cabeça, quando vem alguma lembrança ou idéia, como a de agora.
Tão lembro da minha mãe ter os LP's e de um calhamaço de papel com todas - acho que só muitas, né, que ele tem música pra caramba - as letras, que eu ficava aprendendo e perguntando pro pai ou mãe como era mesmo. Lembro, em particular, da "mais formosa das cabrochas dessa ala". Depois meio que parei de gostar dessa, não sei bem por quê.
Sem mais a dizer, no fim desse dia tão quente. Hoje os termômetros da rua marcavam 40 graus e eu senti mesmo aquela ardência na pele de que tinha meio que esquecido.
Ao trabalho, então.
Vou só antes dar um telefonema.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quando fevereiro chegar...

...saudade já não mata a gente...
Tô há anos cantarolando só esse versinho, pedacinho da música de Geraldo Azevedo que não sai da cabeça.
Fevereiro tem tão isso, né, da espera? Como o Chico, se guardando pra quando o carnaval chegar.
Eu tenho cá meu mimo com o mês, mas isso de ter nele nascido influencia nossa relação. Espero, sempre, claro. Temo, vez em quando.
Eu ando tão que tão atabalhoada que já tô querendo colocar 2010 em tudo que é cheque que assino. Aí paro, penso, quase mudo pra 2008 até chegar o senso de realidade e me dizer "não, Maíra, ainda 2009".
Nos últimos tempos mudei minha fixação de números divisíveis por 3 para primos, o que dá um baita trabalho, já que o cálculo é significativamente mais difícil.
Mas olha, se a gente pensar bem, meu aniversário já chegou: outubro foi; novembro vai voar, com entrega de texto e etc; dezembro nunca conta, porque é natal; janeiro não conta que o ano acabou de começar e a gente ainda tá se acostumando; aí pronto. Carnaval e aniversário assim, embaladinhos.
No meio da confusão que é a minha vida nos últimos tempos, junto com 2009 já estou tendendo a deixar os 26 pra trás. 27, aqui vamos nós. Acho mais marcante, 27; já a linha de chegada pros 30, não tem mais aquela brincadeira de "vinte e poucos". Já vinte e um monte.
"Quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente".
"Um sorriso quando acordar pintado pelo sol nascente". Ai, Geraldo, Geraldo...
Depois, se for ele mesmo cantando, segue aquele sotaque mais lindo do mundo, da gente, continua, semente, do dia, noite, verdades e mentiras. Hino, né?
Meio gosto meio não, do que segue. Gosto mais do fevereiro chegar, e a saudade não matar a gente. Pense, um fevereiro sem saudade?
Eu por aqui espero, que já é amanhã. Ou essa noite.
Saudade ainda mata a gente...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Esqueletos na madrugada

Mais uma noite chega ao fim, ou um dia começa, recheada de horas passadas em divagação.
Eita, que mente dispersa, que amor por errar habita esse corpo.
Já pra sair há horas, tendo a cada instante idéias geniais para ficar, fui procurar umas fotos que não estão aqui e me deparei com diversos registros, esquecidos sob nome enigmáticos e que são, de fato, uma viagem no tempo.
Alguns levam a momentos específicos, facilmente identificáveis, outros nem tanto, se escondem nas brumas, outros ainda dizem de tempos e sentimentos que se foram há muito e não voltam nem pra trazer um cheiro, como o de dama-da-noite que invade agora a sala fria.
Talvez minha vida se tornasse mais fácil se eu me desfizesse dos encostos, deixasse o passado para trás e jogasse isso tudo no lixo, ou enterrasse numa caixa, para não serem jamais visitados. Eu, realmente, não sei o que fazer com eles; ficam ali me dizendo de coisas que já não existem e eu olho, não sei o que fazer e deixo estar. Sherlock Holmes não aprovaria; falta espaço para novas informações e lembranças.
Encontrei passagens do Proust que, sendo otimista, não me dizem muito. Tem a do eu que morre, talvez eu cole aqui, durante o dia, mas outras... Como não adianta nada isso, né, de marcar passagens importantes; como se elas fossem eternas, como se não se referissem àquele momento e só ele. Depois a gente volta, lê e fica com aquela cara de interrogação, olhando pro eu que morreu e aguçando o ouvido, mas sem distinguir as palavras que o vulto murmura na distância. Talvez um leve sussurro, mais provavelmente silêncio.
Enquanto isso vou pensando "mando um sorriso, não corro". Mel ronca aqui ao lado, que fico com dó e a deixo dormir cá dentro.
Encontrei uma conversa com um amigo querido que me magoou profundamente. Ele criticava um comportamento meu, mas nunca disse claramente o que exatamente eu fizera que ele julgava errado. Da angústia, ao ler, eu me lembro, mas não sei também o que eu fiz. Ele dizia que não adiantava cavocar; eu pensava então, e penso hoje, que adianta muito. Talvez ali, no dia, ou nas semanas e meses que seguiram, eu não entendesse e alimentasse a mágoa. Mas pode ser que numa noite como essa eu caísse ali de repente e entendesse. Nem a ele, mas a mim, inadequada que fui. Talvez estivesse hoje distante o suficiente para perceber meus equívocos, ou perceber que não foram equívocos, ou concluir que não importa. Fica ali, então, um registro tão parcial de oportunidades perdidas e um marco da distância que seguiu.
Eu dizia há pouco que esse blog tentou nascer diversas vezes, até que veio meio cambaleando, como toda criança que aprende a andar, até se firmar nas pernas e dar os primeiros passos. Tenho ali algumas das tentativas e, olhando retrospectivamente, não eram tão más como eu me lembrava. Sempre é um consolo, saber que não fomos tão ruins como acreditamos. Mas eu sou mesmo muito mal acostumada, e mimada, e gosto de estar certa e receber somente elogios.
Ai, um amor no Recife. Amor do Recife.
Podia ainda cavar mais fundo, que sempre tem um esqueletinho no armário querendo me chamar pra dançar. Mas está, afinal, tarde demais.
Se um dia eu conseguir parar de ouvir essa música, é possivel que eu durma.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu coração errante...

Era assim que eu cantava a música do Paulinho da Viola. Música tema, né, poderia ser? Se estivesse certo. O dele é amante.
O meu também.
"Canto pra dizer que no meu coração já não mais se agitam as ondas de uma paixão, ele não é mais abrigo de amores perdidos, é um lago mais tranquilo onde a dor não tem razão..." Quem que não queria, né não?
Nem conheço tudo dele, nem sou fã ardorosa, mas, ao assisti-lo ao vivo, emanando simpatia e tranquilidade, fiquei pensando em como eu gosto de samba.
Gosto, claro, de muita coisa, mas gosto também tanto de samba. Nem nada, só sentar e ouvir e cantarolar. Acho um estilo de música tão encantador, que pode suscitar paixões e fazer a gente (leia-se as pessoas, que o pouco samba que eu já tive no pé deve ter caído pelo caminho num desses tropeços da vida) enlouquecer dançando, ou cantar gritando, ou só sentar e balançar de levinho pra lá e pra cá.
Sinto cá dentro um orgulho desse povo que inventou isso e faz isso cotidianamente e quase acho que faço parte dele por ser, também, daqui. Desse mundo que chama Brasil e que não existe e existe, que foi inventado e é mentira, ao qual a gente pertence sem pertencer. Ahh, História, o que fizesse comigo?
Às vezes, chego até a pertencer. Não por participar diretamente, mas por conhecer e conviver e reconhecer e gostar.
Que coisa maluca é essa que a música faz com a gente? Chega dá um sentido pra vida, mesmo que momentâneo, efêmero e volátil. Ela, também, a vida, não pode ser assim descrita?
Mas ouvi-lo cantar o amor no Recife não faz alguma coisa com a gente? Tão logo a noite acabe, tão logo este tempo passe...
Não conheço, não sei, mas, de algum modo, sou. Ou quero ser, ou sou um pouco só às vezes, até não ser mais.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Do medo

Eu tenho aqui alguns medos que me acompanham, alguns o tempo todo, outros em turnos.
Não tenho, por exemplo, de barata; mas tenho aquele nojo gigante que me faz sair gritando quando vejo uma. Sempre achei que isso devia ser esclarecido, a diferença, apesar de pensar que a maioria das pessoas concordaria comigo. Quer dizer, elas são nojentas, mas não vão te picar, arrancar pedaço, nem nada. Essas são coisas que me assustam.
Tenho, algum, de dirigir, mas esse me faz ficar mais atenta; compensa a distração crônica. Algum também de avião, apesar de ele ter diminuído pacas, ultimamente.
Falei, há pouco, do de livros e filmes de terror, que me fazem andar nas pontas dos pés e olhando para os lados, acendendo todas as luzes da casa durante a noite, e mantê-las acesas no quarto, enquanto tento dormir, imaginando uma pessoa na porta do quarto com uma faca na mão. E o robe da Agatha Christie.
De assalto. De dar aula. De ralar o dedo no ralador de queijo. De esquecer compromissos. De perder arquivos. De, um dia, esquecer de colocar calças ou saia antes de sair de casa e não ser um sonho.
Tem também aqueles mais íntimos, dos quais a gente não fala: de perder, de falhar, de ser mal entendida, não ser amada, nem sequer gostada, de desperdiçar, do medo, de ganhar, da morte, da vida. Medo do medo que dá, como diriam Lenine e a moça cujo nome esqueci.
Mas estava eu aqui, pensando no Norte, no sol e na praia e na loucura; ouvindo aqui o mesmo Lenine cantar do Leão e tem uma frase nessa música que me apaixona.
Tem a ver, pra mim, com uma outra frase, um verso do corão usado numa revolta de escravos de 35, que diz "essa noite é de paz até o raiar do dia". Cito livremente, mas lembro ainda de ficar ali, lendo e parando e vendo alguma coisa que eu não identifico nem nomeio, só leio, ouço e paro.
Aí, no meio do sonho que é pra mim, moça tão sem raízes, uma música que fala sobre pertencer, ele chega e canta: na noite dos tambores silenciosos... Sem saber o significado, que obviamente se esconde ali por trás, eu paro e fico. Ouço e paro. Existe aí, nessas palavras agrupadas dessa maneira, alguma coisa extremamente mística. Uma magia, um contrasenso, uma beleza que eu não sei explicar. Sei parar, apenas. E gostar. Mais do que tudo, gosto.
Quero ver, de olhos apertados, ouvir ou não, o barulho e o silêncio dessa noite.
Será?
Há apenas aí um porém: depois ele segue com "sou a calunga revelando o carnaval". Kalunga, penso eu em Bob e os desenhos do mar e do espelho e do atravessar e malungos, irmãos, companheiros, o dia, a noite, a morte, o branco. Penso nisso e mais, certo ou errado, mas não penso, de jeito nenhum, nas bonecas.
Bonecas me aterrorizam. Sou capaz de conviver com as da sobrinha, numas roupas normaizinhas, e me forço a não pensar nelas se somos obrigadas a dividir o mesmo aposento. Principalmente de noite. Pode ser herança da xuxa ou do fofão ou qualquer outra paranóia, mas elas realmente me assustam. De desviar os olhos. Bruno era quem me provocava com isso, querendo me obrigar a olhar para vitrines cheias daqueles plásticos parecidos demais com pessoas. Quanto mais parecidos, pior.
Aí eu também sou um poço de ignorância, desconheço tudo, mas vejo vez em quando na televisão um documentário ou imagem de maracatu e aqueles desfiles de bonecas presas em pauzinhos me dão nos nervos. Peço desculpas se ofendo alguém com a minha aversão, mas não é nada pessoal. Só não curto bonecas. Aí não é que também elas recebem a alcunha lá dos espelhos e águas?
Lenine super quis me sacanear, mas tudo bem.
Amor vence medo, né, não?
Se não, deveria.

Dos Inglórios

Pode ser só muito Dexter na memória, mas fui assistir ao filme do Tarantino e adorei. As cenas sanguinolentas, longe de causar asco e repulsa, trouxeram foi uma curiosidade risonha que dizia "uau, isso foi muito bem feito!".
Curto demais o Brad Pitt, que acho um excelente ator. Quando estava ainda em Leiden, uma noite, um casal de amigos me chamou para assistir o Benjamin Button, mas eu não pude acompanhá-los por estar envolvida na reescrita (que ultimamente tem preenchido meus dias e noites) de um trabalho. Aluguei, depois; enrolei um monte pra ver e, mais uma vez, amei. Lindíssimo filme, dos melhores que vi nos últimos tempos. Eu tenho cá uma coisa que gosta de se emocionar e ser trazida à tona à força, resistindo, se agarrando nos batentes até chegar e se debulhar em lágrimas. Nunca fui do tipo que, quando triste, procura ao redor alguma coisa alegre como que para compensar. Sou mais de mergulhar fundo na tristeza, deixá-la me preencher até que, como mudança de lua na maré, ela vá saindo lentamente, deixando para trás areias molhadas. Em momentos de maior tranquilidade, aprecio também passar por isso, me deixar tomar por dores que são minhas e não são e me lembram da fragilidade e da força disso que a gente chama de vida. Assisto, portanto, sozinha, que o que então sai de mim não gosta de ser visto por olhos outros. Venho, no entanto, dizê-lo, à luz do dia, enquanto ele permanece adormecido em profundezas escuras. E, se mais não digo, é porque não posso dizer. Palavras que não chegam.
Mas eu vinha era falar dos Bastardos Inglórios. Filme (algo) histórico. Do melhor tipo de (algo) história que eu conheço. Deleitam os olhos e a mente as opções do roteiro e as grandes atuações; imagino que também a direção, mas essa eu não sei julgar. Sou dessas pessoas que curtem o mocinho e detestam o bandido, apesar de tentar ser às vezes menos politicamente correta. Aqui, nenhum esforço para apreciar o diabo do Coronel Landa, que me conquista sem eu saber bem por quê.
Gostei muito, enfim. É o que tenho a dizer, que gostei, porque é o que gosto de ouvir. Achou bom ou achou ruim? A história eu prefiro ver por mim mesma, em vez de chegar ao cinema já conhecendo metade do filme. Achei ótimo, mas advirto que minha sensibilidade menininha anda reforçada por um carinho incontrolável por serial-killers imaginários.
Registro, no entanto, e recomendo.

Embora

Parece às vezes que quanto mais a gente precisa ir, mais quer ir ficando.
Querer... Quem desvendará um dia o que é isso que a gente chama de vontades. Desejos e precisões, o dicionário dá conta, não.
Fui hoje procurar no Aurélio pra ver se umas expressões que eu curto muito usar existem ou são invenção da minha audição falha; umas tem, outras nem. Gosto de catucar, mais que cutucar. Trupicar cai tão melhor que cair. Engruvinhar ele não conhece, mas fala por si. Já não lembro de outras; restou só na memória o estranhamento que causa às vezes aos outros as palavras estranhas que me saem da boca.
Hoje ouvi minha mãe ao telefone numas de "tudo bão?" e "Tá bão, então", e dei comigo uma risada do ão, ão, porque parece tão melhor que o om, om.
Precisava, hoje, ir, mas fico, porque preciso também ficar.
Dizer alguma coisa nesse começo de madrugada quente, gostoso, sem saber qual lua lumia o céu noturno. É crescente, cheia? Minguante, eu chutaria. Mas o céu, está, agora, distante demais de mim.
Tava eu aqui, no meio das vontades, e elas me levaram por seus caminhos tortuosos de acordes conhecidos através de uma viagem no tempo.
Ouvia aqui a música amiga me lembrando de outra noite e uma varanda; de uma busca enlouquecida, motivada por vontade imensa. E o encontrar algo feliz, que estava em mim, ao meu redor e, mais que tudo, nas estrelas do céu litorâneo.
Me entristece pensar que o outro não saberá nunca o que significou pra mim, nem do grande carinho que fica, porque... não sei exatamente o porquê. Porque não, talvez, ou qualquer outro motivo. Ou talvez o conhecimento exista, mas se perca nos vazios de silêncios que enchem o mundo de abismos.
Feliz. Não me agrada, a palavra. Joyeux? Heurex? Happy? Não, nada disso. Parecem todas algo vazias do significado gigantesco que deveriam carregar.
Agradeço, no entanto, para o precipício cheio de ecos, a apresentação iluminada por uma estrela brilhante, da varanda. Pelas risadas e músicas e luzes malucas. Pela descoberta e descobrir-se.
Seguimos, então, eu, o mar, o luar.
Muito mais coisas seguem do que ficam e eu, agora, me deixo levar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ela tem pra vender

Tava eu aqui pensando em cavaquinho e entrou no meu mundo uma sanfona com violino.
Nesse mundo tão silêncio ou barulho, em que tudo parece passar tão batido, senti aqui um comichão, outra vontade, de saia rodada e sapatilha, de dançar nas pontas dos pés e, como dizia Gonzaga, cochilar.
Aproveito, então, um momento de palavras para dar boas-vindas.
Fumo de rolo, arreio e cangalha. Bolo de milho, broa e cocada. Pé-de-moleque, alecrim, canela. Cabresto de cavalo e rabichola. Farinha, rapadura e graviola. Pavio de candeeiro, panela de barro.
Bem-vinda, ó da Feira de Mangaio.
Eu compro e recomendo.
Bora uma hora dessas arrastar um pé?

Perfeição

Já estou meio de saco cheio desse clima pseudo-tropical.
Ok, a gente aqui não tem estações tão definidas, mas isso de ficar um dia empacotado e no outro desidratar não tá rolando. Uma semana de verão, outra de inverno e a seguinte de novo verão é a tônica desse interior de São Paulo, nos últimos tempos.
Essa tarde, enquanto saía pela cidade cumprindo obrigações, torrando no sol inclemente, senti uma vontade absurda de mar. Tudo não sei se daria, mas dava era muito para hoje dar um mergulho nas águas de Iemanjá. Ouvia, ainda, Bethânia cantando seus nomes, chamando e levando, naquele balanço tão envolvente e doce como dizia Caymmi.
Tenho essa crença de que é impossível as pessoas reconhecerem cotidianamente a beleza do lugar onde vivem; acho que depois de um tempo a beleza é banalizada e não causa aquela admiração inicial do estranho, do incomum. Pode ser que haja exceções, até acredito que existam, mas eu não sei se seria uma delas. Andei sentindo muita vontade de um quiosque ou um bar à beira mar, com aquela brisa de maresia, um sol poente, um começo de noite, uma felicidade, em resumo, que está ali adiante, sempre tão inalcançável. Que está também aqui, ou poderia estar, se não faltasse sempre alguma coisa.
Hoje, pra mim, faltou um mergulho em águas geladas, um secar-se ao sol, espreguiçar-se e tomar uma caipirinha do Tadeu, enquanto Lenine canta um samba ali ao lado, de olhos fechados, balançando pra lá e pra cá.
Deu aqui uma overdose de açúcar, que foi bom até ficar ruim.
Sempre assim, né?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mistério

Meu, coisas estranhas estão acontecendo ao meu redor.
Não exatamente comigo, que eu continuo focada no eterno procastinar, enquanto levianamente afogo a culpa em distrações de segunda ordem.
Mas ao meu redor... estranhas coisas acontecem.
Tem lá seu lado divertido, que sacode um pouco a vida. Sempre curti um suspense, apesar de eles me manterem acordada à noite. Gosto muito de Poirot e daquele jogo do Sherlock Holmes. Mas quando li Assassinato no Expresso do Oriente, não conseguia dormir imaginando um homem num robe feminino com estampa de dragão nas costas me olhando da porta com uma faca na mão.
Quando criança - ok, era já tecnicamente adolescente - eu brincava demais de detetive, sendo que uma das noites mais divertidas da brincadeira foi quando eu mudei pra um condomínio que ocupava um quarteirão e eu não tinha entendido a lógica da numeração dos diferentes blocos, e passei a noite com uma lanterna tentando encontrar o E, ou coisa que o valha.
Se pá me inscrevo pro próximo Amazing Race - América Latina, mas tenho que encontrar um parceiro fortão, que eu ainda tô dolorida das desventuras cimentais de terça-feira.
Mas tem aquilo, né, primeiro chegam as pistas, depois a gente decifra.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dos livros

Tava pensando nessa listinha de livros que tá aí do lado. Será que eu devia anotar os que leio pela primeira vez, ou as releituras também contam?
E entram também os guilty pleasures?
Se o fator decisivo for honestidade, sim.
Se for... dignidade, não.
Ela andava bem desatualizada, aí fui tentar aqui lembrar o que andei lendo nos últimos meses e só chegaram à memória esses daí.
Sei não, capaz de sair apagando os menos recomendados, pra preservar uma boa imagem de mim mesma, mas também posso deixá-los ali, porque eu gosto mesmo deles e fazem parte do que eu sou, apesar da vergonha intelectualóide-wanna-be.
Eu podia também acrescentar um pequeno comentário, conforme fosse terminando, né?
Acho que aí que minha ilusão a meu respeito ia pro brejo, porque acho que o comentário mais recorrente seria do tipo "acho que não entendi muito bem o que o cara queria dizer...".
Porque não sei mesmo se entendi o Quixote, e acho que começo a digerir a Amarelinha. O James passou meio batido, o Agualusa é muito interessante.
E tenho mesmo um certo desinteresse pela literatura contemporânea séria - deixando de lado as Bridgets da vida - mas aí fico pensando que o que sobra são os best-sellers do Da Vinci e das pipas e, convenhamos, eu ainda sou a pessoa mais do contra que já conheci.
Fico pensando que clássicos são clássicos por um motivo e me contradigo dizendo que muita coisa boa pode ter ficado de fora da seleção-natural-literal.
Comprei Virginia Wolf, tenho o maior do Dostoiévski na estante e me preparo para reler meu querido Harry Potter nas férias.
Agora, vou finalmente me recolher, tentando aprender sobre vizinhanças, e concluindo que tenho esse quê esquizofrênico e "é o meu dinheiro, ninguém tem nada com isso", em ritmo da marchinha de carnaval*.

* Putz, tô em choque que o terra diz que a turma do funil é de Chico e Jobim, entre outros. Super não sabia disso**.

** Ah, afinal parece que não era, o terra só juntou duas músicas numa mesma letra e a turma é mesmo dos outros. Desculpem, não vos conheço, nada pessoal, eu sou mesmo muito ignorante e acho que marchinha surge do nada, que nem espinha na testa quando a gente tem um compromisso importante.

Se é samba que eles querem

eu tenho?
Tava aqui numa vontade de ouvir o Ney e o Pedro Luís cantando a noite severina.
Sempre me pergunto o que eles querem dizer com suassuna e sempre concluo que nunca dá pra saber exatamente o que uma pessoa quer dizer quando diz qualquer coisa.
E se a pessoa, como eu agora, não quer dizer nada?
Aí ela devia ficar em silêncio, né? Mas isso desconsidera uma tagarelice incontrolável, ou outra coisa qualquer que eu não sei o nome que dá vontade da gente dizer o que é indizível. Talvez porque não exista, ou porque a gente não tenha ainda aprendido a língua, as palavras necessárias para dizê-lo.
Tava eu aqui olhando, procrastinando. Desanimei essa noite porque rolou um desastre natural aqui em casa, envolvendo cimento, chuva e quintal. Eu nunca fui conhecida - por mim mesma, obviamente - como uma pessoa de braços fortes e hoje confirmo que 50kg realmente não são a minha praia. Ah, praia...
Então, procrastinando. Caçando na internet algo que distraia a minha atenção, que me prenda, me puxe, me segure, e anda tão tão difícil. Mesmo as palavras desinteressantes que busco como distração são poucas, terminam rápido demais e segue a pescaria. Mas procurar o quê?
Eu sei que já disse isso zilhões de vezes, mas sinto alguma raiva de mim mesma por ter terminado a busca do tempo perdido. Acho que, por ter um projeto de leitura tão longo, desacostumei de mudar e buscar outras coisas. E sinceramente ainda não superei a sensação de que essa obra é, por sua vez, insuperável. Estaria tudo dito ali? Eu sei que eu estou muito e sinto também uma preguiça em sair de novo buscando por aí outros eus.
Sinto falta das minhas aulas de francês na Unicamp e não sei onde buscá-las.
Tenho pensado demais nisso de conflitos e separações e sinto em mim, apesar de tudo, um ranço difícil de desfazer. De ditos e não ditos, pensados ou não, ações e paralisias que às vezes significam muito. Tão triste isso de ficar no final de uma história um vazio. E eu sei que essa é a minha tendência e meu desafio, minha luta e meu inimigo, porque isso de sair apagando o povo pra mim é fácil demais. Tão perigoso cair nessa balela que a gente se basta, né?
Eu qualquer hora vou viver numa caverna.
Só se tiver chocolate. Em bolo ou sorvete ou torta, que ele puro já não me apetece.

PS: Na verdade, eu tinha pensado em escrever sobre o lance do Rio receber as Olimpíadas em 2016 e como eu fiquei feliz com a escolha, e como ando torcendo o nariz pras pessoas que falam mal, porque deus-me-livre de alguém que pense diferente de mim. Fiquei feliz porque adoro as Olimpíadas, acordo de madrugada para ver absurdos como vela e hipismo e acho um barato isso do ser humano sair por aí fazendo umas maluquices, com o povo todo olhando. Gosto porque lembro de mim pulando na cama quando o Aurélio Miguel (é esse, né?) ganhou uma medalha no judô e eu era tão pequena, morava ainda em São Paulo; depois na minha onda de gravar tudo que passava na tv gravei a abertura das de Atlanta, nem imaginando que nunca mais ia olhar praquela fita. Gosto porque lembro de assistir ao vôlei masculino em Atenas com a minha mãe, da seleção que a gente adorava, que ainda tinha o Ricardinho, ganhar da Itália num quinto set por algo como 32 a 30, num jogo que eu achava que era a final, mas parece que nem era. Gosto das Olimpíadas, acho o Rio lindíssimo, concordo com todo o lance da América do Sul estar no mapa, curto demais o Lula e a sem-noçãozice dele. Achei mesmo ótimo, super não importa, mas dane-se.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Panegírico

A gente não tem um momento - ou vários - na vida em que se pergunta como nos tornamos o que somos? E mais do que isso, quando pensamos nas alternativas, nos caminhos deixados de lado, e como seria nossa vida se fossem essas as trilhas que tivéssemos escolhido seguir? E quanto disso será nossa escolha ou alguma outra coisa, talento, dom, que ninguém sabe o que é?
Eu partilho dessa fascinação tão vulgar de me apaixonar por uma coisa - qualquer coisa - bem feita. Não consigo pensar em nada mais sedutor do que isso: ver uma pessoa fazer algo que ela faz bem.
Mas não há também uma beleza emocionante no tentar?
Hoje tive a oportunidade de apreciar ambos. Erros e acertos e, confesso, o primeiro me emocionou mais. Às lágrimas, se eu as vertesse em público. Isso de dar a cara a bater realmente é forte. Porque fazer o que a gente sabe fazer bem é, ou parece, fácil; mas se dispôr a encarar a própria imperfeição e mediocridade tem um quê de soberbo. E é mais real, acho.
Só que, depois do contato com o concreto, fiquei pensando numa outra coisa.
Eu sou historiadora. Sempre acho um saco dizer isso, normalmente respondo aos questionários automáticos de secretárias de médicos ou afins que sou estudante. Nem por nada, mas não gosto da palavra, "historiadora", acho dura, falta aí um molejo, uma ginga. Prefiro "historienne", mas Brasil, português, etc.
Gosto do que faço, às vezes, acho um trabalho interessante e relevante, e eu o escolhi... não sei precisar o porquê. Por uma paixão, talvez, pela sabedoria que nunca vou ter. Avidez por conhecimento, ou coisa que o valha.
Não foi, afirmo com certeza, pela beleza.
Apesar de acreditar que há, nele, alguma, ela é diferente daquela que a gente vê por aí, no que se chama de arte. Porque, na arte, ela é isso e pronto. Na dança e na música, é isso.
Centro e fim.
Nem me pergunto, nem questiono, simplesmente paro extasiada diante de pessoas que escolheram a beleza. Fazer disso a vida e dar de presente para os outros. Porque é, certamente, dos outros. Dos que assistem quase às lágrimas, aplaudem, prendem o fôlego ou perdem a respiração. Dos que ficam ali sentindo os olhos e ouvidos presos, imaginando como seria.
Para mim, ao menos, vendo os corpos e mãos e sons e pés se movendo, encantando, não tenho tanta vontade de ser a pessoa que faz aquilo, mas aquilo que ela faz. Ser música e dança e sintonia. Que quem faz, também, não tem nem guarda em si, mas é como um canal ou ponte ou instrumento para mostrar aquilo que é tão efêmero e que pode ser simplificadamente nomeado de beleza.
E agradeço por aqueles que a escolheram.

sábado, 26 de setembro de 2009

Hermione Magali

Então esta tarde fui num mercado de atacados. Não sei exatamente qual a importância do adjetivo (é um adjetivo, né?), mas deixemo-lo aí.
Entre as gigantescas prateleiras que fazem o sonho de qualquer maníaco, estava eu procurando uns chicletes para matar o vício da sobrinha, que anda deveras grande, e fui pedir ajuda a um funcionário. Muito simpático, achou o chiclete, e eu acho que fui, do meu lado, simpática demais e o cara ficou me olhando meio como se eu fosse louca. Ou estivesse dando mole, sei lá, mas eu só estava mesmo sendo legal.
Aí, na fila, vi uma menininha, talvez uns 8 ou 10 anos, que me fez pensar.
Pra variar, de início ela me irritou: tinha uns cabelos como os da Hermione da minha imaginação, e eu pensei comigo "um dia desses, depois de algumas crises, ela vai perceber que o cabelo dela é inimigo da escova". Ela era bem branquinha, com aquele cabelo castanho meio liso, meio não, que requer um certo cuidado, apesar de não ser particularmente difícil. Só não deve nunca ser escovado a seco, meio como o meu. E ela o tinha preso no topo da cabeça com um grampo ou tique-taque e ele caia armado pelo ombro. Era bem magrinha, a menina; estava de calça jeans e com um moletom amarrado na cintura. Acho que isso foi que me irritou, porque estava um calor dos diabos, o qual me causou uma dor de cabeça dessas que não passam.
Aí ela andava pra lá e pra cá com a mãe, enquanto o pai esperava na fila, tal como eu. Claro que os papéis de cada um dos personagens é estimado, mas acho que faz sentido, né, na sociedade em que vivemos? Papai, mamãe, filhinha?
Enfim, num dado momento, provavelmente quando eu pensei na Hermione, comecei a gostar dela. Ela usava óculos e eu vi que por trás dele tinha uns olhos castanhos, mas não escuros, de um marrom claro, mas não dourado, só bastante bonitos.
Dali a pouco, ela falou alguma coisa para a mãe, que aparentemente concordou, e ela se agachou para procurar naquelas estantezinhas de supermercado um gibi da Turma da Mônica para levar. Pegou primeiro um do Cascão, levantou, olhou de volta e mudou de idéia, enquanto eu pensava "Cascão não, os melhores são a Magali e o Chico Bento!". Ela olhou de novo, ficou ali um tempo, tentando decidir, e saiu depois de mais hesitação com um da Magali seguro com as duas mãos, como se fosse pesado, ou frágil, ou pudesse sair voando a qualquer momento.
Fiquei só me lembrando de como eu gostava dos quadrinhos quando era criança; foi neles, acho, que aprendi a ler. A gente assinava e eu os devorava todos no dia em que chegavam, envoltos num saco de plástico cinza. Muitos anos depois, já pré-adolescente, num prédio em que morei, vi uma vez uma das meninas mais velhas que eu pegando um pacote idêntico na portaria e perguntei toda animada "ah, você gosta da Turma da Mônica??", mas aí a garota assinava uma dessas revistas tipo Carícia, ou sei lá o nome, que era também pequenininha. Lembro disso até hoje, 15 anos e tal anos depois.
Mas eu gostava, sim, da Turma, assinava e lia vorazmente. Fiquei pensando em, daqui a alguns anos, assinar para a Clara e depois me perguntei se, daqui a alguns anos, ainda vai haver revistinhas da Mônica. Se elas existem até hoje, é provável que sim, mas deu como um medo de elas acabarem e as crianças que ainda virão não puderem sentir o mesmo prazer que eu senti com elas. Quase pensei em assinar agora e ir guardando, mas voltei a mim em tempo.
Ainda na fila do mercado, lembrei, confesso, com algum ressentimento, do destino das minhas revistinhas. Uma tia querida também gostava delas; então, quando íamos visitá-la, eu carregava os pacotes acumulados e dava pra ela, que adorava. Sempre me dava uns Almanacões de Férias que eu não comprava porque, convenhamos, não faria sentido. Aliás, essa sempre foi uma frustração minha, porque eu via no Almanacão aqueles milhões de páginas de brincadeiras e desenhos pra pintar e eu gostava mais era das historinhas. E sempre que via um desenho em preto e branco meio que via na minha mente ele todo lindamente colorido, mas meus lápis-de-cor nunca alcançavam as cores da minha imaginação. E eu nunca tinha saco para pintar todos os trocentos desenhos em todos os detalhes, mas ao mesmo tempo queria vê-los coloridos; portanto: frustração.
Depois de ler, minha tia as passava para um primo meu que não era daquelas crianças mais... prestativas. Ele tinha, na casa dele, um armário estufado de revistinhas que não deixava ninguém ler. Provavelmente elas devem ter ido parar no lixo há milênios.
Lembrei disso hoje, no mercado, ao ver a Hermione sair com a Magali.
Lembro disso agora enquanto passa Garden State na televisão eu eu assisto assim meio não assistindo.
Não sei, realmente é um dia atípico porque eu já me peguei mais de uma vez me emocionando quase até as lágrimas com bobagens como Hermiones e Magalis e tempestades. E o que sinto nem é exatamente saudade, é quase a felicidade de receber o pacotinho cinza voltando, ou vê-lo chegar num futuro próximo ou distante, é uma satisfação de uma não-inveja de uma dessas coisas indizíveis que me dá orgulho.
Esta era a história que eu vinha contar. Bobagens, não?

Tangos e sevillanas.

Comecei a fazer aulas de dança flamenca há quase exatos sete anos. Aconteceu com ela mais ou menos o mesmo que com todos os meus começos: passava por uma fase meio... ruim - sim, tem uma coisa em mim pessimista que pode, quando alimentada, rotular qualquer fase como meio ruim, mas eu vivo tentando matá-la de inanição ou silêncio - e achei que fazer uma coisa por mim, uma coisa bacana, de que eu gostasse, ajudaria.
Tenho, afinal, sorte, porque esta, como diversas outras coisas que tentei ao longo da vida, de fato ajudaram. O flamenco foi minha única e vital terapia por alguns anos. Ia nas aulas quando estava bem e quando não estava, sapateava minhas raivas e frustrações. Comecei a aprender a conciliá-las com a faculdade e, mais desesperadores, os finais de semestre repletos de trabalhos finais a serem entregues todos na mesma semana. Nunca fui muito fã, no entanto, das apresentações. Muito nervosismo e tensão e nunca achei que valia a pena. Fiz algumas, noutras faltei, ou simplesmente disse que não podia participar, mas também é fato que nunca fugi delas enlouquecidamente.
A última foi em... dezembro, talvez, de 2006. Três coreografias, começando com a mais difícil e facilitando até a última. A primeira, uma romeira, durava algo como 8 minutos exaustivos e apavorantes, uma coreografia complicada com muitos sapateados parecidos e eu dei uma erradinha básica; mas as outras duas, depois da pedreira, foram mamão com açúcar. Depois disso, começamos a aprender uma outra, que eu achava maravilhosa, quase sem sapateado nenhum, só jogos de corpo. Mas dessa eu não cheguei ao fim, porque estava num momento meio turbulento, viajando muito e acabei dando um tempo da dança. Voltei algumas vezes, pegando coreografias no meio e parando depois, até que, nos últimos seis meses de estabilidade, voltei a frequentar as aulas com mais disciplina.
De novo para me apaixonar por uma música, que sabe-se lá quando poderemos dançar.
Mas isso tudo pra dizer que essa semana, depois de 3 anos, vai rolar uma apresentação e estou achando que vou participar. Assim, como quem não quer nada, mas vamos lá. Não mata ninguém, né?
Nem sei porque comecei a contar isso, na verdade vim dizer outras coisas, mas, se essas vieram, que fiquem.
Olé.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Em branco e preto?

Pra mim, fotografia é, ou se tornou, uma atividade meio solitária. Sem a menor pretensão de ser boa em retratar, percebo que, sozinha, me ligo - ou tento - ao mundo através da máquina.
Com outrem(ns), me preocupo mais em ver, viver, falar, partilhar. Menos em registrar.
Cada um tem um lado bom, né?
E um ruim.
Ou vários, mas agora me deu uma saudade de paisagens que vi e não ficaram, por sei lá que motivos. As cidades que passaram, cujo nome já nem lembro, e que não podem sequer voltar à memória através de uma imagem guardada.
Será que adianta eu prometer que da próxima vez vou fazer diferente? Vou bolar um plano, um esquema. Os pés em algum lugar, eu com alguma roupa, ou uma careta, ou numa pose, sempre a mesma, um esquema, um plano, uma brincadeira que traga consigo a constância. E a vontade, que é o que normalmente nos impede de alcançar as coisas que dizemos querer.
Eu tenho, agora, de voltar no tempo e fotografar.
Mas, feliz ou infelizmente, ele não volta, né?
Bem agorinha acho ruim, porque eu toparia; mas podia mudar de idéia em cinco minutos.
Chegou de mansinho uma saudade...

sábado, 19 de setembro de 2009

Jack Soul Brasileiro?

Sentei aqui, meio sem saber se queria escrever ou não, resolvi colocar uma música e não me senti com vontade de ouvir nada. Nadica, mesmo, nem que tenho nem que não tenho, meio vazio musical, mesmo. Acho que vou de Baden, então, que tem um quê de suavidade. Triha sonora de pesquisa e de noites bacanérrimas em bares obscuros. Valia a pena ouvir ao vivo. Virtuoses, virtuoses...
O GNT passou um documentário sobre filmes estrangeiros que se passavam ou se referiam ao Brasil. Assisti assim meio começado, com algum desinteresse de início e depois o sangue começou a ferver. Foi feito por brasileiros, que entrevistaram atores e diretores franceses e americanos, perguntando o que [diabos!] eles tavam pensando quando fizeram os filmes. Aí intercalavam com aquelas perguntinhas básicas pras pessoas na rua, tipo onde fica a Amazônia, e o povo, se fazendo de esperto, "no sul do Brasil". Até que não é tão ruim, quer dizer, sul e norte ainda são Brasil. Se alguém me perguntar onde fica, sei lá, Yellowstone, vou responder que é onde mora o Zé Colmeia e ponto final. Mas também eu não vou fazer um filme sobre isso.
Acho que o que me incomoda nem é a ignorância das pessoas, porque aqui ainda impera alguma razão e eu não sou nada além de um ser muito do ignorante. Sempre aperta um pouco a nossa auto-estima perceber que o mundo sabe tão pouco sobre a gente, mas a gente também sabe tão pouco sobre a gente que é covardia cobrar dos outros coisas que nem nós não fazemos.
Mas as viagens, meu deus! Nem é questão de não saber, mas de saber errado. A velha história do falarmos espanhol, da mulherada andar com penas nos cabelos, todas sempre gostosas semi-nuas. Retratar o exótico. Mas pera lá, eu sou brasileira e branquela. Não exatamente - ou nada - exótica, obviamente, e é só isso que os caras queriam. Ou até, quando havia uma boa vontade a mais, parece que nem ela lhes dava uma visão mais apurada.
Fiquei pensando no que exatamente me incomodou naqueles retratos e no que eu faria, se fosse eu a fazê-los. A verdade é que não sei. Ainda tenho, percebo, o velho vício de achar que a nossa cultura está nas danças e músicas e jeitos de falar e histórias que, bem ou mal, não fazem parte da minha vida, paulistana arraigada que sou. Acho que a gente aqui do Sudeste, mesmo se considerando o centro do mundo, se perdeu um tanto na cidade e se tornou meio que universal demais. Aí o pessoal do documentário perguntava se os caras conheciam São Paulo e a maioria dizia que não, ou que não interessava, que o lance mesmo era o Rio de Janeiro, porque São Paulo se parece com toda grande cidade do mundo.
Meio que concordo, meio que não, porque acredito, conscientemente, que a cultura de um povo está em tudo que ele faz no cotidiano. As pessoas não precisam estar fantasiadas com penas e frutas ou pintadas ou usando saia de chita para partilharem da cultura. Que, se alguém me perguntar o que é, eu não sei responder.
Mas e aí, quem somos nós? Somos "Cidade de Deus"? "Tropa de Elite"? "Central do Brasil"? "O homem que copiava"? Nem acho que os objetivos destes filmes eram responder a uma pergunta como a minha, mas será que eles respondem, sem querer? Que "nós" pode haver num país de quê, 180 milhões de pessoas? Eu acho um absurdo as imagens que o povo tem da Amazônia, mas também nunca estive lá pra saber como é. Ainda, não tive tempo ou oportunidade ou qualquer das coisas que nos faz nos mover, mas também há muita coisa pra conhecer.
Eu sinto, sim, falta, acho que já falei sobre isso aqui, de um sentimento de pertencer a um lugar, de ter histórias pessoais a contar sobre ele. De sentir que ele ajudou a formar a pessoa que eu sou, mas sei também que esse é um sentimento romantizado. Quer dizer, o Caymmi, quando cantava que a jangada saiu com Chico Ferreira e Bento, falava de um Chico Ferreira e um Bento de carne e osso, ou eles eram, ao menos em parte, uma criação poética de um músico e poeta, a meu ver, genial? Eu acho que sou muito brasileira, e gosto de ser; acho que me apeguei mais ao Brasil depois de passar um tempinho fora. Gosto, por achar que temos soluções interessantes e modos interessants de lidar com a vida e as pessoas; talvez porque este é o único jeito que conheço e aprendi e talvez todo mundo sinta isso em relação à maneira e ao lugar em que cresceu.
Claro que a contradição aqui impera e me faz sentir saudade de um pertencer que não existe, ao mesmo tempo em que reconheço ser e ter me tornado alguma coisa irremediavelmente ligada a essa terra.
Lembro de ter discussões similares na faculdade e meio chegar a lugar nenhum, enquanto aprendia sobre perguntas que não têm resposta e como o interessante pode ser fazê-las e tentar, de um jeito um tanto desesperançado, respondê-las, já sabendo que é impossível.
Andar e andar e chegar ao mesmo lugar, como naquele episódio da Comédia da Vida Privada que tanto me agradava. O que importa, será, é ir?
Eu não sei, mas fico aqui, indo e falando, sem esperança nem nada, mas ainda aqui. Meio de saco cheio, meio não, mas como diria o Chico, a gente vai levando.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Aniversário

A gente vai desenvolvendo, ao longo da vida, uns prazeres meio estranhos. Eu tenho um de ver as páginas se enchendo de palavras e criando volume, nem qualidade, quantidade, mesmo, que acho muito gostoso. Comentei com a professora, semana passada, que é bom ver um trabalho chegando a 50, 70 páginas.
Aí tava aqui, meio indo, meio com preguiça de ir, e fui ver o arquivo do blog; notei que aqui, todos os meses, tem ao menos um postzinho, nem que seja pra espantar a poeira. E o Errar começou, pelo menos para o público em geral, no mês seguinte ao fim do Idiotia. Pra quem não sabe ele tentou nascer outras vezes, antes disso, com diversos projetos, que foram todos devidamente arquivados, para o nascimento deste.
E eles são bastante diferentes, acho, e faz muito sentido que sejam. O Idiotia, junto com rascunhos, teve 482 postagens. Teve meses que escrevi mais de 50 posts. Ele foi tão um amigo e um apoio em momentos de necessidade e de alegria, me ensinou muito, aquele espaço. Mas, como diria o Proust, a pessoa que eu fui ficou ali atrás e, como bem disse uma amiga, ele fechou o ciclo. Ficou pra trás e a tristeza disso, agora, é quase nenhuma. Trouxe alegrias e pesares mas, mais importante, me proporcionou o hábito de vir, vez em quando, falar um pouco, mais comigo mesma que com qualquer outro. E olhando lá ele, percebi que o criei há quase exatamente três anos e um mês. Em 12 de agosto de 2006 eu comecei um blog porque tava sofrendo e ele me acompanhou na superação desta dor e ao longo de outras que se seguiram. Comecei, sei lá por que, e continuo, há quase três anos, quase ininterruptamente. Ouvia, então, Los Hermanos e, coincidentemente, hoje, depois de meses de concentração pernambucana, comecei a cantarolar uma música deles, uma em específico, que tem uns metais arrasadores, que me fazem querer entrar no aparelho e explodir. Eu tinha o hábito de, regularmente, ir salvando os textos que escrevia, para não correr o risco de perder, jamais. Agora, eles se perdem nos descaminhos da memória, mas prontos para, a qualquer momento, num dia de sol ou de chuva, dia de verão ou noite de inverno, movida por alegria ou tristeza imensas, ou curiosidade, ou nada, a qualquer momento posso ir lá e, por alguns instantes, voltar.
Eu dizia, então, há pouco mais de três anos, que o mundo todo tava errado e que eu não era "absolutamente a pessoa que pensava que seria aos 23 anos de idade.
Nossa, vinte e três... vinte. e três. v-i-n-t-e-e-t-r-ê-s!". Agora já vêm chegando os vinte e sete, vinte. e sete., v-i-n-t-e-e-s-e-t-e e, se eu não aprendi nada desde então, pelo menos não me sinto tão surpresa. Vai saber o que me surpreendia tanto - apesar de que, como eu dizia então, o tombo fora tão grande que eu lembro, sim - mas é claro que, olhando pra trás, não resta nada a fazer, senão rir. Rir da surpresa, da esperança, do alento, mais que tudo, das crenças, que se estamparam ali, por um tempo bastante longo.
Talvez a mudança tenha se dado cedo demais; talvez muito do que aconteceu aqui, no despertar do Errar, cabesse melhor no Idiotia, mas, se a mudança entre a pessoa que me tornei e a que eu era é tão grande, não aconteceu da noite pro dia e transição é isso, mesmo.
Acho que Idiotia Coletiva revelava um quê de descrença no mundo e nas pessoas, descrença essa que procurava, a todo custo, ser contradita, desmentida, arrebatada, talvez, por um anjo salvador, que viesse me dizer que o mundo não estava tão fodido, assim. E acho que Errar é coisa que todos fazemos, independente de esperar ou não, de ser bom ou ruim, é sem fim e pode ser solitário e angustiante ou não. Pode ser, como a vida, solitário sem ser angustiante, pode ser angustiante sem ser solitário, pode ser tudo e não acaba nunca. Sei como é arriscado afirmar isso de maneira tão convicta, porque tudo continua sendo tão frágil e pode mudar a qualquer instante, mas nesse Errar eu encontrei uma paz que nunca me alcançou, antes. Talvez na vida, desde que eu deixei de ser uma criança saltitante.
Às vezes me pergunto se ela não me custou um tanto da identidade, se não me tornei meio um livro de auto-ajuda ambulante, e até respondo que sim, mas acredito piamente que foi uma pechincha. Perdi muito e ganhei muito, mas o melhor é saber que eu cheguei onde estou com as minhas pernas, nesse caminhar meio trôpego que é viver, porque acreditei e, tropeçando e levantando, segui em frente.
Faz, portanto, três anos, que eu comecei a achar que alguém se interessaria pela jornada. Agradeço aos que acompanharam, ela toda ou pedacinhos, mas ela continua pra todo mundo, independente da companhia.
Eu já fui melhor em finalizar textos, mas sinceramente não tenho mais nada a dizer, além de tudo.

Sou eu

Minha falta de memória sempre foi proverbial, mas ela tá conseguindo piorar. Lembro mais de nada, não; posso esquecer uma história que alguém me contou há duas ou três horas com a maior tranquilidade, ainda fazendo cara de indignada ao dizer que não sei de que diabo que o outro está falando. Sei lá, não lembro e acho que, com o passar dos anos, fui criando mesmo um desapego ao lembrar. Isso das pessoas ficarem lá, lembrando de tudo, pra quê? Já não foi? Importante é viver as coisas quando elas acontecem, depois já não faz muito sentido; é que nem as pessoas que ficam fotografando um pôr-do-sol maravilhoso. Ainda se a pessoa tem lá o dom da fotografia, vá, mas assim, nós, simples mortais? Em vez de ver a coisa, fica todo mundo lá, vendo mais um pedaço de plástico que o espetáculo em si. Tenho, de fato, uma foto das pessoas tirando foto do pôr-do-sol em Jericoacoara, que é mesmo de outro mundo. Mas todo mundo com a máquina na cara, chega a ser meio patético. Até eu também tirei fotos, naquele dia, mas talvez tenha sido o último. Ou um dos, porque também sou muito contraditória e da maioria das coisas que me irritam profundamente nas pessoas nem eu, do alto da minha arrogância, não consigo escapar.
Mas não lembro quem disse - se é que eu não sonhei, porque também faço muito isso - da teoria da ferradura. Como se as coisas, pessoas ou sentimentos ou sei lá o quê, tivessem a forma de uma ferradura, e o extremo de uma coisa é sempre muito próximo do seu oposto. Deu pra entender?
Por exemplo, viciei agora de uma tal forma num seriado, aliás muito bom, que eu fico pulando sozinha de animação, xingo, dou risada, etc., mas sinto que posso, daqui a cinco minutos, nunca mais querer assistir. Ou tem músicas que eu já ouvi repetidamente da maneira doentia como eu costumo ouvir música, até chegar o momento em que não posso ouvir nem pintada, que chega dá asia. Tudo bem também que a gente enjoa e muda, ainda bem, na verdade, que não estamos fadados a permanecer a vida toda no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Das quais, também, podemos enjoar, ou cansar, ou nos distanciar, às vezes mais, às vezes menos justificadamente. Eu, daqui, que tenho essa coisa de tê-las e perdê-las, desse jeito incompleto e ilusório que podemos ter e perder as pessoas, penso com frequência nisso.
Mas o que tem chamado demais a minha atenção é esse amor maluco que a gente pode sentir por alguém, que olhar, beijar, abraçar, apertar, segurar, nada disso é suficiente. Perguntei, ontem, pra irmã, que que a gente podia fazer com a filha dela, que está o cúmulo da graça, e ela respondeu: "comer". Claro, leitores desavisados e conselho tutelar, que não fazemos parte de uma família canibal. Claro, engajados de plantão, que, sei lá, nem falo mal de grupos em que a antropofagia faz parte do pacote; acho que preferia, pessoalmente, nunca encontrá-los, mas espero não estar cometendo uma gafe antropológica, ou sei lá que tipo de gafe seria essa.
Mas que sentimento é esse tão grande que traz consigo uma certa ânsia pela destruição do sujeito amado? Como um querer que é tanto traz mais sofrimento do que paz, ou satisfação, ou alegria?
E esse é tão o ponto, atualmente, não é? Tanto de gente que se vê por aí se destruindo, pretensamente por amor, enquanto há aqueles que dizem que amor não tem em si destruição. Tanta gente que se perde e vai arrastando consigo todo mundo que encontra pelo caminho.
Acho que são coisas muito diferentes, isso que a Clara desperta na gente, e a loucura que surge na esteira de um monte de outros (des)amores, mas eles não tem em comum pelo menos a alegação do mesmo sentimento?
Que merda é essa da gente, né, que tudo tem que ser tão complicado?!
Sei não, nem quero muito saber. Fato é que a sobrinha anda impossível, nos últimos dias, e a mim pelo menos ela enlouquece com as brincadeirinhas e risadas e caretas que agora faz o tempo todo. A onda do momento dela é brincar de banco, mas claro que ela não faz idéia do que é um banco, ou melhor, faz lá uma idéia só dela, em que as pessoas vão comprar/trocar sapatos ou celulares. Fica lá, alojada na mesinha dela, com um "cliente" do lado, olhando enquanto ela cumpre as burocracias bancárias e daqui a pouco pergunta o que era mesmo que a pessoa queria. Aí, dia desses, eu tava num desses estados provocativos que vez ou outra tomam conta de mim, e comecei a dizer, enquanto ela se entretinha com a brincadeira, que ela não era minha sobrinha. Falei, sei lá, por maldade, por falar, pra encher o saco dela. Aí ela virou pra mim com a cara mais pidonha do mundo e disse "não, tia, sou eu, a Clara, eu tava só brincando que era a moça do banco mas sou eu!". Aí eu saí com um "nossa, é mesmo, você tinha me enganado!", mas fala sério, quem aguenta um troço desses?
Então tem, mesmo, o outro lado da história, né? Mesmo a gente querendo apertar ela pra sempre, vez em quando chega por cá um serzinho desses que mostra que tudo bem. Viver precisa nem doer tanto assim, não. Ou, quando não tem remédio, que o aperto é grande, sempre a gente pode rir também um pouco, que ajuda a passar. De preferência de nós mesmos, que ando pensando ser mesmo a maior das qualidades.
Eu, de mim, ando rindo das minhas inabilidades em dançar e cozinhar e me localizar e me fazer entender e da falta de memória e de mais um monte de coisa que não lembro, agora.
Bão, se for depender de motivo pra rir de mim, acho que me garanto ainda um tempo. E se alguém quiser se juntar ao coro, seja bem-vindo, que faz bem vez em quando a gente se conformar com o que nos cabe.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Véu de coisas.

Sinto vez em quando uma saudade de um tempo em que eu escrevia sobre coisas que aconteciam. Em qualquer lugar, comigo ou outros, coisas boas ou ruins ou nada disso, observações minhas do que estava ao meu redor.
Acho que, ultimamente, o meu redor foi fechando cada vez mais até não sobrar muito espaço para o que há por fora.
Se eu apertar a vista, pode ser que apareça no horizonte, como num passe de mágica, ou alguma lembrança de coisas que aconteceram e eu escrevi, ou daquelas que eu ainda posso contar. Quase aparece, mas talvez falte aquele dedo que vê e me mostra.
Não sei se algum dia eu vivi mais do que hoje, talvez tenha vivido menos. Não sei quais das coisas importantes que me aconteceram eu relatei, certamente muitas ficaram de fora ou vieram tão bem cifradas que, passado um tempo, um ano ou uma noite, eu já não sei desvendar. Gosto desse não entender, porque sempre há coisas que preferimos esquecer e me acontece de aqui e ali ficar contente com o saco de gato que são minhas memórias. Não lembrar cronologias ou o quê exatamente aconteceu em qual lugar ou quais palavras foram usadas para dizer alguma coisa que não ficou.
Pensava, ontem, na insônia, em alguns destes temas para dizer, mas agora, quando é possível, tenho preguiça.
Uma vez, eu falei pra uma grande amiga que meu problema era ser impulsiva. Ela levantou a maior sombrancelha pra mim, porque o fato é que eu não sou a pessoa mais impusiva do planeta. Nem a segunda; devo estar bem pro final da lista, na verdade. Mas o que eu quis dizer, acho, é que eu tenho, claro, fortes impulsos; fico remoendo na cama coisas que gostaria de dizer, cartas que queria mandar, conversas imaginárias para todos os gostos. Só adquiri o hábito, não sei como, quando, ou por que, de esperar o sol raiar e ver se o impulso permanece. Hábito esse que vai contra a natureza efêmera e avassaladora do impulso, pois não?
Isso e o fato de eu nunca ter perdido, na vida, uma partida de banco imobiliário me fazem desconfiar que há alguma coisa nesse corpo de muito, muito velha.
Não digo o que pensei em dizer e não aconteceu nada. Ou aconteceu, mas tudo se esconde sob um véu.
Amanhã, quem sabe, eu venha retirá-lo.

Pra ouvir. Ou ler. Ou ver. Ou fazer o que te der na telha.


Pelos auto-falantes do universo
vou louvar-vos aqui na minha loa
um trabalho que fiz noutro planeta
onde nave flutua e disco voa:
fiz meu marco no solo marciano
num deserto vermelho e sem garoa.

Este marco que fiz é fortaleza
elevando ao quadrado Gibraltar.
Torreão, levadiça, raio laser
e um sistema internet de radar:
não tem sonda nem nave tripulada
que consiga descer nem decolar.

Construí o meu marco na certeza
que ninguém cibernético ou humano
poderia romper as minhas guardas
nem achar qualquer falha no meu plano
ficam todos em Fobos ou em Deimos
contemplando meu marco marciano.

O meu marco tem rosto de pessoa
tem ruínas de ruas e cidades
tem muralhas, pirâmides e restos
de culturas, demônios, divindades:
a história de Marte soterrada
pelo efêmero pó das tempestades.

Construí o meu marco gigantesco
num planalto cercado por montanhas
precipícios gelados e falésias
desenhando no ar formas estranhas
como os muros ciclópicos de Tebas
e as fatais cordilheiras da Espanha.

Bem na praça central, um monumento
embeleza o meu marco marciano:
um granito em enigma recortado
pelos rudes martelos de vulcano:
uma esfinge em perfil contra o poente
guardiã imortal do meu arcano.

O Marco Marciano

Confesso que da primeira vez que ouvi a música, meio que não gostei. Talvez não tenha desgostado totalmente, mas a coisa do cara fazendo uououououououououo enlouquecidamente como se não houvesse amanhã fez cócegas no ser implicante que existe em mim. Aí fui ouvindo, no ônibus, semi-adormecida e acho que a coisa toda, eu e música, começou a transcender.
Já fiquei um tempo sem ouvir, até a noite passada quando, atacada pela insônia aliada ao mal-estar causado por uma gripe estranha - cujo único sintoma é uma febrícula que vai e vem a seu bel-prazer, com todos os efeitos colaterais adjuntos -, recorri a ela para tentar relaxar e dormir. Claro que não funcionou e eu continuei rolando por horas, mas me dei conta, de novo, do quanto gosto dela. Mais do que prazer, sinto satisfação ao ouvi-la, coisa que nem faz tanto sentido, já que é só uma música. Mas ela me apaixona, então pensei em mostrar aqui, para alguém que, talvez, esteja disposto a ouvir.
Se não, também tudo bem; não é esta a tônica deste mundo maluco? Uns amam, outros odeiam, outros tanto faz, outros não entendem. Às vezes isso tudo dentro da gente.
Eu acho um barato, ou "maneiro", como diria a sobrinha.
Ah, sim, eu pensava que se não tivesse esse blog, cujo nome me agrada tanto, ia criar um chamado "marco marciano". Talvez ainda crie, quando o contrato daqui vencer e chegar a hora de mudar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Loucura na madrugada

"Acho que as discussões casam, mas não sei se consegui demonstrar meu argumento a contento ou se a coisa toda ficou meio esquizofrênica."
Tive coragem não de mandar pra orientadora. Disse, sim, que posso ter cometido uma temeridade, mas isso de assumir doença mental pro professor achei que era pouco recomendável.
A vontade foi grande, dedinho foi no enviar e tudo - o que ratifica doença mental.
Como desviar é viver, vim aqui contar pra alguém; quem sabe um de vocês ri como eu estou rindo agora, sentindo esse prazer maligno que só a subversão da ordem traz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Pensei que era agosto, mas já é setembro...

Essa semana apareceram por aqui aqueles bichinhos da luz. Sei não o nome deles, diz minha sobrinha que o amigo dela, Vitor, disse que é aleluia; diz minha mãe que é cupim.
Mas eles sempre vêm em agosto, quando começa a esquentar e acho que a chegada deles significa que acabou o frio.
Quando eu fazia aulas de flamenco no final da tarde eles eram infernais, ficavam todos voando perto do teto, que é baixo, e em cima da gente, dentro das nossas roupas e, quando teimavam em fazer o diabo, dentro também de bocas, narizes e ouvidos. Já até entraram no violão do Ricardo.
Eu do meu lado reclamo muito do calor, mas porque é quase minha natureza reclamar mesmo de tudo. Só acho que ninguém pode negar que acordar assim, num dia seco de sol, apesar do incômodo que o ar esturricado causa e eu estou mesmo resfriada, é muito melhor do que ficar calculando se a coragem é suficiente para nos tirar de debaixo dos cobertores.
Que será que eu pensei que tinha que escrever aqui? Minha memória continua de mal a pior. E eu pirei agora em fazer um sotaque meio southern.
Eu reclamo, mas o calor, o sol, o ar seco fazem mesmo a gente se sentir vivo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Da irmã

Acho que no vol. I da minha saga blogueira foi que eu comentei aquela música do Gil. Ou foi aqui mesmo, uma vida atrás. Mas ouvi e lembrei de um professor de ética que tive na escola, ele chamava Orestes e tinha um filho Dimitri, o que eu achava um barato. E Orestes é figurinha até conhecida na cidade, acho que dos últimos comunistas vivos e praticantes, andava com uma pochete cheia de papel - ou talvez eu esteja só confundindo as pochetes.
Acho que eu e meu Karma éramos as únicas pessoas a gostar mesmo do cara e das aulas dele, porque ele ensinava, ora bolas, ética, coisa que, convenhamos, não é conhecida por seduzir muitos adolescentes. Lembro até hoje dele dizer, tão simplesmente, a diferença entre ética e moral, dizer a história da justiça; que se você vê três pessoas num cabo-de-guerra, duas de um lado e uma do outro, aí você não pode dizer "não, eles que estão jogando, não vou me intrometer" e achar que isso é justiça, porque não é, se você quiser ser justo vai ter que entrar no jogo do lado da pessoa que tá sozinha, pra equilibrar o sistema todo. Sei lá, mas lembro.
E acho que me lembro também dele falar da música do Gil, e que a Bahia já deu régua e compasso. Que é a minha parte favorita da música, mas o resto todinho dela faz lembrar o Rio, o que é mais ou menos o objetivo dela. E quando eu ouvi, ali, que ele continua lindo, deu uma saudaaade, de um momento em que nem tudo estava bem, mas era possível ser feliz. Saudade do hotel mais ou menos na Glória, com o bar na esquina que tinha uma casquinha de bacalhau divina, saudade do pastel de camarão e passear em Santa Tereza e assistir uma peça de surpresa e me esbugalhar pra não chorar. De gostos e imagens e esperanças e não sei o quê que foi tão gostoso e dá vontade de voltar.
Nos últimos dois anos eu viajei mais do que em toda a minha vida. Viagens longas e curtas, boas e nem tanto, de ônibus, trem e avião, do qual chega quase perdi o medo. E apesar de eu sempre sentir como uma dor nesse ausentar-me, desconfio que gosto cada vez mais. E o problema - ou a graça - é que vício é vício e a gente acaba sempre querendo mais.
Porque eu já estou com vontade da estrada e quase que vivo sonhando com a próxima, ainda tão distante, mas já tão querida.
Eu sou assim, de ver despertar em mim amores repentinos e profundos e quase espontâneos, sem motivação aparente ou imediata, que me seguem por muito tempo, talvez até a desilusão, mas seguem fazendo estrago até lá.
Só o tempo, né, pra dizer? O que será? Onde e quando? O resto é esperar e escrever.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Veiêra

Assistindo a um filme ontem com a irmã, pensei e disse: "putz, nem lembro mais de quando eu fiz 21 anos..."; e ela respondeu: "e eu, então?!".
Depois vim ver - não por esse motivo, claramente - a lista de livros do vestibular desse ano, de uma universidade, e me deu um cansaaaaço. Olhei ali o montinho e fiquei pensando: putz, eu li isso tudo vezes 3 em um ano? Ou será que na minha época já era unificada? De qualquer jeito, acho que não li ela toda, não, e nem lembrava quais eu tinha lido até dar aquela olhadinha na prova, que tá na internet. Que eu não sei responder metade, e é de português, só.
Agora, quando que uma lista de dez livros se tornou assutadora, pra mim? Acho que é mais a coisa de ser obrigada a ler, ou com o passar do tempo eu fiquei mesmo mais e mais preguiçosa.
Vou nem ver a de história pra não chorar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Vento / Texto Procelária

Primeiro que começa com uma coisa que só pode ser Caymmi. Quer dizer, quem que ia fazer uma música toda "vamos chamar o vento, vamos chamar o vento" e fazer dar certo?
Porque dá, portanto: Caymmi.
Aí ela diz:

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz um ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos
Passa e vai em frente

Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo

Com Bethânia, eu recomendo.

De poesia

Engraçado isso da gente se descobrir.
Eu, por exemplo, nunca gostei de poesia. Gosto, ou desgosto, esse, que já gerou exclamações inconformadas ou trejeitos de desprezo por parte de amigos e conhecidos, isso quando eu chegava ao ponto de expressar meu sentimento. Já fiquei em silêncio constrangedor ouvindo alguém dizer "mas e fulano, que disse que não gosta de poesia!!! Pelo-amor-de-deus" e etc. Claro que a pessoa podia saber ali, na hora, que estava falando com um desses párias, mas por motivos outros, não sabia.
Aí hoje, eu no carro - realmente, tem gente que tem epifanias em igrejas, templos, florestas, praias, lugares assim, mais propícios, eu já sou mais chula e me conheço no carro - eu pensava que não é que eu não gosto de poesia, eu não gosto de ler poesia. Já me sinto um tanto redimida em relação às pessoas inteligentes. Mas é fato que quando eu ouço, costumo gostar. Já era assim com a tal de vermelho e branco, que eu não entendia lhufas, os sanglots longs des violons de l'automne e assim por diante. Ou das vezes em que eu ouvi o Lirinha contando os cordéis. Gosto e muito.
Ou talvez seja tudo mentira, e eu só gosto dessa que a Bethânia recita, que eu já tinha gostado antes e esqueci, e quis vir aqui escrever e precisava de uma desculpa.
Vai saber...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Notinhas

Ah, a memória.
Uma vez, num blog conhecido, já mais assiduamente seguido - acho que isso tudo aqui já meio que era, né - li uma pequena crítica sobre "Candy". Com o Heath Ledger, e tal, e marquei, porque é isso que eu faço.
Não vou correndo alugar, ou baixar, ou comprar, ou sei lá mais o que se pode fazer com um filme, eu simplesmente guardo. Tenho a impressão de que todos, mas pode ser que não. Afinal, eu só lembro dos que guardo e, portanto, os outros nunca existiram para mim.
Vi que estava passando, dia desses, mas perdi o começo, e hoje meio que vi inteiro.
Meio porque posso ter perdido um minuto ou dois, ou mesmo nenhum, já que o relógio da HBO é assim pouco confiável. Meio também porque eu às vezes tenho essa coisa de não aguentar e assisto não assistindo. O que não significa que eu não assisto, entendam bem.
Enfim, só pra dizer que gostei muito do filme. Mais do que o gêmeo "Réquiem para um sonho". Nem sei se é melhor, talvez eu seja só mesmo muito besta. Mas vi, gostei e quis dizer, mesmo que desse meu jeito que na verdade não diz nada. Ou talvez, além da idiotia, eu só faça com os outros o que gosto que façam comigo: me digam que gostaram sem contar metade - e em alguns caso toda - da história. É bonito, e ponto. Ou melhor: eu achei bonito, e ponto. Recomendo.
Aí mudando de assunto, mas não muito, vi outro dia "Austrália". Confesso que tava com medo, de verdade, de ser aquela bosta total, e eu ainda aluguei. Fiquei com uma sensação diferente, talvez nova. Normalmente eu gosto das coisas mas tenho sempre aquela sensação de que não sei se entendi. Pode ser que sim, pode ser que não, o que também não me impede de apreciar. Claro que talvez eu apreciasse mais se entendesse, mas eis uma realidade que eu não posso mudar. E é fato que eu gosto que, em algum nível, me expliquem as coisas. Mas esse, do Luhrman... Primeiro por ser dele, que tem meu coração desde "vem dançar comigo", aí logo no comecinho o cara me escreve o lance lá do viver com medo, viver pela metade. E, de maneira bastante inesperada, eu gostei desse filme exatamente porque o entendi. Claro que isso pode ser só a maior ilusão que eu criei, o que não a torna menos verdadeira. Entendi, enquanto via, ou criei pra mim uma explicação do que ele queria fazer. Aí, para além de o filme ser bom ou não, já gosto dele porque me faz sentir inteligente.
Quer dizer, aquela merda toda da gente viver uma vida pra se sentir apreciado.
E por falar em apreciar, vi também ontem um filme com o John - e a Joan! - Cusack, acho que o nome em português é "matador em conflito", que achei divertido pra caramba, mas também porque eu tô desenvolvendo minha veneração por ele.
Enfim, acho que de uns tempos pra cá venho desenvolvendo um gosto condenável por frases assim meio curtas; separar o verbo do objeto e tudo mais. Isso sempre me irrita, quando leio o estilo em alguém, porque tudo bem que às vezes a gente pensa a prestação, mas sempre se pode fazer algum esforço pra facilitar a vida de um eventual leitor. É chato demais ir lendo alguém que coloca um ponto final a cada três palavras. Tipo antes de um porque. Eu fiz isso. Mas também podia ter feito aquilo. Porque assim e assado, e etc.
Peço perdão e agradeço a paciência de você, amigo leitor. Mas sabe como é, todo mundo tem fases na vida em que faz coisas de que se envergonha.
Hoje eu vi o Lenine na TV e não entendi bem, mas ele pareceu meio obcecado por orquídeas. Aí vi de novo e gostei ainda mais dele, porque tenho essa mania de gostar de pessoas com manias meio malucas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

E esse adeus, que tem gosto de terra?

Se um dia eu morresse, e chegasse num céu, e tivesse um Deus, e ele me perguntasse se eu queria voltar praqui, e se eu pudesse escolher uma coisa pra não ter...
Mentira.
A verdade é que eu gosto do meu apego. Ele me ferra de vez em sempre, não me deixa ver um tantão de coisas, me faz sofrer, porque me impede de aceitar perder as coisas de que gosto. O que é ainda mais grave, porque eu conheço tão tão poucas coisas, porque só gosto daquilo que, pra mim, é, ou parece ser, velho.
Quem mesmo disse que o historiador é um conservador por natureza?
Toda vez que eu gosto de uma música, é porque eu já ouvi antes. Tenho essa aversão pelo novo que eu não sei dizer exatamente de onde vem. Aí isso me faz ler o mesmo livro milhões de vezes. Normalmente gosto da primeira roupa que experimentei, nem por ser mais bonita, mas eu quase sinto como se a estivesse traindo se escolhesse, digamos, a segunda. Por "roupa", por favor, entendam o que quiserem.
Hoje eu andei de ônibus. Tava mega cansada, então capotei na primeira viagem. Na segunda não podia, que era na cidade, tinha que ficar acordada pra fazer baldeação, não quebrar o pescoço com os balangos do carro (fato que eu estava super carregada, com duas bolsas, aí estava eu de pé, uma hora, que ia descer, e o motorista ficou doidão e começou a fazer um ziguezague e uma das minhas bolsas também balangou enlouquecida e meio que nocauteou uma moça que tava sentada... Pedi desculpas, e tal, mas nem fiquei com vergonha, porque sou assim meio sem, como expliquei há pouco) e vim ouvindo meu mp3 velhico [foi mal, mas peço licença pra usar os diminutivos com -ico, que tô achando mais poético - com o perdão da rima forçada], que tem uma partezinha rachada, mas aí eu penso: o diabo funciona direitinho, porque eu trocaria por um modelo novo? É tipos o cara do filme que não joga a toalha fora porque acha que ela tem sentimentos. Só que ecologicamente correto. Não que a toalha não seja, mas enfim.
Aí, além de ele, o mp3, ser velho, as músicas que tem lá lá estão há séculos. Toda vez que eu resolvo trocar a lista, vou lendo os nomezinhos e fico pensando: "ah, mas pode ser que qualquer hora eu queira ouvir essa... vai, são só 3 mb, deixa ae!". De vez em nunca faço uma mudança "radical"; agora estou numas de ter mais discos inteiros que músicas avulsas, mas tem tipo 3 artistas nos meus parcos 2 gb de memória. Vai, olhei direito e tá mais pra 5. Mas eu ouço e ouço a mesma música vezes sem conta, por isso meu last era uma vergonha, porque eu só ouço sempre a mesma música.
A última paixão - ou... antepenúltima? - eu descobri a história esses tempos. Ou inferi, mas enfim: quando a minha irmã estava... não, ao contrário: eu tava lá ouvindo a música, mostrei pra irmã, ela disse que já conhecia de anos, e eu lembrei: quando minha irmã estava grávida, ela tinha um carro com rádio de fita k7, e eu andando uma vez no carro dela coloquei uma fita pra ouvir, e tinha uma música que eu curti muito, que falava não sei o que da ilha, e eu lembro de ouvir várias vezes (voltando, mesmo, e esperando cinco minutos e a música estando ainda no meio e todo aquele drama que minha sobrinha, por exemplo, jamais vai conhecer), e tentar lembrar da letra pra depois procurar. Aí não procurei, o carro dela foi roubado - com fitas e rádio junto, obviamente - e nunca mais lembrei da música até que... deu pra sacar, né?
Então eu tenho de ouvir uma coisa muitas vezes sem prestar muita atenção, pra daí um dia ouvir, ser familiar, e eu apaixonar. E, claro, como não podia deixar de ser, apegar.
Aí, como também tenho apego aos mesmos temas e objetos (como boa egocêntrica, normalmente eles se relacionam, oras, a mim!), fiquei pensando nisso de talvez querer ser diferente, me perguntei "poxa, não ia ser legal ouvir o diabo da música uma vez, depois ouvir outra, e assim por diante? Se eu nascesse de novo, ia querer ser assim..."
Só que não. Eu gosto de ser assim; talvez por estar... apegada a... mim, uai.
Mas fora a história da serpente que come o próprio rabo (é isso, será?), eu de fato acho bacana isso de mergulhar profundamente num amor qualquer. Considerando minha megalomania, acho legal a idéia do não-descartável. Sem nem querer enganar ninguém, que eu tenho meu lado mega consumista, mas é só um lado, não sou eu toda. A parte que importa mais, ou que gasta (com o perdão do trocadilho) a maior parte do tempo é essa, que não deixa pra lá. Que ouve, ouve, ouve, aí para de fazer sentido, aí fala sobre isso, aí ouve e gosta de novo.
Hoje ouvi meu mp3 no ônibus, aleatoriamente, só repeti uma ou duas músicas - e a viagem é longa -, cheguei em casa e liguei o dito aparelhico no computador, pra continuar ouvindo, e praticamente a primeira música que tocou, que eu já conhecia, está até agora no repeat.
Hoje, talvez por ocupar um lugar não usual, vim pra casa olhando pra cidade, vi umas casinhas muito bonitinhas nas quais nunca tinha reparado e quase gostei dela.
Mas tenho, ainda, algum apego ao desgostar.
Hoje comecei a ver um filme nada a ver e fiquei com vontade de mudar o cabelo.
Porque essa é a casa da contradição e toda regra tem lá suas exceções.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Neene

Ah, sim, minha avó, no Iguape, querendo mostrar a... papoula?, mas meio com vergonha de posar pra foto:


Uma senhorinha muito divertida...

Da culpa

Putz, assim, só pra mim, mesmo, mas tenho que vir fazer um mea culpa.
Porque eu sou má. Até bastante.
Aí além da culpa, que me acompanha, tem também a preocupação egoísta do mau voltando pra mim. Porque eu super acredito que volta e tenho as noites da Cooperativa pra comprovar.
E tudo bem que até hoje eu ignorei cabalmente essa chatice de acordo ortográfico, mas ele começou a me pegar pelo pé. Há muito tempo eu me incomodo com as minhas ignorâncias, de ortografia e gramática, que eu confesso prezar muito, aí agora estou começando a considerar a idéia de comprar uma gramática ou pedir pra alguém me ensinar.
Porque, né?, uma pessoa que gosta de seguir as regras é uma merda total.

Água com açúcar

Tava aqui pensando que tô com uma vontade de ir no cinema; fui ver o que tá passando e, entre Harry Potter e Johnny Depp, o que eu quero mesmo é ver desses filmes que a gente sabe exatamente o que vai acontecer. Eu às vezes me pergunto se a gente não se esconde muito atrás do mau gosto, dizendo que gosta de coisa ruim. "Eu gosto dessa porcaria, mas não é de coração; eu gosto mesmo de coisas cult e inteligentes, porque eu sou cult e inteligente, mas vez ou outra eu desço do Olimpo e me permito apreciar essas produções meramente mortais".
Sei lá o que tem de arrogância nessa atitude - e eu acho que tem muita - mas eu ainda me encaixo no padrão. Porque eu diferencio coisas boas de coisas ruins, e acontece de gostar das duas. E me pegar me justificando.
Mas não é legal de vez em quando optar por saber o que vai acontecer? E se divertir só porque sim, sem necessariamente ter uma epifania, sobre as pessoas ou a vida, e depois daquilo sua vida nunca mais ser a mesma, e etc.? Eu pelo menos ando numa onda totalmente imbecil, de ver coisas bobinhas e tudo bem. Final feliz, e tudo mais.
Porque eu já acho lucro demais - e epifania demais - a gente conseguir ser alegre - que feliz também é pedir demais - por uns momentos, sem grandes motivos.

sábado, 27 de junho de 2009

E ontem,

que eu tava chegando em casa, parada na rua, dentro do carro esperando o portão abrir e, coincidentemente, minha irmã chegou também ao mesmo tempo e passou buzinando, aí eu não hesitei e mostrei o dedo pra ela só pra descobrir que... rufem os tambores!!!... não era minha irmã, era a vizinha...
Típica situação mais constrangedora do mundo, mas eu sou tão sem-vergonha que nem vermelha não fiquei!

terça-feira, 23 de junho de 2009

O auditório da Universidade estava cheio. Da velha, acho, não da nova. E acho que foi assim que começou, mas também pode ter começado de outro jeito.
O auditório cheio e alguém, que talvez possa ser chamado mestre de cerimônias, chama as três pessoas importantes - isso, importantes, para quê, não sei dizer - para entrar. Um eu não lembro quem era, mas era importante. O outro, o Gabriel García Márquez, que ali era Gabo, apesar de nunca tê-lo sido para mim. A última, eu. Nós avançávamos em meio à multidão e chegávamos lá embaixo; a porta era no fundo do auditório, e a mesa, com microfone e tudo, lá na frente e embaixo. Eu ficava encabulada de dizer a ele que era uma fã. "Fã", tão não significa nada, né? Lembro de pensar isso desde a época que gostava do... Netinho? Aquele mesmo, da... Mila?
Encabulada, não digo nada, só fico ali, sendo fã, esperando que talvez ele perceba um pouco.
Não sei o que fazíamos ali, só éramos importantes, os três chamados à frente, e discutia-se alguma coisa, importante, que eu já não sei mais o que era.
Depois, Gabo se tornava uma mulher; vale dizer que ambos, homem e mulher, eram muito baixos. Ele mulher era ainda ele, e nós íamos fazer compras, como naquele mercado de Londres, em Camden Town, mas era tipo no Nordeste, aí tinha muitas barraquinhas, e fazíamos compras, não sei de que nem para quem.
Aí eu estava no Rio, acho que com meu pai, também num mercado, talvez o mesmo, e procurávamos a casa da minha prima Denise, que mora na Inglaterra, e tinha mais gente junto, acho que duas moças burras, e chegávamos ao prédio e apertávamos o botão do interfone, e eu estava no apartamento que a prima mantinha no Rio, para passar férias, mas ela tinha saído. Minha mãe e irmã também estavam lá, e conversávamos com alguém quando a Denise chegou e eu dei um grito, desses bem estridentes, e saí correndo para abraçá-la. Ela não retribuiu minha alegria em vê-la mas, pensando bem, ela foi mesmo desproporcional. E eu sentia um certo ciúme de vê-la conversando com a minha irmã, apesar de elas não se conhecerem.
Aí eu estava num hotel, tinha chegado com um grupo grande de pessoas cujas faces e nomes eu não lembro, e elas me entretinham, não sei como, talvez brigássemos, ou eu as quisesse conhecer, ou íamos ao restaurante, ou bebíamos vinho, fazíamos essa coisa que eu digo apreciar, que é conhecer pessoas. Jargão velho riscado "pessoas me interessam mais do que lugares". Passávamos a noite no hotel, ele era grande e térreo, e eu entretida, ainda na manhã seguinte, até um momento em que eu olhava pela janela e me dava conta de onde estava.
O lugar mais lindo do mundo. E eu esqueci. O hotel ficava como no alto de um canyon, ou aquele lugar que visitamos em Pernambuco, Vale da Lua?, que tem forma de "v", e as encostas escarpadas, muito, e ficava em um dos lados do "v", de frente pro outro, e se podia ver uma parte da encosta, toda coberta de vegetação e muito azul das cachoeiras que desciam por ali. Todo o alto da encosta era tomado pela água, que descia verticalmente, e muito azul. Havia mais coisas ao redor, mas eu não lembro. Pensava, ainda comigo, que tinha que lembrar, que ia esquecer mas não podia, que tinha que lembrar desse lugar porque era importante. Como se eu soubesse que em algumas horas, ou minutos, tudo mesmo se perderia nas brumas do despertar. Mas "eu não posso esquecer", de alguma maneira, funcionou, mesmo que minimamente, porque eu lembro que não deveria esquecer e lembro da água.
E eu queria chegar na borda do precipício e olhar para baixo, mas tive medo.
Aí, no salão do hotel, enquanto eu ainda pensava que tinha que lembrar, havia muitas pessoas reunidas, e uma professora mais velha, com uma filha assim da minha idade, pouco mais, que tivera o coração partido. E a mãe, excêntrica, usava uns colares enormes e coloridos, de contas, e tinha que dar um para a filha para ela se sentir melhor, mas ele devia ser refeito, menor, então ela arrebentava o fio e me dava as contas para prender de novo, só que eu não achava o fio apropriado, e todo mundo me dizia que o fio que eu tinha não prestava, e davam sugestões do que fazer, um fio costurado num pano, elástico que, afinal, não era elástico, e o tempo passava e eu ficava nervosa, porque não conseguia refazer o colar, e então chegava minha amiga Cristina que ia se casar naquele dia e, ainda assim, estava ali para ajudar, e eu a abraçava e dizia que estava muito feliz por ela e ela era muito boa pra estar ali, naquela hora.
Isso da gente ficar mesmo feliz pelos outros é um bálsamo maravilhoso, né? Eu sempre me esqueço.
Gabo, Denise, não posso esquecer, Crica. Sim, acho que foram esses os companheiros principais, importantes, embora houvesse muito mais que não ficou.
Eu ganhei, ano passado, um caderno pra anotar sonhos. Anotei um, e nunca mais.
Só pra contar e não esquecer.