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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Perigo na esquina

Tava aqui, vendo um filme com o Adam Sandler, aí ele acabou e começou um show de rock. Quando ouvi os primeiros acordes, senti aquela vontade antiga e já quase irreconhecível de ouvir Pink Floyd.
Há anos já que eles andam no armário, vez ou outra vêem à tona, como no dia em que me despedi dos meninos em Leiden, em que na alta madrugada, se bem me lembro, Daniel colocou um Dark Side. Confere, Mila? Lembro meio mal dos detalhes daquela noite.
Já nem os tenho facilmente acessíveis no computador, tenho que fazer uma busca nos arquivos. Já nem lembro direito das letras, mas isso eu nunca soube.
Confesso ter aqui algum medo de ser levada a viagens ruins.
Acho que isso, o desejo e o medo, se encaixam em outra tentação que tem brincado comigo há algus dias: reler o pior livro da minha vida.
Nem me lembrava direito dele, até que conversando com um amigo ele me lembrou de detalhes que eu tinha esquecido. Na verdade, lembro quase nada da história, só as sensações terríveis que me assolavam e oprimiam, e uma negritude que cobria tudo num verão tropical ensolarado. Acho que foi em 2005-2006. Ou 2006-2007? O livro é "Os Demônios" do Dostoiévski e eu prometi a mim mesma, depois dele, ficar um bom tempo sem voltar ao autor. Achei pior que o "Angústia" do Graciliano, que li, acho, na época do vestibular.
Pior, fique claro, no sentido de despertar sentimentos negativos. Acho que qualquer coisa capaz de despertar sentimentos tão profundos e perenes, mesmo que soturnos, é nada menos que genial.
Aí olhei ali na minha pilha de recém-adquiridos, e os há muitos, e fiquei na dúvida. Voltar ou seguir em frente? A primeira opção significa, talvez, enfrentar períodos muitos sombrios em mais um fim de ano, mas também pode ser uma oportunidade única, porque não sei se em algum outro momento vou me dispor a empreender a viagem novamente.
A segunda é a porta para novas experiências e, quem sabe?, novos amores. Tenho aqui, novinho em folha e imaculado, os "Irmãos Karamázov". Diz o Gera que é monumental e pode, talvez, curar minha ressaca proustiana.
Existem sempre outras opções, talvez mais leves que o velho russo, mas, espiando-as pela janela, não me apeteceram. Há uma semana, talvez, eu me transportasse alegremente para a Argentina contemporânea, mas perdi o trem.
Rússia, então. E meu querido século XIX.
Nesse meio tempo, chegaram as músicas que me lembram tanto um tempo que já foi e não sei bem como me fazem sentir. Não foram as arrasadoras, como Shine On, ou Echos, mas ainda assim.
Seria isso um sinal de uma melancolia que volta? Mas como pode voltar uma coisa que nunca foi?
Será que posso ter esperanças de ser salva por A Great Day for Freedom?

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